Nigar Arif, por Francis Kurkievicz

Nigar Arif nasceu em 20 de janeiro de 1993, no Azerbaijão. Formou-se em Língua Inglesa pela Universidade Pedagógica do Estado do Azerbaijão, em 2014. É membro da União Mundial dos Jovens Escritores da Turquia e diplomou-se na III Escola de Escritores Jovens pela União de Escritores do Azerbaijão. Também é membro do Fórum Internacional para a Criatividade e Humanidade, instituição sediada no Marrocos. Alguns de seus poemas foram traduzidos para o inglês, turco, russo, persa, Montenegro e espanhol e foram publicados em revistas digitais de diferentes países. Ela participou do IV LIFT- Festival Literário Eurasiano, realizado em Baku no ano de 2019 e do 30° Festival Internacional de Poesia de Medillin em 2020, realizado na Colômbia e do Festival Literário International Panorama – 2020 na Índia, realizado através de uma plataforma online. Participou ainda do projeto Viagem das palavras pela Europa, 100 poetas ao redor do mundo por amor e Quarto Encontro Virtual Global de Poetas 2020.

Nigar Arif tem uma extensa e incansável atividade em prol da poesia e escreve tanto em azerbaijano, sua língua materna, quanto em inglês, com a mesma peculiaridade estética e a mesma força da sua juventude: de forma simples, direta sem subterfúgios, adornos ou pistas falsas. Ficará nítido ao leitor a maturidade e compromisso da poeta com o seu tempo. Assim como ficarão nítidas sua forma estética e dicção nos poemas aqui apresentados. Sua visão de mundo consegue abranger as entranhas do micro universo humano, dúvidas e inquietações íntimas, e também perscrutar os movimentos no macro, os destinos e contextos que acossam a humanidade. E embora ainda não tenha publicado um livro solo, caminha a passos largos na consumação de um volume, pois poemas se acumulam na diversidade digital de suas publicações.

Muitos são os temas que perpassam estes seis poemas onde podemos perceber o desenho arquitetônico de seus versos: o espanto pela separação amorosa, o inquérito sobre a ausência, a pacificação do ânimo através da autocompreensão, a perplexidade e dúvida com a própria jornada existencial, a morte e as falsas esperanças, a compreensão da natureza humana. Temas universais tratados na intimidade da experiência individual, no entanto, de modo não confessional, mas transmutados na singularidade poética. Talvez este seja o caminho mais difícil para poetas na contemporaneidade: como sublimar a experiência pessoal em obra de arte sem cair no clichê da evidência confessional do ego auto afirmado.

Os poemas apresentados aqui foram selecionados pela própria autora e encaminhados aos cuidados deste poeta, que os transmigrou intuitivamente para a língua portuguesa. Esperamos que esta contribuição literária possa voltar nossa atenção para uma poesia realizada num país que pouca notícia temos, mas que tem irradiado sua melodia e seus temas para além de suas fronteiras.

Francis Kurkievicz

THE RECONCILIATION

Hey man, taking umbrage at himself,
Have you done a lot of sinning?
All you’ve lost, is just yourself,
Is there anything you gained?
Who took you from you?
Who left you to the void?
Who put his hand on your heart?
And calmed you like that?
Who ruined your life and fate
looking at your “sorry” face?
What did he leave in your eyes,
Dropping as tears?
Maybe it’s you, and,
you’ve become a pain for yourself?
Maybe you just let your joys
slip through your fingers?
Hey you,
Who’s oppressed by sorrow,
Walking in his thoughts,
Getting tired of his ways…
Losing the sun among complaints.
Turn back,
Make peace with yourself.
Shake hands and have faith ,
With that one whom you turned away.

A RECONCILIAÇÃO

Ei cara, ofendido estás contigo mesmo?
Pecastes muito?
Tudo que perdeste foi a ti mesmo,
Existe algo que ganhaste?

Quem te tirou de ti?
Quem no vazio te deixou?
Quem pousou a mão em teu coração?
E isso te pacificou?

O que arruinou tua vida, teu destino
Mirando tua cara de “desculpa”?
O que foi deixado em teus olhos
Gotejando como lágrimas?

Talvez sejas tu e
Tenhas tornado uma dor para ti mesmo?
Talvez tu tenhas deixado tuas alegrias
Escorregarem pelos teus dedos?

Ei cara,
Quem é oprimido pela dor,
Perambulando em teus pensamentos
Cansado de tuas formas…
Perdendo o sol entre reclamações.

Volte!
Faça as pazes contigo mesmo.
Aperte tuas mãos e tenha fé
Naquele que rejeitastes.
£

THE WAY

Who did really cut out my way?
Either the way is chance or I’m green.
I may be the last human on this road,
Maybe I’m just a gravestone of this road.

My dreams looking through the window,
My leg got tangled with my own way;
I don’t know how it looks from that side,
My fate is clapping at my falling.

Or maybe it’s not me going on this way,
It’s my road, limped, my road’s crawling.
It turns to ground, it changes to stone,
It just follows and blankets with me.

How this way did fall on my fortune?
Maybe it slipped out of my pockets?
Had I trampled on its face and head?
That’s why it is so impudent to me!


O CAMINHO

Quem realmente podou meu caminho?
Ou o caminho é o acaso ou sou eu imatura.
Posso ser o último humano nesta estrada,
Talvez apenas uma lápide desta estrada.

Meus sonhos vagam através da janela,
Minhas pernas embaraçaram-se pelo caminho;
Não sei como se mostra do outro lado,
Aplaudindo minha queda está o meu destino.

Ou talvez não seja eu a seguir assim,
É minha estrada, vacilando, se arrastando.
O caminho se dissimula em solo, em pedra,
Apenas segue e avança comigo.

Como isso desceu em minha ventura?
Talvez tenha escapulido dos meus bolsos?
Havia pisoteado seu rosto e sua cabeça?
É por isso que é tão insolente comigo!
£

WHEN YOU LEFT

I used to see the flushed eyes of life
in geography class,
I used to see the truths that erupt like volcano,
and plains
on which were creeping the lies
under the truths,
I used to see the fall down the knees
of the highest mountains,
The same wind was blowing in all countries,
The same rain all over the world…
I was a country myself,
Yes, I was…
When I wanted to subdue the country like you
my heart was shaking
like it was an earthquake;
sweet waters were running,
pure springs were running
from the bottom
of the most rocky and barren lands
I used to see the beautiful faces of the best creatures
in the far-off places…
When you left…
When you left,
I realized that
human being is the biggest iceberg;
he will go on melting for years
and flowing into death.

QUANDO VOCÊ SAIU

Eu costumava ver os olhos ruborizados da vida
Na aula de geografia,
Costumava enxergar verdades irromperem como vulcões,
E planícies
Por onde as mentiras rastejavam
Sob as verdades,
Costumava contemplar o quedar de joelhos
Das montanhas mais altas,
O mesmo vento soprava em todos os países,
A mesma chuva em todos os lugares…
Eu mesma era um país,
Sim, era…
Quando desejei dominar um país como você
Meu coração tremeu
Como se fosse um terremoto;
Águas doces fluíam,
Fontes puras vertiam
Do fundo
Dos solos mais rochosos e áridos,
Eu costumava ver os belos rostos das melhores criaturas
Nos lugares mais remotos…
Quando você saiu…
Quando você saiu,
Compreendi que
O ser humano é um enorme iceberg;
Ele continuará derretendo por anos,
Vazando para a morte.
£

AT THE DOOR OF PARTING

I don’t know when
we were parted,
How and when
our love was ended?
Maybe
we shouldn’t have met
from the beginning…
Were we really bowed down
the love and desire?
Maybe we were children
in the hands of love.
And those hands parted us…
Maybe…
maybe I am wrong,
We did grow it ourselves
We grew up just each other.
And what parting was,
what was the parting then?
Parting was the bitter tea,
Parting was like bane.
When sleepless night
attempting to fall asleep
Parting was the morning.
A tender word I found
in the book I read
was a handful sadness.
Parting was worse
than the boring death!
I don’t know,
Where was the door of parting?
It’s like I knew,
but so what?
From now,
I won’t come back anymore,
and you won’t open that door.

À PORTA DO DESENLACE

Não sei quando
Nos separamos,
Como e quando
Nosso amor se esgotou?
Pode ser que
Não deveríamos ter nos encontrado
Desde o começo…
Estávamos realmente inclinados
Ao amor e ao desejo?
Talvez fossemos crianças
Nas mãos do amor.
E essas mãos nos apartaram…
Pode ser…
Talvez eu esteja errada,
Nós mesmos o cultivamos,
Brotamos apenas um para o outro.
E que despedida foi esta,
Qual foi então a separação?
A despedida foi um chá amargo,
Foi como uma desgraça.
À noite, insone,
Tentando adormecer,
E no alvorecer se deu a despedida.
Uma palavra de ternura
Que encontrei num livro que li
Estava plena de tristeza.
O adeus foi pior
Do que a morte tediosa!
Não sei,
Onde estava a porta da despedida?
É como se eu soubesse,
Mas e daí?
De agora em diante,
Jamais voltarei,
E você nunca abrirá essa porta novamente.
£

THE WIND

Hey wind,
knocking door to door,
is that one door
you’re looking for,
is that enough for you?
Where are they now,
those open doors
from the hot, sunny days of summer?
Where are those that loved you,
to dine with and to rest;
who once were pleased to welcome you
and treat you as their guest?
Hey wind, knocking door to door,
where are your lovers now?
Now the weather’s turned to winter,
have they turned cold as well?
Don’t knock, my dear, don’t knock,
no one’s opening their door,
no one will look out for you,
nor call on you,no more.
Who, I ask, now the weathers changed,
would call on you at all?
Go dear, go.
Just wander round these dull grey streets
and break dry trees in anger;
just wait as winter turns to summer and your friends,
dear wind, with the sun, will grow again once more.

O VENTO

Ei vento,
Que bate de porta em porta,
É aquela porta
Que está procurando,
É suficiente para você?
Onde estão elas agora,
As portas abertas
Como nos dias quentes e ensolarados de verão?
Onde estão aqueles que o amavam,
Jantaram e descansaram consigo,
E que uma vez tiveram o prazer de recebê-lo
E tratá-lo como seu convidado?
Ei vento, que bate de porta em porta,
Onde estão agora seus amantes?
A estação mudou e inverno é agora,
Eles ficaram frios também?
Não bata, meu querido, não bata,
Ninguém abrirá a porta,
Ninguém cuidará de você,
Nem mesmo chamá-lo mais.
Pergunto eu, agora que a estação mudou,
Quem chamaria por você?
Vá querido, vá.
Perambule por essas ruas cinzentas e monótonas
E com sua raiva derrube as árvores secas;
Apenas espere o inverno se tornar verão e seus amigos,
Querido vento, com o sol, florescerão novamente.
£

THE WOMAN

Your life like an ant was away eaten,
There’s not even one day left for you.
You had the weight of the world
on your shoulders like an elephant
But no one really ever appreciated you.
You skimmed off and cleaned up your life,
But you’d relied on hopes, woman!
You just laughed in silence at your grief,
You’d troubled about your joy, woman?!
You’re pinning your hopes on now,
Your land is at the end of its rope.
Woman, maybe we don’t just know:
the land is unwitting, the stone is dark.
The death you walk on the balls of the feet
is your eaten life that waits for you,
It just waits for you in silence as dead.

A MULHER

Sua vida como uma formiga foi devorada,
Não resta nem um só dia para você.
Você teve o peso do mundo
Em seus ombros como a um elefante,
Mas ninguém jamais apreciou seu valor.
Você depurou e saneou sua vida,
Porém confiou em esperanças, mulher!
Em silêncio você apenas ria-se da própria dor,
Preocupada estava com a sua alegria, mulher?!
Você está sujeitando sua confiança no agora,
Sua terra está no fim da fiação.
Mulher, talvez nada saibamos:
A terra é inescrupulosa, a pedra, sombria.
A morte que você traz na ponta dos pés
É a sua devorada vida lhe espreitando,
Ela apenas espera por você em silêncio mortal.
£

Francis Kurkievicz é poeta. Lançou pela Editora Patuá, em dezembro de 2020, seu primeiro livro de poemas B869.1 K96. Atualmente reside em Vitória/ES, onde se dedica exclusivamente à poesia.

*

Tishani Doshi, por Shelly Bhoil

Tishani Doshi é uma notável dançarina indiana e autora premiada de seis livros de poesia e ficção. Ganhou o Eric Gregory Award for Poetry, All-India Poetry Competition, Forward Prize for Best First Collection por seu primeiro livro, Countries of the body em 2006. Seu livro de poesia, Girls are coming out of woods, foi indicado para os prêmios Ted Hughes e Firecracker. O primeiro romance da Tishani, The pleasure seekers, foi selecionado para o Hindu Literary Prize, o Orange Prize e o International IMPAC Dublin Literary Award. Seu segundo romance, Small days and nights,, foi selecionado para o Tata Best Fiction Award 2019 e o RSL Ondaatje Prize 2020. Ela é professora visitante de prática, literatura e redação criativa na New York University, Abu Dhabi.

Na tradição tântrica hindu e budista, a ioga chamada Phowa pertence à “transferência do fluxo mental” de um corpo para outro. Traduzindo o espírito dos poemas da Tishani Doshi de uma língua para outra me trouxe mesmo sentimento e com medo da responsabilidade de fazê-lo bom.  A tradução desses poemas não poderia ter feito bem sem discutir as escolhas das palavras com a Celia Tomimatsu e sem a revisão do Guilherme Gontijo Flores. ‘As meninas estão saindo da selva’ é o primeiro poema que traduzi para o português-brasileiro com o objetivo de criar a minha pequena Índia, especialmente aquela com consciência feminina, no Brasil enquanto fixava o português-brasileiro no meu cérebro esquerdo.

Shelly Bhoil

Shelly Bhoil é uma escritora, tradutora e pesquisadora indiana que mora no Brasil.

* * *

Girls are coming out of the woods
for Monika

Girls are coming out of the woods,
wrapped in cloaks and hoods,
carrying iron bars and candles
and a multitude of scars, collected
on acres of premature grass and city
buses, in temples and bars. Girls
are coming out of the woods
with panties tied around their lips,
making such a noise, it’s impossible
to hear. Is the world speaking too?
Is it really asking, What does it mean
to give someone a proper resting? Girls are 
coming out of the woods, lifting 
their broken legs high, leaking secrets
from unfastened thighs, all the lies
whispered by strangers and swimming
coaches, and uncles, especially uncles,
who said spreading would be light
and easy, who put bullets in their chests
and fed their pretty faces to fire,
who sucked the mud clean
        off their ribs, and decorated
their coffins with briar. Girls are coming 
out of the woods, clearing the ground
to scatter their stories. Even those girls
found naked in ditches and wells,
those forgotten in neglected attics,
and buried in river beds like sediments
from a different century. They’ve crawled
their way out from behind curtains
of childhood, the silver-pink weight
of their bodies pushing against water, 
against the sad, feathered tarnish
of remembrance. Girls are coming out
of the woods the way birds arrive
at morning windows—pecking
and humming, until all you can hear
is the smash of their miniscule hearts
against glass, the bright desperation
of sound—bashing, disappearing. 
Girls are coming out of the woods. 
They’re coming. They’re coming.

