Saudosismo na veia
Newton
Braga inventou a Festa de Cachoeiro há uns 80 anos para celebrar
reencontros. Naquele tempo, quem tinha condições ia estudar no Rio e
vinha passar as férias em casa. Como o dia de São Pedro, padroeiro da
cidade, é 29 de junho, bem na boca das férias escolares, ele resolveu
aproveitar a data e marcar a festa. Deu certo. Dá gosto de ver meus
conterrâneos se abraçando, rindo e falando alto quando se encontram lá
na terrinha.
Pois
então. Amanhã acontecerá a sexta edição do Encontro dos Amigos da Praia
do Canto, lá na curva da Jurema. É um movimento idealizado por Marisa
Guimarães, minha colega de piscina, para reunir em lugar aberto, perto
do mar, pessoas das mais diferentes turmas e patotas de antigamente. Não
sei como a ideia vingou, mas deve ter sido por conta do saudosismo
fundamentado que acomete muita gente madura como eu, que passou a sua
juventude na Praia do Canto e, também, na Praia de Santa Helena e na
Praia Comprida, que saiu do mapa.
Sem
exageros, esse pedaço da ilha de Vitória era lugar próprio para criar
amizades e encontrar amores, andar de bonde e de bicicleta sem freio,
subir morro para ver o mundo do alto, pegar lagosta miúda, pescar
carapau valente, remar mar adentro, velejar por curtição e em regatas
oficiais, jogar pelada e vôlei na rua e frescobol nas areias da praia do
Barracão, nadar contra o relógio no Praia Tênis Club, pegar onda em
Camburí, não perde festa de debutante, esperar a vez na fila do galeto
no Iate Club, ouvir músicas inspiradoras, namorar muito, dançar
apertadinho e voltar pra casa a pé, sem medo.
É
bom saber que será lançado um livro com histórias e relatos escritos
por pessoas que tiveram o privilégio de morar naqueles bairros tão
especiais, então livres de prédios enormes e trânsito pesado. Quero crer
que a vida mansa, alegre e cordial que vivemos ali tenha sido
idealizada pelo sanitarista Saturnino de Brito ao projetar, lá pelos
idos de 1890, o chamado Novo Arrabalde, com ruas largas e traçado que
valorizava as enormes formações rochosas existentes. Quem viveu, viveu.
Vitória, 21 de agosto de 2019
Alvaro Abreu
Escrita para A GAZETA