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segunda-feira, 26 de agosto de 2019

"Regressa, Coelho" de John Updike

Excerto
"é tudo vida, sexo, fogo, respiração, uma combinação com oxigénio a todo o momento deslizamos à beira da conflagração"

"Regressa, Coelho", o segundo romance da tetralogia Coelho do norteamericano John Updike, decorre em 1969 cerca de uma década após as desilusões do início da vida adulta do primeiro volume que apresentei aqui.
Agora Coelho já tem vários anos de vida familiar rotineira, a mãe envelheceu e tem a doença de Parkinson, ele trabalha como tipógrafo, o filho Nelson é adolescente, a mulher Janice tem emprego na empresa do pai dela, enquanto na sociedade há a revolução sexual, hippie e a contestação à guerra do Vietname. A monotonia do lar é afetada por uma crise quando a mulher se satura do marido, arranja um colega como amante e toda a situação se desmorona. Coelho a seguir conhece num bar de negros uma jovem de um meio rico, fugida de casa que sobrevive vendendo-se. Ele decide acolhê-la e traz para casa um conjunto de novos problemas que agravar-se-ão com o aproveitamento de um amigo dela preto, traficante de drogas, despudorado e revoltado contra a comunidade branca. 
A obra faz um retrato das fragilidades das famílias perante as novas ideias sociais de comportamento sexual, emancipação das mulheres e conflito de gerações; agravadas pelo racismo, o capitalismo desumano, a política interesseira, o sonho comunista e as feridas da guerra do Vietname. Como no primeiro romance, as tensões irão num crescendo até uma catástrofe a cerca de um terço do fim da obra, dando-se então o retorno a um novo equilíbrio de sentimentos e razão após a crise.
Neste volume a religião passa para um plano supérfluo e a vida sexual das personagens torna-se o foco das relações humanas: medos, sonhos, experimentação, desinibição do pudor e desilusão. Deste modo e numa linguagem realista sem tabus há a descrição de relatos de práticas e pensamentos sexuais, sem filtro linguístico, o que leva ao uso de calão e ditos eróticos e grosseiros que podem ferir algumas suscetibilidades, contudo não têm fins de escrita erótica, mas evidenciam o peso da intimidade e dos desejos na estabilidade emocional das pessoas num estilo nu e cru.
Tirando o reparo de pudor a eventuais interessados no livro, gostei do romance que novamente não faz juízos de valor, é de fácil leitura e um retrato intenso de uma época nos Estados Unidos.

domingo, 18 de agosto de 2019

"Zero K" de Don DeLillo

Excertos
"Todos querem ser donos do fim do mundo."
"O que é o eu?... Mas seremos alguém sem os outros?"
"A morte é um hábito que custa a perder."

Não sei bem como classificar o mais recente romance do americano Don DeLillo: "Zero K"; ficção científica ou especulação científica? Para o primeiro género, a obra passa-se na atualidade e na Terra, sem imaginar civilizações longínquas ou futuras. Para a segunda denominação que inventei, a estória fala de facto do uso atual da criogenia, a conservação do corpo pelo frio de doentes incuráveis antes de morrerem naturalmente, técnica usada na crença de que tal os permitirá um dia "ressuscitar" no futuro e curá-las dos seus males quando se encontrar a solução para tal. Algo que algumas pessoas, por norma muito ricas, se estão a sujeitar com base nesta especulação científica. O vencer a morte é o tema que em forma de ensaio e sem se dirigir para a criogenia já Yuval Noah Harari discute no livro Homo Deus que li este ano e com as mais diversas questões de ética e moral que a ciência pode colocar à humanidade, salvá-la ou destruí-la.
O romance é narrado por Jeffrey Lockhart, que tem dúvidas em como organizar a sua vida adulta: anda à procura de emprego e rejeita a influência do nome de seu pai, um multimilionário de Nova Iorque. Este convida-o a visitar um laboratório que patrocina algures na Ásia, lá descobre que se trata de um local de recolha de órgãos e conservação dos corpos de pessoas por criogenia. Nesta deslocação verifica que a sua madrasta, arqueóloga e com uma doença degenerativa, optou por esta solução e está à espera de se submeter à passagem para depois esperar por uma nova vida no futuro. Entretanto, Jeff recorda a sua relação com a mãe falecida, é confrontado com questões sobre a vida e a morte nas conversas com a madrasta e exposto a uma encenação sobre a crise global: guerras, catástrofes naturais, solidão e desespero que convidam à fuga deste mundo à espera de um outro diferente, havendo voluntários saudáveis para esta passagem denominados arautos e para os quais foi criada a zona Zero K que atrai o pai para acompanhar a mulher.
Entre os problemas da sua vida e daqueles com quem se relaciona socialmente, Jeff analisa a problemática em torno deste assunto: a ética, as incertezas, a solidão da espera e a ânsia de domínio da morte.
Uma escrita escorreita, em tom realista e sóbria, a que me habituei na literatura norteamericana atual que descreve de forma nua as situações incómodas da sociedade de hoje consumista, onde escasseia a esperança e os valores humanos. Contudo gostei do livro, apesar da perspetiva sombria que atravessa a obra.

quinta-feira, 15 de agosto de 2019

"Um Crime Capital" de Francisco José Viegas

Excerto
"Falta-te alguma experiência literária para seres um bom polícia. Todos nós devíamos, antes de entrar para isto, ler uma biblioteca."