As meninas estão saindo da selva
para Monika

As meninas estão saindo da selva,
envoltas em mantos e capuzes,
carregando barras de ferro e velas
e multidão de cicatrizes, colhidas
nas acres de grama prematura e dos ônibus
da cidade, nos templos e bares. As meninas
estão saindo da selva
com calcinhas amordaçadas nos lábios,
fazendo um tipo de ruído, é impossível
ouvir. O mundo também está falando?
Está perguntando na verdade, O que significa
dar algum descanso eterno adequado? As meninas estão
saindo da selva, levantando
alto as pernas quebradas, derramando segredos
das coxas abertas, todas mentiras
sussurradas por estranhos e treinadores de
natação, e tios, especialmente tios,
que falaram que abrir seria leve
e fácil, que puseram balas nos peitos
e alimentaram seus rostos bonitos a fogo,
que sugaram a lama limpa pra fora
de suas costelas, e decoraram
seus caixões com sarça. As meninas estão saindo
da selva, limpando o terreno
pra espalhar suas histórias. Mesmo essas meninas
encontradas nuas nos vales e poços,
aquelas esquecidas em sótãos negligenciados,
e enterradas no leito do rio como sedimentos
de um diferente século. Rastejam
seus caminhos através das cortinas
de infância, o peso rosa prateado
dos corpos empurrados contra água,
contra triste, emplumada mancha
da lembrança. As meninas estão saindo
da selva como passarinhos chegam
às janelas da manhã—bicando
e cantarolando, até tudo o que se ouve
é o quebrar dos seus minúsculos corações
contra vidro, o brilho desesperado
de som—batendo, desaparecendo.
As meninas estão saindo da selva.
Estão saindo. Estão saindo.

§

Contract

Dear Reader,
I agree to turn my skin inside out,
to reinvent every lost word, to burnish,
to steal, to do what I must
in order to singe your lungs.

I will forgo happiness 
stab myself repeatedly
and lower my head into countless ovens.

I will fade backwards into the future
and tell you what I see.
If it is bleak, I will lie 
so that you may live
seized with wonder.
If it is miraculous I will 
send messages in your dreams,
and they will flicker 
as a silvered cottage in the woods,     
choked with vines of moonflower.

Don’t kill me, Reader. 
This neck has been working for years
to harden itself against the axe. 
This body, meagre as it is,
has lost so many limbs to wars, so many 
eyes and hearts to romance. But love me,
and I will follow you everywhere –
to the dusty corners of childhood, 
to every downfall and resurrection. 
Till your skin becomes my skin.
Let us be twins, our blood
thumping after each other 
like thunder and lightning. 
And when you put your soft head
down to rest, dear Reader, 
I promise to always be there,
humming in the dungeons 
of your auditory canals—
an immortal mosquito, 
hastening you towards fury,
towards incandescence.

O contrato

Querido Leitor,
concordo em virar a minha pele do avesso,
em reinventar cada palavra perdida, em lustrar,
em roubar, em fazer o que devo
para chamuscar seus pulmões.

Vou renunciar a felicidade,
me esfaquear repetidamente
e baixar a minha cabeça em fornos incontáveis.

Vou esvanecer de trás para ao futuro
e te contar o que vejo
Se for sombrio, vou mentir
para que você possa viver
tomado de admiração.
Se for milagroso, vou
mandar mensagens em teus sonhos,
e eles vão tremeluzir
como uma cabana prateada na mata
sufocada com dama-da-noite.

Não me mate, Leitor.
Este pescoço tem trabalhado por anos
para se endurecer contra o machado.
Este corpo, por franzino que é,
perdeu tantos membros para guerras, tantos
olhos e corações para o romance. Mas me ame,
e vou te seguir em todos os lugares—
para os cantos empoeirados da infância,
para cada ruína e ressurreição.
Até que tua pele se torne minha pele.
Vamos ser gêmeos, nosso sangue
batendo um atrás do outro
como trovão e relâmpago.
E quando você coloca a cabeça macia
para descansar, querido Leitor,
eu prometo estar sempre lá
cantarolando nas masmorras
dos teus canais auditivos—
um mosquito imortal
te apressando para a fúria,
para a incandescência.

(traduções de Shelly Bhoil)

Tishana Doshi lê os dois poemas aqui traduzidos e ainda outros.

XANTO | O mundo mutilado, de Prisca Agustoni ou as línguas partidas. Resenha e desenho, por Ana Cláudia Romano Ribeiro.

O mundo mutilado, livro de poemas de Prisca Augustoni, publicado pela editora Quelônio em 2020, com detalhe de ilustração de Anna Allenbach na capa, tem sete partes: seis delas são compostas por poemas; a última, “como nasceu este livro”, localiza o leitor no tempo, no espaço e nas tragédias que ele recoloca aos nossos olhos e que motivaram o livro:

Entre 2013 e 2017 os jornais europeus relataram cotidianamente a tragédia dos barcos cheios de pessoas fugindo do litoral norte-africano tentando entrar na Europa pelas fronteiras marítimas do Mediterrâneo. As notícias traziam imagens e relatos de muitos barcos afundando e de corpos (a maioria, negros) se avolumando numa lista assustadoramente gigante de mortos, abandonados perto do continente europeu, largados a si mesmos, ou no limbo da “passagem do meio”, isto é, no entre lugar da travessia no mar. Um pesadelo. (2020, p. 117)

O mundo mutilado é, portanto, um livro-testemunho sobre essas migrações, uma resposta possível às milhares de mortes acontecidas nas costas da Grécia e da Itália. Sua autora é uma testemunha que, enquanto cidadã europeia, toma partido do não-esquecimento. Além disso, ela relaciona esse fato histórico a outros tipos de deslocamentos, de épocas e geografias variadas, reverberando acontecimentos que se repetiram e ainda se repetem, em algum grau, em outros momentos históricos e em outras geografias, sob nomes que podem ser tão variados e por vezes cruéis quanto são as configurações que os originam: exílio, expulsão, fuga, expatriação, degredo, banimento, desterro, proscrição, deportação, eliminação, condenação, êxodo, partida, emigração, escapatória, dispersão, debandada, remoção, e uns tanto outros, que evocam uma partida inelutável e uma chegada sobretudo incerta.

De origem suíça, Augustoni, como veremos, também traz para seu livro histórias de migração que concernem a seu país natal e a sua vida de leitora, poeta, escritora e tradutora. A poética de O mundo mutilado nos aproxima de um sujeito enunciador que se percebe como parte de uma sociedade cuja atuação é ora violenta, ora hospitaleira, ora indiferente. Isso, por um lado, amplifica o pensamento poético e político expresso no projeto do livro e, por outro, nos sensibiliza enquanto leitores, afinal, o que acontece no mundo nos concerne, sobretudo em um mundo globalizado em que tudo se conecta: “Somos uma espécie que migra”, p. 34; “Aqui estamos,/ os viventes,/ porque migramos/ no passado/ e assim por diante/ até o presente”, p. 36.
Talvez essa força de espalhamento metafórico de Mundo mutilado deva-se ao “olhar estrábico” (retomando a expressão de Herta Müller citada por Prisca Augustoni) que percebemos nos poemas, ou seja, ao ponto de vista plural da autora, de cuja vida fazem parte várias línguas: ela proferiu suas primeiras palavras em dialeto, estudou em italiano, fez sua formação universitária em língua francesa, período em que se dedicou à literatura escrita em língua espanhola e está radicada no Brasil há muitos anos. Somam-se ainda a esse rico conjunto de línguas e culturas, que a habitam de muitas formas, o inglês, o alemão e o coreano. Essa presença multicultural, perceptível no texto de Augustoni, é marcada por deslocamentos e desnaturalizações, pela necessidade da renomeação, pelas migrações de uma língua a outra, também apreendidas nas referências explícitas e implícitas a fatos históricos, lugares, obras, escritores, poetas e artistas de diferentes culturas ao longo do livro.

A epígrafe de Carlos Drummond de Andrade, “Sempre dentro de mim meu inimigo”, verso do poema “O enterrado vivo”, abre a primeira parte do livro, “A fera” e se junta à alusão ao poema “A flor e a náusea”, na p. 18, sugerindo um sentimento de acuação que se confirma a cada poema. O leitor é levado ao início, “na enseada do medo” (p. 9), lugar de partida e lugar de chegada, onde humanos atracam e anti-humanos “fincam um medo de enxerto,/ suas raízes como facas/ em corpo árido” (p. 10). Está colocado o tema norteador do livro.
A figura da travessia está no barqueiro Caronte, citado explicitamente. Na mitologia grega, ele leva os falecidos ao mundo dos mortos, mas aqui ele “expulsou a máquina/ do mundo pra fora/ do caule da existência/ mais dilacerada”. Há também evocação à travessia quando são citados alguns nomes de poetas perseguidos pelos regimes políticos de suas sociedades, que deitam suas sombras sobre o poema: Maiakóvski (na juventude, atormentado pelos anti-revolucionários, na maturidade, pelos burocratas do novo regime), Dante (expulso de Florença, sua cidade, por seus inimigos políticos), Mandelstam (enviado para um campo de prisioneiros stalinista na Sibéria), e Brecht (aqui evocadas algumas das cidades onde exilou-se, Praga, capital da então Checoslováquia, Svendborg, na Dinamarca, e Lidingö, na ilha homônima na Suécia, “itinerário de uma queda/ infinita rumo ao norte”, p. 20). Corpo e língua ressentem-se face à violência do desenraizamento, em agonia e gagueira.

O texto sugere outros cotejos. Impossível não aproximar os refugiados às muitas etnias de indígenas brasileiros reiteradamente expulsas de suas terras nos últimos mais de cinco séculos quando lemos: “Sim, ainda somos as flechas/ de um arco em riste,/ temos a floresta circulando/ na aorta, essa fúria herdada/ dos dóceis” (p. 14). Mas logo retornamos à Europa, a seus lugares de passagem – Paris e Calais – ao “continente/ com seu extenso perímetro/ de alpes e mortos” (p. 16), ao campo de extermínio de Treblinka, à Chernobyl contaminada e à dura imagem da criança que expulsa de si a infância. Todas essas imagens e esses lugares citados explicitamente marcam a primeira parte do livro, que termina com uma alusão a “A revolução dos viadutos”, de 1937, tela de Paul Klee, artista suíço, reforçando-se assim o contingente de referências às guerras europeias do século XX e à ameaça dos totalitarismos. Os arcos que avançam “como pés” (p. 21) se sobrepõem à imagem dos pés dos refugiados que avançam, da “vida nas frestas” (p. 21), celebrada pelo pintor, pela autora, pelo leitor, pelos que sobrevivem.
“Gente que parte”, a segunda parte, abre com a epígrafe de onde é tirado o título do livro: “Viste os refugiados que caminhavam/ para lugar nenhum, ouviste os carrascos/ que cantavam com alegria./ Tenta louvar o mundo mutilado”, versos do poema Adam Zagajewski, poeta, ensaísta e tradutor polaco, na tradução de João Ferrão e Anna Kuśmierczyk. Na edição do poema que li (publicada no blog da enfermaria6), o último verso dessa sequência começa com “deves”. Esse verbo é repetido três vezes no poema, variando apenas o verbo inicial: “Tenta louvar o mundo mutilado”/ “Tens de louvar o mundo mutilado” e “Deves louvar o mundo mutilado”. Essa repetição me parece apontar para a tensão e a progressão que vai de “tentar”, “ter de” a “dever” louvar o mundo mutilado, tensão evocada por Augustoni quando troca “deves” (o terceiro passo, a obrigação ética do dever) por “tenta”, o primeiro passo, que evoca a dificuldade ou até mesmo a impossibilidade de representar situações-limite como as de violência extrema.

O texto sugere outros cotejos. Impossível não aproximar os refugiados às muitas etnias de indígenas brasileiros reiteradamente expulsas de suas terras nos últimos mais de cinco séculos quando lemos: “Sim, ainda somos as flechas/ de um arco em riste,/ temos a floresta circulando/ na aorta, essa fúria herdada/ dos dóceis” (p. 14). Mas logo retornamos à Europa, a seus lugares de passagem – Paris e Calais – ao “continente/ com seu extenso perímetro/ de alpes e mortos” (p. 16), ao campo de extermínio de Treblinka, à Chernobyl contaminada e à dura imagem da criança que expulsa de si a infância. Todas essas imagens e esses lugares citados explicitamente marcam a primeira parte do livro, que termina com uma alusão a “A revolução dos viadutos”, de 1937, tela de Paul Klee, artista suíço, reforçando-se assim o contingente de referências às guerras europeias do século XX e à ameaça dos totalitarismos. Os arcos que avançam “como pés” (p. 21) se sobrepõem à imagem dos pés dos refugiados que avançam, da “vida nas frestas” (p. 21), celebrada pelo pintor, pela autora, pelo leitor, pelos que sobrevivem.
“Gente que parte”, a segunda parte, abre com a epígrafe de onde é tirado o título do livro: “Viste os refugiados que caminhavam/ para lugar nenhum, ouviste os carrascos/ que cantavam com alegria./ Tenta louvar o mundo mutilado”, versos do poema Adam Zagajewski, poeta, ensaísta e tradutor polaco, na tradução de João Ferrão e Anna Kuśmierczyk. Na edição do poema que li (publicada no blog da enfermaria6), o último verso dessa sequência começa com “deves”. Esse verbo é repetido três vezes no poema, variando apenas o verbo inicial: “Tenta louvar o mundo mutilado”/ “Tens de louvar o mundo mutilado” e “Deves louvar o mundo mutilado”. Essa repetição me parece apontar para a tensão e a progressão que vai de “tentar”, “ter de” a “dever” louvar o mundo mutilado, tensão evocada por Augustoni quando troca “deves” (o terceiro passo, a obrigação ética do dever) por “tenta”, o primeiro passo, que evoca a dificuldade ou até mesmo a impossibilidade de representar situações-limite como as de violência extrema.
Há muitas menções a locais específicos, que foram ou são campos de refugiados. Primeiramente Idomeni. Essa aldeia grega marcada pelos campos onde se aglomeram refugiados do Oriente Médio buscando entrar em países europeus pela vizinha Macedônia convoca “outros espectros/ o rosto dos caídos/ deitados na memória” (p. 26), que “alisam as dobras de um passado/ que desbota no presente” (p. 27).
Mais adiante, o leitor é levado aos campos de refugiados de Vrazhdebna (na Bulgária), Salonikko (ou Tessalonica, na Grécia) e a Frankfurt am Mein, nome de cidade alemã, mas, sobretudo, nome do navio militar alemão de grande porte que, em 2016, navegava no mar Mediterrâneo, participando da operação naval europeia “Sofia” destinada a travar a migração ilegal, capturar passadores e resgatar refugiados náufragos.
Em seguida, O mundo mutilado figura o campo de Vucjak, na Bósnia e Herzegovina, próximo da Croácia, por onde refugiados tentavam passar para chegar aos países mais ricos da União Européia. Vucjak ficava num aterro de lixo, sem água nem eletricidade, foi classificado como desumano pela ONU e finalmente fechado em 2019 por falta de condições mínimas para a sobrevivência humana. Em meio a tanta tristeza, em meio à náusea da desesperança, “uma flor, pelo menos,/ pelo menos uma flor/ aberta/ apesar da fome/ – aquela que nos sobrevive/ e demora” (p. 32), e estranhos frutos, pareados com os do poema do compositor judeu Abel Meeropol contra os linchamentos de homens negros nos Estados Unidos, Strange fruit, cuja versão mais famosa foi cantada por Billie Holiday.

Somos frutos estranhos
presos aos galhos
de uma árvore
que nos repudia

não há refúgio possível
em quintal proscrito

só essa suspensão
esse arame farpado
uma revolta explosiva
ainda que tardia

dentro de nós
é onde macera
o açúcar
o licor
da colheita (p. 30)

A terceira parte do livro, “Antilíngua” é dominada pela questão ambígua da língua estrangeira como nova casa. Ela traz em seu início, em seu meio e em seu fim referências a duas autoras e a um autor que lidaram com a violência da perseguição e com o uso da língua do perseguidor de diferentes formas (e que moraram ou moram na Suiça). Lemos em epígrafe um verso de Mariella Mehr, poeta que Augustoni tem traduzido, nascida na Suíça, residente na Itália e pertencente à etnia Jenisch de ciganos nômades, violentamente perseguida pelo Estado Suíço: “Às vezes canta-me o lobo no sangue/ então eu me aqueço/ numa língua estrangeira.” Na sessão Arcas de Babel da revista Cult, publicada online em 30 de novembro de 2020, Augustoni apresenta algumas de suas traduções de poemas de Mariella Mehr e fornece alguns dados acerca da perseguição de que os Jenisch foram alvo:

Foram entre 600 e 2000 crianças ciganas que de 1926 até 1973 foram subtraídas às próprias mães (que eram esterilizadas) e levadas para institutos, onde recebiam outros nomes para evitar que as famílias pudessem encontrá-las – e depois atribuídas a famílias de camponeses. Mariella Mehr foi vítima dessa violência quando criança e sucessivamente como mãe, quando aos 18 anos teve o seu próprio filho retirado. (2020b, s.n.)

