domingo, 22 de setembro de 2019

Vai ser bonito, vai.


 
  

        
         Ao retirar a carne de vaca das ementas das cantinas (insiste-se, à náusea: o que é muito diferente de proibir o consumo de carne de vaca na universidade inteira), o reitor de Coimbra – ou, melhor, da equipa reitoral, pois não creio que tenha actuado sozinho – levantou um coro de protestos, quase todos oriundos da área da direita. Além de comentários cáusticos no jornal Sol (aí, Mário Ramires fez uma sugestão oportuna: proibir copos de plástico na queima das Fitas), surgiram no Observador vários artigos críticos, dois dos quais de pessoas que estimo e aprecio, Helena Matos («Os Filhos do Vasco Granja») e João Marques de Almeida («O Senhor Reitor não Gosta de Bifes»).
         Em ambos os casos, e noutros textos, fala-se de «ditadura», o que, convenhamos, é um manifesto exagero, tanto mais que, ao que sei, a Lei Fundamental não consagra o direito fundamental a comer carne de vaca ou o produto X ou Y numa cantina que é, para mais, subsidiada. Não tenho direito a caviar ou trufas do Périgord no tabuleiro de fórmica – e ninguém fala em opressão à liberdade por uma cantina universitária decidir sobre a sua ementa, a ementa que é subsidiada por ela, não paga ao preço de custo pelos alunos (alguém recordou isso?). Se o aluno pagasse na íntegra o preço da refeição, a conversa poderia ser outra, mas não é assim que as coisas se passam, temos pena. O Reitor já disse, e bem, que as restrições orçamentais e, sobretudo, as regras da contratação pública não lhe permitem comprar a carne que bem entenda, há regras e procedimentos, tem de se escolher a mais barata. Logo, pensar em novilhos bio, carnes maturadas, vacas japonesas massajadas ao som de Mozart, tudo isso é muito bonito, está muito bem, mas há dinheiro? Seria legalmente possível? Imagine-se agora que o Reitor, por uma qualquer razão, conseguia obter carnes de luxo para as cantinas, pagas com os impostos dos contribuintes. Que diriam os que agora o criticam? Filé mignon com os nossos impostos! Diferente, pois ponderada e informada, é a opinião de Henrique Pereira dos Santos, a ler. Obrigado, Henrique.
         O ponto, quanto a mim, é outro. Isto foi um caso risível de bifes numa cantina. Dirá o Reitor que é «simbólico», no bom sentido, dirão os críticos que é «simbólico», no mau. Não interessa. O que interessa, e o que me interessa, o que me aflige e me preocupa, é pensar: se ficou tudo alvoroçado com a retirada da carne de vaca de uma cantina, como será quando se tiverem de fazer mudanças a sério? Os estudantes não se queixaram, até aplaudiram. Na universidade, de quem come lá, não houve contestação, nem um Maio de 68 carnívoro. As críticas vieram de quem não come na cantina, mas opina. E a prova que tanta gente dá, Assunção Cristas incluída, de aversão e impreparação para a mudança é assustadora. Assustadora. E reveladora. De ignorância. Acaso não saberão que Jacarta, a capital inteira de um país imenso, vai ter de mudar de sítio? Acaso ignorarão que a Cidade do Cabo esteve meses, anos, sem água, até há muito pouco? Isso, sim, são mudanças. Por cá, carne coimbrã…
 
Theewaterskloof, o principal reservatório de água da Cidade do Cabo, com 11% da sua capacidade. Fotografia de Março de 2018.
 
