Palavras do Abismo


Apesar de ser baseada numa história real que conhecia por alto, fiz questão de ver a série The Act sem saber mais, e poder assim surpreender-me. Deste modo, pude conhecer esta história surreal que ultrapassa a ficção em larga escala. É daquelas que nos faz arrepiar cabelo, tão inacreditável e chocante que diria ter sido escrita por Hitchcock.

Em linhas gerais, Dee Dee Blanchard era uma mãe que fez da sua própria filha refém, inventando-lhe doenças e limitações sem fim, desde tenra idade até ao dia em que a filha, Gypsy Rose, se revoltou e conspirou para a matar, o que acabou por acontecer em junho de 2015.

Dee Dee convenceu a filha e o mundo de que esta não podia andar, mantendo-a numa cadeira de rodas, que era demasiado fraca para brincar, que tinha leucemia, asma, epilepsia, alergia aos doces, problemas de visão, distrofia, apneia do sono, que tinha de se alimentar por uma sonda, que não podia conviver com outros meninos, que tinha danos cerebrais, que tinha de estudar em casa, rapava-lhe o cabelo dar um ar real à coisa, impediu o pai de ter uma relação com ela... Para além de ser uma das maiores manipuladoras da História com todos estes problemas médicos e muitos mais, Dee Dee apenas deixava Gypsy ver filmes da Disney, vestir-se de princesa, mantendo-a com mentalidade de criança, para parecer sempre criança também por dentro, frágil, débil, inspirando a comiseração dos vizinhos, conhecidos e desconhecidos que enviavam donativos frequentemente.

Para além disso, Dee Dee mentia à própria filha, e a quem perguntasse, sobre a idade real de Gypsy, extendendo ainda mais a mentira. Gypsy não era uma rapariga doente, nem nunca foi, mas é claro que acabou por ficar extremamente traumatizada e socialmente estranha pela maneira horrível como cresceu. Aquando da idade adulta, Gypsy arranjou maneira de se ligar à internet, acedendo a um mundo completamente novo, obtendo também algumas respostas, e é lá que viria a conhecer o seu namorado, com quem conspirou para matar a mãe.

Uma história tão estranha é meio caminho andando para dar uma óptima série, e é realmente estrondosa. Mas para isso muito contribui o duo de actrizes - Patricia Arquette como Dee Dee e Joey King como Gypsy - simplesmente perfeitas, fabulosas, tão fantásticas que já sinto os ecos dos Emmys. O design de produção, que seguiu detalhamente os pormenores, desde a casa onde viviam, até às roupas, maquilhagem, abriu as portas para o elevado realismo da série. A realização e cinematografia são também de ressalvar - tudo isto nos prende ao ecrã desde o primeiro episódio.

Não deixem de ver uma das melhores séries dramáticas do ano. Disponível na HBO.


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Não sei onde fui buscar o dinheiro, mas no sonho tinha poder de compra suficiente para comprar um pequeno castelo gótico sem pestanejar. Numa cidade não identificada, fiz dele a minha morada, e numa parte do palacete construí a minha casa - uns quartitos, casas de banho, cozinha, pouco mais, decorados com modéstia, fazendo do local um sítio bem acolhedor.

Noutra parte do palacete fundei uma biblioteca fantástica, paredes amplas, estantes e mais estantes, forradas a livros, coisas antigas, primeiras edições, todos os clássicos, um tesouro para mim, para o país e para o mundo, uma ode à beleza, à arquitectura e à literatura sem igual.

E depois sobrou-me uma pequena ala, e decidi fazer nada mais nada menos do que um pequeno bordel, um cantinho para casais, grupos e indivíduos solitários realizarem as suas fantasias, uns com os outros ou com serviço de putaria providenciado por mim.

Aquilo foi um sucesso do caraças. A fabulosa biblioteca com as suas fantásticas ogivas e arcos estava sempre cheia de visitantes, intelectualóides, turistas, curiosos, leitores ávidos. O bordelzito também, providenciando-me um ganha-pão bem catita. Não é todos os dias que se pode ir esgalhar o ganso a um edifício gótico (pelo menos legalmente e abertamente). Melhor do que tudo, fiquei a morar num local que combinava arte, bom gosto, putaria e literatura. Sonhar não custa!