Usama Al Shahmani, nascido em Bagdá, perseguido pelo regime de Saddam Hussein, foge de seu país em 2002 e encontra asilo na Suíça. Autor do romance In des Fremde sprechen die Bäume arabish (“Na terra estrangeira, as árvores falam árabe”, Zurique, Limmat Verlag, 2018, vencedor do prêmio Terra Nova), ele é citado (não nominalmente) na página 56 de Mundo mutilado e amplifica as figurações já citadas em um poema nas páginas anteriores, dedicado a Francesca Cricelli (autora que nasceu no Brasil, cresceu na Itália e na Malásia e atualmente mora na Islândia): a fala que desaba e implode, o signo que é barco, as palavras-rebanho, as línguas que rangem, atritam, se lambem, a lei que parte o nome em dois: “Em cada fruto/ a germinação de um estranho dicionário” (p. 56).
O último poema desta parte termina com a equivalência da língua estrangeira como “língua inimiga”. Seu título, “cette langue qui tue ma langue maternelle”, é um verso da escritora húngara de expressão francesa Agota Kristof que, aos 21 anos, refugiou-se na Suíça para escapar à perseguição soviética. Em entrevista a Carola Saavedra, publicada online na edição 253 do jornal Rascunho em maio de 2021, Augustoni explica o quanto Kristof lhe é cara por mobilizar reflexões sobre o estranhamento diante de uma nova língua, que acaba por “rasurar a lembrança e o uso do húngaro, sua língua materna”. Ouço um pouco dessas reflexões transfiguradas em forma de poema:

A língua inimiga entra
pelos ouvidos e escorre
até a aorta

ali espera

um cão que sabe
o estranho à espreita atrás da porta

nessa língua feita cão
que ladra
e rói o osso
da língua morta (p. 58)

“Memória do inferno” começa com a epígrafe: “Ne pas désespérer des lucioles” (“Não desesperar-se com os vaga-lumes”), do poema Vertu des lucioles de Aimé Césaire, poeta martiniquense que elaborou o conceito de negritude, foi um grande crítico do colonialismo e dedicou-se à carreira política (foi prefeito de Fort-de-France, deputado e fundador de um partido que defendia o socialismo). Césaire foi ainda o redator da lei que garantiu a ex-colônias ultramarinas francesas o estatuto de departamentos franceses de além-mar. Seu verso em epígrafe nos leva aos vaga-lumes recentemente evocados por outro autor martiniquense, Patrick Chamoiseau, que, em 2017, publicou seu Frères migrants, livro-irmão de Mundo mutilado, pois que trata da situação dos imigrantes e refugiados entre 2015 e 2016. Os vaga-lumes de Césaire e de Chamoiseau nos conduzem, por sua vez, ao célebre “ensaio dos vaga-lumes”, de Pier Paolo Pasolini. Publicado antes de seu assassinato, nos anos 1970, esse ensaio trata do fato concreto e metafórico do desaparecimento dos vagalumes na Itália em consequência da marcha predatória de uma política regida pelas leis do mercado e do lucro. Essa política, que Pasolini analisa e denuncia, destrói os recursos naturais, acelera um desequilibrado processo de urbanização e faz parte de uma ampla tendência de coisificação do ser humano. Outros autores retomarão a força concreta e simbólica dos vaga-lumes do ensaio de Pasolini – é o caso de Georges Didi-Huberman, em Sobrevivência dos vaga-lumes (2009).

A epígrafe, portanto, leva o leitor à crítica da conjuntura dessas migrações dentro do esquema do capitalismo global (esse “mundo novo/ que veste/ sem estigmas/ seus velhos disfarces”, p. 65), que perpassa os poemas dessa parte com uma veemência particular. É significativo que ela comece com “aqueles barcos que saem do nada/ até parece que sem razão nenhuma” (p. 63), “os fatos, números/ os números, declinações/ de corpos sempre no plural/ como se não houvesse pessoas/ dentro desses números/ dentro desses corpos/ dentro desses barcos/ dentro desses mortos/ […] só o lucro/ bruto dos bancos/ e o escorbuto/ que voltou com tudo” (p. 83-64), e termine com uma série de três “Diálogos” com três autores provenientes de ex-colônias: Dany Laferrière, haitiano radicado no Canadá, o brasileiro juiz-forano Edimilson de Almeida Pereira, e Patrick Chamoiseau, martiniquense, como já foi dito. O poema em diálogo com o autor de Frères migrants alude a Édouard Glissant: “trata-se de uma poética/ que é também uma política/ da relação […] a migração como aranha/ que tece e destece/ a teia invisível/ e precária/ de um mapa” (p. 85).
Creio ter ficado evidente o quanto O mundo mutilado, desde seu início, convoca vozes migrantes de vários tipos para dialogar com o leitor, com os fatos, e para fazê-los dialogarem entre si. Há pessoas nomeadas ou cuja presença é sugerida, há autores de obras, contemporâneas nossas, há pessoas e grupos já mortos, de outros tempos. Nesta quarta parte do livro, conversamos com o cadáver de Boris Y., “músico, migrante curdo morto em Lesbos em 27.04.2017” abraçado a seu violino: Ninguém nunca saberá que “rios e montanhas, paisagens/ muitas ele carrega no canto/ afiado do instrumento” (p. 72). Conversamos ainda com os escravizados das nações africanas do Cassange e do Monjolo, cujos netos “procuram/ uma terra chamada França” (p. 74) e com Akbar, que atravessa o deserto de Sahara – mar sem água – e caminha até chegar em Sebha, cidade da Líbia situada em um oásis.

O diálogo, cada vez mais amplificado, continua na quinta parte do livro, “Rosa dos ventos”, cuja epígrafe é da poeta estadunidense Sylvia Plath: “We wanted to see the sun come up/ And are met, instead, by this iceribbed ship” (“Queríamos ver o sol nascer/ E, ao invés disso, encontrou-nos este navio gelado”, tradução minha). Ou seja, já no título e na epígrafe desta parte topamos com a noção de desencontro: a rosa dos ventos, esquema tão usado na navegação de todos os tempos, localiza os pontos cardeais e seus intermediários; os versos de Plath apontam para a dor das expectativas frustradas. Essa noção se faz presente desde os primeiros versos desta seção, que iniciam com a figuração da rosa dos ventos como “flor agreste/ que brota e resiste no barco” (p. 89) e de corpos submersos, mortos: “debaixo d’água/ o corpo ondula leve/ é de lã o cabelo/ e de maçapão os ossos/ devorados pelas algas” (p. 90). Apenas os nomes “não afundam,/ flutuam, /nódoas de óleo escuro/ alastrando-se na superfície” (p. 90-91), fundando uma “cidade submersa” (p. 93). Alguns versos depois, faz par com a morte a memória, que traz a lume uma “vila subterrânea” “enquanto cava lenta/ e deseterra o pai, o avô, o irmão/ o tio que veio da cidade vermelha” (p. 96).
“A noite é uma casca aberta/ em Lampedusa” (p. 92). Nesse verso, mais um topônimo marcado pelas trágicas consequências da imigração ilegal ancora o leitor na história: a menção à ilha italiana que se situa no Mediterrâneo, a meio caminho da África e da Europa e, por isso, um destino muito visado pelos barcos que carregam migrantes desejosos de entrar em países europeus. Ou se chega ou se morre, e se a chegada é bem sucedida, ela parece ser o inicio de um futuro incerto, numa língua desconhecida que será também uma língua nova – “on ne parle pas ligali” (p. 94), “não se fala lingala” (língua bantu que serve de língua franca na República Democrática do Congo, também falada na República do Congo, em Angola e na República Centro-Africana).
É a essa chegada e a essa língua nova que somos levados “Novo ensaio sobre a chegada”, uma espécie de coda. Aqui é citada Ventimiglia, cidade italiana que faz fronteira com a França, outro lugar por onde tentam passar muitos migrantes, viajando de trem ou até mesmo a pé, às escondidas, por uma estrada montanhosa. No poema final, que termina com uma imagem duríssima que deixo para o leitor descobrir, um enunciador em primeira pessoa olha “todo dia pela mesma janela/ e o mesmo lago me entrega/ uma paisagem cada vez mais distante/ […] Do outro lado da cortina/ há o redemoinho da história/ sabe-lo é aceitar/ o veredito da insônia” (p. 112).

Ilustração de Ana Cláudia Romano Ribeiro

Concret_s como frutos nítid_s como pássaros (VI): Casa de Gigante


Fotografia: Raquel Caetano Lopes @vivertodososdiascansa

“Concretos como frutos nítidos como pássaros” é uma série dedicada à divulgação da poesia portuguesa contemporânea no Brasil.

Leia os posts anteriores da série.

Parte I: “Explicação, Miguel-Manso” [fevereiro 2021].
Parte II: “Regina Guimarães, Margarida Vale de Gato, Maria Brás Ferreira” [março 2021].
Parte III: “Poesia Expandida. Fernando Aguiar, Teresa M. G. Jardim, Ricardo Tiago Moura, Alexandre Francisco Diaphra e Marta Bernardes” [maio 2021].
Parte IV: “Volta para Tua Terra (Urutau 2021)” [junho 2021].
Parte V: “Patrícia Lino conversa com Tiago Alves Costa” [agosto 2021].




A Casa

A Casa de Gigante, projeto integrado na Associação Cultural Mandriões no Vale Fértil, é gerida pelo poeta português Miguel-Manso e acolhe a R.E.Fazenda, uma residência de escrita para poetas portuguesas(es) e de outras nacionalidades que, durante julho, viajam até Vale do Pereiro (Castelo Branco, Portugal). Com apenas duas edições, entre 2019 e 2020, a R.E.Fazenda já acolheu nomes como Margarida Vale de Gato, Angélica Freitas, Mariano Marovatto, Inês Francisco Jacob, Andreia C. Faria, Mariano Alejandro Ribeiro, André Tecedeiro ou Sónia Balacó.

Além disso, a Casa recebe, a par deste evento anual, poetas, escritoras(es), músicas(os) e artistas durante o resto dos meses e ocupa, no contexto literário português, um espaço singular ao contrariar, pelo propósito coletivo e dialogante com que se apresenta, o individualismo e a solidão tradicionalmente associadas ao processo de escrita. A dimensão coletiva em que a iniciativa assenta parece também não poder desconetar-se da relação da poesia com as outras artes que define os perfis de algumas e alguns convidadas(os), o que, por sua vez, vai de encontro à obrigação monodisciplinar que assombra ainda o ofício da(o) poeta em Portugal.

As atividades da Casa podem ser acompanhadas na sua página Instagram.





Conversa entre Miguel-Manso e Patrícia Lino + depoimentos de Margarida Vale de Gato, Mariano Marovatto e Inês Francisco Jacob

Patrícia Lino: Começo pelos nomes. Casa de Gigante e R.E.FAZENDA. Como chegaram até eles? 

Miguel-Manso: Gigante é uma alcunha/ apelido de família e que vem do tempo das invasões francesas. Assim eram chamados aqueles que ergueram esta casa, no princípio do século XX. Sabe-se que não eram pessoas de grande estatura física, pelo que depreendemos que os alcunhados foram deixando de estar à altura do próprio epíteto e aos descendentes, a quem o edifício chegou, ocorreu-lhes recuperar o nome, iludindo também eles a própria falta de tamanho.

R.E.FAZENDA acomoda o título de uma canção do Gilberto Gil à função de nomear uma residência de escrita que acontece longe dos centros urbanos. Para esta residência temos convidado autoras e autores de poesia (lato sensu) a vir escrever – e não-escrever – para cá. Mais que a pertinência do convite, a localização da casa torna a coisa mais ou menos irrecusável.

PL: A R.E.FAZENDA teve, até à data, duas edições. Trata-se de um projeto recente e, por isso mesmo, imagino que vá mudando consideravelmente de edição para edição. Poderias descrever em detalhe estas duas primeiras edições?

MM: Este projecto de residências de escrita, pensado para poetas, partiu, em primeiro lugar, da necessidade pessoal de quem dirige a associação de não perder o contacto físico e afectivo com aquel_s que, como ele, estão a escrever poemas agora. Sobretudo depois de ter abandonado há muito o círculo onde esses encontros acontecem com maior frequência. A ideia, contudo, nunca foi a de convidar apenas _s amig_s mas sobretudo aquelas e aqueles com quem menos se relaciona, quer seja por simples desencontro no caminho ou porque estas e estes vieram a publicar anos depois formando, pela diferença de idades, senão uma nova geração, pelo menos uma fornada mais recente.

Porém, suprido esse primeiro impulso egoísta, depressa a coisa vem tomando caminhos mais estimulantes e promissores. Partiu-se da ideia simples de chamar 4 poetas para habitarem a Casa durante 4 a 5 dias a cada Julho. Sem lhes impor qualquer plano rígido de trabalho mas com tarefas a serem cumpridas em conjunto, desde cozinhar, nadar, apanhar abacates, caminhar na floresta, ler, conversar. Assim foi o encontro de 2020, já em plena pandemia – mas numa altura em que nos pareceu possível realizá-lo, ponderada a realidade que à data se vivia. Terminada a residência, os poemas foram chegando por correio electrónico sendo, em geral, impressões dos dias vividos aqui e da paisagem local. Estiveram presentes o André Tecedeiro, a Andreia C. Faria, a Margarida Vale de Gato e o Mariano Alejandro Ribeiro. Aproveitámos também, servindo-nos de ignição, o poema que a poeta indiana Sampurna Chattarji escreveu (e a Margarida traduziu) sobre a Casa, aquando de uma sua visita uns tempos antes.  

No encontro deste ano decidiu-se ir um pouco mais longe. Não só mantivemos a residência física (a vacinação global em curso aliviou em muito a pressão) como beneficiámos igualmente do que se aprendeu e incorporou durante os vários confinamentos: a banalização da videoconferência; neste caso quisemos chamar-lhe A Videoconferência dos Pássaros. Aproveitou-se essa possibilidade e vieram juntar-se ao encontro três poetas que não vivem perto. Assim, na Casa, tivemos a Inês Francisco Jacob, o Pedro Barateiro (substituindo o António Poppe, que não pôde vir) e a Sónia Balacó. Na tela, internacionalizando a residência, contámos com a Angélica Freitas, em Berlim, o Mariano Marovatto, no Rio de Janeiro e, desde Los Angeles, Califórnia, a poeta que me faz estas perguntas.

A chamada do Pedro, cujo trabalho se insere no domínio das artes plásticas ou visuais responde a uma necessidade, entretanto adquirida, de questionar a ideia logocêntrica de poema. O Pedro não veio, pois, colorir, ilustrar ou complementar coisa nenhuma. Convidámo-lo como poeta e como poeta pedimos-lhe que fizesse o que já faz. Mais à frente podemos convidar, partindo de premissa semelhante, bailarin_s, músic_s, cineastas, etc. Ao contrário do que aconteceu no primeiro encontro, desta vez os poetas decidiram pensar numa forma de trabalhar balizados por uma ideia surgida e construída em conjunto. O resultado destas e das próximas residências será publicado pela própria associação através daquele que será o seu futuro departamento editorial, a Gigante, pequenas edições.     



PL: A colaboração ou o princípio da coletividade está na base de um projeto como a R.E.FAZENDA e isto vai, obviamente, de encontro ao individualismo que circunda o perfil e o ofício tradicionais da(o) poeta. A própria ideia de intermedialidade que define os trabalhos de muitas(os) as(os) que participaram, sobretudo, na segunda edição também põe em causa a monodisciplinaridade do que é produzido, em termos gerais, em Portugal. Não há, na verdade, e a longo prazo, como separar as duas.