 
         Aqui, em Portugal, só muda a ementa de uma cantina – e é isto, um psicodrama. E se Lisboa tivesse de mudar de lugar, como na Indonésia, ou se o Porto passasse meses à seca, como na África do Sul? Como será quando e se (o «se» aqui é eufemístico) tivermos de racionar a água, deixar de andar de automóvel, limitar as viagens de avião ao estrangeiro? Vai haver mortos e feridos? Que sinal dá ao povo português, e à necessidade de mudança radical e urgente, uma dirigente política que reage como Assunção Cristas reagiu? Que mensagem transmite aos agricultores? Julga que está a defender os seus interesses, no imediatismo de vistas curtas, mas não, puro engano. Não é do interesse dos agricultores nem da «lavoura» manterem o statu quo, não alterarem os seus modelos de produção, fingirem que as alterações climáticas, como alguém já disse, são uma artimanha da esquerda radical e comuna para pôr em causa o empresariado e a iniciativa privada. Santo Deus… Quantos relatórios ou notícias (como esta) serão necessários, quantos tufões e furacões, quanto milhões de mortos conseguirão vencer aquilo a que Cipolla chamou as leis fundamentais da estupidez humana?
         Este foi um caso de bitoque que deu um vendaval de bitaites. Quando for a doer, que teremos? Uma guerra civil? Os professores do Mondego sumariamente executados, caso não inédito na nossa História? E não, não falem de direita e esquerda. O ambiente não é, nem deve ser, uma «causa fracturante». Se for, se deixarem que o seja, a direita está arrumada, perdeu os jovens, perdeu o mundo, perdeu o poder e o mando por décadas e décadas. Ainda não perceberam isso? Ainda não perceberam que uma tão falada «refundação» da direita tem forçosamente de passar pelo ambiente? Que é insensato e estúpido, profundamente estúpido, deixar que isto se torne uma causa e um feudo da esquerda? Não perceberam que, mesmo na esquerda, quem se atrasou neste tema, quem abriu campo e jogo ao PAN, foi e vai ser eleitoralmente punido por causa disso? Não percebem que só tendo uma voz activa neste domínio existe legitimidade para criticar depois excessos, radicalismos, fundamentalismos e falsos alarmismos?
         Desculpem, não maço mais, mas... é mesmo preciso fazer um desenho?
 
 
 
 
 
 

São Cristóvão pela Europa (94).


 
 
 
Prosseguindo nos caminhos da Baviera, agora mais ao Norte, cheguei à cidade histórica dos banqueiros Fugger, onde reuniu a dieta de Augsburg e onde o protestantismo lançou a Confissão de Augsburg.
Na Catedral de Augsburg, uma imagem de São Cristóvão:
 


 
Ainda na Catedral, um dos maiores frescos de São Cristóvão que já vi:
 

Em Weissenburg, cidade que durante muito tempo constituiu o ponto mais avançado do Império Romano na Germânia, a igreja de Santo André exibe um extraordinário tríptico gótico tardio datado de 1496:
 

 
Na parte central, São Bento, Nossa Senhora sobre um Crescente e São Sebaldo. Nas partes laterais, Santo Antão e São Sebastião.
Em baixo os catorze santos auxiliadores de que já aqui falámos. O primeiro deles é São Cristóvão:
 
 
 
Fotos de 11 e 12 de Agosto de 2019
José Liberato

sábado, 21 de setembro de 2019

Os Fugger e Augsburg.

 
 
A família Fugger, natural de Augsburg e já rica no início do século XV sobretudo devido à sua actividade no têxtil, tornou-se no decorrer do século um potentado europeu ao investir na Banca.
Grandes financiadores dos Habsburgos, conseguiram em especial garantir de forma bem pouco ortodoxa várias eleições ao Sacro Império Romano-Germânico. Foi o caso das eleições de Maximiliano I e em especial de Carlos V, recebendo em troca grandes favores dos imperadores.
Relacionaram-se com os Reis de Portugal, nomeadamente com D. João II e D. Manuel I, tendo chegado a constituir uma verdadeira PPP para as especiarias a seguir à chegada de Vasco da Gama à Índia.
Tiveram uma representação em Lisboa e relacionaram-se com Portugal através da Feitoria em Antuérpia.
Em 1512, Jakob Fugger von der Lilie (1459-1525) resolveu construir um imenso edifício em Augsburg destinado à sua habitação na cidade mas também a fins comerciais.
O edifício perdurou ao longo dos séculos mas foi destruído na II Guerra Mundial. Foi reconstruído e ainda permanece na propriedade da família.
 


