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Luís Omar Cáceres (1904-1943)

Omar_Caceres_(1926)

Luis Omar Cáceres foi uma figura excêntrica na literatura de vanguarda chilena. “Tinha uma maneira estranha de recitar, de pronunciar as palavras, quase que as saboreando, degustando-as”, diz Miguel Serrano, “E a aura angustiosa que o rodeava era tão impenetrável e irrespirável como os espaços gélidos do cosmos. Estava envolto em uma atmosfera de morte e solidão total. Seu drama se podia adivinhar em seus poemas; porque havia alcançado ali onde a vida humana já não encontra seu oxigênio habitual e presencia outros universos, arrebatando a alma e a destruindo, congelando-a e a desabilitando de toda convivência humana.”

Nascido na comuna de Cauquenes, no dia 5 de julho de 1904, Omar Cáceres foi um poeta chileno e uma das referências do vanguardismo latino-americano no Chile. Seu modo de vida e sua morte misteriosa pincelaram sobre ele um retrato de “poeta maldito”. Filho de pais professores, estudou direito em 1922, mas não chegou a concluir o curso. De aspecto taciturno e distante, começou, já nos anos 1920, a se aproximar do ambiente artístico que lhe era contemporâneo, dedicando-se, inicialmente, à crítica literária. Na época, chegou a perder seu emprego como secretário de um juiz por ter se vinculado ao Partido Comunista, chegando a se pré-candidatar como deputado.

Em 1931, teve três poemas seus incluídos na famosa antologia “La poesía chilena moderna”, de Rubén Azócar. Publicou somente um livro em vida, Defensa del ídolo, em 1934, que causou grande rebuliço. Tem um prólogo escrito por Vicente Huidobro, o único prólogo escrito por ele. O livro continha diversos erros, e enfurecido pela extensa errata, Omar Cáceres reuniu todos que conseguiu e os queimou. Os exemplares sobreviventes foram poucos, mas serviram para as reedições posteriores da obra. Nesse mesmo ano funda, junto a Vicente Huidobro e Eduardo Anguita, a revista Vital/Ombligo.

No ano seguinte, foi incluído na “Antología de poesía chilena nueva”, na qual teve uma pequena prosa publicada, intitulada “Eu, velhas e novas palavras” (“yo, viejas e nuevas palavras”; no original), sendo este seu único texto de prosa conhecido, mesmo que ainda houvesse notícias de que havia trabalhado em um livro de contos e numa biografia do seu antigo patrão, o juiz Eliodoro Astorquiza.

Em seus últimos anos de vida, Cáceres deixou de conviver com a maioria dos escritores que havia conhecido. Uns chegaram a pensar que havia sucumbido à loucura, outros que havia ido viver em alguns lugares subdesenvolvidos e abandonados.

Seu corpo foi encontrado numa vala, na primeira semana de setembro de 1943, na comuna de Renca, com a cabeça podre e os bolsos vazios. Pensaram que se tratava de um assassinato ou suicídio, mas até hoje não se sabe de que forma ele veio a falecer.

Abaixo, 4 poemas seus presentes na plaquete “Âncoras Opostas”, publicada pela munganga edições.

Victor H. Azevedo

* * *

 