MM: Não apenas a residência de escrita mas todo o projecto associativo quer guiar-se por esse princípio de colaboração e diversidade. É importante ir derrubando as pequenas edificações egoístas (a começar pelas próprias) e no seu lugar ver instalar-se um sistema colaborativo, de aprendizagem e fazeres concordantes e discordantes. Com estes encontros e com o que possa surgir deles não nos interessa eternizar a figura do poeta ensimesmado, fechado sobre a página em que escreve. Parece-nos muito mais interessante colocar pessoas em contacto, mesmo (ou sobretudo) que não pertençam ao mesmo grupo estético ou cujo trabalho não imaginaríamos agrupável.

 

a casa: radiante e ordeira de um lado do outro o acaso empedrado o reboco um soluço num hiato um poço a que saberás não resistir em nome da subsequente transformação.

o projeto: sentinela para re-clamar o cultivo extensivo na província, mediante empenho do feitor e de um bando de mutualistas aka mandriões aka grupo heteróclito de curtidos flibusteiros para fazer t-shirts, filmes, taberna, edição e manufatura, massa eco-crítica, trabalhos de reconstrução, pintura e fotografia, entre outros, ramificando-se em:

gigante (peq. edições): intervenções de pormenor cirúrgico para alargar o campo a/e quem o trabalha;

residências espontâneas: por exemplo, uma cravista a “atirar Bach a Paredes” numa escola desativada de um lugar entre a floresta e o risco de incêndio;

re-fazenda: alambique de vasos comunicantes de poesia a ocupar o espaço e as vastas margens do que cresce no interior e se abre em comum, do que se mostra aos vizinhos e do que não, dos que imaginam paisagens e dos que vão entre outros.

MARGARIDA VALE DE GATO


PL: Como descreverias o processo destes encontros, no caso dos pássaros, e do convívio diário e quase permanente entre as(os) que ocupam fisicamente a casa?

MM: São processos diferentes. Com os poetas hospedados na casa as tarefas acabam por viver da espontaneidade e do descomprometimento, ninguém se obriga a nada. Essa é a forma que eu julgo ser a melhor, tendo em conta o pouco tempo de residência e o contexto estival em que ela se faz. Já com a “conferência dos pássaros” sente-se a necessidade de ter estabelecidas algumas diretrizes que justifiquem o aparato. A convergência dessas duas realidades parece-me ser o mais desafiante.

PL: E apesar dessa liberdade, as(os) envolvidas(os) na residência assumem o compromisso de escrever segundo um tema ou projeto coletivo como aconteceu, respetivamente, na primeira e segunda edições.

MM: Na primeira edição, não havendo tema previamente imposto ou acordado, o que aconteceu foi que os textos que foram chegando davam em geral notícia da própria experiência na Casa durante aqueles dias: descrições transfiguradas da sua arquitectura, a relação dos bardos com os bichos, com esta paisagem e circunstância. Guardamos esses poemas com muita vontade de os editar. Mas não assim, desacompanhados. Esperaremos o fruto de mais edições e, juntamente com o registo fotográfico que as acompanha (as fotografias da Raquel Caetano Lopes – @vivertodososdiascansa – que esteve e estará sempre presente) havemos de ir publicando estes trabalhos.

Na mais recente edição, os encontros online serviram para urdir a ideia, aí sim, de um projecto colectivo que está em curso (há sempre vida depois destes encontros) e sobre o qual pouco interessará revelar, sob pena de interferir com a surpresa e a própria natureza reservada do intento. Veremos o que surgirá.

 

Não há nada lá, mas é o melhor nada que há, é o que repito sobre a Sertã. Estive por lá algumas vezes, na Casa de Gigante, inclusive antes do Gigante tornar-se o grão diretor e mascote da casa. Nadei naquela ribeira no meio da estrada espiralada, nadei também no meio dos fartos montes de eucaliptos (antes e depois das terríveis queimadas), dei de comer às galinhas (que Nossa Senhora de Fátimas as tenha), li em voz alta e também escrevi poemas, senti muito calor e também muito frio, compus uma trilha sonora inteira (que também desapareceu, como as galinhas) e até comi feijoada brasileira na Casa de Gigante. Meu amigo Miguel Manso esteve sempre por lá para nos receber a todos. Este ano, porém, foi a primeira vez que visitei a Sertã pelo ecrã/tela do computador. Como sabemos, tudo hoje é feito pela tela do computador, principalmente se você é um trabalhador das artes. E também todos nós já temos muita fadiga dos ecrãs/telas e fadiga de falar sobre a fadiga dessa mediação com o outro através de ecrãs/telas. Mas, o final de semana na Casa de Gigante, participando da segunda edição da residência de escrita R.E.FAZENDA, sinceramente, foi diferente de todas as experiências mediadas pelo ecrã/tela desde o início da pandemia. A Teleconferência dos Pássaros foi extremamente inventiva e estimulante. Retomei os tempos da infância no recreio da escola, a inventar uma brincadeira inédita, ou ainda, experimentando personagens impossíveis nos exercícios instantâneos de improvisação teatral, fonte de criação e prazer na adolescência. Mesmo cada um no seu quadradinho pixelado pelo Zoom, carregando nas costas um fuso-horário distinto do globo terrestre, conseguimos com alegria, reunidos pela antena parabólica da Casa de Gigante, criar uma língua, um grupo, um jogo em comum. Em tempos tão desacompanhados, de imediato, e traumáticos, a longo prazo, estabelecemos os rastilhos de toda literatura ao sentarmos diante dos outros: ouvir as histórias para criar as fantasias e torná-las historias. E assim sucessivamente.

MARIANO MAROVATTO


PL: Além de assentarem tanto no perfil intermedial de algumas e alguns e partirem de uma ideia de criação coletiva, há também, já que as(os) poetas se juntam, um propósito ou background político nestes encontros?

MM: Seria político (mas tristemente) mesmo se não houvesse propósito político algum. Nisso julgamos não estar iludidos. O que queremos é que todo o projecto associativo – e não só estas residências – participe dos debates progressistas, ainda muito silenciados num país como Portugal, sobretudo fora da bolha urbana, mas também aí. Através de uma aprendizagem e prática partilhadas – ouvindo, sintonizando as minorias (ou “as maiorias minorizadas”), e colocando a tónica na diversidade e na sua representatividade – a nossa posição é a de buscar o desconforto de quem descobre o tamanho do próprio privilégio e se coloca, aceitando-o, no deslocamento. Assumir o “risco do deslocamento”, como explica Linn da Quebrada num debate recente. 

PL: Este propósito político estende-se também à Casa como um todo, inclusive às outras atividades que, para além da R.E.Fazenda, acontecem no espaço durante o resto do ano. A última residência foi, por exemplo, a da cravista Joana Bagulho. 

MM: Esta associação cultural está sedeada na zona mais envelhecida da Europa. Julgamos decisivo que se ocupem estes espaços desertificados e neles se façam duas coisas: 1) não deixar que se perca (para que possa continuar a ser mexido e transformado) um conjunto de saberes e de memórias colectivas relacionados com as gentes e as paisagens (físicas e incorpóreas); 2) proporcionar um contacto permanente e continuado com algo que confronte certos ideários populistas e neofascistas que grassam, sem nenhuma graça e com bastante força, por territórios onde a massa crítica empobreceu. Dizer isto, desta forma, poderá parecer arrogante, prepotente até, mas diante de que se nos afigura não nos sobra muito tempo para a prática da falsa modéstia. A Joana veio tocar Carlos Paredes (1925-2004), um músico popular, comunista de velha cepa, e cujo repertório ela tem vindo a transcrever para o seu instrumento. Liturgias à parte, há quantos séculos não soava um cravo por estas paragens?

PL: E, dentro desse movimento intelectual e comunitário de resistência, que projetos acolherá a Casa nos próximos tempos?

MM: Ainda que a associação tenha já seis anos de existência, a sua acção e integração tem sido até aqui preguiçosa. Temos, durante este tempo, colaborado em parcerias com agentes locais e recebido artistas em contexto de residência de trabalho. Isso prosseguirá. Mais recentemente decidimos assumir o projecto com outro empenho e dedicação. Além do trabalho contínuo naquilo que é a melhoria dos espaços físicos do edifício e a sua adaptação às necessidades da associação (a casa é antiga e de tamanho considerável, é um esforço diário salvá-la da ruína) há também um trabalho importante de integração do projecto numa rede de outros colectivos semelhantes a nível local, nacional e internacional. E a busca de financiamento para o que queremos fazer. A criação de uma editora ocupar-nos-á nos próximos meses, ainda que façamos já no dia 18 de Setembro, no encontro Poesia, Um Dia, em Vila Velha de Ródão, uma primeira apresentação pública – e platónica – do que pretendemos ser enquanto editores. No mesmo festival de poesia será apresentando o primeiro filme produzido pela associação: a longa-metragem documental Passagem dos Elefantes, de João e Miguel Manso, com António Poppe e Bárbara Assis Pacheco. O mais será música, que confirmamos ser uma maneira privilegiada de estreitar laços com a comunidade, organizando pequenos recitais com músicos e instrumentos menos óbvios, como foi com o cravo e será em breve com outros.

   

Há casas que surgem à nossa frente como se fossem pessoas. Falam connosco, escutam-nos, beliscam-nos quando assim tem de ser, respiram a nosso lado, alteram a nossa visão sobre as paredes e para lá delas. Estive na R.E.FAZENDA como se estivesse em minha casa, sem filtros, sem receio do absurdo, sem limites para os ecos e as ideias frescas.
Devido aos oceanos, às fronteiras inventadas, a este atrevido vírus, partilhei o momento ao vivo com o Miguel, a Sónia e a Raquel, mas quebrámos essas barreiras quando cruzámos vozes e sotaques e chegámos às palavras da Patrícia, da Angélica, do Pedro e do Mariano.

Respirámos, nesse curto espaço, nesse curto tempo, como uma pequena irmandade, firme e convicta, e escolhemos a demanda de não cruzar os braços. O jet-lag informal dos grandes abismos, que nos viram do avesso, tem muito que se lhe diga. Sair da Sertã não se tornou real quando apanhei o comboio para Lisboa. Demorou mais. Ainda estou a sair de lá. Gritar, mesmo que em sussurro, já é gritar. E agora é preciso ir e é preciso voltar.

INÊS FRANCISCO JACOB

Óssip Mandelstam, por Guilherme Zani Teixeira

Óssip Emilevitch Mandelstam (1891-1938), poeta, ensaísta e tradutor, publicou três coletâneas de poesia em vida: Камень [Pedra], em 1913, obra que mais se aproximou da proposta do acmeísmo, movimento iniciado em 1911 e que buscava responder aos excessos do simbolismo, tópico que já vinha sendo debatido há quase uma década; Tristia, em 1922, com um título que faz alusão a Ovídio, poeta com o qual se identifica em diversos poemas; e 1921 – 1925, seção de poemas inéditos que integra suas obras coletadas em 1928. Seus poemas da maturidade, escritos entre 1930 e 1937, não chegaram a ser publicados em livro em vida, alguns foram publicados em periódicos e muitos guardados de memória por sua esposa, a escritora Nadezhda Iakovlevna Mandelstam (189 -1980), e vieram a público apenas décadas mais tarde.

 Os poemas aqui apresentados, ainda de sua primeira fase, partem de associações visuais, sonoras e históricas, ligando passado e presente, criações da natureza e criações humanas, memória e invenção, o particular e o universal, a eterna repetição dos mesmos acontecimentos e temas. Busquei manter seu rigor formal característico através de rima, métrica e ritmo regulares.

Guilherme Zani Teixeira

*

На бледно-голубой эмали,
Какая мыслима в апреле,
Березы ветви поднимали
И незаметно вечерели.

Узор отточенный и мелкий,
Застыла тоненькая сетка,
Как на фарфоровой тарелке
Рисунок, вычерченный метко,

Когда его художник милый
Выводит на стеклянной тверди,
В сознании минутной силы,
В забвении печальной смерти.

1909

No suave azul do esmalte
Que abril nos traz à mente,
Bétulas em toda parte
Enoitaram sutilmente.

A afiada e fina rama,
Rija rede delicada,
Qual pintada porcelana
Com gravuras bem traçadas,

Quando o seu artista inscreve
Na abóbada de vidro,
Ciente do vigor do breve,
E da morte esquecido.

1909

£

О временах простых и грубых
Копыта конские твердят.
И дворники в тяжелых шубах
На деревянных лавках спят.

На стук в железные ворота
Привратник, царственно-ленив,
Встал, и звериная зевота
Напомнила твой образ, скиф!

Когда, с дряхлеющей любовью
Мешая в песнях Рим и снег,
Овидий пел арбу воловью
В походе варварских телег.

1914

Os cavalos e o som de seus cascos
Tempos rudes e simples suscitam.
Varredores em gordos casacos
Pelos bancos de tábua cochilam.

O porteiro — indolente-real —
Veio à porta de ferro à batida,
Seu bocejo, qual de um animal,
Recordou-me tua imagem, ó cita!

Quando o amor seu já envelhecido
Misturava em canções Roma e neve,
A carroça cantou, lá, Ovídio,
Onde os bárbaros tinham charretes.

1914

£

Золотистого меда струя из бутылки текла
Так тягуче и долго, что молвить хозяйка успела:
Здесь, в печальной Тавриде, куда нас судьба занесла,
Мы совсем не скучаем — и через плечо поглядела.

Всюду Бахуса службы, как будто на свете одни
Сторожа и собаки — идешь, никого не заметишь —
Как тяжелые бочки, спокойные катятся дни:
Далеко в шалаше голоса — не поймешь, не ответишь.

После чаю мы вышли в огромный коричневый сад,
Как ресницы на окнах опущены темные шторы,
Мимо белых колонн мы пошли посмотреть виноград,
Где воздушным стеклом обливаются сонные горы.

Я сказал: виноград как старинная битва живет,
Где курчавые всадники бьются в кудрявом порядке.
В каменистой Тавриде наука Эллады — и вот
Золотых десятин благородные, ржавые грядки.

Ну, а в комнате белой как прялка стоит тишина.
Пахнет уксусом, краской и свежим вином из подвала.
Помнишь, в греческом доме: любимая всеми жена —
Не Елена — другая — как долго она вышивала?

Золотое руно, где же ты, золотое руно?
Всю дорогу шумели морские тяжелые волны,
И покинув корабль, натрудивший в морях полотно,
Одиссей возвратился, пространством и временем полный.

1917

Entornado o mel dourado de um frasco era vertido
Tão viscoso e lento, que a nossa anfitriã falou:
“Cá, na triste Táurida, onde nos trouxe o destino,
Não sentimos tédio” — e por cima dos ombros olhou.

Ritos báquicos à volta, como se cães e vigias
Fossem todo o mundo — andas e ninguém tu vês à frente —
Sossegados, quais barris pesados, vão rolando os dias,
Longe, na cabana, vozes: não respondes, não entendes.

Findo o chá, nós ao jardim castanho imenso caminhamos,
Nas janelas as escuras persianas como cílios,
A olhar videiras por colunas brancas nós passamos,
Onde, sonolentas, banham-se as montanhas com ar vítreo.

A videira, eu disse, é como uma batalha antiga viva,
Onde em crespa legião combatem crespos cavaleiros.
Na rochosa Táurida o saber da Hélade — à vista,
Oxidados, nos dourados acres nobres, os canteiros.

E, no quarto branco, como roca o silêncio assenta.
Cheiro de vinagre, tinta e vinho fresco do porão.
Em um grego lar a esposa por todos amada, lembras —
Não Helena — outra — há quanto tempo ela bordava então?

Onde estás, tosão de ouro? Onde estás, tosão dourado?
A viagem toda as ondas com seu marulhar por perto,
E, o navio abandonando, quadro pelo mar roçado,
Odisseu eis que voltou, de espaço e tempo assaz repleto.

1917

£

Сестры тяжесть и нежность, одинаковы ваши приметы.
Медуницы и осы тяжелую розу сосут.
Человек умирает. Песок остывает согретый,
И вчерашнее солнце на черных носилках несут.