"Um crime capital" foi o primeiro livro que li de Francisco José Viegas, homem dos meios da comunicação social e da cultura em Portugal e com vários livros publicados de poesia e policiais traduzidos e é nesta última categoria que o presente romance se insere.
Após a realização de um concerto de música erudita integrado na organização do "Porto 2001 - Capital Europeia da Cultura" um casal de ouvintes é descoberto morto na bancada do anfiteatro, pouco depois um brasileiro do sistema informático do evento é baleado. São estes os pontos de partida para o velho polícia da judiciária Jaime Ramos investigar, então cruzar-se-á com uma antiga amante envenenada que lhe deixa recordações antigas, com uma rede de contrabando de quadros de pintura brasileira que tem como base a cidade do Porto e usa este evento europeu em proveito próprio, com a descoberta de adultério entre casais de sócios inimigos públicos mas cooperantes na clandestinidade e com um advogado de um clã do Brasil da alta-finança e comércio de arte que faz a ligação entre o interesses nestes dois países lusófonos.
Este romance é um exemplo de que uma obra do género policial pode também ser uma boa obra de escrita literária, fornecedora de informação cultural  que aproveita um acontecimento histórico, neste caso a Porto-2001, tendo mesmo sido publicado em folhetins num jornal da cidade durante aquele importante evento cultural, mantendo um vertente lúdica, de mistério e qualidade cultural.
Um romance que descreve com poesia e realismo a paisagem e o clima da cidade do Porto, que fala de prazeres particulares em forma de hábitos e tem a inteligência de apresentar pintores brasileiros e falar de livros, semeando interesses culturais sem maçar o leitor e assegurando o ritmo da narrativa. Jaime Ramos é um detetive à moda antiga, com gostos pessoais bem vincados, fugindo à disciplina burocrática e desencontrado com este presente informatizado e acelerado, ama o seu Porto belo, chuvoso e com passado e de onde é capaz de fugir à revelia das regras para pensar com cabeça fria e à distância, numa ilha dos Açores de onde descreve maravilhas que passam fora da rota do vulgar turista deste Arquipélago.
Gostei muito e lê-se com facilidade e com qualidade de escrita, informação e formação. Espero voltar ao escritor.

segunda-feira, 12 de agosto de 2019

"Corre, Coelho" de John Updike


Excerto
"A princípio, acontece muitas vezes que o caminho certo parece errado."

Estreei-me em John Updike, um dos escritores norteamericanos mais premiado, com o primeiro volume da sua tetralogia mais famosa em torno da personagem Coelho, Rabbit no original, romance com o título "Corre, Coelho". Havia tempo que tentava conhecer este autor, mas pretendia começar por este conjunto, só que nunca encontrava os 4 volumes juntos, esta semana numa promoção, quando a editora já nem existe, eis que finalmente os encontro de forma a completar o ciclo.
Harry Angstrom, conhecido por Coelho, tem 26 anos em 1959, foi uma estrela de basquetebol no liceu numa cidade de média dimensão na Pensilvânia. Ao acabar os estudos casou-se apressadamente por uma gravidez não desejada e entrou numa vida rotineira e vazia, tem um emprego frustrante de vendedor de máquinas de cozinha e a mulher desmazelada e alcoólica espera novo filho. Cansado disto, decide abruptamente abandonar o lar, recolhe-se em casa do seu antigo treinador que o apresenta a uma prostituta por quem ele se sente atraído e encontra uma companheira com virtudes por que ele ansiava. Só que um pastor Pentecostal com preocupações sociais tenta a reconciliação dele com a sua paroquiana, apesar de Harry ter formação Luterana, e eis que a esposa tem uma filha e surge uma oportunidade, pouco depois seguida de um acidente. Destas situações brotarão as temáticas desenvolvidas no romance: o amadurecimento humano, a desilusão no arranque da vida adulta, as questões de família face ao vazio matrimonial onde a relação sexual conta mas quando ainda subsistem tabus face à excitação da descoberta de uma companhia alternativa sem preconceitos, situações que levam as questões de moral e de religião com as diferenças de pensamento em credos distintos que se misturam com os problemas do dia-a-dia de cidadãos comuns numa sociedade capitalista, oca pronta para acusações.
John Updike tem uma boa escrita mas tipicamente norteamericana: escorreita, elegante e cheia de figuras de estilo, só que dá a impressão de estarmos perante um texto informal, quer pela menção de pormenores banais e corriqueiros, quer pela referência a marcas comerciais conhecidas, diálogos básicos e ainda um retrato da sociedade não floreado. Algumas vezes a narrativa entra em cenas mais íntimas, contudo sem descer à vulgaridade na descrição e sem ser chocante, mas subentende-se a prática do ato. Este é um aspeto que por vezes é difícil de integrar em literatura sem ser uma expressão de arrojo ou afronta, mas o escritor fá-lo de forma equilibrada e tem importância para as decisões das personagens, mas o romance não faz um julgamento individual dos vários comportamentos, o que também evidencia ponderação na obra.
Gostei da estória, da escrita, das abordagens e pretendo continuar. Só não o faço de imediato pois quando leio estórias por muito tempo em contínuo ocorre uma imersão minha nas personagens o que por vezes me perturba, mas espero voltar muito em breve a esta tetralogia. Fácil leitura.

terça-feira, 6 de agosto de 2019

"Contos Escolhidos" de Maupassant

Há uns anos atrás pediram-me para cooperar num quiosque de venda de livros antigos numa feira para recolha de fundos de uma instituição de proteção de animais. Enquanto exercia a função de voluntário vendedor fui explorando o espólio e entre as obras descobri este "Contos Escolhidos" do francês do século XIX Guy Maupassant, editado em 1966, com folhas já muito amarelas e várias delas ainda por abrir, desconhecendo o autor decidi comprar para um dia o descobrir, e apesar do tempo decorrido posso agora dizer que valeu a pena, tal como os outros usados que então adquiri.
Um conjunto de 26 contos ao estilo realista, na sua maioria pequenos, passados frequentemente no meio rural da Normandia, onde se narra uma ocorrência com gente comum ou onde alguém conta uma memória de algo que com ela se passou ou assistiu e muitas vezes com um final inesperado ou com uma crítica de costumes ou a vícios pessoais.
Escrita fácil acessível e deliciosa de se ler. Gostei muito e um bom indício para mais leituras de contos de Maupasant.