YO, VIEJAS Y NUEVAS PALABRAS
“No debiera escribir esto, desde que todo queda dicho, o no, en cada uno de los poemas, y en cada una de sus palabras.
Se trata de una selección de mis primeros trabajos, selección que el tiempo y una mayor conciencia literaria han ido restringien-do; y que, demasiado solo para oponerme a la impura diversidad del mundo, no pude publicar con la acentuada y natural distribución de su orden cronológico.
Así he vivido.
Mi actitud no es, sin embargo, la de un nihilista, la de un ególatra o la de un deshumanizante…
No.
Es la de aquel que fue demasiado lejos en el corazón de los hombres y en su propio corazón; la de aquel orgulloso de las soberbias esperanzas que, de súbito, creyendo disponer del universo en una enumeración insólita, tropieza, en cambio, con la omnipresencia lacerada de su yo, mientras un índice de revelación señala esa fijeza con su fuego individual.
He ahí mi pavoroso problema.
Aquellos que han amado mucho, y que han meditado en el PORQUE de su sufrir al perder para siempre lo que amaron, esos tendrán que comprenderme.
No he escrito, pues, como se lo dije un día a un poeta, “llevad del afán de HACER LITERATURA, achaque tan común en nuestra tierra, sino obedeciendo a irresistibles impulsos; a la necesidad, más bien, de definir por medio de la expresión de mis estados interiores la VERDADERA situación de mi yo en el espacio y en el tiempo”…
Una nueva modalidad ético-estética debe alcanzar, necesariamente, aquel que parte en línea extrema de si mismo.
No pretendo haber alcanzado ni alcanzar tan soberano éxito.
Hay, lo sé, en estos poemas, influencias que aun los condicionan a aquello que tan arbitrariamente han dado en llamar “el fondo y la forma”.
Las hay, sobre todo, de estas últimas. Dos o tres poemas.
No obstante, a través de su presencia excepcional, el espíritu se recupera en cada página.
Y eso es lo que me interesa.
Sé, por fin, que lo que digo ya está dicho; mis palabras sólo me pertenecen.
Pero, después de todo, mi grande emoción, la trágica experiencia de mi espíritu, son auténticas.
Y ése es el punto de partida desde el cual y a través de esfuerzos mejores, los jóvenes que verdaderamente odiamos, el pasado y el presente, a fuerza de amar el porvenir, lograremos, si no alcanzar, por lo menos preparar, aquel vasto equilibrio que habrá de liberar a la humanidad, haciéndola revelarse a si misma en su esencia más íntima.”

EU, VELHAS E NOVAS PALAVRAS

“Não deveria escrever isto, desde que tudo fica dito, ou não, em cada um dos poemas, e em cada uma de suas palavras.
Trata-se de uma seleção dos meus primeiros trabalhos, seleção que o tempo e uma maior consciência literária foram restringindo; e que, demasiado só para me opor à impura diversidade do mundo, não posso publicar com a acentuada e natural distribuição de sua ordem cronológica.
Assim vivi.
Minha atitude não é, entretanto, a de um niilista, a de um ególatra ou a de um desumanizante…
Não.
É daquele que foi demasiado longe no coração dos homens e em seu próprio coração; daquele orgulhoso das esperanças soberbas que, de súbito, crendo dispor do universo em uma insólita enumeração, tropeça, em troca, com a onipresença lacerada do seu eu, enquanto um índice de revelações sinaliza essa firmeza com seu fogo individual.
Aí está meu pavoroso problema.
Aqueles que amaram muito, e que meditaram sobre o PORQUÊ de sofrer ao perder para sempre o que amaram, esses terão que me compreender.
Não escrevi, então, como foi dito um dia a um poeta, “levado pelo afã de FAZER LITERATURA, moléstia tão comum na nossa terra, mas obedecendo a irresistíveis impulsos; à necessidade de definir, por meio da expressão dos meus estados interiores, a VERDADEIRA situação do meu eu no espaço e no tempo” …
Uma nova modalidade ético-estética deve alcançar, necessariamente, aquele que parte na linha extrema de si mesmo.
Não pretendo ter alcançado nem tentar tão soberano êxito.
Há, eu sei, nestes poemas, influências que ainda os condicionam àquele que tão arbitrariamente é dado a ser chamado de “o fundo e a forma”.
Existem, sobretudo, por meio destas últimas. Dois ou três poemas.
Não obstante, através da sua presença excepcional, o espírito se recupera em cada página.
E isso é o que me interessa.
Sei, por fim, o que eu disse está dito; minhas palavras só a mim pertencem.
Mas, depois de tudo, a minha grande emoção e a trágica experiência do meu espírito são autênticas.
E esse é o ponto de partida desde o qual, e por meio de esforços melhores, os jovens que verdadeiramente odiamos, o passado e o presente, a força de amar o porvir, lograremos, se não alcançar, pelo menos preparar aquele vasto equilíbrio que haverá de libertar a humanidade, fazendo-a revelar-se a si em sua essência mais íntima.”