Por esta casa passaram os imperadores Maximiliano I e Carlos V, Dürer, Lutero, Ticiano e Mozart para além de uma infinidade de reis e cardeais. Em especial, muitos dos eleitores do Império Sacro Romano-Germânico pernoitavam no complexo, o que era muito conveniente para os Fugger. 

Mas mais interessante ainda é o Fuggerei um complexo de habitação social criado pelos Fugger em 1519. Oito ruas em condomínio fechado com renda simbólica. Há quem diga que a renda se mantém igual desde 1519. Os moradores têm a obrigação moral de rezar pela família Fugger que ainda hoje continua a gerir o complexo.
Aqui morou o bisavô de Mozart, Franz Mozart.
Durante a II Guerra Mundial foram construídos bunkers para proteger as famílias moradoras.



 
 
José Liberato
Fotografias de 11 de Agosto de 2019
 

sexta-feira, 20 de setembro de 2019

Sobre o bife académico (2)

 
 



Fonte: FAO/Nações Unidas, aqui


 
         Não sei quem é o economista Ricardo Pinheiro Alves, que assina no Observador um artigo intitulado «Coimbra: Especulações sobre um Bife».


         O texto abre assim: «há um mês e meio uma faculdade obscura do Reino Unido, a Goldmsiths, anunciou que iria proibir o consumo de carne de vaca nas suas instalações».
 
         Suspeito que Ricardo Alves, um defensor de Boris Johnson e de um Brexit rápido, seja doutorado numa universidade menos obscura. Cambridge, por exemplo. Recomendo que veja o que fez Cambridge (desde 2016!), decerto uma universidade de terceira para os elevados padrões académicos do Prof. Alves. Leia aqui o que fizeram a Ulster University, a University of East Anglia e diversos colleges em Oxford, ou o que fizeram a Universidade de Edimburgo e a Westminster University. OK, doutor Alves?
 
      E não, não se proibiu o consumo de carne bovina em instalações nenhumas: nas ementas da cantina deixou de ser servida carne de vaca, mas quem quiser pode comê-la à vontade. De uma vez por todas: não está proibido o consumo de carne de vaca, a carne de vaca deixou de ser servida nas ementas da universidade.  Abstenho-me de comentar as afirmações de Assunção Cristas, segundo as quais «querer banir o acesso das pessoas, por exemplo, à carne de vaca, é tão ilegítimo como banir refeições vegetarianas», lembrando tão-só que, segundo sei, não existem recomendações da Organização Mundial de Saúde (Agência Internacional para a Investigação em Cancro) e da nossa Direcção-Geral de Saúde sobre moderação no consumo de vegetais, ao contrário do que sucede com a carne de vaca.

 
O melhor trecho do colunista Alves, porém, é a insinuação brincalhona de que o Reitor da Universidade é «sócio de um McDonald’s em Coimbra». Talvez não tão brincalhona assim, pois logo a seguir se diz: «Não seria a primeira vez, muito longe disso, que um lugar público era usado para benefício pessoal.» Lindo, não?
 
Também bom, muito bom: «O reitor é da área farmacêutica, pelo que não terá especiais conhecimentos sobre as questões ambientais

 
Melhor ainda, o colunista do Observador questiona as alterações climáticas, perguntando: «O alarmismo sobre a degradação do ambiente é justificado e há um ponto de não retorno a partir de 2030, como nos querem fazer crer? Ou há um aumento da temperatura média principalmente porque estamos num período interglacial quando a dita temperatura aumenta naturalmente? Ou ainda, há uma agenda anticapitalista por trás deste alarmismo, usando as questões ambientais em substituição da revolução para nos impor uma visão totalitária da sociedade?»

 
Sem comentários. Toda a opinião é livre, mas a imbecilidade deve ser denunciada.

 
Foi o que fiz, ou tentei fazer.
 
 
 

«Morte à PIDE!»

 
 



O bife académico.