domingo, 4 de agosto de 2019

"O Pátio Maldito" de Ivo Andric


O croata, Ivo Andric é um dos dois escritores laureados com o Nobel da literatura, então como jugoslavo, que penso já ter lido tudo o que está neste momento editado e disponível em Portugal,  "O Pátio Maldito", a terceira obra que leio dele, soube-me a pouco, este pequeno livro tinha potencial para uma narrativa longa mas ficou-se por uma novela com pouco mais de 100 páginas. Todas as premissas do que foi o efeito do império otomano sobre os povos dos Balcãs e o sudeste da Europa, incluindo península itálica com o venezianos e a Igreja Católica está lá... mas o autor limitou-se a um retrato ligeiro que deixa à imaginação o leitor aprofundar.
Dois frades de um convento limpam a cela e os despojos deixados por frei Petar velho e recém-falecido, mas o jovem frei Rastislav apenas recorda as memórias dos relatos Petar de quando foi a Istambul e preso por suspeita de espionagem, tendo então ficado vários meses detido n'O Pátio Maldito de onde contava: a vida do diretor da prisão de marginal a polícia; do jovem de Esmirna detido por gostar de ler e se ter encantado com a biografia do irmão de um sultão que lutou pelo trono e vencido tendo sido utilizado pelo ocidente como refém ao em benefício dos interesses de uma ordem religiosa, do Vaticano, de França e de Nápoles; do detido que apenas via denunciantes nos outros detidos e da panóplia de prisioneiros e de tipos de carácter que por ali encontrou das várias nacionalidades do império Otomano.
Muito bem escrito, embora de uma forma literariamente  conservadora, Andric mostra a diversidade das gentes do império muçulmano que dominou a Europa oriental por 500 anos, exposta na vitrina que era a prisão da capital e vista pelos olhos de um cristão bósnio.
Gostei, mas soube-me a pouco, pois tinha assuntos para estas 100 páginas se multiplicarem por quatro o cinco vezes de uma forma deliciosa.

quarta-feira, 31 de julho de 2019

"Auto de Fé" de Elias Canetti

Acabei de ler "Auto-de-Fé", o único romance de Elias Canetti, autor búlgaro que adquiriu a cidadania inglesa, escreveu sobretudo em alemão e vencedor do prémio Nobel da literatura, essencialmente pelas suas obras de ensaio e memórias. Um livro que me deixou impressões contraditórias.
Peter Kien é um apaixonado por livros, estudioso e perito em sinologia, dono da maior biblioteca privada da cidade e detentor de uma fenomenal memória, mas vive isolado do convívio humano por ser um misantropo exacerbado. Na sua casa conhece o porteiro, que lhe assegura o afastamento de intrusos, e a criada, mas deixa-se cativar por esta que lhe demonstra interesseiramente uma admiração por livros que o confunde e com quem vem a casar. Começa então o seu calvário com a ganância da esposa, a sua infidelidade e a ocupação do seu espaço, mas na sua delicadeza é ele que abandona o lar, onde conhece a escória da sociedade com o pior tipo de personagens que se aproveita dele. Peter leva a sua biblioteca na cabeça e contrata um anão para o ajudar no seu transporte livreiro. O choque da sua inadaptação levam ao descalabro psicológico e à confusão da sua imaginação desenraizada do convívio, talvez possa ser salvo pelo seu irmão distante, um psiquiatra gestor de um manicómio que se entusiasmou na cura de loucos.
Canetti leva o aprofundamento das suas personagens trágicas ao extremo da racionalidade, criando situações que se desenvolvem ao pormenor e longamente, o que por vezes leva a uma certa saturação do desenrolar da estória. O que acompanha com a intercalação de muitas informações provenientes da vasta cultura do escritor e do protagonista, este considera o livro acima da pessoa humana.
A escrita é riquíssima, cheia de imagens fortes, a narrativa toca o irrealismo que é enriquecido com a loucura e o desencontro das mentes dos personagens na interpretação do outro e da sociedade. É sem dúvida um grande romance, mas também pela extensão que nalguns momentos satura, mas a beleza do texto assegurou a persistência da leitura e levou-me sobretudo a querer conhecer a obra de memórias autobiográficas de Canetti.
Uma obra difícil e desafiante.

domingo, 21 de julho de 2019

"Um, ninguém e cem mil" de Luigi Pirandello


Excerto
"Você acredita que se conhece, se não se construir de alguma maneira?... Só somos capazes de conhecer aquilo a que conseguimos dar forma."

Em "Um, ninguém e cem mil" o escritor italiano Luigi Pirandello, laureado com o Nobel da literatura, constrói uma dialética, cheia de humor e reflexão, em torno da busca de identidade que cada um tem de si e daquelas que e os outros fazem de nós próprios,não somos únicos mas uma miríade de personagens. Somos uma composição múltipla de todas essas individualidades criadas por nós e por quem socializamos.
A partir de um comentário da mulher enquanto Vitangelo Moscarda se olhava ao espelho, no qual ela lhe comunica a inclinação do seu nariz de que ele nunca se apercebera, começa um conjunto de reflexões de como sou eu? Que imagem têm os outros de mim? Questões que se tornam numa obsessão que vão mudar a sua vida de banqueiro a viver à sombra da sua riqueza herdada em alguém que não apenas se quer mudar mas deseja que os outros o modelem com uma personalidade diferente.
Escrito em estilo de autorreflexão, onde trespassa ao longo dos parágrafos humor, apreciação do problema e dedução, Pirandello monta a mudança de uma personalidade a partir de um ensaio de autoanálise do protagonista.
Originalíssmo e divertido, embora exaustivo pela miríade de variantes que se vão labirinticamente cruzando, não perde interesse por ser relativamente curto, o que alimenta a vontade de saber como ficará Vitangelo Moscarda no fim do romance.
Fiquei com curiosidade de descobrir outras obras deste escritor.

domingo, 14 de julho de 2019

"O legado de Humboldt" de Saul Bellow


Excerto
"É verdade que as melhores coisas da vida estão à livre disposição de qualquer um, mas ninguém é suficientemente livre para desfrutar as melhores coisas da vida."

