Tive um amigo que emigrou e passaram muitos anos sem o ver nem saber nada dele. Muitas vezes pensei "Opá, da próxima vez que estivermos juntos, vai ser daquelas coisas à filme, super giras, em que vai ser tudo igual mas vamos ter muita conversa para pôr em dia e rir muito e beber cervejas a recordar tempos passados...". Ele voltou o verão passado e não me ligou. Cabrão. Fiquei a saber pela minha mãe, que se cruzou com a mãe dele no talho, que estava a comprar "bifinhos para o filhinho que estava cá de férias com a mulher e a netinha". Não é que tanto detalhe seja interessante ou importante, mas a minha mãe sempre gostou de mostrar que sabe os detalhezinhos todos da sua cusquicezinha fresquinha. Tanto, que na maior partes das vezes perco-me na conversa e quando retomo só apanho a ultima frase e para disfarçar repito-a em voz alta e em tom entusiasta, para achar que eu estou a vibrar tanto como ela. Ela fica contente, não chateia, e eu poupo as minhas sinapses e não interrompo o que estou a ver na televisão. Assim foi. Em voz alta "Ah comprou bifinhos para a netinha!!". Mas na verdade não sei se é a neta do homem do talho, da mãe do meu amigo desaparecido, do presidente da câmara ou da minha mãe. Mas alguém comprou bifes. Para a neta. O importante é que eu estava a tentar perceber se a Cristina Ferreira fica melhor de cabelo curto ou não.
Ah.
Neta.
Acalmem lá os gritinhos. A minha mãe tem uma neta. E deu trabalho. A mim.
Quem já teve, sabe que dá trabalho. Quem não teve, já ouviu dizer que dá trabalho.
Mas há a parte da magia. Ah, a magia. A magia.... A genética é essa coisa maravilhosa, incontrolável e adoradora. Pois que a criatura é linda, qual modelito da La Redoute, que antes de falar já queria dar beijos aos colegas todos da natação, aos velhos do café lá da rua e ao carteiro. A mãe e o pai da Mimi gostam de ter conversas parvas. São parvos. A Mimi não degenera. Gosta de participar nas conversas. Mas também gosta da Porquinha Peppa. Dá muito trabalho à Mimi gerir conversas com o pai e a mãe e o encanto hipnotizante da Peppa. O pai mandou a Mimi arrumar o quarto. A Mimi disse sim a olhar para a televisão. A mãe diz ao pai que deviam era todos arrumar tudo e ir cedinho para a cama. O pai sorri e manda a Mimi arrumar o quarto. A Mimi sorri e continua a olhar para a Peppa. "Ouviste, Mimi?". "Tim". Peppa. Mãe continua a olhar malandreca para o pai. Pisca o olho. "Ouviste o que o pai disse?". "Tim.". Peppa. "Mimi vai arrumar o quarto!". "Tim.". Peppa. "Deixa, ela não está a ouvir nada". "Tim.". Peppa. "Olha deixa-a. Só sei que logo quero o teu pipi". "Mamã, papá qué pipi mamã. Yeah!". Peppa.
Esqueçam tudo o leram até hoje sobre genética. Genética é isto.