§

ANCLAS OPUESTAS
Ahora que el camino ha muerto,
y que nuestro automóvil reflejo lame su fantasma,
con su lengua atónita,
arrancando bruscamente la venda del sueño
de las súbitas, esdrújulas moradas,
hollando el helado camino de las ánimas,
enderezando el tiempo y las colinas, igualándolo todo,
con su paso acostado;
como si girásemos vertiginosamente en la espiral de nosotros mismos,
cada uno de nosotros se siente solo, estrechamente solo,
oh, amigos infinitos.

(100, 200, 300,
miles de kilómetros, tal vez).
El motor se aísla.
La vida pasa.
La eternidad se agacha, se prepara,
recoge el abanico que del nuevo aire le regala nuestra marcha;
en tanto que enterrado su osamenta de kilómetros y kilómetros,
los cilindros de nuestro auto depáranse a la zona de nuestros propios muertos;
he ahí los antiguos héroes dirigiéndonos sus sonrisas de altivos y próximos espejos;
mas, junto a ellos, también resiéntense,
los rostros de nuestros amigos,
los de nuestros enemigos,
y los de todos los hombres desaparecidos;
nuestro automóvil les limpia el olvido con el roce delirante de sus hálitos.

Como esas manos de mármol que se saludan a la entrada de las tumbas,
nuestro automóvil seráfico ratifica el gran pacto,
que a ambos lados de la ruta, conjuradas,
atestiguan las súbitas, esdrújulas viviendas golpeándose entre sí…

Ahora que el camino ha muerto,
y que nuestro automóvil reflejo lame su fantasma,
con su lengua atónita,
como si girásemos vertiginosamente en la espiral de nosotros mismos,
cada uno de nosotros se siente solo, indescriptiblemente solo,
oh amigos infinitos!

ÂNCORAS OPOSTAS

Agora que o caminho está morto,
e que o reflexo do nosso automóvel lambe seu fantasma,
com sua língua atônita,
arrancando bruscamente a venda do sono
das súbitas, esdrúxulas moradas,
pisando sobre o gelado caminho dos ânimos,
endereçando o tempo e as colinas, igualando tudo,
com seu passo acamado;
como se girássemos vertiginosamente na espiral de nós mesmos,
cada um de nós se sente só, estreitamente só,
ó, amigos infinitos.

(100, 200, 300,
milhares de quilômetros, talvez.)
O motor se isola.
A vida passa.
A eternidade se agacha, se prepara,
recolhe o leque que do novo ar dá nossa marcha;
como se estivesse enterrada sua ossada de quilômetros e quilômetros,
os cilindros do nosso carro deparam-se com a zona dos nossos próprios mortos;
aqui estão os antigos heróis nos dirigindo seus sorrisos de altivos e próximos espelhos;
mas, junto a eles, também resistem,
os rostos dos nossos amigos,
os dos nossos inimigos,
e os de todos os homens desaparecidos;
nosso automóvel os limpa do esquecimento com o roçar delirante dos seus hálitos.

Como essas mãos de mármore que se saúdam na entrada das tumbas,
nosso automóvel seráfico ratifica o grande pacto,
que ambos os lados da rota, conjurados,
testemunham as súbitas, esdrúxulas vivendas golpeando-se entre si…

Agora que o caminho está morto,
e que o reflexo do nosso automóvel lambe seu fantasma,
com sua língua atônita,
como se girássemos vertiginosamente na espiral de nós mesmos,
cada um de nós se sente só, indescritivelmente só,
ó, amigos infinitos!

§

AZUL DESHABITADO
Y, ahora, recordando mi antiguo ser, los lugares que yo he habitado,
y que aún ostentan mis sagrados pensamientos,
comprendo que el sentido, el ruego con que toda soledad extraña nos sorprende
no es más que la evidencia que de la tristeza humana queda.

O, también, la luz de aquél que rompe su seguridad, su consecutiv’atmósfera,
para sentir cómo, al retornar, todo su ser estalla dentro de un gran número,
y saber que “aún” existe, que “aún” alienta y empobrece pasos en la tierra,
Pero quién está ahí absorto, igual sin dirección,
solitario como una montaña, diciendo la palabra entonces:
de modo que ningún hombre puede consolar al que así sufre:
lo que’ él busca, aquéllos por quienes él ahora llora,
lo que ama, se ha ido también lejos, alcanzándose.