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Estava a ler o meu livrinho no comboio, a caminho do trabalho, quando reparo em movimentos estranhos e em burburinho vindos da pessoa à minha frente. Olhando de revés o melhor que pude, vi que era uma rapariga nova, com os seus 20 e poucos anos, e estava, nada mais nada menos, do que a benzer-se e a rezar. Agarrada a um terço e tudo. Mas não era noviça nem nada - pelo menos estava vestida normalmente.

Ora, apesar de achar a igreja uma palhaçada, não foi isso que me deu uma vontade incontrolável de rir. Cada um acredita no que acredita e qualquer sítio é bom para rezar - quantas vezes não ajoelhámos e rezámos onde deu vontade? Hum?

A questão é que, quando a rapariga se começou a benzer e tal, e ouvi o roçagar do terço nas suas mãos, tomei consciência de que a capa do meu livro - Samitério de Animais, de Stephen King - é uma cruz de madeira, bastante velha, num cenário sombrio, com trelas, correntes e teias de aranha penduradas. Não sei se ela reparou ou não (é provável, estava mesmo à minha frente), mas a associação de ideias começou a remoer e nasceu-me um riso sabe-se lá de onde, daqueles que tentamos reprimir mas que só fazemos pior e acaba por parecer que estamos a dar puns com a boca.

Quanto mais a rapariga fazia o burburinho da reza - bzzz bzz pecadores bzzz hora da nossa morte bzzz - mais vermelha eu ficava, do esforço para não soltar a gargalhada, que já tinha passado a fase embrionária e estaria perto de dar à luz. A coisa podia não ter nada a ver, ela podia estar a pedir ao seu deus para a ponte não cair, para não haver avarias na linha, por Moçambique ou para dar uma queca em breve.

Felizmente controlei-me, com os ensinamentos do ioga - respira pela barriga, deixa-a inchar como um balão, conta os segundos da inspiração e faz com que a expiração seja o dobro, blá blá blá - mas mesmo assim deixei escapar a lágrima da vergonha e o nariz ficou um tanto ou quanto ranhoso. Mas consegui. Consegui, sem chegar a rezar para não deitar uma pinga de mijo. A culpa disto tudo é do Stephen King.


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A CMTV é um freakshow, mas a verdade é que isso só acontece porque Portugal está cheio de freaks e eles aproveitam bem a onda. Então um senhor de Vizela deu o alerta às autoridades porque achou que o seu carro estava armadilhado com uma bomba. Antes de mais, parem o que estão a fazer e vejam o vídeo:



Não sei se sinto mais vergonha alheia ou comiseração por este homem que claramente não está bem da mona. Ora então a mãe do senhor estava a sonhar e gritou durante a noite CUIDADO COM A BOMBAAA. De manhã, quando foi para o carro, a música que estava a passar na rádio, o relógio e o sinal do ouvido (wtf?) estavam a pressioná-lo para sair do carro urgentemente, e o homem, coitado, fez o que achou mais seguro - chamou as autoridades porque pensou ter uma bomba. 

Eu percebo - às vezes ligo o carro, estão a passar os Amor Electro e só me apetece rebentar o rádio à machadada. Já estive para chamar a polícia para, por favor, prenderem a Marisa antes que eu fique lunática como esta pobre alma.

Ou podia ser a Maria Leal, com a sua música nova cheia de "ta-ta-ta-tarara-ta-ta-ta", facilmente confundível com o relógio de uma bomba, e cuja exposição prolongada também provoca acessos de loucura e / ou alheamento da realidade.

Não sei explicar o "sinal do ouvido" - ele depois fala do filho, seria a voz dele no auricular? Ou seria o pai, o filho, o espírito santo amén? Jesus itself enviando-lhe sinais para sair imediatamente daquele carro. Mas, senhor de Vizela, acho que percebeu mal a mensagem. Era para sair sim, e se afastar do carro o mais possível, não porque tinha uma bomba, mas porque você nem devia conduzir no estado em que essa cabecinha está. O seu amigo imaginário pode muito bem, efectivamente, ter salvo vidas.

O senhor de Vizela faz-vos lembrar alguém? É que ele fala, fala, fala, mas não o vejo a fazer nada...




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Quando foi anunciado que os Metallica iniciariam a sua nova tour europeia em Lisboa, com os Ghost a abrir, foi para mim um momento divino e, €80 depois, começou um longo período de espera que terminou ontem à noite.