"Antigamente, os mais amargos reveses da vida enriqueciam apenas os corações dos desgraçados ou tinham unicamente um valor espiritual. Mas hoje em dia qualquer acontecimento pavoroso pode ser transformado numa mina de ouro."

Ao fim de muitos anos voltei a Saul Bellow, vencedor do Nobel da literatura, nascido no Canadá, de ascendência judia e naturalizado Norte-Americano, através do romance: O legado de Humboldt.
Charlie Citrine parte do interior dos EUA para Nova Iorque com o objetivo de conhecer o poeta que o deslumbrou: Humboldt. Com este desenvolve uma amizade profunda que acompanha o auge da carreira dele, só que esta entra em declínio enquanto a de Charlie caminha para o sucesso. Este vem para Chicago onde cresceu, só que a ascensão não é bem digerida por quem entrou em decadência, o que leva ao distanciamento entre ambos, mas não ao fim da admiração. Quando na meia-idade a vida de Citrine se começa a complicar, culturalmente e ao nível privado, já Humboldt morreu, mas ficaram as recordações e as lições por ele deixadas, enquanto se embrulha com mulheres, divórcio e amigos pouco abonatórios da cidade dos gangsters, é então que vem a descobrir que não foi esquecido pelo seu antigo amigo que lhe deixou um legado e a vida dará uma volta.
Bellow escreve bem, de uma forma realista, crua e cobre tudo isto com ironia amarga, humor inteligente e crítica ao estilo de vida norteamericano e de Chicago, que é fútil, onde imperam sonhos básicos capitalistas. Tudo isto é intercalado com numerosas referências/citações culturais, religiosas e filosóficas de pensadores do ocidente. Assim, a narrativa desta amizade serve de pretexto para retratar a sociedade dos Estados Unido, onde o dinheiro complica as relações humanas e os sentimentos, as escapatórias no sexo são normais e os oportunistas pululam construindo fachadas de sucesso e abusando da bondade, o que cria momentos de depressão, vazio moral e sede do transcendente.
Apesar de extenso, mais de 500 páginas, gostei muito, durante dias vivi as amarguras e desventuras deste génio cheio de recordações que nunca perdeu a admiração e amizade pelo seu ídolo cultural numa América oca, onde o dinheiro e a ânsia de sucesso são o modo de vida por excelência.

quinta-feira, 11 de julho de 2019

"Os dados estão lançados" J. P. Sartre


Li o romance/novela "Os dados estão lançados" do filósofo francês laureado com o Nobel da literatura: Jean Paul-Sartre, apesar de o ter feito em ebook, esta obra existe em livro conforme o link associado ao nome do mesmo.
A obra começa com o desenrolar de dois homicídios: de Pedro - um líder revolucionário em véspera da revolta, morto por um espião; e de Eve - uma esposa rica e infeliz, envenenada pelo marido. Os assassinados no reino dos mortos podem observar sem serem vistos o que se passa no mundo dos vivos e tomam conhecimento de riscos que desejam evitar: Adão envolvendo os seus correlegionários e Eva uma armadilha montada à irmã. Entretanto aquelas vítimas apaixonam-se entre si, só que o amor só se concretiza em vida, mas um artigo da lei permite reviver pessoas que destinadas uma à outra que não se encontraram antes. Assim, terão a morte revogada para concretizar o amor num prazo pré-determinado, só que também se sentem obrigados a evitar os males a que os entes queridos estão expostos, surgindo o problema de conciliar as duas tarefas e mudar o curso da história com os dados lançados não é fácil.
Escrito numa linguagem fria, quase telegráfica e sem recorrer a figuras de estilo evidentes, a trama desenrola-se de uma forma rápida que entrecruza cenas associados aos dois protagonistas assemelhando-se a uma dramatização teatral, e talvez só não seja uma peça por necessitar de recorrer a algumas soluções técnicas para descrever a realidade dos mortos e dos vivos e complexidade de encenar numerosos quadros curtos em ambiente muito distintos.
A ideia de destino e de fatalidade da existência humana atravessa a obra sem obrigar a grandes reflexões e a  crença romântica da força do amor é posta à prova por este filósofo existencialista.
Curto, muito fácil de se ler e consegue ter bom humor no seio das situações tristes em que Pedro e Eva se veem envolvidos, terminando com uma dúvida de esperança. Gostei muito.

sexta-feira, 28 de junho de 2019

"O Pregado" de Günter Grass

Excertos
"A esperança desatravanca a História. A esperança  desembaraça, dos estorvos de época, a linha que chamamos progresso. E sobrevive, porque é a única realidade."
"...a grandiosa e importante verdade que é o facto de nenhum ordenamento político poder ser realmente bom se não estiver ao serviço do bem da generalidade das pessoas."