AZUL DESABITADO

E, agora, recordando meu antigo ser, os lugares que habitei,
e que ainda ostentam meus sagrados pensamentos,
compreendo que o sentido, a prece com que toda solidão estranha nos surpreende
não é mais do que a evidência de que a tristeza humana permanece.

Ou, também, a luz daquele que rompe sua segurança, sua consecutiva’ tmosfera,
para sentir como, ao retornar, todo seu ser estoura dentro de um grande número,
e saber que “ainda” existe, que “ainda” alenta e empobrece passos na terra,
mas quem está ali absorto, igual, sem direção,
solitário como uma montanha dizendo a palavra então:
de modo que nenhum homem pode consolar o que assim sofre:
o qu’ele busca, aqueles por quem ele agora chora,
o que ama, partiu também para longe, alcançando-se!

§

CANCIÓN AL PRÓFUGO
Golpeando l’aguda meta con su escudo monótono, hay,
desde que te fuiste, diez almas en tu porte;
rompe ese cielo inmediato, lineal, para que se junte tu vida
y dame, oh prófugo, el último oasis de ese viaje, tus pasos
desnudos por el camino único y el sol cerrado
que lava la pena de esa tierra sabia, tu frente ácida, dame
el solo sentido que ahí existe para hablar
y estaremos juntos SIEM-
pre!

CANÇÃO AO FUGITIVO

Golpeando a aguda meta com seu escudo monótono, há,
desde que foste, dez almas em teu porte;
rompe este céu imediato, linear, para que se junte tua vida
e dai-me, ó fugitivo, o último oásis dessa viagem, teus passos
descalços pelo caminho único e o sol fechado
que lava a pena dessa terra sábia, tua fronte ácida, dai-me
o sentido sozinho que aqui existe para falar
e estaremos juntos SEM-
pre!

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poesia

Sérgio Lima (1939—), por Natan Schäfer

Por Maazo Heck, agosto de 2019.

Sergio Lima, nome artístico de Sérgio Claudio de Franceschi Lima, nasceu em 28 de dezembro de 1939 em Pirassununga, São Paulo. Escritor-pintor, vem envolvendo-se desde 1955 com o surrealismo. Nos anos 1960 passa a participar das reuniões do grupo surrealista de Paris no café La promenade de Vénus, ao lado de seu fundador André Breton. Desde então, é o grande dínamo responsável pela revisão & ativação do surrealismo no Brasil e nos países de língua portuguesa, especialmente em Portugal, onde estabeleceu um diálogo muito próximo com Mário Cesariny. No Brasil, dentre outras atividades, realizou a XIII Exposição Internacional do Surrealismo e editou a revista A Phala. Em 1963 estreou pela editora Massao Ohno com Amore, resenhado na revista surrealista parisiense La brèche. Traduziu e organizou a antologia Amor Sublime, de Benjamin Péret, publicada pela editora Brasiliense. Em 1995 inicia a publicação de A aventura surrealista, projeto de grande fôlego que se propõe a compilar as ideias e produções surrealistas pelo Brasil e pelo mundo. Em 2019 publicará o poema longo A boca da sombra que te ergue branca, pela Contravento Editorial. Vive atualmente em São Paulo, em um pequeno bosque verde cercado pelo bares da Vila Madalena.

Buscando dar a ver a mais-realidade, a obra poética de Sergio Lima tem como temas centrais o erotismo e a natureza e compreende tanto longos poemas-rio, marcados pelo transbordamento e que trazem em si algo dos mantras e ladainhas orientais, quanto poemas breves ou poèmes tableaux, os quais se assemelham ao toque de um címbalo tibetano, dos quais damos uma pequena amostra nesta breve antologia que temos a honra de publicar neste escamandro.

Todos os poemas foram retirados do volume A alta licenciosidade, Edição do autor, São Paulo: 1985. A imagens que acompanham estas antologias constam nos catálogos O retorno ao selvagem (FCM, Portugal, 2007) e Sergio Lima: Fogo ténue incendeia o corpo (FCM, Portugal, 2016) E foram gentilmente cedidas pela Fundação Cupertino de Miranda.