Infelizmente, em vez de falar sobre os concertos, tenho algo a dizer sobre a organização. Não costumo ser a pessoa mais picuinhas mas esta foi a pior experiência que já tive, e digamos que já levo muitos anos disto. Já cheguei mais tarde do que queria devido a ter estado parada na autoestrada durante uma hora, e quando cheguei ao recinto, zero informações. Nada visível sobre onde nos dirigirmos para entrar no relvado - arriscámos ir para a fila maior e vá lá, acertámos, mas houve pessoal a soltar caralhadas quando chegaram à porta e afinal não era ali que tinham de entrar. Note-se que isto se passou no Estádio do Restelo e que havia apenas uma porta para entrar no relvado. Milhares de pessoa - uma porta. Estão a ver a cena? 

Tanto tempo a dar voltinhas para entrar, que os Ghost começaram a tocar quando estava à espera para ser revistada e depois foi uma corrida desenfreada para conseguir ver o meu Papa, a minha luz negra, assistir à missa, praticar o ritual, mas este meu pensamento interrompeu-se quando assim que entro no estádio vejo mais de dez gajos em filinha a mijar para a parede nas escadas de acesso ao recinto. Ora aquele fluxo mictório provocou um rio de mijo tremendo, que ia descendo pela parte onde o pessoal tinha de passar, e assim, a chapinhar em urina, chegámos ao relvado. A primeira coisa que me saltou à vista foram as casas de banho portáteis plantadas no meio do recinto com filas que já começavam a dar a volta ao estádio, e aí compreendi o rio de mijo. 

Lá corri para ver os Ghost, mas ver não vi muito, porque - primeiro, a área do Golden Circle, muito vazia, ocupava um espaço exagerado e tivemos de ficar bem para trás; depois, porque o piso plano não permite às baixotas ver grande coisa em cima do palco e, como era de dia, não se viam bem as imagens nos ecrãs. Mas bem, Papa é Papa, já tinha saudades dele, e os Ghost deram um concerto competente para uma plateia que mal os conhece.

Quando acabou estava cheia de fome e com sede e pensei em ir comer. Dei uma volta pelo recinto, e pasme-se, só encontrei nem meia dúzia de banquinhas com cachorros, com filas maiores que as das casas de banho, aliás, já se confundiam umas com as outras. Mas, como não como carne, continuei à procura. Voltei para trás, voltei a passar pelo rio de mijo, rezando para não ter buracos nos ténis, esperando encontrar uma barraca com fatias de pizza, uma pita shoarma, uma massa qualquer, mas não. Bifanas. Só bifanas. Pois bem, fui de novo para o recinto, novamente o rio urinário, e fui mijar. Tinha de o fazer. Tinha de ir para aquela fila. Tinha de me mentalizar. E fui. E esperei, esperei, esperei. Quando cheguei à frente, vi que muitos gajos tinham desistido e estavam a mijar para as laterais das latrinas das gajas, pelo que vi mais pilas do que aquilo que desejaria. Não vou falar do estado das casas de banho - decerto todos já passaram por uma casa de banho portátil usada centenas de vezes antes de vós.

Quase a desfalecer, decido-me a ir para a fila dos cachorros, e saí de lá com um belo pão com batata frita por €4! Depois de ver tanta salsicha, nem me tiraram o valor da salsicha que não comi. E vocês perguntam - ah, mas se não comes carne e já sabes como as coisas são, devias ter levado comida de casa. Pois. Só que é o seguinte:
  • As coisas já não são o que eram, e tenho encontrado opções vegetarianas em absolutamente todo o lado onde tenho ido. Seja em festas da aldeia, em concertos isolados no fim do mundo, festivais, o que seja, não tenho tido qualquer problema em comer - tanto na variedade, quantidade ou no tempo de espera. Pá, como eu estava ficaria contente com um pacote de pipocas ou uma fartura. Ou um chocolate de uma máquina automática. Mas nada. Nada.
  • De acordo com as "regras" que foram publicadas no dia anterior, não se podia levar mala ou mochila. Quanta comida acham que consigo enfiar numa pequena malita? Enfiei lá uma maçã e foi uma sorte. Portanto, durante 8 horas de muito desgaste físico, comi duas dentadas de pão com batata frita e uma maçã...
Pronto, já não falo mais das necessidades básicas. Depois disto tudo, posiciono-me para ver Metallica (ou ouvir, porque ver tá quieto) quase junto à grade que separa os bilhetes de relvado do Golden Circle. Como já referi, este estava quase vazio. Pergunto-me se será muito difícil, uma vez que não foram vendidos quase bilhetes nenhuns, diminuir a área do Golden Circle chegando as grades mais para perto do palco. Não sei, provavelmente tem uma ciência por trás e eu sou muito burra, mas se nem um terço da lotação está vendida, que tal dar mais espaço aos que estão atrás? 