 
 

 
 
         Confesso que não percebo o vendaval do bife. O reitor da Universidade de Coimbra anunciou que, no início do próximo ano, as cantinas académicas vão deixar de servir carne de vaca. Só isso, nada mais do que isso. Não disse que o consumo de carne de vaca está proibido no interior das instalações académicas. Determinou apenas que um determinado produto deixa de ser servido nas cantinas. Um produto cujo consumo a OMS desaconselha em doses excessivas, sabendo nós também que moderar o consumo de carne de vaca é também vantajoso para o ambiente. O que Coimbra fez nem sequer é original, muitas universidades inglesas fizeram-no – e não consta que isso tenha merecido pronúncia pública do ministro da agricultura inglês ou da rainha Isabel II. O que a Universidade de Coimbra está a fazer é, tão-só, eliminar a carne de vaca das ementas das cantinas. Justifica-se que um ministro venha falar – de resto, com pouco respeito pela autonomia universitária – em «populismo» e «demagogia»? Uma universidade pública dar um sinal público de compromisso com algo que é defendido por todas as instituições internacionais de referência, com a OMS à cabeça, é «populismo» e «demagogia»? A universidade será por acaso obrigada a servir bife de vaca? Alguém disse, porventura, que um aluno que seja apanhado a comer um hambúrguer no Páteo das Escolas será punido ou perseguido? Por amor de Deus, o que está em causa é, e é apenas, uma decisão sobre as ementas de uma cantina. Uma decisão que não é neutra, obviamente, que tem uma carga simbólica, evidentemente. Mas essa carga simbólica é negativa e desprezível? Não. Podem não a achar louvável, podem achar o que quiserem, mas decidir, em nome da saúde e do ambiente, que num estabelecimento público não se serve mais um determinado produto – é só isso! – não parece ser uma questão que mereça comentários, incluindo este. Todos os dias há centenas de vozes a apelar à moderação no consumo de carne de vaca. Agora, o reitor de Coimbra, juntando-se ao coro, determinou que as cantinas académicas deixar de servir bifes. Dir-se-á, repete-se, que isto é um sinal. Pois é, e ainda bem. Ou não é também um sinal, de sentido contrário, proclamar-se que se come carne de vaca, como se isso interessasse e tivesse a ver com o assunto? E, entre os dois sinais públicos, entre os dois gestos simbólicos (vetar o bife vs. proclamar o seu consumo), ambos legítimos numa sociedade livre, qual é o mais positivo do ponto de vista sanitário e ambiental? Qual é? Importam-se de ler esta nota da Direcção-Geral de Saúde sobre consumo de carne e cancro?
         Eis um pálido e primeiríssimo aviso das tensões e conflitos que nos aguardam, nesta e noutras matérias (por agora, à conta do bife coimbrão, já temos dois ministros à batatada). As alterações climáticas, está estudado, irão provocar guerras entre povos e nações, confrontos a propósito da água e de outros bens essenciais. Portugal e Espanha, provavelmente, vão ter vários confrontos diplomáticos, espera-se que só diplomáticos, a propósito de rios e cursos de águas. Mas os conflitos vão eclodir, e muito, no interior de cada país, pois a emergência climática vai obrigar a mudarmos radicalmente de estilo de vida, afectando interesses instalados em muitos sectores económicos, e não só. Há alarmismo e algum desnorte, sem dúvida. Mas, com serenidade e calma, devemos concluir que temos de mudar, e mudar muito. Todos os dias há sinais que o mostram, relatórios novos, dados incontroversos. O facto de uma decisão tão simples e circunscrita, como esta do reitor de Coimbra, suscitar tamanho vendaval é um preocupante prenúncio das guerras que aí vêm, na hora em que tivermos de agir – e agir drasticamente. É isso que os que criticam o reitor de Coimbra deviam perceber, quando falam em populismo ou proclamam o seu apreço ao bife. Como será quando as coisas forem mais sérias e mais drásticas? Dir-se-á que já não será no tempo de Capoulas Santos ou doutros como ele. Talvez, não sei. Mas sei que os que vierem a seguir, as gerações vindouras, não deixarão de julgar os que agora mandam e decidem pelo que fizeram – e, sobretudo, pelo que deixaram de fazer.
 