Natan Schäfer

* * *

o mesmo andar

e as mulheres nas janelas
abandonadas em suas casas e em suas sombras
caindo em si lentamente nos seus corpo lisos

a recordação dos seios da amada
das nádegas da domadora dormente
apoia e multiplicando-se
entre a vidraça e as cortinas

das mulheres que limpam os vidros
com o olhar perdido
como seus quadris inquietos

das mulheres molhadas entre as louças
com suas mãos pintadas

o mesmo andar das mulheres,
da provocação que aguarda

Os amantes (do caderno de aguadas automáticas), 20-XII-1958.

desmaiada
como o escriba malhado
de pálpebras cor-de-rosa
e olhos de sangue
com tuas mãos tatuadas
envoltas por tiras de lápis-lazúli
gravando no papyrus
as evoluções circulares
da asa encarnada
voluptuosa
da águia
no sol de pedra
a sua língua clara
última maré
dos signos do espasmo
no orgasmo de teus dois seios duros
mais curvos que tuas ancas
de nádegas abandonadas

A mulher dando risada, 29-V-1966.

A FESTA, ELA ALMA

sombras as caveiras de tuas cabeleiras esvoaçantes
mais negras que o saber de tuas pernas de penas
abertas na rua da chuva
na noite da desplumagem violenta
do bâton escorrendo pela liga
negra das tiras
da tentação
oral

My life is a doll without eyes, 1/5-X-1959.

AS INICIAIS

os pés
dos piratas do além-querer
feitos de cabelos luzidios
negros de cabeleiras femininas desfeitas
a mãos macias de farelos
da freira paramentada de amor
as ferramentas da penumbra
e os olhos endoidecidos
os calendários
que maldizem
repletos de dias de flores e de frutos
e os animais da tua lembrança
adormecidos na calçada
como o sol
pousando no mar
tesouro

A dama aberta, 14-XII-1968.

estirado no chão e aberto
bambu deitado cortado em cocho

a aragem perpassa fresca

revelando o sumo e a essência,
                                 a água que restou

 

a boca do mato

com seus lábios de amanheceres

chupa os passarinhos

O MAPA DOS CANTADORES

Auto retrato aos dezoito anos, 28-XII-1957.

num prato de tristezas as frutas
caem verdes,
uma a uma,
acariciadas pela aragem da paixão das tardes
na paisagem íntima
dos corpos enlaçados num abraço de brancuras
num abraço carnal que se desvela em beijos e queixumes carmens

a ternura que já estava desenhada na figura dos lábio,
que já estava articulada na xilografia lenta dos olhos,
abisma-se no olhar extasiado
em seus céus profundos

o perfume cresce do fundo das constelações suavemente

o desejo se forma como uma flor no ser

Aspectos da fauna insular – XI, 18.04.1957.

tudo o que cresce é suave
seja gentil como um barco no mar

todo sexo é um peixe

todo sexo
também é macio
também é simbólico
também é misterioso

condutor da luz profunda

Aspectos da fauna insular – XVI, 20.04.1957.

o yogé
balança-se

entre a concentração e o dar-se
o gratuito e a disponibilidade
apoiando-se num contínuo plástico
isto é, o corpo

o corpo é a imagem
a figura e a letra

o corpo amoroso é aquele que anuncia
aquele que fala

A lembrança cor-de-rosa, 06.05.1984.

a cada instante
a obscura energia
reinventa a luz para nós
assim como
a flecha reinventa o rio
a poesia reiventa o amor
passado que se fez carne
no imaginário ao ser retomado
na leitura que se entre-tece
e desvela;
“Hei de reiventar-te
para mim do mesmo modo
que desejo ver recriadas
perpetuamente
a poesia e a vida”.

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4 poemas inéditos de Matheus Guménin Barreto (1992—)

Foto do Jornal Cidadão Cultura

Matheus Guménin Barreto (1992- ) é poeta e tradutor mato-grossense. É autor dos livros de poemas A máquina de carregar nadas (7Letras, 2017) e Poemas em torno do chão & Primeiros poemas (Carlini & Caniato, 2018). Doutorando da Universidade de São Paulo (USP) na área de Língua e Literatura Alemãs – subárea tradução -, estudou também na Universidade de Heidelberg (Alemanha). Encontram-se textos seus no Brasil, na Espanha e em Portugal (Revista Cult, Escamandro, plaquete “Vozes, Versos”, Revista Escriva [PUC-RS], Revista Magma [USP], Revista Opiniães [USP], A Bacana, Diário de Cuiabá; entre outros), e integrou o Printemps Littéraire Brésilien 2018 na França e na Bélgica a convite da Universidade Sorbonne.