O concerto começou, tudo muito lindo e tal, mas o som, uma merda. Muito baixo - conseguíamos falar uns com os outros sem levantar a voz -, distorcido, os graves muito estranhos, enfim, que bom. Mas, devido à ajuda da missa negra que tivemos antes, o satã ouviu-nos e os seguranças deixaram passar algumas pessoas do relvado para o Golden Circle porque, enfim, o espaço estava às moscas e ficaria mal mas fotografias e filmagens. Conseguimos passar, e assim sim, consegui ver o meu James de perto, a minha paixão, loucura, meu fetiche cota, o som muito melhor, a vida faria sentido se não estivesse com uma fome do caralho. No entanto, é uma situação injusta para quem pagou €125 para ir para o Golden Circle, e depois os pobres que "só" pagaram €80 ficaram lá na mesma. Eu ficaria fodida.

O concerto foi porreiro - os Metallica cumprem sempre -, tivemos direito a algumas surpresas na setlist e ouvi músicas ao vivo que nunca tinha ouvido - bem bom! Eles estão velhos, mas estamos todos. São competentes a entreter (apesar dos inúmeros pregos), têm uma empatia especial com o público, são sempre bem recebidos por cá, e tratam-nos lindamente. Existiram alguns pregos, é verdade, e algumas falhas técnicas depois da pirotecnia (que deixou os ecrãs sem imagem), que obrigaram a algumas pausas, mas não podemos culpar a banda. Fico feliz por tê-los visto - e também aos Ghost - e não seria capaz de não comprar bilhete para um concerto de Metallica. Enquanto eles vierem cá, eu irei sempre ver. Mas a experiência ficou marcada pelos aspectos negativos que mencionei e não desfrutei de tudo como devia ser.

Fica o recado para a Prime Artists. Nós, público, agradecemos que tragam cá grandes bandas, e vocês têm-no feito com excelência, promovendo a música mais pesada - algo que quase ninguém tem colhões para fazer. Mas vocês também sabem que, apesar de sermos feios, porcos e maus, nós, metaleiros e metaleiras, não somos animais de quinta. Queremos, pelo menos, muitas casas de banho, bem posicionadas, porque se vendem cerveja a rodos, já sabem que geram mijo a rodos. E somos pessoas que comem bem, porque ficar horas de pé, a saltar, a gritar, a conviver, requer energia, logo, precisamos de comida. Queremos mais comida, mais variedade, porque não dispomos de uma hora para estar na fila para mijar, nem de mais outra hora para estar na fila para um mísero pão - pagámos para ver os concertos e estamos a contar que satisfazer as necessidades seja um processo célere que nos permita voltar para perto dos amigos e do palco, onde se passa a acção.

E agora que já parei de me queixar, ficam umas fotos.














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Hoje celebra-se o Dia do Trabalhador, data que assinala grandes vitórias pelos direitos dos trabalhadores em todo o mundo. Mas, mais de 100 anos depois da greve iniciada em Chicago pela redução do horário de trabalho, que na altura chegava às 17 horas diárias, continuam a existir e a surgir novos problemas.

Não tenho qualquer dúvida de que o trabalho mata. Não estou a falar de acidentes de trabalho ou de situações infelizes que ocorrem no caminho de e para o local de trabalho. Falo sim do stress, das palpitações, da falta de sono, das correrias, dos prazos, das más posturas, da tristeza que advém das injustiças, do mau ambiente, das más relações, das más pessoas, da falta de educação. Quem é totalmente feliz com o seu trabalho, com os colegas, com o horário, quem consegue conciliar a sua vida pessoal, vivendo comodamente, não tem noção da sorte que tem. Eu não conheço nem uma pessoa nessa situação.