 
 
 
 
 
 
 

quinta-feira, 19 de setembro de 2019

Obrigado, Senhor.



 

 
 
 
Os miúdos que agora vão a concertos de música e a festivais zambujeiros deste mundo globalizado e chinês nem sabem bem o que é ir a um concerto, ou o que significa ir a um concerto. Portugal, Junho de 1981, ainda era um país tipo RDA pós-salazar e pós-PREC, onde chegava muito pouco, quase nada, do que acontecia lá fora. Não havia Internet nem Zara, e a pornografia possível difundia-se em suporte papel com nome de Gina. Kispo era uma marca de blusões aceitável, até apreciada. E até sei, vejam lá, de histórias reais de Big Mac’s comprados em Heathrow e trazidos semifrios para Lisboa, onde eram devorados até ao último sésamo. As marcas eram, mais do que hoje, uma etiqueta social poderosa, com autocolantes colados nas janelas dos quartos teen, a tapar o sol. Nas paredes, cartazes das estrelas, jamais de Roberto Carlos. Roberto Carlos era e é o cúmulo da foleirice – e estamos cá para dizê-lo. Roberto Carlos, como pessoa, na «vida real», como se dizia dos actores das novelas brasileiras, pode ser um canalha com poucos escrúpulos, algo de que nos apercebemos – e, ainda assim, muito ao de leve – nas entrelinhas do extraordinário Vale Tudo. O Som e a Fúria de Tim Maia, de Nelson Motta. Mas foi assim:
Em 22 de Junho de 1981, o Rei actuou no Estádio de Alvalade para o que então era uma enchente, oito mil pessoas, uma estatística que hoje é igual à dos estrangeiros que se apinham e me abespinham no meu miradouro à Graça. Eu tinha na altura um maravilhoso cartão de imprensa, tirado no Palácio Foz, como fotógrafo freelancer de uma agência francesa, a AFIP (Agence Française de Information Photographique). Que um menor de idade pudesse trabalhar infantilmente como fotógrafo de uma agência francesa, que o Estado português soberano lhe desse um cartão oficial que dizia «Press» e lhe dava acesso a tudo o que era lugar público reservado são coisas que não cabem muito na cabeça dos miúdos de hoje, mundo globalizado e chinês. Mas era assim na RDA lusitana – e ainda está por estudar a importância brutal, absolutamente brutal, que os concertos tiveram para os miúdos portugueses da altura, um fogo-fátuo de cosmopolitismo essencial para a consolidação da democracia e para pavimentar a entrada na CEE. Na altura, além dos concertos e das revistas de importação, dos filmes que ficavam meses em cartaz e eram alvo de reprises estivais (foi assim que de uma assentada vi todo o Woody Allen no Caleidoscópio), além disso não havia nada, absolutamente nada. Uns felizardos iam a Paris, mas sobretudo a Londres, um piloto da TAP era alguém como Bill Gates, mas fora isso muito pouco. Agora os miúdos vão passar fins-de-semana em Amesterdão com a mesma ligeireza com que antes eu ia a Alverca, mas as alterações climáticas vão acabar com o low cost aéreo e os seus filhos ou netos terão de voltar a gozar Alverca, na melhor das hipóteses. É claro que isso vai criar ainda mais conflitos e tensões, e irão falar de injustiça geracional, da mesma forma que hoje falam da «conspiração grisalha» dos mais velhos, que para si reservaram o melhor e o que resta do Estado-Providência em escombros e das pensões da segurança social. Com o ambiente, vai ser o mesmo. A necessidade de responder às alterações climáticas vai matar a globalização (adeus, chineses), vai diminuir as viagens pelo ar, vai acabar com fins-de-semana neerlandeses. Quando se começar a ter de racionar a água do banho, evitar as praias infestadas de mosquitos, largar o transporte particular, as gretas thunbergs vão culpar-nos a nós, e aos nossos filhos, por causa dos fins-de-semana neerlandeses, dos gap years no Perú, Macchu Pichu, do «mochilão» em orientes extremos. Vai ser bonito, vai.
É por isso que é tão importante e tão fundamental gritar Obrigado, Senhor. Por estarmos vivos, aqui, aí. Por Roberto Rei. O camarim era numa roulotte colocada no meio do relvado, havia um túnel de lona que protegia o Monarca Supremo dos olhares da plebe no caminho até atrás do palco, atrás da porta. E eu, tonto miúdo, levava uma t-shirt amarela (da Adidas!) em homenagem canarinha ao menestrel das Baleias. Do concerto, já lembro pouco, excepto as fotografias que então lhe tirei numa Asahi Pentax, Roberto de branco, nas emoções encenadas, de cravos alvos na mão, muito artificialmente comovido, lágrimas de plástico. Depois um apontamento no diário parvo, qualquer coisa em transe foleiro como «não é todos os dias que se vê o Rei». Hoje vê-se o Rei todos os dias, no Youtube, mas não é a mesma coisa. Não, não é. Uma coisa é uma coisa, outra coisa é outra coisa, uma outra coisa. E, a seguir ou antes de Roberto, muitos outros concertos (todos os que existiam), bem perto dos palcos, bendito cartão Press do Palácio Foz. Poucos foram como aquele, uma noite de Junho de 1981, ainda havia o Muro em Berlim e uma Cortina de Ferro geográfica e sobretudo mental que fazia (e faz) de nós um país encantadoramente periférico e atrasado. Mais em 1981 do que hoje, é certo. E por isso nunca mais fui ver Roberto, que agora é piroso e velho, mas antes, quando já era piroso posto que não tão velho, Roberto era o que havia, como as revistas porcas da Gina ou os blusões loucos da Kispo. Gozar o que há, mesmo sendo pouco e fraquinho, kitsch e roberto carlos, é uma lição zen que deveria ser mais seguida, sobretudo pela miudagem do mochilão, que tem tudo menos um passe press que abre ou abria mundos infinitos para um adolescente que, obrigado Senhor, era capaz de se espantar com o mundo, com todo o mundo, e de sofrer com ele. Andamos cada vez mais encharcados em antidepressivos, massacrados nos empregos ou nos muitos reveses da infortuna, mas talvez devêssemos começar as manhãs a ouvir este homem-canalha e a agradecer ao Senhor por ele existir já há tantos anos nas nossas vidas que se tornou uma parte insondável de nós. Há dias, com a morte de Roberto Leal, alguém colocou desastradamente nas redes uma foto rip com a cara de Roberto Carlos. Tremi de pensar que um dia ele vai morrer, envolto num caixão branco e chorado por tudo quanto foi mulher-a-dias e porteira de buço do Portugal que foi meu. Quando ele morrer, há uma parte de nós que vai ficar cadáver, como cadavéricas são já estas memórias de Alvalade 1981, perdão.
 