Numa promoção recente para autores com prémio Nobel comprei um conjunto de livros: uns para descobrir escritores, outros para revisitá-los e inclusive dois para ver se me reconciliava com certos laureados após uma primeira leitura que não me cativou. O alemão Günter Grass estava neste último pacote, depois de ler  há uns anos atrás "A Ratazana" que foi uma tortura para mim. Agora, neste "O Pregado", já antes traduzido como "O Linguado", fiquei ciente da bagagem cultural desta obra que mostra a sabedoria do escritor.
O Pregado não é um romance fácil de se ler, quer pela narrativa (saltitante num tempo longo e articulada entre factos e realismo mágico) quer pela dimensão (grande número de personagens, páginas, uma exposição enciclopédica de referências da história de um Povo e do evoluir da sua gastronomia) e pelos pormenores da província da Pomerânia e sua capital Gdansk, hoje integradas na Polónia, onde Günter Grass nasceu quando pertencentes à Alemanha, tendo a cidade então o nome de Danzig, uma importante urbe da Prússia sempre ambicionada por germânicos e eslavos.
A trama é difícil resumir, a atual esposa do protagonista está grávida e aquele encarna a memória da história dos homens da Pomerânia. Assim, lembra-se das mulheres que teve em diferentes instante-tempos desde o Neolítico até à greve nos estaleiros de Gdansk em 1970, irá então contar-lhe as biografias de uma dezenas dessas esposas ao longo de milhares de anos em nove capítulos que correspondem aos meses da gravidez de Insebill e assumindo que toda a sua história foi fruto do aconselhamento de um pregado falante, pescado nesse início remoto quando este se comprometeu a orientá-lo nas várias épocas sempre que o pedisse se o devolvesse ao mar Báltico. Em paralelo, o pregado voltou a ser pescado por mulheres feministas no século XX que o levam a julgamento por ter cultivado o machismo nas recomendações que deu ao homem da Pomerânia no relacionamento com as esposas.
Em cada capítulo a narrativa centra-se numa época distinta, embora misture memórias do passado e conhecimentos do futuro que fornecem provas para o julgamento. Através dos diferentes tempos descobre-se que a sociedade começou por ser matriarcal, onde as mulheres teriam 3 seios de forma a assegurar as suas funções femininas e acalmar os homens, mas depois com a agricultura, caça, pesca e intercâmbio das civilizações e globalização, além dos conselhos do pregado, a comunidade virou a machista, bélica e com a escravatura das mulheres que se revoltam na época moderna.
A linha da história é feita pela evolução gastronómica liderada pelas mulheres, desde os tempos recoletores. Assistimos à introdução do fogo na arte de cozinhar os alimentos, à incorporação dos cereais, legumes, aromáticas e diferentes animais e técnicas, a revolução que resultou dos Portugueses terem difundido a preços baixos as especiarias pelo norte da Europa (Vasco da Gama é uma das personagens que vê o fruto da sua descoberta numa Calcutá de hoje miserável onde vive Madre Teresa), a importância da introdução da batata, os combates dos povos germânicos, eslavos, nórdicos para conquistar este território hoje polaco, montando assim o essencial da história de Gdansk e seus arredores até à conclusão do julgamento e parto da atual mulher num momento onde o papel feminino aspira a ocupar o lugar a que tem direito e quer condenar o machismo no passado.
Günter Grass, alicerçado num conto fantástico tradicional, na história real da zona da Pomerânia e na evolução da gastronomia, cria uma trama que mistura factos da história, personagens verdadeiras e ficcionadas, reflexões sobre erros da humanidade que se repetem ainda no presente, num texto ora poético, ora irónico, por vezes crítico, noutros é um relato jornalístico e nalguns momentos é ordinário e grosseiro erótico e noutros está cheio de ternura e denúncia dos crimes da igreja, dos nacionalismos, do poder político e das ideologias.
Um grande romance cuja complexidade e dimensão por vezes dificulta a leitura e compreensão de pormenores, pode até ser fastidioso e malicioso mas que também tem momentos cativantes e a destilar um saber enciclopédico que ensina o leitor. Gostei, mas não é uma obra acessível a todos.

segunda-feira, 17 de junho de 2019

"A Guarda Branca" de Mikhaíl Bulgákov


"A Guarda Branca" do escritor ucraniano Mikhaíl Bulgákov conta-nos a agitação em Kiev no período de transição do regime urbano nacionalista, que declarara a independência da Ucrânia face à Rússia com o apoio dos alemães na sequência da revolução bolchevique, para o regime seguinte de índole socialista nacionalista que toma a cidade com a fuga dos germânicos na perspetiva da derrota destes na 1.ª Grande Guerra. Segundo regime que por sua vez cairá com a invasão soviética que terminará com essa desejada separação, mas que já não entra na história deste romance.
A trama passa-se com a adesão à causa nacionalista tradicional dos três irmãos Turbin, órfãos de uma família culta de vida universitária, e das vicissudes por que eles passam com a tomada da capital pelos partidários nacionalistas socialistas.
Bulgákov narra a história dos principais acontecimentos em 1918 e no início de 1919, enquanto intercala tais situações com a guerra civil, reflexões e análises dos irmãos e seus amigos militares próximos, construindo um retrato pormenorizado desta revolução em Kiev que colocou em confronto ideologias tradicionais e revolucionários à sombra da ameaça externa bolchevique e imperialista da Rússia. Fica claro o dilema deste país encaixado entre as aspirações germânicas e russas, sendo a Ucrânia uma vítima dos interesses das potências vizinhas adversárias também ideologicamente.
A narrativa é algo tumultuosa, uma vez que o estilo de Bulgákov mistura situações caóticas no terreno, pesadelos, reflexões, alucinações e simbolismos junto com a passagem rápidas de personagens reais e fictícias relacionadas com a guerra, contudo a percepção do que terá sido este ano revolucionário fica bem patente na estória, a que se junta o facto de ter sido escrito num período onde a censura estalinista obriga a subtilezas em muitas passagens.
Gostei sobretudo pela informação histórica que esta ficção permite e ainda por mostrar os maiores dilemas da Ucrânia de hoje em dia entre o desejo de se aproximar do Ocidente e a vontade da Rússia em ter este País sob a sua influência, além dos nacionalismos ocos entre povos que habitam o mesmo espaço.


terça-feira, 11 de junho de 2019

"Fundação" de Isaac Asimov

Excertos
... meus senhores, a queda de um Império é uma coisa imensa e que não é fácil de combater. Ela é ditada por uma burocracia em ascensão, por uma iniciativa em decréscimo, uma imobilidade de castas, um aprisionamento da curiosidade - uma centena de outros fatores."

"A violência é o último refúgio dos incompetentes."