A triste realidade é que o cidadão comum tem de trabalhar para viver. Vivemos uma infância fugaz e começamos logo a estudar para que possamos entrar com sucesso no mercado de trabalho, para logo pagarmos impostos, subscrever serviços, comprar bens essenciais ou não, pagar prestações, consumir, consumir, consumir. E isto até cada vez mais tarde, até já não termos energia nem saúde para aproveitar o merecido descanso. 

Sentir-mo-nos úteis é bom. Ganhar dinheiro e ter independência é bom. Mas lembrem-se: um trabalho é só isso mesmo - trabalho. Não façam dele o centro da vossa vida nem o levem para casa. Nem as tarefas que ficaram por fazer, nem a zanga com a colega azeda, nem o aumento que não vem, nem a displicência do chefe, nem os prazos impossíveis. Assim que bater a hora de saída, digam adeus, amanhã também é dia, o sol vai nascer e pôr-se na mesma, respirem fundo, acabou, agora é que o dia devia começar. Até porque depois do trabalho há transportes para apanhar, as compras do supermercado para fazer, refeições e marmitas para preparar, limpar um pouco para não meter nojo, e a roupa não se lava sozinha. No intervalo disto tudo está a vida - mas qual vida? Ansiamos e esperamos as folgas, sonhamos com as férias o ano todo, e depois tudo passa num sopro, rapidinho, e ao domingo já estamos a sentir a depressão do que aí vem.

E depois há os parasitas do trabalho - aqueles que não deixarão que as coisas mudem. Especialistas em lamber-rabos-de-chefe, conversa fiada, exímios vendedores de si próprios, apontam os holofotes do sucesso para o espelho e vivem o trabalho como se fosse uma competição da qual fossem sempre vencedores. "Eu fui o que saí mais tarde ontem!", ou "tive de trabalhar o fim de semana todo..." dito de peito cheio, num misto de auto-reconhecimento, pancadinhas nas costas, parabéns, és o mais esforçado, sem ti não éramos nada, dias sem sol, carros sem pneus, florestas sem árvores. Se trabalhassem num país nórdico e saíssem depois das 17h seriam despedidos por falta de organização e eficiência, mas chiu, deixem lá as catatuas.

Às vezes acordo a meio da noite a pensar num ficheiro que devia ter enviado e que me esqueci. Às vezes o meu coração bate tanto no peito que parece que vai sair, voar e emigrar. Às vezes os atrasos nos transportes ou as greves estragam-me o dia todo. Às vezes as tarefas que tenho para fazer não me cabem na cabeça nem no papel. Às vezes chego tão cansada que já não consigo ter tempo para mim. Muitas vezes desejo que os meus colegas morram, que aquele edifício arda, que lhe bata um avião, que haja uma ameaça de bomba, um surto de pulgas, só para parar. Muitas vezes imagino-me a bater nas minhas colegas putarronas, a empurrá-las do terraço, ou sonhando que se afundam numa piscina do seu próprio e excessivo perfume e malvadez. Muitas vezes sonho acordada, que ganhei o Euromilhões e mando despejar uma tonelada de merda naqueles pisos, ou que estou nas Maldivas, em vez de naquele ambiente fechado de ar condicionado e com víboras à solta. E vale a pena perder o meu precioso tempo com isto tudo? É claro que não.

Por isso, sim, sejam responsáveis, ganhem o vosso, mas tenham uma vida própria. Vivam para vós, para o que vos dá prazer, aproveitem o tempo livre para viver, e não para acabar um powerpoint ou apagar mais um fogo que alguém se lembrou de acender cinco minutos antes da hora da saída. Porque o trabalho nos está a matar, e um dia, quando não tivermos dias, vamos querer todos os minutos que desperdiçámos a dar ainda mais dinheiro a quem já tem muito e para os quais somos apenas mais uma formiga. Lutem pelas pessoas que são - o trabalho é só uma parte disso -  não deixem que vos coma vivos. Há um mundo por descobrir, viagens por fazer, culturas para aprender, cenários incríveis que temos de ver antes de morrer, filmes fantásticos, séries que nos prendem, livros que nos marcam, música que nos toca, pessoas que nos movem, tanta comida por experimentar, tantos sabores para apreender, causas para lutar, tanto sol para nos queimar, e chuva para refrescar, e árvores por plantar, e animais para amar, e passeios e estradas sem fim, verde de encher a vista, azul de céu infinito, o vento na cara... E nós num escritório. Foda-se.