Obrigado, Senhor: o Rei está vivo e nós também. A ouvi-lo em volume máximo.
 
Graças a Deus.  
 
 

terça-feira, 17 de setembro de 2019

Império Invisível.

 
 

Deve construir-se um aeroporto no Montijo?


 
 
 
 
Não. Nas páginas do Expresso, Miguel Sousa Tavares disse o óbvio: não. Como é que um país que está comprometido com uma agenda de descarbonização pensa em construir um novo grande aeroporto? As emissões de gases-estufa na União Europeia aumentaram 87% entre 1990 e 2006, e não dão sinais de parar. Na conferência trienal da ICAO, em 2016, a aviação internacional conseguiu iludir o problema, que se agrava de dia para dia, até ao dia. Para ter uma ideia do impacto ambiental da aviação, basta ler esta entrada da Wikipedia. Como é óbvio, as coisas vão mudar, e mudar drasticamente, provavelmente com a imposição de taxas pesadas, com aumentos de preços e diminuição do número de voos – será económica (e ambientalmente) viável um grande aeroporto em Lisboa, daqui a quarenta ou cinquenta anos? Não, e não venham com projecções enviesadas sobre o aumento do tráfego aéreo, pois essas projecções não têm em conta o que irá acontecer em termos de taxas, preços, custos, diminuição de passageiros. É sustentável um novo grande aeroporto no Montijo? Não. E ninguém pensa nisso?