Ах, тяжелые соты и нежные сети,
Легче камень поднять, чем имя твое повторить!
У меня остается одна забота на свете:
Золотая забота, как времени бремя избыть.

Словно темную воду, я пью помутившийся воздух.
Время вспахано плугом, и роза землею была.
В медленном водовороте тяжелые, нежные розы,
Розы тяжесть и нежность в двойные венки заплела.

1920

Irmãs ternura e gravidade, em seus traços semelhantes.
As vespas junto às operárias sugam a pesada rosa.
Um homem morre, arrefece a areia antes escaldante
E posto em uma escura maca o sol de ontem vai embora.

Ah, como são as teias ternas, quão pesados são os favos,
É tão mais leve erguer a pedra que teu nome repetir.
E resta apenas uma coisa que me deixa angustiado:
Questão dourada: posso eu do tempo — fardo — me eximir?

E do ar turvado eu bebo como se ele fosse água escura.
O tempo arado com charrua, e a rosa como terra.
Em lento turbilhão as rosas gravidade e ternura,
Trançadas em guirlandas duplas as pesadas rosas ternas.

1920

£

Лишив меня морей, разбега и разлета
И дав стопе упор насильственной земли,
Чего добились вы? Блестящего расчета:
Губ шевелящихся отнять вы не могли.

1935, Воронеж

Depois de me privar dos mares, do embarque e do arranque
E dar aos pés a violenta terra por fundamento,
O que vocês ganharam? Uma observação brilhante:
Dos lábios não puderam arrancar o movimento.

1935, Vorônezh

*

Guilherme Zani Teixeira nasceu em São Paulo (SP), em 1989, e é professor de português. Graduado em Letras Português/Russo pela Universidade de São Paulo, está traduzindo a poesia de Óssip Mandelstam, tema de seu mestrado, em curso.

“A mazela do mundo”: Ilessi compositora

Dama de Espadas - Album by Ilessi | Spotify

Ilessi é, sem sombra de dúvidas, a cantora mais poderosa da geração, junto com Juçara Marçal. Dito o ponto central, vamos às novidades; no caso, o disco novo que acabou de lançar pela Rocinante agora em outubro: Dama de espadas. Em sua trajetória de mais de vinte anos de carreira ela contava com apenas três álbuns gravados, Brigador – Ilessi canta Pedro Amorim e Paulo César Pinheiro, de 2009, Mundo afora – Meada, de 2018 depois de um longo intervalo de nove anos, e Com os pés no futuro – Ilessi e Diogo Sili interpretam Manduka, de 2020, no começo deste ano. Nos três casos, Ilessi interpretava canções alheias(dois dos álbuns eram dedicados especificamente a compositores, Pedro Amorim & Paulo César Pinheiro em um, Manduka no outro). Já este quarto álbum é o primeiro momento em que ela partilha seu trabalho renomado de intérprete com suas próprias composições, para mostrar que tem vigor também na criação de canções.

Seria o caso de um dia conversarmos a sério sobre a tendência da canção brasileira em separar o espaço masculino para a composição e o feminino para a interpretação, salvo casos raros e fortíssimos, tais como Dolores Duran, Maysa, Chiquinha Gonzaga, Marina Lima, Adriana Calcanhotto e outras. Seria mesmo o caso de revermos essa cisão que tende a privilegiar o abstrato mental para o masculino e o corpóreo irracional para o feminino (um assunto debatido sob o viés filosófico pela italiana Adriana Cavarero em Vozes plurais, por exemplo), porque tivemos e temos compositoras de mão cheia, uma tradição na qual Ilessi agora se insere sem nada a dever, mas isso demandaria muito mais espaço, então sigo para o disco.

Aqui temos onze faixas novas mostrando essa faceta autoral da cantora. Em dois momentos Ilessi se apresenta como autoria exclusiva, como é o caso de  “Oração pro Gil”, uma canção sem palavras, muito impactante como força de cura para o mestre tropicalista, peça composta em 2016, quando Gil estava bastante doente e correndo risco, e aqui gravada com participação de Gabi Guedes e Kainan do Jêje na percussão. É também o caso de “Eu não sou seu negro”, acompanhado do forte texto James Baldwin lido por ela, um trecho autobiográfico em que o escritor negro norte-americano tece sua crítica ferina ao racismo que dividia e divide os Estados Unidos, uma violência que se desdobra para o imaginário brasileiro.

No entanto, a maior parte do álbum é feita de parcerias. Duas delas com Thiago Amud, nome dos mais fundamentais na cena contemporânea, figura de tensionamento estético e ético fora de série, seja como letrista, compositor ou arranjador: uma delas é a angulosa canção “Lírico”, que tensiona dor e prazer; outra é a balada amorosa “Desperto de você”. Amud, aliás, foi o arranjador de Mundo afora – Meada, disco solo anterior de Ilessi.

Outra parceria é com Iara Ferreira, no caso do hino-blues feminista “Dama de espadas” que dá nome ao álbum. Trata-se de uma peça que já vinha circulando há mais tempo, em performances em voz e violão. A letra cria já a persona forte da performer:

Compreendo perfeitamente
As razões que ele teve

Mulheres assim
Que vivem na noite
A cheirar sereno
E a rondar botequim

São mulheres
Que trocam de macho
Qual trocam de roupa

Têm opinião
Sobre quase tudo
Carregam no ventre
A mazela do mundo

Ele foi um perfeito lorde
Mas ficou de bode com a sua lady
Na hora da cama
Essas damas de espadas
Matam o homem de sede

Eu sei que afinal
Ele não teve sequer qualquer culpa
Sangrou no punhal
Bebeu a cicuta
Do amor de mulheres assim
Iguaizinhas a mim

O movimento textual, reforçado pelas inflexões da voz de Ilessi, é certeiro: a começar por uma aparente identificação com o homem assustado com o tipo de mulher, o canto vai modulando até encontrar-se no ponto oposto, do da própria mulher que troca de macho, tem opinião, que na hora da cama matam um homem de sede. Ridículo sai o macho amedrontado com o fim do imaginário do sexo frágil.

Outras parcerias são com Jorge Andrade, na lírica “Mar de amar”, com  Gonzaga da Silva na dissonante e perturbadora “Vagalume” (que se inicia com os versos “foram-se os dedos / ficaram os anéis”) e com Simone Guimarães,  na sutil e complexa “Brejeira flor”. Eis a letra de Guimarães, musicada por Ilessi e que já tinha sido apresentada em vídeo ainda em 2014, como ensaio sobre o disco Mundo afora, da qual ela acabou ficando de fora:

É da terra seca que nasce essa linda flor
Estrada de calanga minhota, mato cerrado.
Um céu de toda cor

Solidão, estrela, caminho, música e amor.
A vida vai surgindo baixinho no coração
Feito a voz de um cantor

Araticum
Quem te plantou?
Foi o Conde, na Bahia?

História é tanta, menina, que tenho pra contar.
Na vida não falta alegria e fatos comuns dos dias.
Faz de conta que eu sou uma sereia do Oceano, vim de longe!
Faz de conta!

E se lhe vier a tristeza
E você ficar sem caminho, procure os meus olhos
Ouça uma canção, faça uma prece.

No mínimo curioso perceber que compositora Ilessi já era há tantos anos, revelando-se pouco a pouco, até chegar na maturidade expressiva do presente. Talvez possamos dizer que seu modo de escolher composições de outros era já sinal de sua própria poética composicional. Isso se pode perceber pelas três obras alheias que estão no disco: uma é “Vivo ou morto”, de Thiago Thiago de Mello e Edu Kneip, que já tinha sido gravada em vídeo em 2016, mas também ficou de fora de Mundo afora, para agora reaparecer com maior maturidade interpretativa, e “Ilê de Luz”, de Suka, que fecha o disco com o refrão certeiro:

Negro é sempre vilão
Até meu bem provar que não
É racismo meu? Não.

Dama de espadas é, portanto, um disco todo tensionado pelas discussões do presente no Brasil, as questões de gênero, o feminismo, o recrescimento dos movimentos negros. Grande parte disso é lido num tom de batalha, porém com um refinamento reflexivo e estético muito acima da média. É o caso da terceira interpretação para obra de outrem neste disco, falo da genial “Ladra do lugar de fala”, composição Thiago Amud, com versos irônicos e violentos que cabem perfeitamente na performance de Ilessi, como se fossem compostos por ela própria:

Eu sou
Eu sou a ladra do lugar de fala
Da ladra do lugar de fala    
Da preta preta suburbana
Mana barraqueira

Eu fui
A voz do samba, não serei sua cloaca
Lá vai um bloco deitado na maca
Atravessando a Lapa
Na manhã da quarta-feira

Vem cá
Me dá um beijo, meu fascista preferido
Vem cá
Me dá um beijo, meu feitor, meu inimigo
Que eu quero ver o mundo velho se acabar
De tanto não saber amar

Eu sou
Eu sou quem lacra quem me simulacra
Pra me perpetuar escrava
De sua alforria lavrada só de brincadeira  

Eu fui
A voz do bamba, não serei sua mordaça          
Tem branca insossa arrumando arruaça    
Mas eu não sou dessas
É outra a minha bandeira

Por que
Sinto saudade tão doída do futuro?
Por que
Sinto vontade de escutar a voz do mudo?
Acho que espero um novo samba se ouriçar
Na hora em que Zambi voltar

Eu sou
Eu sou Dandara e fui psicografada
Por um branco um pouco pancada
Que rouba o meu lugar de fala
E me revela inteira
Eu sou
A flor da nova abolição
Na manhã brasileira

A complexidade do conceito de lugar de fala, hoje tão em voga, é aqui reapresentada em suas contradições, que talvez sejam mais notáveis na última estrofe, quando ela se apresenta como uma Dandara piscografada por um branco pancada que, num só gesto, rouba seu lugar de fala e a revela por inteiro.Daí que ela própria possa ser “a ladra do lugar de fala da ladra do lugar de fala”, num jogo de furtos e encenações que podem construir subjetividades entrelaçadas.     

Essa canção de Amud já vinha sendo veiculada na voz de Ilessi desde abril de 2019 como videoclipe, com roteiro e direção de Paulo Almeida. Numa das cenas, vemos a placa com o nome “Rua Marielle Franco” na rua onde morava o então governador do Rio de Janeiro Wilson Witzel. Por causa de seu viés político, o clipe foi censurado pela Rede Globo, quando deveria ser apresentado no canal Bis. A reação deprimente da rede televisiva diante da força da música e do clipe nos lembra de pelo menos duas coisas: em primeiro lugar, vivemos mesmo tempos sombrios, num flerte cada vez mais descarado com o autoritarismo desbragado e genocida; em segundo, que a arte tem e terá sempre ação de impacto no enfrentamento do horror. Ilessi é das vozes que fazem o enfrentamento ser um verdadeiro palco de modos de vida possíveis, sem cair no puro lamento, mas aceitando a arte como lugar da disputa do presente.

Dama de espadas foi gravado ao vivo em estúdio com um grupo basicamente montado como banda de rock, com Ilessi na voz, Elísio Freitas e Vovô Bebê nas guitarras (e também na produção musical), Guilherme Lírio no baixo e Uirá Bueno na bateria, o que garante certa crueza orgânica no resultado final que também dá um ar de improviso, quando sabemos que tudo vem sendo gestado, maturado minuciosamente na voz de Ilessi, há alguns anos. É, de fato, um álbum de quarentena, mas aberto ao que vinha de antes e se anuncia para depois, que, por apostar em composições complexas mas de realização sem grandes roupagens nos arranjos, nos faz ficar imersos no ponto mais singular da interpretação de Ilessi: sua agressividade impressionantemente técnica. Quero dizer com isso que Ilessi, apesar de demonstrar em vários momentos uma verdadeira virtuose vocal, é capaz de fazer algo raro, explodir como corpo cantante e visceral, jocoso, extramusical.

Esse vigor performático, aliado à complexidade e refinamento das composições, pode aproximar à primeira vista Ilessi de Elis Regina ou de Gal Costa na época de A todo vapor , por exemplo; e a comparação não seria nada vã. Porém é importante frisar que o diálogo, que se apresenta sobretudo no blues da primeira faixa, logo vai dando lugar a outros modos de abordagem dessa violência vocal, que abrem lugar pra pensarmos também as contribuições de outras cantoras, como Cássia Eller, para podermos pensar as poéticas da voz brasileira hoje.

Ilessi é, portanto, uma cantautora hoje desbravando as possibilidades da canção no Brasil; . Seja em parcerias singulares, seja na escolha de músicas alheias que podem imediatamente aceitar sua cocriação performática, seja nas – ainda poucas – peças que compõe sozinha. Essa versatilidade é também o que a marca ao longo dos anos, pois cada um de seus discos parece reorganizar do zero a tradição em que se insere. Nesse sentido, a crueza da Dama de espadas faz contraste com a singeleza de voz e violão com Diogo Sili para cantar obras de Manduka, mostrando as várias frentes de uma mesma figura. Ilessi segue firme, espada de fogo na mão e olhar duro para o presente. É realmente uma potência da MPB, um ato vivo da canção.  

Guilherme Gontijo Flores

PS: Este texto foi escrito em outubro de 2020, pouco depois de sair o álbum, porém ficou preso na gaveta por todo este período.

Abecedário #3

Querer, por Érica Zíngano

querer é KERER

qd recebi o convite, p/ participar desta publicação (agora online!), q tb nos faz pensar em termos de dicionário/verbete, eu tinha recém retomado a análise, no modo telefone-pandemia, e tinha começado a ler bate-se n’1a criança, do freud. ein kind wird geschlagen, 1a criança é batida, 1a criança apanha. eu sentia q precisava incorporar outros indícios, repensar certas cenas infantis. eu sei q fazer análise ñ pressupõe a leitura de nada, são coisas independentes, mas tb penso q, de 1a forma ou de outra, as leituras sobre psicanálise e as falas q são feitas durante as sessões podem acabar se cruzando, qd se pretende entender algumas coisas a partir de outros pontos de vista. cada método com seu mistério. cada pessoa com seu universo. __________qd recebi o convite, pensei na hora no qorpo-santo, por causa da letra q. eu ñ conheço quase nada do trabalho dele, mas tinha baixado mta coisa em 2019. querer KERER __________qorpo-santo __________mas o q trazer da ensiqlopèdia p/ cá, se eu mal tinha entrado nos pdfs?

essa palavra querer, ela ñ partiu de mim, ela veio de 1a demanda exterior. ñ fui eu quem a escolheu. há alg1s meses, todo dia 22, eu escolho 4 palavras gregas p/ animar 1a estátua bem cafona q tinha aqui, na entrada da minha casa. uma estátua aguadeira. decidi levar palavras q estão circulando nas leituras q estou fazendo p/ a entrada da casa. tirando essa circunstância, elas ñ têm nenh1a outra relação entre si, ñ q eu saiba. mas agora no final do ano, resolvi mudar o procedimento e tb pedi palavras p/ 1 casal de amigos gregos. eles me deram: ήλιος, Ιδέα, φως, Έρως; Γη, Σελήνη, Γλύκα, Γάλα. __________essa palavra querer, ela ñ é minha, ela me foi dada. designada. ao mesmo tempo em q ela me interpela, ela tb tem 1 apelo à psicanálise. pq querer tb tem a ver com escutar o desejo. mas como lidar com desejo do outro?, como lidar com nosso próprio desejo, ao lidar com o desejo do outro, qd mtas vezes ñ conseguimos nem reconhecer nossos próprios desejos? como nos mantermos atentes às falas dos nossos desejos, ao lidar com o desejo do outro? perguntas assim, sucessivas, dilatadas no tempo. perguntas em aberto.

na 1ª vez em q li o bate-se, fiquei 1 pouco frustrada, pq ñ conseguia me encontrar ali. ñ conseguia me enxergar naquelas 3 fases, propostas pelo freud. pq ele vai estudar as fases de quem produz a fantasia bater/apanhar. ñ quem é pego de surpresa pela fantasia do outro q deixa de ser fantasia. houve 1 desencontro entre nós. às vezes, acontece. __________qd eu leio 1 livro pela 1ª vez, posso ficar 1/2 cega. todo mundo eu acho. só q esse texto tem alguma importância p/ se pensar a questão da fantasia, das relações sado/maso e, pelo q entendi, foi a partir dele q lacan entendeu q a perversão é o negativo da neurose. eu precisava insistir. a coisa + marcante q ficou, da 1ª leitura, está no final da seção V, na minha edição, pq nem todas as traduções são como essa: ñ me surpreenderia se 1 dia fosse possível provar q a mesma fantasia é a base do delírio paranoico de querelância. eu nunca tinha escutado esse termo, querelância. eu precisava voltar e ler outra vez.