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No passado fim de semana, passeava em Alvalade, Lisboa, quando um indivíduo, alto, espadaúdo, envergando um fato caro, mete pelo passeio interferindo no meu ângulo de visão. Rapaz dos seus 30 e tal anos, revelando semelhanças físicas com os modelos Guedes (lembram-se desses manos?), mas com barba maior, o espécime exalava até algum charme, até que...

... pôs uma mochilinha de mulher às costas. Preta, ornada com desenhos florais e com finas correntes, muito feminina. Ainda por cima, a mochilinha ficou-lhe presa às fraldas da camisa, que levantaram todas e se enrolaram com o casaco. Portanto, de gajo parecido com modelos, o rapaz ficou a parecer levemente louco quando, por baixo do seu acessório feminino (que tem todo o direito de usar, atenção, embora não combinasse nada com o seu fato masculino de aspecto carérrimo) a sua roupa ficou enrodilhada e levantada, exibindo-lhe o traseiro. E foi engraçado, até que...

... começou a tirar selfies como se fosse a coisa mais importante que tivesse de fazer naquele dia. De todos os ângulos - de cima, baixo, dos lados, de um lado do passeio, do outro, ainda enrodilhado - ao mesmo tempo que reparei que cambaleava e que a linguagem gestual era a de alguém que tinha passado a noite na farra e cuja última linha de coca ainda estava a bater. É incrível como passamos de presumíveis modelos a presumíveis drogados.

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Free Solo é o vencedor do prémio de Melhor Documentário dos Óscares deste ano. Nele, podemos ver a preparação física e mental de Alex Honnold, alpinista, para subir El Capitan, em Yosemite - que já é, por si só, um local dificílimo de subir. Só que este pirado da cabeça quer fazê-lo sem cordas ou qualquer outro equipamento de segurança. Sim - Alex quer subir mais de 2300 metros, numa das rochas mais difíceis e verticais do mundo, contando apenas com as pontas dos dedos das mãos e dos pés. Um louco.

Portanto, temos a parte documental da coisa - os treinos, a preparação da filmagem suspensa, a vida profissional e pessoal de Alex - mas posso dizer que uma grande parte disto é um filme de terror. Ficamos suspensos, mais suspensos do que o próprio Alex, engolindo o fôlego, embasbacados, porque basta um pequeno erro para que ele caia e morra. E nada disto são efeitos especiais ou simulações, por isso ainda ultrapassa o terror...

Percebemos imediatamente que Alex não é uma pessoa comum. Era um menino tímido na infância que encontrou no alpinismo uma forma de escapar às convenções sociais, e que transportou essa estranheza para a idade adulta. Escalar é a parte mais importante da sua vida, e as poucas pessoas que o rodeiam estão relacionadas com a actividade. Agora, temem por ele. Apesar de ser dos melhores alpinistas sem cordas do mundo, nunca ninguém o fez em El Capitan, porque, resumindo, é suicídio.

E no meio daquelas paisagens fantásticas, da fotografia abismal - como é apanágio da National Geographic - de toda a emoção, da técnica, do drama, uma das coisas que mais me impressionou foi o medo puro das pessoas que o rodeiam. Ver membros da equipa de filmagens que nem quiseram olhar para as próprias câmaras durante a subida, com receio de que quando olhassem de volta ele não estivesse no plano, foi de remoer o coração.

Alex, no seu mutismo social, vivendo à margem daquilo a que chamamos convencional (vive numa carrinha por opção, por exemplo), com muito pouca tecnologia, sente-se peixe na água na solidão da subida, sente-se seguro ao contar apenas e só consigo, com o seu corpo, sem medos. Os níveis de confiança em si próprio são um exemplo, uma inspiração. E, claro, metemos em causa o nosso conforto, o comodismo, pensamos naquilo que nunca faremos, por falta de coragem, de esforço, por medo. Começamos por chamá-lo de louco, acabamos a pensar que só os loucos podem ser felizes.

Podem ver o documentário no National Geographic, ou gratuitamente no Videoclube de algumas operadoras.



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Podem substituir "raio" por "caralho" no título deste post para melhor sentirem o meu estado de espírito, que de momento é merdoso. 

