05/09/2019

Nunca mais

Não venhas com desculpas, não suporto
as mentiras que inventas, esse modo
de comeres as papas na cabeça, e
continuares a gozar à tripa forra.
Não inventes enredos, não
acolho as cantatas à capela,
as distorções.
Se
um dia defendi:
olho por olho; e parti
alguns dentes: não me
vais tolher com o medo
de castigos ou de penas terríficas,
infernais. Os amigos não empatam 
os amigos. Não voltes a mentir-me,
nunca mais.

Domingos da Mota

03/09/2019

O barrete

O barrete, o solidéu,
A mozeta, o arminho,
E a pompa, meu deus do céu,
De luxo  pré-tridentino.

Domingos da Mota

31/08/2019

HISTÓRIA UNIVERSAL

Um homem nasce chora cresce ri
sofre e faz sofrer caminha canta
tem sede fome frio medo pressa
perde-se transborda arde sorri.

Um homem sozinho no meio da noite
assobia para amansar os monstros que o habitam.

Abraça empurra mata beija morre
cansa-se de si mesmo apaixona-se
dá-se à vida sabe que se acaba
que escorre o que é por entre os dedos.

Um homem olha o céu as nuvens e diz-se
em silêncio que breve
que bela e fugidia é, foi, a vida.

*

HISTORIA UNIVERSAL


Un hombre nace llora crece ríe
sufre y hace sufrir camina canta
tiene sed hambre frío miedo
se pierde se desborda arde sonríe.

Un hombre solo en medio de la noche
silba para amansar las bestias que lo habitan.

Abraza empuja mata besa muere
se cansa de sí mismo se enamora
se da a la vida sabe que se acaba
que se cae lo que es de entre sus dedos.

Un hombre mira el cielo las nubes y se dice
en silencio lo breve
lo hermosa y fugitiva que es fue la vida.

Juan Vicente Piqueras

INSTRUÇÕES PARA ATRAVESSAR O DESERTO, poemas escolhidos, tradução João Duarte Rodrigues e Manuel Alberto Valente, Assírio & Alvim, Fevereiro 2019

28/08/2019

Sobre a correspondência

Quando o correio chega cedo
     Sinto-me defraudada
           Por já não ter
               De aguardar por ele.

*

On letters


When the post comes early
      I feel cheated,
         Not having it now
            To look forward to.

Neil Curry

companhia a Mrs Woolf, tradução de Francisco José Craveiro de Carvalho, edições de Sérgio Ninguém/Eufeme, Setembro 2017

26/08/2019

CÃO

Cão passageiro, cão estrito,
cão rasteiro cor de luva amarela,
apara-lápis, fraldiqueiro,
cão liquefeito, cão estafado,
cão de gravata pendente,
cão de orelhas engomadas,
de remexido rabo ausente,
cão ululante, cão coruscante,
cão magro, tétrico, maldito,
a desfazer-se num ganido,
a refazer-se num latido,
cão disparado, cão aqui,
cão além, e sempre cão.
Cão marrado, preso a um fio de cheiro,
cão a esburgar o osso
essencial do dia a dia,
cão estouvado de alegria,
cão formal da poesia,
cão-soneto de ão-ão bem martelado,
cão moído de pancada
e condoído do dono,
cão: esfera do sono,
cão de pura invenção, cão pré-fabricado,
cão-espelho, cão-cinzeiro, cão-botija,
cão de olhos que afligem,
cão-problema...

Sai depressa, ó cão, deste poema!


Alexandre O'Neill


POESIAS COMPLETAS, Assírio & Alvim, Maio 2007


24/08/2019

ARTE POÉTICA

Olhar o rio que é de tempo e água
E recordar que o tempo é outro rio,
Saber que nos perdemos como o rio
E que os rostos passam como a água.

Sentir que a vigília é outro sono
Que sonha não sonhar e que a morte
Que teme a nossa carne é essa morte
De cada noite, que se chama sono.