Este livro foi a minha estreia em leitura de obras de mera ficção científica em mundos fora da Terra, já lera obras distópicas previstas para o futuro, mas a "Fundação" de Isaac Asimov, russo naturalizado norteamericano, é uma estória que se passa no espaço, não localizada no tempo, num período em que o homem já colonizou numerosos planetas na galáxia e mostra a força do conhecimento como garante da civilização, causas do declínio desta e o papel da religião (crença), do comércio/economia (ferramenta de bem-estar) como força agregadora de impérios, bem como a inteligência e a astúcia serem mais mais eficazes na preservação do poder do que a guerra e a violência. 
No enredo o homem povoa toda a galáxia num império, o desenvolvimento da ciência "psico-história" permite determinar com grande precisão o evoluir da sociedade no futuro e o seu autor prevê o declínio irreversível do império a que se seguirá um recuo milenar da civilização. Então para acelerar a recuperação da humanidade força a criação de uma colónia num planeta que assegurará a preservação do saber e da tecnologia e servirá de gérmen ao renascimento galático do Homem, deixando mecanismos para este enfrentar as crises que previu nesta caminhada. 
O livro está narrado em cinco episódios espaçados no tempo que se completam e começam com o papel da psico-história, o início da cidade Terminus, duas grande crises que cujo fundador previu e o último com a substituição da religião pela economia como meio de assegurar o preservação do império.
O romance tem um estilo bastante cinematográfico ou de série televisiva, numa escrita escorreita sem preocupações de cultura literária, mas possui mensagens subliminares fortes que convidam o leitor a pensar, sem o obrigar a análises, se for alguém com apenas interesse lúdico, por isso pode ser em simultâneo uma obra popular e de culto pela sua profundidade e daí classificada uma das melhores no seu género.
Estranhamente o poder na obra radica apenas nos homens, às mulheres está reservado um papel de subserviência caseira. Apenas no último episódio existem mulheres enquadras numa sociedade totalmente machista, onde estes são os políticos, os guerreiros, os investigadores e depositários da sabedoria. Pergunto-me se será apenas uma marca do modo de pensar na década de 1950 ou mentalidade do escritor? Igualmente choca que com tantos avanços científicos algumas necessidades sejam bem típicos do século XX: a energia nuclear, eletrodomésticos, recursos minerais, etc.
O livro lê-se muito bem, tem pontos de elevado suspense e ideias para colocar à discussão para quem estiver atento e não se limita a ser um leitor passivo.

quinta-feira, 6 de junho de 2019

"As Ondas" de Virginia Woolf


Excertos

"imagino que nasci destinado a encontrar, numa noite de inverno, o sentido de todas as coisas, o fio que as liga, o resumo que as completa."
"É tão estranha a maneira que os mortos têm de se lançarem sobre nós à esquina das ruas e nos sonhos!"

A escritora inglesa Virginia Woolf cria em "As Ondas" um romance cuja estrutura e narrativa são bem diferentes da forma de contar uma estória.
Acompanhamos ao longo de vários capítulos monólogos interiores de seis crianças fortemente unidas pela amizade: três rapazes e três raparigas, desde o colégio até à terceira, que refletem sobre si e os outros amigos do grupo, incluindo um sétimo que nunca fala, mas que os marca intensamente. Assim vamos conhecendo todos, as impressões e ligações entre elas, as diferenças, os medos, os gostos, anseios e ambições de cada um e o seu evoluir como ondas no tempo. Estes capítulos são separados por outros mais pequenos que cronologicamente se iniciam com a descrição da aurora que anuncia a infância, num litoral onde as ondas se vão espraiando sucessivamente e as cores da vida se definindo na paisagem e assim prossegue a evolução com a subida do sol ao longo do dia até à maturidade do meio-dia e da meia-idade do grupo avançando depois para o declínio e crepúsculo com o ocaso, o diluir das ondas e das cores e da vida a anunciar o fim destas pessoas. 
Não há um único diálogo no livro, embora praticamente se assista a confissões contínuas vindas do interior de cada um em relação ao outros e ao meio que os cerca e assim cada um se dá a conhecer a si e aos restantes elementos que formam um só corpo que forma uma flor alimentada na amizade, mas sem anular a individualidade, a solidão em cada um com os seus receios e desconfianças.
A narrativa em estilo de fluxo da consciência, além de poética marcada pela solidão, é de uma beleza e tecnicidade que nos faz sentir o evoluir da pessoa como um contínuo de ondas do mar ao longo do dia até que este passa e fica apenas a memória e virão então outros dias onde novas ondas continuarão a fluir no curso da humanidade...
Literariamente uma excelente narrativa em forma de poema temperado pelo fluxo da esperança, prazer, desilusão e dor que é a vida de cada um. Um bom livro, mas não num estilo fácil.

sábado, 18 de maio de 2019

"Na rua das Lojas Escuras" de Patrick Modiano

Excerto
"na vida, não é o futuro que conta, mas o passado."

Acabei de ler "Na rua das Lojas Escuras" do francês vencedor do prémio Nobel da literatura de 2014 e tal como referido na justificação do galardão, é mais uma obra sobre a busca de memórias do tempo da ocupação nazi em França para conhecimento da identidade e das origens do protagonista tal como o anterior que lera. Este romance também ganhou o prémio literário Goncourt em 1978.
Guy Roland foi acolhido por um detetive que o encontrou sem ele se recordar de quem era, passou uma década a trabalhar escritório dele sem nunca descobrir o seu passado, mas o patrão reforma-se e recomeça a busca, encontra duas pessoas que associam o seu rosto a um grupo noctívago em Paris do tempo da ocupação nazi. Aos poucos e a partir de fotografias que lhe mostram daquela época Guy pensa reconhecer-se vai seguindo as pistas e as pessoas relacionadas, umas morreram, outros foram mortos e alguns desapareceram sem rasto. Terá sido Howard da Luz relacionado com um ator e uma bela russa? Talvez McEvoy que trabalhava num consulado sul americano e usaria um nome falso? Seria então antes Steer ou Jimmy? Quem são aqueles que lhe parecem de carreiras duvidosas em torno daquele grupo. Aos poucos surgem-lhe memórias em espaços onde sente já ter morado. Quem é aquela mulher Denise com quem tudo aponta ter vivido e alguns o reconhecem como o companheiro? O que se passou na fronteira com ele e ela?
A reconstituição da memória e da identidade do protagonista numa pesquisa através de fotos antigas, excertos de textos, notícias, testemunhos e endereços da sua investigação vão montando a vida de um grupo de pessoas com várias origens numa Paris sitiada pelo nazismo, onde muitos viviam sobre um disfarce em que ele estava incluído.
Na narrativa vai perpassando a neblina que ofusca a montagem desta auto-identidade, cruzando pistas falsas e verdadeiras, questões que mantêm o suspense. Um romance que não deslumbra mas agrada, embora haja obras-primas que por si só me parecem justificar um Nobel, esta não me parece ser o caso, contudo gostei e é um bom pequeno romance.