Por que ainda?

Porque um roxo azulado já ardeu
sobre um cemitério
Porque a libido dum gramado alto já se esfregou
entre umas pernas
Porque um cão já rendeu aquosa servidão
entre os dedos
Porque já se entrou numa sala em breu
acordada a sala aos sentidos acordada
Porque um homem já afiou um outro homem
– brasa os corpos.

§

Tremem maduras espigas
afiadas de sangue e de sonho
que é sangue e é sonho o corpo
sob outro.

§

O jovem recebia tudo o que quisesse levar
Este era o prazo para o tratamento de beleza: seis meses à base de óleo de mirra e outros seis meses com vários bálsamos e cremes. Quando chegava o tempo de apresentar-se ao rei, a jovem recebia tudo o que quisesse levar do harém para o palácio real.” – Ester 2:12-13

A mirra que passa da mão do amado à m
ão de seu amado passa
limpa a mirra limpa e limpo o amor
limpos os amados de carne apont
ada apontada carne dos amados
limpo o morno breu
limpo o morno breu
onde catalogam o corpo um do outro.

§

corpo: que coisa será essa
a que servirá ou a quem, computará quem
os beijos que deu e dará e quem os tons
de carmim que já viu aos domingos e quem                                   
os cachorros que lhe lamberam os dedos e quando
e quem computará as madrugadas e o branco que fazem
e quem
os sons que gestou na garganta e não disse e quem
o amor miúdo e bom que reina entre as paredes de um apartamento 
                                                                                           [e quem
dirá a esse corpo que tudo
cedo ou tarde
não vai ter existido
na garganta faminta do tempo?

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Viviane Nogueira (1995-)

VivianeNogueira

Viviane Nogueira tem 24 anos, paulistana crescida no interior. É poeta e graduanda em Psicologia no Instituto de Psicologia da USP. É mediadora do clube de leitura Leia Mulheres Osasco. Em 2018, participou do Curso Livre de Preparação do Escritor (CLIPE), na Casa das Rosas. É autora da plaquete Onde estão os holofotes da tragédia (2018, ilustrações de Steffano Lucchini) e do livro Uma casa se amarra pelo teto (Edições Macondo, 2019).

* * *

[A ORDEM DA QUAL FALAM OS MONGES OU A
ORGANICIDADE DOS MOVIMENTOS NO TAI CHI]

a cabeça recai no vidro da janela
as pálpebras do ônibus derrubadas
a palma da mão afundada na face do poema
a folha em branco no caderno
os livros fechados na mochila úmida
a mão afundada nos olhos bem abertos
…………você não sabe onde esteve
…………você não sabe onde está
o ronco do motor os passageiros calados
um homem se levanta no ponto errado do percurso
…………você não diz nada
o céu noturno em luto e a lua a esconder os olhos também
ouvem-se gritos os cães latem sem parar
um gato repousa na cama do quarto de visitas
você pôde ouvir os freios mas
…………o silêncio não era bem uma escolha

§

 

os dedos vacilantes na inércia
estar vivo ou
……………………estar aqui
um quadro negro elétrico pisca e
os números ficam inacessíveis no portão de entrada
os caminhos todos em
vida que segue
……………………nothing changes
os carros continuam a dar partida e
os corpos não se prostram a nenhuma cena
as faces miram à espera de
e a água torna a escorrer da torneira na lavanderia
tudo corre em câmera lenta
as páginas do jornal de ontem sendo viradas
notícias lado a lado à crème brûlée
o sempre um ininterrupto entre os passos
uma paisagem que não nos diz nada
e ainda
um silêncio não se produz

§

 

