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terça-feira, junho 19, 2018

«Se a vossa luz me afasta, o vosso abismo atrai-me!» Queirós Ribeiro, Cinzas (1896) / Líricas Portuguesas - 2.ª Série (edição de Cabral do Nascimento)


«Dizem mais que na seda das varetas / Do seu leque ducal de mil matizes... / Satã cantara as suas tranças pretas, / -- E os seus olhos mais fundos que as raízes!» Gomes Leal, «A Duquesa de Brabante», Edoi Lelia Doura -- Antologia das Vozes Comunicantes da Poesia Moderna Portuguesa (edição de Herberto Helder, 1985)


«Quando o descobridor chegou / e saltou da proa do escaler varado na praia / enterrando / o pé direito na areia molhada // e se persignou / receoso ainda e surpreso / pensando n'El-Rei / nessa hora então / nessa hora inicial / começou a cumprir-se / este destino ainda de todos nós.» Jorge Barbosa, Cadernos de um Ilhéu (1956) / No Reino de Caliban I (edição de Manuel Ferreira, 1975)

terça-feira, fevereiro 23, 2016

microleituras

Um ensaio tão sucinto quanto brilhante, pela fractura que instaurou entre dois modos de considerar a literatura caboverdiana. 
Onésimo Silveira -- que viria a doutorar-se em Ciência Política em Uppsala, membro do PAIGC, tendo enveredado pela carreira diplomática (foi embaixador de Cabo Verde em Portugal, entre outros postos) -- fez publicar pela Casa dos Estudantes do Império (CEI), em 1963, este ensaio que significa um separar de águas entre a geração do grupo da Claridade -- provavelmente a mais brilhante de Cabo Verde no século passado -- e os novos escritores que não se reviam no tipo de literatura praticado por aquela, que classificaram como "evasionista".
Silveira, que nessa altura era um jovem de 28 anos, ousava criticar acerbamente as obras dos Claridosos, de cujas fileira faziam parte nomes como Baltazar Lopes, Manuel Lopes, Teixeira de Sousa e Jorge Barbosa, a quem deu o epíteto de «pontífice do evasionismo». O autor arrasa-os de uma perspectiva ideológica e política, acusando-os, por outras palavras (afinal tratava-se de uma edição da CEI!...), de, por elitismo, superficialidade, inautenticidade e, até, complexo de inferioridade, se afastarem da feição africana da cultura de Cabo Verde, em detrimento de uma orientação metropolitana, portuguesa, europeia. O que naquele tempo (estamos no início da luta armada por parte do PAIGC contra o colonialismo português), ia ao arrepio da urgência do tempo, que a arte, segundo o autor, deveria traduzir. E dava exemplos da nova geração, transcrevendo o poema «Anti-Evasão», de Ovídio Martins.
Não sei até que ponto Onésimo Silveira, do alto dos seus oitenta anos, se revê em muitas asserções deste ensaio muito bem feito, muito datado, também, e, por isso mesmo, de grande valor histórico para Cabo Verde, e igualmente para Portugal.

ficha:
Autor: Onésimo Silveira
título: Consciencialização na Literatura Caboverdiana
edição: 2.ª
editora: UCCLA (União das Cidades Capitais de Língua Portuguesa)
local: Lisboa
ano: 2015
impressão: Printer Portuguesa, Mem Martins,
págs.: 31
tiragem: 45000

(tamb+em aqui)