segunda-feira, 13 de maio de 2019

"MACBETH" - William Shakespeare



Excertos
"Melhor estar morto com quem, p'ra nossa paz, nós despachámos, do que viver em roda-viva a vida que não nos dá descanso."
"As coisas más reforçam-se no mal"

Acabei de ler mais uma peça de teatro escrita pelo inglês Shakespeare: "MacBeth", já conhecia a trama desta obra através da sua adaptação por Verdi de uma ópera com o mesmo nome. Apesar do enredo estar muito bem aproveitado, o original tem sempre uma outra densidade.
Neste livro o texto foi traduzido para uma representação no teatro nacional de São João no Porto, é assumido que se procurou, dentro do possível, respeitar a forma de verso e a métrica original. No estilo notei um certo compromisso entre o modo de expressão dramático antigo e a linguagem contemporânea, não conheço a versão em inglês para me pronunciar da qualidade tradução, mas gostei da escrita adotada.
Na trama, com envolvimento do fantástico medieval,  Macbeth é um aliado do rei da Escócia que após uma luta vitoriosa junto com Banquo contra nórdicos se cruzam com bruxas que emitem oráculos sobre a ascensão a rei do primeiro e da descendência real do segundo. Este anúncio alimenta a ambição do protagonista que é reforçada pela pressão da esposa e enquanto o soberano o enche de honrarias na cada dele, ele, na ânsia do seu fado, comete regicídio idealizado por Lady Macbeth, seguido de outros crimes que os levam ao trono. A partir de então nasce o receio da vingança e o remorso no casal pelo sangue derramado. Ela com pesadelos de culpa e ele a assombrações das vítimas, na busca de soluções as bruxas vaticinam de forma dúbia a sua derrota e identificam os rivais. O usurpador monta ciladas e guerras mas estas apenas conduzem ao cumprimento do destino traçado pela justiça.
Não sendo um trama sobre ciências ocultas, estas desempenham um papel no enredo que vai no sentido apontar que o mal só conduz à infelicidade onde a justiça no fim triunfa sob o peso na consciência do remorso e do arrependimento dos culpados não havendo fuga a tal destino Divino.
Embora a estória seja simples, o recurso à retórica antiga com regras poéticas rígidas criam alguma complexidade à compreensão do texto que é compensada pelo ritmo acelerado dos acontecimentos, uma obra pouco extensa e pela mensagem moral que atravessa toda a narrativa, alimentando o suspense da leitura desta tragédia medieval ao estilo do grande mestre dramático que é Shakespeare. Gostei muito.


domingo, 5 de maio de 2019

"Coração Impaciente" de Stefan Zweig


Excertos
"muitas vezes, a coragem não é mais que o disfarce da fraqueza."
"a piedade é espada terrível, espada de dois gumes; quem não sabe manobrar essa espada o melhor é não lhe pôr as mãos."
"vale sempre a pena aceitarmos qualquer coisa de muito pesado, muito difícil para tornarmos a vida mais leve a um outro ser."

Acabei de ler o único romance do austríaco Stefan Zweig "Coração Impaciente", escritor de várias biografias de personalidades históricas e de numerosos contos e novelas onde ele por norma explora a força dos sentimentos humanos até à exaustão paroxismal que conduzem à destruição ou ao sacrifício extremo das pessoas. Esta obra é um exemplo perfeito, embora mais extensa, deste último género, onde demonstra que a piedade é de uma exigência máxima para o seu detentor, caso contrário, é mera cobardia e pode provocar uma agressão máxima ao alvo desse sentimento.
Zweig neste romance usa a sua técnica habitual em contos e novelas, a partir do conhecimento de uma situação ou personagem intrigante, o narrador conta a revelação que lhe foi contada de um caso onde um sentimento ou um comportamento levou ao desenlace extremo e onde o confidente se sente culpado das consequências dessa situação.
Em Coração Impaciente e comunicada ao narrador a valentia e heroicidade de um militar presente num restaurante onde o visado nota que está a ser alvo da conversa, só que este mais tarde cruza-se com ele e confidencia-lhe como a sua medalha de valentia na 1.ª grande guerra o envergonha, pois resultou de uma fuga a uma série trágica de cobardias onde a consequências da sua irresponsabilidade de após um jantar, em casa de um recém-conhecido muito rico e rejeitado em sociedade, ter convidado a filha do anfitrião para dançar por não ter percebido que a mesma era paraplégica. Este incidente desencadeará nele uma compaixão para com a vítima que o levará uma série de ações em cadeia e a despertar sentimentos na doente, sendo ele devidamente avisado pelo médico da paralítica que a piedade é um sentimento que exige sacrifício extremo do seu autor, sendo o próprio doutor um exemplo de escândalo social por ter sido capaz de assumir todas as obrigações que a piedade cobra, precisamente onde o tenente sabe que falhou por medo.
Apesar de uma trama densa e trágica, a leitura é muito fácil devido à elegante e excelente escrita de Zweig, onde o pormenor das obrigações de cada um pelos sentimentos assumidos individualmente, cruzados com as descrições das relações sociais e comportamentos coletivos e pessoais, tanto em meio civil como militar, quer na perspetiva médica como psicológica, visão de doente, familiares, amigos e estranhos são tecidos com tal mestria cuja macieza no prazer de ler cobre a dureza dos aspetos focados no romance, o que o torna numa obra-prima literária. Gostei muitíssimo