Ok. fase 1: o pai bate na criança/a q eu odeio; fase 2: estou apanhando do pai; fase 3: a 3ª fase se parece novamente com a 1ª, a pessoa q bate nunca é o pai: ou é indeterminada, como na 1ª fase, ou é investida pela figura de 1 substituto do pai/professor. quem fantasia já ñ aparece + na fantasia da surra. se insistimos em indagar, declaram: provavelmente estou olhando.

a fantasia da fase 2, de caráter indubitavelmente masoquista, é altamente prazerosa e, de todas as fases, é a + importante e prenhe de consequências, mas, n1 certo sentido, ela nunca teve existência real, nunca é recordada, jamais chegou ao nível consciente, é 1a construção da análise. freud tb diz q quem têm fantasias desse tipo desenvolve 1m sensibilidade e suscetibilidade especiais contra qualquer 1 q possa ser incluído na categoria pai; são facilmente ofendidas por essas figuras e concretizam assim, p/ seu próprio prejuízo e sofrimento, a situação fantasiada de estarem levando 1a surra do pai. só então ele fala de querelância. querer KERER ____querelância ____ñ me surpreenderia se 1 dia fosse possível provar q a mesma fantasia é a base do delírio paranoico de querelância.

segundo a lei de benford, 1a lei matemática q descobri vendo 1a série na netflix, a letra q ñ é desafortunada, ela têm poucas entradas em pt, pq faz parte de 1a lógica de distribuição de 1a escala logarítmica… tlvz por isso qorpo-santo se empenhou na reinscrição do q? será q faz sentido pensar nesses termos? lançar hipóteses assim? mal comecei a ler qorpo-santo e já estou cheia de pressuposições, do lado de fora… q loucura os cacoetes q carregamos! naquela época, qorpo era qorpo ou era corpo? p q ele alterou/adulterou o qorpo? preciso de 1 dicionário do séc. XIX! pq escrevi eu o meu nome em h1a toalha de crivo q entreguei ao guerra p/ sacudir-se o pó do altar de n. s. da conceição?… ah! sim: foi p/ q ñ fosse aplicada a outro fim: e p/ propalar a orthographia q começava a ensaiar. dezembro de 1862, disse qorpo-santo, n1a das milhares de entradas do 1º volume da ensiqlopèdia.

em pt, temos quente, quebranto, quiproquó, quizomba, quórum… em latim, eram tantas palavras com q… quodlibet, eu me lembro. em quichua tb deveriam ser inúmeras, se a própria língua começa com a letra q… quipu é 1 objeto lindo, aquele enlace de cordas na mão do índio-astrólogo-poeta de waman puma, aqueles nós q literalmente contam histórias. quetzalcóatl é em náuatle. serpente de plumas, pirâmide, “o rosto iluminado em tantos destroços na américa central”, disse cardenal, pelas mãos de herberto helder. querer KERER __________quetzacóatl __________digo eu agora, como se fosse o início de 1 poema q ainda ñ escrevi. a letra q, no jogo de baralho, é a dama/queen. hj é 1º de janeiro de 2021 e acabei de achar 1a trinca na rua. ñ veio a dama, veio 1 qoringa! bingo!

durante a pandemia, quem me fez prestar + atenção nos verbos foi o artista, professor e pesquisador yuri firmeza. em 2 falas do LEEA, ele usou verbos p/ pontuar suas colocações de 1 jeito q me pareceu mto particular, 1 jeito q normalmente eu ñ estou habituada a usar: ele usou verbos como quem tenta operar 1a síntese, transformando toda 1a situação, 1a fala, 1 acontecimento, n1 único verbo ou n1 conjunto de verbos. ele fez isso qd foi mediador, no encontro com o também artista, professor e pesquisador felipe ribeiro, e aquilo me deu 1 estalo! logo depois da fala do felipe, ele começou dizendo q percebia …a presença de 1 certo verbo, deixar. p q ele estava tentando condensar toda aquela fala, logo de cara, n1 único verbo? p q ele usou 1 verbo p/ iniciar a conversa?, foi o q eu fiquei pensando, me perguntando.

e ele tb fez isso qd apresentou sua pesquisa de doutorado em torno de fordlândia. então eu entendi q ele realmente está estruturando seu pensamento usando verbos, usando verbos no infinitivo como articuladores/propulsores, eu pensei, pq ele coloca os verbos no meio de coisas, entre, q é a posição q eles já ocupam nas frases. ele disse q está organizando sua tese em 3 blocos, avesso, palimpsesto e ruínas, e subdividindo cada bloco com 3 verbos no infinitivo, falar, emudecer e escutar; sobrepor, rasgar e desfigurar; e salvar, ameaçar e trair. ele tb falou q estava interessado em pensar a ≠ entre trair e trapacear, q o deleuze discutia isso nos diálogos. tlvz venha daí seu desejo de pensar com verbos, ñ sei. o lindo de juntar verbos assim, é q eles esperam ser conjugados e esperam a continuação da frase. a continuação da conversa. verbos são ganchos p/ o outro entrar na conversa. agir. falar. verbos são um convite ao jogo.

no bate-se, freud relaciona a fantasia bater/apanhar com propósitos de satisfação autoerótica, i.e. masturbação, 1 traço primário de perversão. na hora em q li isso, pensei q tb dizemos bater 1a punheta, bater 1a siririca… e tb dizemos bater à máquina, p/ escrever. comecei 1a lista coletiva no instagram com vários usos do bater. as pessoas foram colocando expressões. bater nos lembra coração, relógio, música, ritmo, tempo, mas tb acidente, ou seja, algo q duplica a vida, mas q tb a suspende. engraçado. todo bater tem 2 lados. bate e volta. bater bater no yuri é 1 livro da poeta carla diacov q está online no site da enfermaria 6. lembrei dele e fui atrás p/ reler. carla bate bate no yuri, bate tanto até quebrar, querer KERER __________quebrar __________o q a carla procura no poema através da imagem repetição do bater bater no yuri? a vida? variações da vida? possibilidades de continuar viva? de tanto “bater bater o bife”, “bater bater no yuri”, “em dizer yuri ynventa yatos”, “yuri yntervém yntervalos”, “mania yuri”, mas no final, yuri acaba ynterditado, como um lembrete, um interdito: “nunca mais vou bater o coração no yuri”. e o livro acaba assim, yuri rebatido p/ as cucuias… no céu remendado e triturado da poética de carla diacov, quem pode vir ocupar a posição vaga recalcada de yuri? será q é possível conciliar entre querer KERER __________qoração __________com querer KERER __________qabeça?

durante a pandemia, eu e a fabiana faleiros tivemos mtas sincronicidades… acho q, por estarmos mto conectetadas, diria marie carangi/teta lírica, na bolha da internet, na dimensão da vida, acabamos nos comunicando tb por outros canais. aconteceu literalmente com 1 poema q escrevi, a partir de 1 sonho, 1 dístico como 1 LP/ lado A lado B:

projete

e

proteja

assim q a fabi viu meu poema-post no insta, ela me mandou 1 áudio falando q ela tava fazendo pôsteres no ateliê do rg com o joão no dia anterior, reescrevendo aquela artista, jenny holzer, protect me from what i don’t want, e aí eles começaram a variar as frases e chegaram nessas 2:

me projete

me proteja

___________________________________a gente tá conectada amiga, somos poeira qósmica, q alegria,

ela me disse no áudio

enquanto eu estava fazendo este texto __________querer KERER __________fui sendo atravessada por mtas coisas, pq ele ñ tinha 1 percurso mto evidente p/ mim. era + 1 jeito de observar o meu próprio desejo em relação ao desejo do outro, a dimensão exterior do desejo, ao ter q fazer 1 texto sobre o desejo… então, durante o processo de escrita, me veio 1a frase mto direta, sem nenh1 desvio, refazendo 1a frase q já existe no teto no texto da nossa máquina-cabeça-de-linguagem: querer ñ é poder, querer é querer! é kerer! qd eu pensei nisso, eu pensei imediatamente n’o seminário da fofoca, 1 outro trabalho da fabi, pensei q essa frase pertencia aos tipos de frase q o seminário da fofoca escreve e q, mesmo sem ela estar lá, escrita, ela estava lá, por cima das outras frases.

fabiana faleiros é 1a artista q trabalha mto no campo da performance e da música, sempre movida por algo q lhe chama atenção na palavra, na linguagem, no ruído da comunicação, na fricção de mundos, entre o real e o virtual… a subjetividade lady incentivo, p. e., é 1a das subjetividades q atravessa suas pesquisas, criando corpo e dando voz a 1a série de questões q se relacionam com o ser artista/fazer arte no nosso tempo, reverberando tb inquietações ligadas ao universo feminista. MasturBar já é 1 outro trabalho q se desdobra de diferentes maneiras, seja n1 lugar específico, n1 Bar, seja n1 livro, seja na tese, todos esses espaços viraram palco p/ suas experimentações cohabitarem: entre o curso e o show, entre a mão e o sexo, entre os signos verbais e os símbolos gráficos, fabiana nos convida a pensar nas múltiplas corpas presentes nas sociedades contemporâneas e nas questões ligadas à sexualidade. é com a energia desses trabalhos, digamos assim, q ela criou o seminário da fofoca.

o seminário da fofoca junta 2 palavras de lugares diferentes, diz a fabi: 1a vinculada aos saberes acadêmicos (seminário) e outra aos saberes das redes feita por mulheridades (fofoca). ao juntar essas 2 palavras, fabiana pretende tensionar o percurso histórico da fofoca, pensando junto com silvia federici, qd a fofoca virou 1 termo pejorativo, da “maldita”, a q fala mal ou é mal falada, procurando, assim, reescrever e reinscrever a fofoca, num contexto atual de causas feministas, pensando na sua dimensão política.

explica a fabi: “O Seminário da Fofoca surgiu em 2018 como uma proposição de conversa sobre as relações de poder performadas na estrutura cisheteronormativa do circuito cultural. Já foi realizado em dois contextos: o primeiro como parte da exposição Iminência de Tragédia, na FUNARTE_SP em 2018 e no Ateliê 397 em 2019, no grupo de estudos Vozes Agudas. Nas duas ocasiões o Seminário aconteceu como uma conversa entre mulheres diversas, pessoas não-bináries e corporalidades dissidentes interessadas em criar espaços de acolhimento e debate sobre as relações abusivas sustentadas e silenciadas pelo patriarcado no circuito cultural. Foram encontros para compartilhar e debater casos de denúncia de assédio, abuso, violência física e psíquica, roubo de produção intelectual, silenciamento estrutural etc. Além disso, compartilharmos modos de ações diretas à espaços institucionais e não institucionais que reproduzem lógicas colonialistas que tentam desqualificar as falas que conectam experiências privadas com as discussões públicas. Propomos o esvaziamento do sentido pejorativo da “fofoca” e do ato tóxico que simboliza essa palavra para enchermos do nosso significado: conectar experiências privadas com discussões públicas. Fofocar como um gesto político.!”

o seminário traz 1a série de frases escritas em almofadas de paetês, escondidas embaixo dos paetês, frases q só se revelam ao público/espectador, se passarem a mão nas almofadas:

“a vida sexual da fulana de tal”
“o destino da bonita é ser feia”
“estou esgotada”
“família gosta é de marido”
“é dando que se dá”
“doutorado em patriarcado”
“é dando que se dá”
“centímetro por sentímetro”
“inimiga, minha louca”
“que saudade do cheiro de bebida no nosso quarto inteiro
que vinha da tua boca
depois que você bebia e beijava quem você queria
e depois dizia:
você está louca”

o gesto de passar a mão nas almofadas é totalmente ambíguo, pq ao mesmo tempo em q se assemelha a 1 gesto de carícia consentida, tb imita 1 gesto de alguém q há anos passa a mão nas nossas bundas durante o carnaval ou no ônibus, por exemplo, mas qd olhamos p/ trás, ninguém virou estátua ainda… se fosse p/ colocar a mão na consciência, quem é q conseguiria dormir com essas frases gritando ao pé d’ouvido? o seminário da fofoca, com sua aparência kitsch de 1 locus quase amoenus, bem cafona, no ápice do idílio amoroso de 1a sala de estar no interior de 1a casa de família, procura, com sua ironia felpuda, quebrar o tabu de lugares comuns q se erigiram sobre a lógica de sempre esconder as coisas embaixo do tapete. e o q é q querer é querer tem a ver com isso?

TUDO! se a frase querer é poder, na sua melhor leitura, nos leva à pergunta de spinoza sobre o q pode 1 qorpo, a frase querer é kerer simplesmente não nos faz esquecer, n1a espécie de reducionismo radical, q os kereres é q, ao nos movimentarem, movimentam mundos, criam novos mundos. nos fazem criar novos mundos.


Imagens: “Seminário da Fofoca”, 2018. Iminência de Tragédia, Funarte SP, cedidas pela artista Fabiana Faleiros.

caminho de muito caminho, exu gira njila, eiá macumba

Sophia de Mavambo, iniciada para Pambu Nzila na Tumba Junsara, por Manoel Ciriaco [Nlundi ia Mungongo]. Fotografia de Verger.