Ver no dia ou até no ano um símbolo
Quer dos dias do homem quer dos anos,
Converter a perseguição dos anos
Numa música, um rumor e um símbolo,

Ver só na morte o sono, no ocaso
Um triste ouro, assim é a poesia
Que é imortal e pobre. A poesia
Volta como a aurora e o ocaso.

Às vezes certas tardes uma cara
Olha-nos do mais fundo dum espelho;
A arte deve ser como esse espelho
Que nos revela a nossa própria cara.

Contam que Ulisses, farto de prodígios
Chorou de amor ao divisar a Ítaca
Verde e humilde. A arte é essa Ítaca
De verde eternidade e não prodígios.

Também é como o rio interminável
Quem passa e fica e é cristal dum mesmo
Heraclito inconstante, que é o mesmo
E é outro, como o rio interminável.

Jorge Luís Borges

POEMAS ESCOLHIDOS, Selecção feita pelo autor, tradutor, Ruy Belo, Publicações Dom Quixote, Lisboa, Outubro de 1971

23/08/2019

Amazónia

Princípio do fim?
Granjeio mortífero?
E o fogo que grassa
Dantesco, terrífico,

Sem freio, soprado
Por ventos hostis
(Do agro-negócio
Aos ganhos febris):

A febre do ouro,
Petróleo, metais,
Devasta o tesouro:
Os danos? -  Brutais.


Domingos da Mota

21/08/2019

mosquitos por cordas

quem convidou
os mosquitos?

quem lhes deu
tempo de antena

para ampliar
os zunidos

azucrinar
os ouvidos -

e aumentar
o escarcéu?

Domingos da Mota

o mosquito

quem convidou
o mosquito?
quem lhe deu
tempo de antena

para o zunido
que azucrina
e cansa o
ouvido -

de onde pica
quem quer
que esteja
ao léu?

Domingos da Mota

15/08/2019

OS ARREDORES DO MAR, OS SUBÚRBIOS DA NOITE

II

2.

Esse tumulto anda, ouvido anda no ar, esse grave que
cresce, excessivo ligeiro.
Excessivo ligeiro, o deslize veloz, no sentido do grave,
no sentido da noite.
No sentido da noite, rumor evoluindo, no sentido da noite,
reversivo do mar.

Luís de Miranda Rocha

OS ARREDORES DO MAR, OS SUBÚRBIOS DA NOITE, Editora Limiar, Maio 1993

13/08/2019

PALAVRAS

Faço a travessia da noite
acossado por palavras.

Saem-me ao caminho com o cães
que guardam hortas,
ladram-me, procuram
morder-me os calcanhares.

Indóceis, sempre soturnas,
as palavras?

Pois são.
Mas é com elas que deito
remendos trapalhões
nesta espécie de sono com que à toa
e ingenuamente julgo limitar
os danos com que, com suas baionetas,
a noite me danifica.

A. M. Pires Cabral

A noite em que a noite ardeu, Edições Cotovia, Lda., Lisboa, 2015

11/08/2019

Pássaro-bisnau

Um pássaro-bisnau
este pardal que ameaça
grasnar o tempo todo

pois não sabe cantar
nem bem nem mal - e veste
ricamente e pele de lobo

Domingos da Mota

10/08/2019

Micro-conto em forma de haiku

No princípio era um bidão
Acasalou com uma bomba de gasolina
que pariu um rancho de jerricãs

Domingos da Mota

03/08/2019

FORÇAS DE BLOQUEIO

Um padeiro com seios de ministro
Um jardineiro com sangue na relva
Um bispo sem púbis
Uma metáfora com coxas de rainha
Uma alforreca arrependida
Um bigode de freira seguido de beijo ortopédico
Uma vulva de gasolina Alberta toda a noite
Outra alforreca arrependida
Um piolho com crista de gato
Diversas pontadas nas costas
Um escalope com punho de renda
Um saco esotérico com pegas de cernelha
Um compasso de esper(m)a
E ainda
Certos outros rumores