sábado, 27 de abril de 2019

"A minha prima Rachel" de Daphne du Maurier


"A minha prima Rachel" da inglesa Daphne du Maurier é o típico romance mistério, bem adaptável ao cinema, literariamente muito bem escrito que deseja fornecer ao leitor uma obra de lazer, despretensiosa e sem cair na vulgaridade do livro de cordel de suspense.
Phillip foi desde tenra infância órfão e criado pelo seu primo Ambrose, um grande proprietário rural, entre os dois desenvolveu-se uma relação pai-filho que o tornou não só herdeiro natural e um admirador do seu protetor. Quando ele chega a adulto, Ambrose, por razões de saúde, vai passar o inverno em Florença, aí conhece a prima Rachel, apaixona-se, casa-se, pouco depois adoece e morre sem alterar o seu testamento de solteiro, mas antes enviara uma carta ao seu protegido com a suspeita de a sua esposa o estar a matar por dinheiro. Algum tempo após este falecimento, Rachel vem a Inglaterra conhecer as propriedades do marido e o primo, quando este já a odeia e a responsabiliza da morte de Ambrose, mas este ódio transforma-se ao recebê-la em sua casa. Quem é esta mulher? Uma virtuosa que amou o marido ou uma impostora que vem tentar alcançar o que deveria ter herdado? A situação mantém-se dúbia, com reviravoltas até Phillip a conhecer plenamente na última página da trama.
Excelentemente escrito, com uma tensão permanente, com retratos do estilo de vida senhorial rural na Cornualha no século XIX, é um romance, como outras desta escritora, simpático que dá gozo ler e feito para dar prazer. Gostei


terça-feira, 23 de abril de 2019

23 de abril - Dia Mundial do Livro - Os meus preferidos de um ano de leituras

Todos anos este blogue celebra o Dia Mundial do Livro com a listagem das minhas leituras preferidas em várias categorias decorridas ao longo de um ano iniciado nesta dia comemorativo, assim para os últimos 12 meses os eleitos foram:

Melhor livro de ficção Portuguesa
Gonçalo M. Tavares continua a ser o escritor contemporâneo de Portugal que mais admiro e este romance, que já tem alguns ano,s é para mim mais uma maravilha, falei dele aqui.

Melhor livro de ficção Canadiana

Li-o em inglês "Hag-Seed", mas encontra-se traduzido como Semente de Bruxa, foi a primeira leitura a concluir deste ano literário, um romance que é uma versão moderna de "A Tempestade" de Shakespeare em torno de uma representação desta peça, um jogo de espelhos, falei do livro aqui.

Melhor livro de ficção de expressão lusófona
Não foi uma decisão fácil, tinha dúvidas entre várias opções, este é um livro já com algumas décadas, falar dos sonhos e desilusões sobre a descolonização de Angola e a realidade após a independência, olhando para dentro do País, mas é uma lição de história e uma obra de compreensão e reflexão sobre este Povo e talvez represente um Estado que passou a ser diferente com o atual Presidente da República, mais pormenores aqui.

Melhor livro de ficção escrito em língua estrangeira
Literariamente talvez tenha lido textos mais ricos e não estava muito convencido sobre a obra antes de a ler, mas depois este livro tocou-me profundamente e foi por esta surpresa positiva que foi o escolhido, a resenha do seu conteúdo aqui.

Melhor clássico de literatura Mundial
Será a maior peça de teatro da história de arte dramática? Não sei. Um livro excelentemente traduzido mas acompanhado do texto original. Resenha aqui

Melhor ensaio
Um ensaio que assume que o homem pelo seu engenho assumiu o papel que atribuía a Deus ou aos deuses, só que isto em vez de garantir uma humanidade mais segura pode ser a sua maior ameaça de destruição. Excelente tema de reflexão, li-o em inglês, mas está traduzido em papel. Resenha aqui.


terça-feira, 16 de abril de 2019

"Eusébio Macário" de Camilo Castelo Branco

Regressei à literatura portuguesa com "Eusébio Macário" de Camilo Castelo Branco e escrito no início do último quartel do século XIX.
A obra é uma paródia sobre o estilo de vida provinciano rural, com padres devassos, homens e mulheres promíscuos que vivem na hipocrisia e má-língua dos pecados alheios mas que por conveniência financeira são capazes de aceitar uma vida dentro das regras morais.
Eusébio tem uma farmácia e um casal de filhos é amigo do abade que tem uma amante, o regresso do Brasil do irmão desta, após longe ter feito fortuna, irá levar a uma revolução na vida desta comunidade, onde a moral e os bons costumes são chaves de beneficiar deste filho retornado à terra que por sua vez está ávido de reconhecimento social público.
Camilo que está à época em conflito com as novas ideias literárias procura nesta paródia reagir aos seus adversários, pelo que satiriza o realismo escrevendo com muita adjetivação e com uma riqueza lexical enorme, sendo que em tal excesso de palavras muitas destas caíram em desuso ou são regionalismos, pelo que nos parecem estranhas, embora no contexto se perceba. Nesta novela o contraste com o seu contemporâneo Eça de Queirós torna-se flagrante no modo de parodiar os problemas nacionais, ambos génios no domínio da língua, só que com estilos bem diferentes e o autor de Os Maias é de uma elegância ímpar.
Igualmente o escritor aproveita para explicar alguns comportamentos e expressões que caracterizam a sociedade da sua época cheia de vícios privados mas defensora de virtudes públicas e para falar de alguns reviravoltas políticas no conturbado período que se seguiu à luta entre absolutistas e liberais defensores do regime Constitucional.