um divino de muitos nomes, truqueiro como só, dotado de toda sorte de contrariedades, vem passeando há muito entre nós e, na diversidade de seus múltiplos caminhos, toma posto, desde sempre muito seu, de inúmeros cruzamentos discursivos no presente-já dos dias que correm. salvo o meme, reproposto na figura de Paulinho recentemente, folha de fortuna, hortelã-pimenta & palma-miúda, padê de mel, padê de cachaça, padê de dendê, proponho aqui mais uma gaveta no já bem fornido repertório de assuntos em se tratando de Exu.
há, decerto, uma variada entrada dessa divindade nos turnos das poéticas no Brasil e, também, fora dele. Kamau Brathwaite, por exemplo, tem lá seu Elegguas; também Christian Campbell, outro jamaicano. aqui e ali, também acolá, em múltiplos ventos há Audre Lorde. Césaire coloca Eshu em um casamento, na sua revisão da Tempestade em Une Tempête. e por aí vai. o plano não é arrolar antologia interminável com o boca que tudo engole. por aqui sugiro que empurrem o barco para que Entre Orfe(x)u e Exunouveau, de Edimilson de Almeida Pereira, seja reeditado, reimpresso e até lido, constando, além de uma fortíssima epistemologia e proposição de leituras a partir das chaves, mais abertas e arejadas, do pensamento negro e da diáspora das inúmeras áfricas, bem como do que há de áfrica nas américas todas, entrega também uma forte antologia comentada do que, até o momento em que defende sua tese de titularidade na UFJF, há sendo feito cá no país nessa gruta de temas infernos. Recomendo, ainda, o trabalho pioneiro das antropólogas que, também, abriram picadas, tais como Juana Elbein dos Santos, Monique Augras, Ruth Landes. também o livro de contos de Cidinha Campos, Um Exu em Nova York, o “poema-ebó” de Lívia Natália, as discussões amplíssimas de Stephanie Borges no Benzina, com seu parceiro de ações Orlando Calheiros, e por aí a via vai, interminável com seus múltiplos cruzamentos. importante, óbvio, visitar o que tem feito Luiz Antônio Simas e Luiz Rufino, bem como o sempre necessário Muniz Sodré, entre vários. as coisas estão aí no mundo, com suas múltiplas encruzilhadas. então, atravesse.
dentre as variadas coisas contadas acerca de Exu no Brasil, particularmente gosto de alguns aspectos ditos quando da primeira iniciada, que se saiba, por aqui. quando Manoel Ciriaco foi dar cabo da iniciação de Dona Sophia, depois conhecida com Sophia de Mavambo, toda a comunidade de santo em Salvador disse que o homem estava doido, posto que ia fazer Diabo na cabeça da mulher. uma parte da literatura acerca das práticas litúrgicas do candomblé apontam que Exu não deve ser iniciado na cabeça de ninguém, sendo objeto apenas de culto. eu, sei lá, mas se Exu não pode ser iniciado, Pambu Njila pode, dado que Dona Sophia foi iniciada, justamente, na Tumba Junsara, por Manoel Ciriaco, conhecido como Nlundi ia Mungongo e é um terreiro de Angola, logo, outro entroncamento, não nagô. Mais pra diante é iniciado, no Rio de Janeiro, Djalma de Lalu… mas a história já tinha tomado outro e variado curso.
Guilherme Gontijo Flores, e eu, demos ano passado um curso na Teoria da Tradução da UFPR, chamado Tradução-Exu, todo ele ainda disponível no Youtube. o conceito, ou dispositivo tradutório, já vinha sendo tratado por ele já há algum tempo. o curso, então, serviu para maiores alinhamentos de algumas outras questões e uma reflexão mais demorada sobre o tema. além de produzir um fortíssimo conceito de traduzibilidade, Guilherme ainda ensaia o que chamou de “recantamento”, ou, dito de outro modo, apostou em traduções rítmico-semânticas de alguns orikis e itans. o corpus da prática nagô é enorme, tanto em inglês, quanto em francês e, também, em português.
por outro lado, as dinâmicas das mambu [ou muimbu] não são encontradas com tanta facilidade. há, de imediato, um problema de fixação dos cantos. não bastasse o sequestro e travessia do atlântico, a consolidação das práticas bantu, o candomblé Angola/Kongo, em suas variadas raízes encontra pequenos turnos de diferença. o Tombenci encontra pequenas diferenças com o Bate-Folha, da Mata Escura, encontra pequenas diferenças com a Gomeia, que encontra pequenas diferenças com a Tumba Junsara, que encontra pequenas diferenças com o Beirú, e por aí vai. há, por óbvio, inúmeros pontos de contato e semelhanças, sendo identificados, de imediato, os cantos rituais, mas como ponto é ponto, pingo é pingo, há muitos is em cena. outra nuance que estabelece distorções é a variedade de línguas intrusas e milongadas. ora canta-se em quimbundo, ora canta-se em quicongo, ora há variantes interferentes do tchokwe e outras. há semelhanças estruturais entre essas línguas, principalmente o sistema de usos das dinâmicas prefixais. mas não são as mesmas, nunca. um exemplo que gosto é o termo “maza”. quando em cerimoniais fúnebres o termo comparece em várias cantigas. muito embora a vida seja “água” passada, canta-se, na verdade, o “ontem”, a “passagem”, dado que “maza” em quicongo é água, mas em quimbundo é algo como “ontem”, sendo água o termo “menha”.
não é o plano entrar em grandes tratados linguísticos, a ideia é apresentar algumas mambu de Pambunjila, também dois orikis de Exu, como maneira de repertoriar, com mais uma nota de rodapé, tudo aquilo que nunca foi sorte, mas tradução da fortuna [e suas crises]. das cantigas do Angola que chegam por aqui, algumas delas encontram um viés mais antropológico das traduções, beirando a literalidade [só que não], sendo algumas recantadas em parceria com Guilherme. importante apontar que anoto as cantigas do Angola na ordem e como são cantadas aqui em minha inzo, salvo pequenas variantes. e os orikis são traduzidos por Guilherme Gontijo Flores.


MAMBU IA PAMBU NZILA [Cantigas de Pambu Nzila]

1.

mpambu njila ae
mpambu njila ae
mpambu njila ja mukange
mpambu njila ae

mpambu njila ae
mpambu njila ae
mpambu njila ja mu-kénge
mpambu njila ae

mpambu njila ae
mpambu njila ae
mpambu njila ja mukangi
mpambu njila ae

Senhor da encruzilhada e dos caminhos
Senhor da encruzilhada e dos caminhos
A via encruzilhada é sua máscara
Senhor da encruzilhada e dos caminhos

Senhor da encruzilhada e dos caminhos
Senhor da encruzilhada e dos caminhos
Da via encruzilhada, o mensageiro
Senhor da encruzilhada e dos caminhos

Senhor da encruzilhada e dos caminhos
Senhor da encruzilhada e dos caminhos
Da via encruzilhada, o salvador
Senhor da encruzilhada e dos caminhos

(Recantamento)

Mpambu-Njila aê,
‘Ncruzilhada aê.
Bombogira o mascarado
Mpambu-Njila aê,

Kongojiro aê
Mpambu-Njila aê.
‘Ncruzilhada o mensageiro
Bombogira aê

‘Ncruzilhada aê
Bombogira aê.
Mpambu-Njila o manguaceiro
‘Ncruzilhada aê

2.

mpambu njila ja mukange
kia unene
mpambu njila ja mukange
ialá ionene

mpambu njila malembe

mpambu njila ja mukange
kia unene
mpambu njila ja mukange
ialá ionene

mpambu njila kujia kujianjo

a via encruzilhada é sua máscara
e é muito grande lá
a via encruzilhada é sua máscara
são enormes suas garras

senhor da via encruzilhada traga paz

a via encruzilhada é sua máscara
e é muito grande lá
a via encruzilhada é sua máscara
são enormes suas garras

senhor da via encruzilhada vai beber
vai beber em sua casa

(recantamento)

‘Ncruzilhada o mascarado,
grande pra valer
Mpambu-Njila bebe e guarda…
garra grande ê

Bombogira, malembe

Mpambu njila o mascarado,
grande pra valer
Bombogira bebe e guarda…
garra grande ê

‘Ncruzilhada no teu lar já curiou
‘Ncruzilhada a curiar bebeu guardou.

3.

mpambu njila
mpambu njila
mpambu njilê

Senhor da encruzilhada e dos caminhos
Senhor da encruzilhada e dos caminhos
É dele a encruzilhada e os caminhos

(recantamento)

‘Ncruzilhada
Mpambu-Njila
Bombogirei

4.

yànnda sisa
sisa lukaya
yánnda sisa
sisa lwa nganga

ê lukaya
yánnda sisa
sisa lwa nganga

yànnda sisa
sisa lukaya
yánnda sisa
sisa lwa nganga

o alegria manifesto
manifesto vai dançar
o alegria manifesto
manifesto líder há

ele vai dançar
o alegria manifesto
manifesto líder há

enfeitado ele se excita
e excitado vai dançar
enfeitado ele se excita
forte o mestre vai mostrar

(recantamento)

O alegria
cria na dança
o alegria
cria e mandará.

Nessa luanda
o alegria
cria e mandará.

E se excita
fita na dança
e se excita
dita e mostrará.

5.

byôle byôle
mbi o nata
mbimbi
kwa kwa ko

a criança balbucia
de posse da malícia
diante da malvadeza
sorrindo cacareja

(recantamento)

Fuzuê fuzuê
cambalacho
pros maus
já gargalhou

6.

ma-wile ma-uângu
nkwálu méeso e
rá-rá-rá
nkwálu méeso e

ma-wile ma-uângu

ao fortuna seu culto
na estrada põe teus olhos
a gargalhar
na estrada põe teus olhos

o fortuna tem culto

(recantamento)

Mavile tem culto
na via dana a ver
rá rá rá
na via dana a ver

Fortuna tem culto

7.

ma-wile ma-wile
ma-wile ma-uângu

ma-wile ma-wile
ma-wile ma-uângu

sorte grande, sorte maior
celebrai a fortuna

sorte grande, sorte maior
celebrai o fortuna

(recantamento)

Mavile, Fortuna,
Mavile tem culto

Fortuna, Mavile
Fortuna tem culto

* * *

Orikis de Exu, por Guilherme Gontijo Flores

1

Eṣu laroye arogbo
Tabiribangban o b(a) oni (i)ja wá kumọ
O kọ Ọyọ bọ́ lọjọ
O dé lõró sùn lọdun mẹta
Bi elekun sunkun, li Laroye loṣoro
Eṣu b(i) o ye lọ l(i) ala bò mi
Ẹnu (pu)po lara mi
Ajigberede akiri wa apan kiri

Exu laroiê ancestral
forte que pega porrete pro guerreiro
que vai a Oió e já voltou
que chega ao portal e dorme três anos

Se um chorão chora, pra Laroiê não rola
Exu se quer partir
vou me cobrir de branco
muita má língua sobre mim
Ajigberede akiri wa apan kiri

2

Labọralinde, li o ba de bode ti o kò ba bá
Ni ẹnu odi ni nro (o)ko
On na ni o da oko nibiti arugbo le de
On nikan ni o sẹ oko wọ̀rọ̀kọ̀-wọ̀rọ̀kọ̀ bi il awurèbé
On na ni binu sọ igikigi ki o wó
Ti o ba binu ti o ba la okuta (i)gbó
Okuta na a si ma ṣẹjẹ
Ti o ba nbinu ti fi awọ kanyinkanyin joko

Laboralinde é bem na barreira da porta
o campo que ele cava
ele cultiva o campo que um velho alcança
ele semeia o campo em ziguezague que nem casa de awurèbé

Na raiva abate uma árvore qualquer
na zanga pisa uma pedra no mato
e a pedra é que sangra
na zanga senta em pele de formiga

Concret_s como frutos nítid_s como pássaros (V): Patrícia Lino conversa com Tiago Alves Costa



“Concretos como frutos nítidos como pássaros” é uma série dedicada à divulgação da poesia portuguesa contemporânea no Brasil.

Leia os posts anteriores da série.

Parte I: “Explicação, Miguel-Manso” [fevereiro 2021].
Parte II: “Regina Guimarães, Margarida Vale de Gato, Maria Brás Ferreira” [março 2021].
Parte III: “Poesia Expandida. Fernando Aguiar, Teresa M. G. Jardim, Ricardo Tiago Moura, Alexandre Francisco Diaphra e Marta Bernardes” [maio 2021].
Parte IV: “Volta para Tua Terra (Urutau 2021)” [junho 2021].








________________________________________________________________________
VOZES EM CORO

________________________________________________________________________isto está muito mau
________________________________________________________________________isto está muito mau
________________________________________________________________________
isto está muito mau
________________________________________________________________________isto está muito mau
________________________________________________________________________isto está muito mau
________________________________________________________________________isto está muito bom (voz desconhecida)


_______________________________________________________________Tiago Alves Costa. Žižek Vai ao Ginásio. 2019-20.



1. Tiago, publicaste, até à data, 3 livros: W.C. Constrangido (2012), Mecanismo de Emergência (2016) e Žižek Vai ao Ginásio (2019, Galiza, Portugal; Brasil, 2020). Como explicarias esta sequência a um(a) leitor(a) brasileira(o) que não conhece o teu trabalho?

Diria com toda a sinceridade que é uma sequência sem um plano prévio. Escrevo normalmente para investigar e portanto gosto muito de não saber o que vou fazer, isso para mim é essencial, escrever sem saber o que vou fazer em busca de todo o novo que se abre sob os nossos olhos, tudo aquilo que supõe uma ruptura com a ordem das coisas. Para mim aquilo que realmente importa dá-se melhor em liberdade ou como dizia a Clarice Lispector “Liberdade é pouco. O que eu desejo ainda não tem nome”. É evidente que os livros têm muita relação entre si, considero até que são como animais completamente opostos que não podiam existir um sem o outro. O w.c constrangido foi o meu primeiro livro e, verdade seja dita, hoje sinto-me distante dessa obra. No entanto, confesso-te que foi um livro importante para chegar a outras sonoridades, outros ritmos, outras formas de potencializar o pensamento. Lembro-me que por aquela altura estava muito influenciado pelos contos do catalão Quim Monzó e procurava incessantemente uma ponta de sarcasmo, uma espécie de ângulo insólito da banalidade. Os dois últimos surgem numa fase distinta da minha vida, estão profundamente afetados pelo tempo que lhes tocou viver. Este constante adiar do futuro, uma espécie de depressão generalizada que consiste em perceber que sempre que o alcançamos, o futuro, ele não nos convence. São livros que possuem valores operativos que fazem parte do meu ser corporal e psíquico e de uma experiência imediata com o mundo, com atividades do quotidiano, uma operação rumo ao improvável.

2. Dirias que o que te tocou e toca viver está ligado ao facto de viveres fora de Portugal? Como é, para ti, a experiência de escrever a partir de outro lugar? 

Sim, absolutamente. Na verdade tudo começou com uma ida anterior para os E.U.A e já na Galiza produziu-se esse abalo profundo no meu real, uma fenda, uma espécie de demolição do eu, passou a existir uma outra sensibilidade perante as manifestações que se colocavam diante de mim; no fundo, passas a ver aquilo que de outra forma parecia invisível, não dizível. Quiçá uma outra percepção das coisas, um distanciamento até, que, curiosamente, te aproxima de tudo. E isso afectou-me indelevelmente na forma de pensar, nos meus hábitos, nas rotinas, no entendimento comigo mesmo e com o mundo, de tentar perceber o que é isso de ser português (o que é isso de ser português?), e na escrita claro, aliás, sobre isto que refiro há uma frase do Gonçalo M. Tavares com a qual me identifico muito:“Se o mundo não interfere na tua linguagem: muda de cidade”. E respondendo à tua última pergunta, conto-te um episódio com uma amiga romancista que um dia aqui na Corunha me confessou que achava que eu escrevia para Portugal. Nunca me tinha passado pela cabeça o facto de que, de alguma forma, eu pudesse escrever a pensar nesse lugar de origem, mas isso fez-me refletir sobre o meu processo criativo e é certo que de alguma forma os meus livros têm sempre algum texto relacionado com Portugal, embora sejam sempre em tons satíricos, mas, de forma quase instintiva, gosto muito de tornar Portugal numa pessoa, um Portugal antropomórfico. No entanto, não sinto que escreva de outro lugar. Talvez o lugar seja mesmo a escrita, uma espécie de animal antiquíssimo, faminto, que quer constantemente farejar o impossível, estourar de afectos. E a Galiza é isso tudo também, uma enorme aprendizagem, um regresso a mim mesmo, numa (re)descoberta dessa galeguidade que sempre existiu em mim; a cultura, as amizades, as falas, a própria geografia, essa Galécia que ia da Corunha até às margens do rio Mondego.

Macondo. 2020.


3. É precisamente o tom satírico que percorre o teu último livro, Žižek Vai ao Ginásio, publicado no Brasil pela Macondo em novembro do ano passado. Desde do título até poemas como “Vozes em coro” que nos cruzamos, de modo sistemático, com vários exercícios de auto-paródia que não só dizem generalizadamente respeito à cultura portuguesa, como materializam algumas críticas acesas ao meio intelectual. Costumas refletir sobre o exercício do humor, dentro e fora do contexto da poesia escrita em português? 

Para te dizer a verdade não penso muito no exercício do humor, é algo muito espontâneo no meu processo criativo, normalmente é ele que me procura, não o contrário. Mas sem dúvida que a ironia é a melhor forma de combater o absurdo da vida, a imbecilidade, a avareza de espírito. As “Vozes em Coro”, que referes, representam isso mesmo, uma espécie de sistema-nervoso de onde emerge uma multiplicidade de Eus que tentam, de alguma forma, imiscuir-se nesta sociedade actual, esta prurida confusão, nesta aceleração cada vez mais histérica dos acontecimentos que se estende a todos âmbitos da nossa vida. De igual modo, o humor é também uma forma de justiça perante o desânimo que nos assola, uma verdade poética também. E sem dúvida que a literatura escrita em português tem uma forte tradição neste género, Machado de Assis, Lima Barreto, António Vieira são referências vitais. Nós somos filhos/as de contradições e de contrastes, dessa atávica relação com a dificuldade, ou com a impossibilidade, e que se combate com engenho, com criatividade, com a habilidade de reconduzir situações difíceis e suscitar a inteligência de saber rir do próprio absurdo. Eu gosto muito de me rir de mim mesmo, esse mecanismo também me ajuda a enfrentar os imprevistos. E sobre essa crítica acesa ao mundo intelectual que mencionas, ou ao mundo literário, parte também dessa desconstrução, uma espécie de objeção frontal à desordem do possível com que se parte para o texto, colocar palavras a destruir auditórios, poemas sem autor que se apresentam a concursos de poemas, livros que são lançados a mais de sete metros, escritores que são amados pelo seu rosto, ou livros que são entrevistados. Claro que posso ser apanhado na armadilha que eu mesmo montei, mas isso faz parte do jogo, ou da brincadeira, que tudo quer e nada mede.