Foda-se, tenho 33 anos, pensei que por esta altura a questão dos sisos estava arrumada, e seguia feliz na minha vidinha quando um desses cabrões decidiu infectar. Criou abcesso, a boca inchou, começou a empurrar os outros dentes (um belo moshpit na minha boca - eu sei que mereço) e foram dias intensos a sentir uma das piores dores da minha vida - está no top 3, a seguir à pedra nos rins e à hérnia discal - até o antibiótico fazer efeito. 

Foram quatro noites sem dormir, e porquê? Para quê? Porque é que temos dentes que nos incomodam tão tarde na vida? São como aquelas visitas indesejadas - não queremos que venham, não temos espaço para elas, e mesmo assim elas entram-nos porta adentro, sem dia e hora para bazar, fazendo da nossa vida um rebuliço, deixando tudo de pantanas. E, quando finalmente elas se vão, não deixam saudade alguma. Adeus, já vão tarde! Só é pena não podermos tirar essas pessoas tóxicas da nossa vida com um alicate. 

O meu hóspede indesejado foi retirado esta manhã e ainda estou sob efeito da anestesia, e por isso ainda tenho espírito para escrever antes das dores chegarem. Vim aqui deixar um conselho aos jovens - vocês retirem esses cabrões todos da vossa boca. Assim que souberem que os sisos estão para nascer, ou se começam a espreitar, não hesitem e arranquem-nos. Não os deixem crescer nem infectar, porque depois sofrem em dobro. No mercy para esses motherfockers!

Ah, spoiler alert - como podem ver, o juízo não vem com o siso.


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"Onde há fumo há fogo" - um ditado cuja popularidade e forma serão em breve substituída por "onde há obra há reformado". Desafio um de vós a dizer-me que nunca viu um grupo de reformados diante de uma obra. Por favor, desafio-vos.

É certo e sabido que quando se atinge os 65 anos de idade, começa a crescer um formigueiro, um entusiasmo inexplicável, um íman que atrai o macho sénior para a nobre actividade da observação de obras. É fácil reconhecer estes vândalos da opinião da construção civil: operam em grupos, grandes e pequenos, e ficam estáticos, de mãos atrás das costas, estas ligeiramente inclinadas. De vez em quando arriscam as cruzes, baixando-se até a uma posição que não usavam desde 1986, se for preciso observar de perto por baixo de um pial ou uma entrada subterrânea para uma garagem. Alguns membros do gangue podem usar bigode, ou não, é mais possível que enverguem uma boina ou boné, porque isto de estar lá fora muito tempo deixa assaduras nas bochechas e pontas dos narizes. Todos eles expelem um leve cheiro a mofo e naftalina, mas também todos os velhos cheiram ao mesmo. Não é por observarem as obras, eu é que quis dizer isto.

Quando se atinge a idade da reforma, e não importa qual é a actividade que exerciam, todos ficam experts em obras. Quer tenham sido barbeiros, bancários, contabilistas, motoristas, não importa - entre a faixa dos 60 e 70, um dia eles acordam a saber tudo sobre a arte de armar betão. E assim colam-se à frente da construção, metendo conversa com os pedreiros, atirando bitaites, emitindo opiniões que isto devia ser assim ou assado, e que a tal janela devia estar virada nascente em vez de poente, e que a inclinação da entrada devia ter menos 9 graus, atiram datas para o ar adivinhando quando aquilo irá estar acabado (se calhar fazem apostas), vão buscar o lanche e a mini à pressa e emborcam tudo sem tirar a obra de vista, ainda assim ela termine e eles não estejam no seu posto.

E depois o processo termina e eles lá vão para a próxima obra (devem ter uma aplicação secreta que lhes diz onde existem mais obras nas imediações), até a Maria ter o jantar feito. Um dia, veremos anúncios de emprego para estes observadores de obras, porque é injunto usarem o seu intelecto em decadência para tanta opinião e não receber nada em troca. Quando virem o próximo gangue de observadores, parem, escutem, juntem-se uns minutos, apreciem o conhecimento desmedido que estes homens têm para dar. Pena que seja um clube exclusivo a machos, porque nada me daria mais prazer do que passar a velhice a levar com aquele pó de cimento na tromba. Dizem que faz milagres às rugas.

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