João Gesta

Uma falha nos dentes, Porto Editora, Porto, maio de 2019

01/08/2019

Estudo para soneto: o estado da arte das golas, com estrambote

Gola alta
Gola marinheiro
Gola mandarim
Gola pescador

Gola chinesa
Gola prussiana
Gola holandesa
Gola em V

Gola Médicis
Gola Nehru
Gola careca
Gola em U

Gola com gorro
Gola anti-fumo

(Gola inflamável?)
Cabeção

Domingos da Mota

31/07/2019

PÁTRIA NOSSA

Pátria nossa que estais nos infernos
Vilipendiado seja o vosso nome
Venha a nós a vossa manjedoura
Seja feita a vossa boutade
Assim nos tribunais como na repartição
O pão nosso de cada dia
Nos sonegai hoje
Uma vez mais
Perdoai-nos as nossas virtudes
Assim como nós perdoamos
as vossas malfeitorias
Ensinai-nos a matar e estropiar
E não nos deixeis cair em expiação
Mas livrai-nos do bem
Am... ália

Sérgio Almeida

PERIFERIA, com um desenho de Paulo Moreira, octogésimo quarto título da colecção  o oiro do dia [nova série], Modo de Ler, Porto, Abril 2019

28/07/2019

Reportagem

Um beijo aqui, outro ali,
dois abraços, uma foto,
um comentário que ouvi,
uma sentença que anoto;
uma palavra, um alvitre,
um conselho, mais um beijo,
um sorriso, um palpite,
um parecer, um gracejo.

E toda esta canseira,
dia a dia, sem repouso,
com o séquito à beira
de dizer o que não ouso
da expedita roda-viva
que sacode a comitiva.

Domingos da Mota

25/07/2019

[O meu robe pendurado no jardim]

O meu robe pendurado no jardim
pingando como uma árvore.
Um dia vou sair
do meu corpo
exactamente assim.

*

My robe hangs in the garden,
dripping like a tree.
One day I'll step
out of my body
exactly like this

Peter Levitt

de Seis poemas* de Peter Levitt, do livro *One Hundred Butterflies, ed. Broken Moon Press, 1992, 110 pp., tradução de Sérgio Ninguém, Eufeme magazine de poesia 12 Julho/Setembro 2019

24/07/2019

Curso intensivo de afectibilidade

Os afectos - teoria e prática
O estado da arte dos afectos
Filosofia política dos afectos
Hermenêutica filosófica dos afectos

Sociologia política dos afectos
Economia política dos afectos
Geografia política dos afectos
Ontologia e ética dos afectos

Os afectos "captados pelas fotografias"
A administração pública dos afectos
Os afectos e suas indicações, contra-indicações,
Efeitos colaterais, doses e sobre-doses

Os afectos em tempo de eleições
Afectos versus desafectos
Cálculo simplificado dos afectos
Os afectos e a opinião pública e publicada

Domingos da Mota


16/07/2019

O diário habitual

Vou tomar café
ao café habitual,
a cem metros, vou a pé,
leio as gordas do Jornal
de Notícias, que é
o diário habitual.

Saúdo este e aquele,
vizinhos da mesma rua,
sem cuidar da cor da pele
ou das crenças ou da sua
visão do mundo - pois
não discuto filosofia
nem sequer religião
(e muito menos poesia)
com os vizinhos.

A conversa comum
tem a ver com o futebol;
mas se vejo um trinta-e-um
a pôr os cornos ao sol,
mudo de pouso ou de tema,
pois bolapé não debato;
ou então saio de cena,
com um manguito abstracto.

Domingos da Mota

13/07/2019

Pergunta retórica

Bloqueio, corte, exclusão
sem saber por que motivo,
o fundamento, a razão,
entre nós, qual o sentido?

Porque tiveste uma urgência,
porque não foste à sessão,
houve alguém, sua excelência
que, sem cuidar do senão,

resolveu excluir-te,
pôr-te de lado, apagar-te
e, doravante, banir-te
ou, quiçá, excomungar-te

de maneira categórica?
Fica a pergunta retórica.


Domingos da Mota