4. Uma forma de justiça certamente política, e usada também e cada vez mais pelas mulheres. Diz-me, Tiago, se o poema desconstrói um certo conceito de autor(a) e, consequentemente, de leitor(a) [“O fim da literatura”], de que modo encaras, então, a função social do poema? Como podem expandir-se socialmente as tuas críticas humorísticas à mercadologia, à superficialidade e à capitalização do próprio mercado literário?

Sim, sem dúvida uma forma de justiça política. A filósofa Maria Zambrano defendia que todos os tempos são de crise, e a crise, ou as crises que vivemos actualmente, estão a introduzir novas formas de poder que parecem querer reclamar esse domínio sobre novos territórios, até agora inexplorados do humano, forças impulsionadas por novos imperativos económicos anulando inclusive e perigosamente direitos sociais que são imprescindíveis em sociedades ditas democráticas. A função do poema será a de abrir uma linha de fuga, às forças obscuras, aos fascismos que se avizinham ou que já estão aí, à porta de casa, e será sempre essa possibilidade de potencializarmos o pensamento, de encarar o imponderável, de mergulharmos em algo onde não queremos operar de acordo com os trâmites do normal, de chegar também à alteridade do outro, e, claro, criar comunidade. Eu gostaria que o meu ponto de vista, ou as minhas críticas, se pudessem traduzir numa retirada do próprio autor que é essencial em termos de justiça, sob esse exterior que ele recria, assumindo uma posição lateral, em vez de se impor sobre o caminho, passando a ser ele mesmo uma figura que se retira em benefício dessa mesma comunidade, indo assim contra o predomínio narcísico dos nossos dias, indo contra a mercadologia, a superficialidade, que referes. Julgo que o “Fim da Literatura” aborda esta ideia.

5. Em Žižek Vai ao Ginásio, o cuidado com a disposição dos caracteres e do verso é evidente. A sua disposição, bem como o seu grafismo, são, mais do que sonoros, visuais — o que, aliás, me parece ser cada vez mais comum na poesia que se faz hoje em português. Como descreverias a construção da visualidade do poema a partir da acomodação do verso na página e em relação à cadência do texto?  

Eu deixo-me quase sempre levar não tanto pelo que as palavras querem dizer gramaticalmente mas sim pelo seu ângulo sonoro. Tateando as palavras como se estivéssemos no escuro, confrontando até a própria língua, a ditadura da língua. Todavia, as palavras chicoteiam, “Aqui, texto, sentado!” afirmava Maria Gabriela Llansol. E dá-me muito gozo essa construção mais plástica, ser surpreendido na subida e descida das palavras e admitir que o inesperado irrompa como uma solicitação violenta que tudo exige. A sensação de tranquilidade, de alguma maneira para mim não excita a linguagem, a linguagem tem de ser afectada por algo que a perturba. Uma espécie de sismógrafo onde se mede a vida. Uma dança onde a maioria das vezes sabemos que vamos ser dominados e que só nos resta farejar, intuir essa cadência que corresponda com aquilo que mais nos aproxima do mundo. Uma cadência, por exemplo, como a do pianista Thelonious Monk, singular, revolucionária e sensual. 



Tiago Alves Costa. Žižek Vai ao Ginásio. 2019-20.
Vídeo publicado originalmente na Revista Caliban.


6. A par do exercício humorístico, a apropriação é outra das bases formais de um livro como Žižek Vai ao Ginásio. Aproprias não só o esquema do anúncio publicitário, mas também a estrutura da carta, da entrevista, do manual de instruções ou das notificações das redes sociais. Como te posicionas num período onde se fala cada vez mais de não-originalidade e reciclagem literária?

Talvez o drama, pelo menos para mim, é saber que escrevemos quando todas as grandes obras da humanidade já foram escritas. E escrevemos, mais e mais e mais. Contudo o facto de, e citando um dos textos do livro, aumentarmos cada vez mais o número de escritores no mundo torna quiçá cada vez mais difícil a tarefa de encontrar essa singularidade, a não-originalidade, e com tantas lutas literárias, temos depois lutadores de boxe que escrevem livros e que ganham prémios literários [risos]. Mas estamos constantemente reescrevendo, ou reciclando, o que já foi escrito, adaptando-nos ao tempo que nos tocou viver e antecipando-o, quem sabe. Talvez há algo que nos perturba e é por isso que escrevemos. Se tudo estivesse bem, não precisaríamos de escrever. Por um lado não deveríamos escrever, por outro, não se pode não escrever.

7. Em “O vazio da página”, texto de Žižek Vai ao Ginásio, a expressão “sou escritor” é o resultado da equação “jamais serei pintor” + “jamais serei bailarino”. O poema está sempre em contacto com as outras artes?

Sim. Para mim é vital a relação com as outras artes. Convivo muito com amizades do mundo do cinema, pintura, música, dança, e sempre que posso, procuro perscrutar os seus pensamentos, os processos criativos, inclusive criar colaborações. Nos últimos anos tenho trabalhado com o cineasta e criador transmedia Roi Fernandez; fizemos uma sessão de live-cinema e dois filmes-poemas, o último para o Žižek vai ao Ginásio. É extremamente instigante poder fusionar o poema, a sonoridade, a cadência com a linguagem cinematográfica, através da criação de um imaginário em tempo real com manipulação de materiais (cut-ips, cera derretida, kamishibai). Neste último projecto as gravações foram realizadas no Centro Comercial Stop, no Porto, estes míticos shoppings dos anos 70 que estão praticamente abandonados e que representam de alguma forma as próprias ruínas do capitalismo. E foi uma experiência incrível poder gravar ali, e também continuar a aprender com outros olhares e sensibilidades e completar quem sabe esse vazio da página ou o facto de não ser bailarino, ou pintor.

8. Se o humor e a apropriação são as bases formais de Žižek Vai ao Ginásio, o emprego é certamente um dos seus pilares temáticos. 

Sim, sim, é insistir nessas contradições do capitalismo, o ritmo circular do tempo para quem estiver a vender a própria força de trabalho ou a não conseguir vendê-la. Há uma tentativa de explorar o cansaço da sociedade de produção, o esgotamento do corpo, uma espécie de Bartleby 2.0 que está dopado e ao mesmo tempo desprovido de mundo, ausente e apático, e penso que ele surge nessas personagens insólitas do livro: críticos de sonhos, vendedores de sofás especialistas em preguiça, carpinteiros existencialistas; que no fundo querem no seu íntimo rebelar-se contra os dispositivos de rentabilidade, aumentando a voltagem, tensionando tudo ainda mais.

9. Gosto particularmente do fim da entrevista imaginária de Žižek Vai ao Ginásio. Podes comentar esta “coisa de portugueses” a partir da própria poesia portuguesa? Que relação tem ela com o teu trabalho?

Imagino então que esteja desempregado?

Morto-Vivo.

Como assim?

Ao estar desempregado estou morto para o mundo; vivo dentro de mim, à solta, em aparente liberdade. Como um bicho doméstico.

Vive muito então?

Absolutamente, isto é coisa de portugueses, não propriamente de poetas. De quem morre muito, claro está.”


Entusiasma-me muito esse tipo de diálogos-entrevista. Volto aos nossos contrastes, penso que “a coisa de portugueses” é extraordinariamente criativa. Talvez por isso somos mais fadados para a rima do que para a prosa. E eu preciso duma certa (des)ordem, das margens, dessas vozes que tensionam constantemente. Por exemplo, os cães vadios a perseguir uma criança que tenta afugentá-los ao passar de bicicleta, uma ignota voz que grita desde uma janela para o meio da rua, os velhos que protestam de mansinho no centro das praças. Eu acho que continua a ser uma “coisa de portugueses” e que é lindo poder ser revigorada pela poesia ou por outra forma de arte. O diálogo-entrevista explica isto muito melhor do que eu: “Ser português está obviamente naquilo que eu considero ser digno de me representar como português. Mas é muito mais sensível e complicado do que imagina. Ser português foi condição a que naturalmente me obriguei por natureza. E estudei muito para isso! Estudei aquilo que me faltou de algo que nunca quis deixar de ser pela minha vontade de querer ser tudo. Parece-lhe confuso?…”

10. Como foi a experiência de publicar Žižek Vai ao Ginásio pela Macondo no Brasil? Conta-me sobre os projetos em que estás a trabalhar agora.

É uma experiência magnífica, chegar ao Brasil, a um país e uma cultura que eu admiro e onde sempre cultivei amizades. O facto de fazer parte de uma coleção de poetas que muito aprecio e ter a oportunidade de conhecer o trabalho da Macondo e do seu editor, o Otávio Campos, todo o cuidado que têm com autores/as e com as suas obras e a seleção aprimorada que fazem da poesia contemporânea parece-me digno de enaltecer. Quanto aos meus projetos actuais, tenho estado envolvido com o teatro, a trabalhar na peça de teatro o “CUBO” com a companhia de Teatro Elefante Elegante e que estreou no passado mês de maio na Galiza. Em termos mais pessoais continuo escrevendo, mas confesso-te que o teatro parece estar a ganhar cada vez mais preponderância no meu processo criativo, tenho uma obra que está praticamente concluída e que se manifesta como uma espécie de híbrido com vários géneros, assente num cenário burlesco dos nossos tempos. Estou a ver se ganho coragem para a publicar.



6 POEMAS DE ŽIŽEK VAI AO GINÁSIO. MACONDO. BRASIL 2020.


A REALIDADE – DECLARAÇÃO

Para os devidos efeitos se declara que a Realidade se encontra internada no Serviço de Cuidados Intensivos deste Livro-Hospital por neoplasia em estado terminal, estando actualmente em cuidados paliativos, por um período imprevisível de tempo.

Por ser verdade e me ter sido pedido, passo a presente declaração, que dato e assino:

UM MEMBRO DO CORPO
DE GENTE AINDA COM CORPO
QUE PASSOU POR CÁ
POR ACASO


O FIM DA LITERATURA

Há escritores que escrevem para que outros escritores deixem de escrever.
Há escritores que deviam deixar de escrever e que por soberba ou falta de dinheiro
nunca deixam de escrever e tornam-se eles em escritores que escrevem
para que outros escritores deixem de escrever.
Há leitores que quando se apercebem que os escritores nunca deixam de escrever,
e que tudo não passa afinal de um mecanismo contínuo e eficaz de aumentar
o número de escritores no mundo, deixam de ler, e passam a amar o rosto dos escritores.
Há escritores que passam a dedicar-se somente ao seu rosto.



*

depois de ler 4 páginas do seu curriculum
o poeta leu 2 palavras do seu maior poema

a plateia ovacionou sentada



*


VIVA-O-POETA-MORTO

O poeta morreu há muito

______a sua palavra vive

______— VI Congresso Internacional do Poeta
______— Cátedra de Poesia e Transcendência do Poeta
______— Estudos dinâmicos do Poeta-Morto
______— Jornadas de introdução ao estudo da vida do Poeta-Morto
______— Vida-obra e morte do poeta (4 dias de passeio + música ao vivo)

O corpo do poeta morreu há muito

______a sua palavra vive feérica______radiante______produtiva

__________________poeta-morto_______palavra-vida


_____________________________________VIVA-O-POETA-MORTO!



AO POETA INIMIGO

O teu número de ISBN
é tão parecido com o meu





CICLOTÍMICA ARTE DE SER PORTUGUÊS E/OU POETA-MORTO

Mas é poeta?

Sou português. No entanto não quero com isto dizer que não tente representar-me como um autor de desconfianças. Um inquilino de mim mesmo. Um poeta com todas as contas por pagar. Um empregado das palavras, portanto. Alguém que escreve de olhos fechados ou sem aquecimento prévio; sem pensar, como é óbvio.

Mas é português ou é poeta?

Ser poeta está obviamente naquilo que eu considero ser digno de me representar como português. Mas é muito mais complicado e sensível do que imagina. Ser português foi condição a que naturalmente me obriguei por natureza. E estudei muito para isso! Estudei aquilo que me faltou de algo que nunca quis deixar de ser pela minha vontade de querer ser tudo. Parece-lhe confuso? É mais simples do que parece. Digamos que ser poeta foi algo que inventaram um dia para eu poder passar na porta de um bar onde só era permitia a entrada a estrangeiros; estrangeiros, diga-se, com um bom comprimento de onda. Com um bom nível de altura.

Imagino então que esteja desempregado?

Morto-Vivo.

Como assim?

Ao estar desempregado estou morto para o mundo; vivo dentro de mim, à solta, em aparente liberdade. Como um bicho doméstico.

Vive muito então?

Absolutamente, isto é coisa de portugueses, não propriamente de poetas. De quem morre muito, claro está.

Idea Vilariño: “No”, por Erlândia Ribeiro

Idea Vilariño (1920-2009) foi uma das poetas mais importantes do Uruguai, nasceu em 1920 em Montevideo e faleceu na mesma cidade em 2009. Já aos vinte e cinco anos de idade iniciou suas publicações com o poemário La suplicante (1945), seguida das obras Cielo, cielo (1947), Paraíso perdido (1949), Por aire sucio (1951), Nocturnos(1955), Poemas de amor (1957), Pobre mundo (1966) e No (1980), livro do qual me debrucei para esta tradução. A poeta também foi professora, tradutora e crítica literária, participando de importantes revistas uruguaias da época, contribuindo com autores e amigos como Angel Rama e Manuel Claps. 

Em No, obra integralmente aqui traduzida, os espaços em branco são maiores do que nos poemários do começo de sua carreira literária, Vilariño parece se permitir sintetizar sua poética e utilizar do vazio, do nada e do não, como uma forma de negação da própria vida. Assim se dá minha motivação em traduzi-los, em tempos tão obscuros como o que vivemos atualmente, esses poemas ressoam enquanto ecos que não queremos ouvir e nos deixam um gosto amargo na boca. Da solidão que todos atravessamos nesse período de isolamento, das reflexões que nos atravessam todos os dias ao lermos os noticiários; do asco, da revolta e vergonha que nos atinge só por sermos seres humanos. 

Vilariño acende esses sentimentos e nos faz olhar mais uma vez para dentro e nos perguntar: o que podemos fazer se não há delicadeza no viver? Ao mesmo tempo, por mais que digamos “não”, continuamos vivendo e seguindo a “sereia que nos leva ao fundo medonho e murmurante do mar”. Mesmo na negação resta a vontade de nomear as coisas, nomear os sentimentos. E porque não abrir os olhos de dentro e se permitir sentir? Esses doces aparatos que carregamos exaustivamente, que nos permite abarcar sensivelmente o mundo, sentir os outros e a nós mesmos é o mesmo que nos permite compreender o “não” como forma de resistência, não às injustiças, não aos padrões sociais, e não, principalmente, à falta de liberdade de ser quem se é.  

Erlândia Ribeiro

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Erlândia Ribeiro: Escritora, tendo publicado o livro de contos Superfícies irregulares (Kotter, 2019), também graduada em Letras Espanhol, Mestra no Programa de Pós-Graduação em Estudos Literários – PPG/MEL pela Universidade Federal de Rondônia e, atualmente, doutoranda em Estudos Literários no Programa de Pós-Graduação do PPGL-UFES pela Universidade Federal do Espírito Santo. Trabalha com os diários da escritora argentina Alejandra Pizarnik (1936-1972), seu objeto de vida e de pesquisa. Acredita na escrita como necessidade, existindo sempre uma sintonia fina entre o que se vive e o que se escreve. 

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