[UM GALHO BROTA DA GARGANTA DE UM
HOMEM OU UMA LANÇA ARREMATA-ME O PEITO]

todas a horas são horas de viver
e todos os cantos são cantos de
uma sala vazia
não existe parede onde
samambaias possam se apoiar
o sol repousa atrás de um vento
e na estrada que sobe a cuesta
todos os carros correm
……………………………..bem devagar
………………just do it
………………don’t let your dreams
………………be dreams
na boca a eloquência é o silêncio
e o percurso é o do caos
uma mão se enrosca em novelo
enquanto busca o caminho nas
ondas breves da voz
que promete
olhe as vigas no céu
e a estrutura das tartarugas
feitas de nuvem
no em cima de mim tudo é feito de aço
e concreto
as formas geométricas do amor ou
a matemática do um mais um
igual a zero

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5 poemas de Alexandre Guarnieri (1974-)

1

Alexandre Guarnieri (carioca de 1974) é poeta e historiador da arte. Integra o corpo editorial da revista eletrônica Mallarmargens. Casa das máquinas (Editora da Palavra, 2011) é seu livro de estreia. Em 2016, co-organizou pela Patuá a antologia Escriptonita (poemas tematizando super-heróis). Também lançou Corpo de festim [livro ganhador do 57o Jabuti/ 2a Edição pela Penalux], Gravidade zero (2017) e O sal do leviatã (2018). Seus três primeiros livros estão disponíveis online gratuitamente na plataforma ISSUU (clique aqui).

* * *

dínamo marino

“[…] aonde anda a onda?
a onda ainda/ ainda onda ainda anda/ aonde? […]”

Manuel Bandeira

vaga enquanto arma a água toda
em que se esvai levando a soma aquosa
ao sonoro devir da arrebentação
~ ergue o quanto anda: carga aonde leva
e traz na água algas agora, sobre cardumes
que alardeiam ~ e se uma gravidade a atrai
à praia, sem freios ( um dínamo marino agindo ),
na areia outra, contrária, quer devolvê-la
ao oceano doutro lado, ( vira e revira
no ir e vir de seus espasmos ) ~ longa, ondula
~ a água alarga e salga — e segue
como se sangrasse : sangria do signo cíano ~
e singra para que siga ainda a água,
que ao ímã de cada maré adere ou repele
~ logra a onda longa aonde aguarda lá, largar-se
( inunda o fundo onde inúmeras ondas
se ajuntam ) à outras ondas, longínquo banho,
em moto-contínuo; bainha junto à linha da baía
~ para quebrar com ímpeto ~ ad infinitum

§

 

(::: tempestas ad aeternum :::(
( ::: ( à anatomia da frente fria ( alturas nublam no acúmulo esta rígida camisa de granizo com que o medo copula ::: de tão leve o veludo ::: névoas evolam e renovam nuvens lúgubres que evoluem seus plúmbeos volumes ::: o inverno ou o verão ( se revelam ( ou se rebelam ( ante o impacto de duas massas de ar que estão em guerra ::: cumulus ( nimbus ::: são vapor puro seus sísmicos mecanismos de pingos ( movidos às vísceras cíclicas da hidrologia ::: toda a blindagem lacrada aos fenômenos da meteorologia ::: as gotas como sistêmicas agulhas da acupuntura úmida e lúcida que o alívio de um dilúvio inicial salpica sobre os poros do solo ::: porque depois virá a água pulverizada às toneladas ( largada do radioso hangar da atmosfera da Terra ( onde os vários níveis do velame reverberam ::: brancos como membranas nascidas de braços climáticos ::: ventos abertos as criam no céu ( mordaças aladas ( debruçando açúcares do novelo diáfano e solúvel das chuvas ::: por vezes assíduas no verão do sul ( severas na invernada do norte ::: espécies de seda inflada fremindo módulos vaporosos ::: a tamanha fumaça fria que dança desprovida de vértebras ::: as engrenagens da tempestade agem engravidando absurdos ventres pluviométricos ::: um gélido gigante modelando o inverno interfere no áspero sintoma do desalojado planisfério ( sob as extremidades de ventos severos ( intensos ( nervosos ( venéreos como no inferno ( são ventos por dentro ( tremendos ::: em alto mar as mais baixas temperaturas se amarram a uma larga e unitária mordaça ::: o clima declina em crise física ( toda altura é esta estranha úlcera convulsa como se fosse ininterrupta a pintura de William Turner ::: “por quanto tempo tufão tão nefasto estará afastado da costa?” ::: os metereólogos não logram resposta ::: na pura fúria do Caramuru ( todas as danças da chuva juntas ( em belicoso conjunto proposto por tribos ocultas ( avultam e nublam o horizonte profundo ( para o absoluto assombro de reinados navais ( barqueiros nômades e navegadores autônomos ( e nunca ( jamais ( saberemos para onde ( ou até quando ::: e agora, Joze (Pereira)? se Calicute não te escuta ( se o pombo-correio jaz sepulto em sua miniatura de tumba ( se resta anêmico o único anemômetro ( se está louco o lôbrego pluviômetro ::: e agora, Vasco, Pero Vaz de Caminha? a quantas anda nosso Caminho das Índias? ( para que te presta ( tempestade eterna ( senão para frustrar nossa conquista marítima mais íntima? senão para derrubar sobre nós ( além da maresia carnívora que penetra pela fresta todo o dia ( sua voz ressoada na foz dos trovões e iracundas colunas d’água ligando o mar à mais aérea nódoa,