Columbia Street, Fall River, Massachusetts.

 
 



Fotografias de Onésimo Teotónio de Almeida





 

segunda-feira, 16 de setembro de 2019

Duas ou três coisas que não sei sobre a Maçonaria.






 

         Primeira, porque é que numa sociedade democrática e aberta, baseada na igualdade e na transparência das instituições, a Maçonaria se mantém elitista e de acesso reservado, secretista, opaca e nebulosa, mas se proclama progressista e avançada? Porque é que não há gente do povo na Maçonaria, porque é que os pedreiros livres não podem ser pedreiros-livres?

         Segunda, porque é que uma organização que reclama um longo historial em defesa dos direitos humanos e da igualdade mantém uma separação discriminatória – pior que a da Igreja – entre maçonaria masculina e maçonaria feminina? E porque é que é incapaz de se libertar desse arcaísmo misógino?

         Terceira, porque é que, sempre que se fala da Maçonaria, alguns respondem com o Opus Dei, numa tentativa de equiparação de culpas, reveladora de má consciência?

 
 
 
 

domingo, 15 de setembro de 2019

A filosofia política dos sacos de plástico.





 

         Estou a ler Green Philosophy, do papa do conservadorismo Roger Scruton, e sobre o livro falarei depois, se tiver vagar, paciência, engenho – e vontade.

         Há uma coisa que Scruton diz e que, não sendo muito original (a discussão sobre «externalidades» é antiga e vasta), faz que pensar. A propósito dos plásticos, mas também poderia ser a propósito de outras coisas, como a construção de casas em leitos de cheias ou actividades poluentes. Diz ele, e com razão, que para umas empresas não pagarem por embalagens de vidro ou de outros materiais, para aumentarem o lucro ou pouparem usando o plástico, mais baratinho, todos nós acabamos por pagar – em custos ambientais mas em custos económicos, com as despesas de remoção, tratamento, etc., etc. Quer dizer – e isto não é dito por um marxista, mas pelo nome maior do conservadorismo de direita –, estamos todos a pagar para alguns, poucos, não pagarem. É uma espécie de imposto indirecto, ou oculto, a favor de uns privados, não destinado ao Estado para ser distribuído e gasto em despesas sociais. É um preço adicional que acarretamos. Quando paga mais barato por um produto numa embalagem de plástico, não está verdadeiramente a pagar mais barato; no imediato, parece mais barato, em comparação com uma embalagem de vidro, de cartão, de metal. Mas, na verdade, há um preço diferido, e bem elevado. O que julga que custa três euros se calhar vai custar-lhe cinco euros, o custo que vai suportar no ambiente que o envolve, na remoção e no tratamento, nos serviços de limpeza urbana, no que for. Estou a extrapolar um pouco a partir do que diz Scruton, mas creio que esta é uma injustiça oculta do nosso tempo, mais uma. Injustiça não é apenas vertical, ricos e pobres, ou geracional, de idosos para mais novos. É injusto, parece-me, que, para uns poucos pouparem nos custos de produção e aumentarem os ganhos, todos termos de pagar. Sem nos apercebermos disso, o que torna ainda menos transparentes, claras e leais as regras do mercado. Bom domingo.
 
 
 
 

sábado, 14 de setembro de 2019

São Cristóvão pela Europa (93).

 
De novo na Baviera prossigo uma rota de Imagens de São Cristóvão desde Füssen até Augsburg.
Em Füssen, a fachada da Igreja do Hospital do Espírito Santo, construída em 1748 e 1749 e uma jóia do rococó da Suábia e da Baviera:
 

 
 
No Museu da Abadia de Ottobeuren, duas imagens de São Cristóvão. A da esquerda proveniente da Região alemã de Allgäu de fins do Século XV e a da direita da também região alemã da Alta Suábia, datada de cerca de 1500:
 
 
Em Memmingen, na Igreja de São Martinho, um fresco:
 

 
 
Fotografias de 11 de Agosto de 2019
José Liberato