senão para nada? ( ::: (

§

o barco na garrafa

 

que vento, tormenta, qual
embargo causado pelo caos
atravessou o aço deste barco?
qual a história de seu rapto,
de sua carcaça aprisionada
ao arrecife, pelo casco?

terá afundado em álcool
— em rum, a nau afogada -,
no premente e estrepitoso
jorro da única talagada?
terá sido enfeitiçado
o capitão embriagado
pelo canto da sereia
ou pela água envenenada?

pois saibam, sujos marujos,
que até assim se naufraga,
e onde esperaríamos o gênio
realizando desejos, resta a
miniatura delicada da fragata
prensada através do gargalo,
presa ao interior da garrafa;

haverá outra escolha ( brinquedo
camuflando o medo – mero modelo )
senão estilhaçá-la ao peso
do arremesso ( pequena parcela
do mar ou a própria alma
sequestrada ) a singela peça
do artesanato naval, minuciosamente
trabalhada ou frágil granada
lançada contra a parede da sala?

§

viagem fantástica

para Julio Verne e Harry Kleiner

toda profundeza concebida pelo homem
– conquistada ou ainda inexplorada –
sombria, ameaçadora ou prodigiosa,
toda mais longínqua profundidade,
recriada imaginativamente por séculos,
jazendo a apenas alguns centímetros
da superfície da pele, sob a trama de
nervos que segue a construir os sonhos,
da medula ao cérebro humano, esse
antro chiaroscuro – esponjosa massa
cinza sob o osso do crânio duro;

puséssemos numa seringa hipodérmica
a miniatura de um submarino nuclear
mergulhado em solução fisiológica e
injetássemos corpo adentro a peça
a sangue frio, navegaria submerso
com energia suficientemente gerada
para zelar sempre, sem erro, sem medo,
pelo mais perfeito funcionamento?

§

calypso
ígneas enguias bicéfalas
se entreolham, tresloucadas

com guinchos finíssimos, unís
sonas, ensaiam o silvo coletivo
e quase enguiçam no líquido re
buliço, agarradas em algazarra

parecem aparvalhadas na água
como certas larvas aneladas
recém-saídas dos ovos;

ascendem olhos de fósforo,
ardendo aos milhares, em pares
contra o breu inóspito

faróis cujas luzes
lançam fachos quase sólidos
para o horizonte subaquático;

orquídeas submergidas
eletrificam a língua sibilina
das enguias que se esquivam
das lanternas ou dos esguichos
de alguns exímios escafandristas
e fogem
…………..para o raio que as partam

nota:

mas pouquíssimo antes disso
tiveram suas almas
registradas em vídeo,
para Cousteau, por seu
melhor cinegrafista
em seu milésimo mergulho
de scuba ( o Aqualung ),
sob uma falésia da Catalunha

Padrão
poesia, tradução

Denise Duhamel, por Miriam Adelman

denise-duhamel
Denise Duhamel nasceu no estado de Rhode Island, na costa do leste dos EUA, em 1961. Quando conheci seu livro Kinky (1997), já virei leitora convicta sua, o que me permitiu um profundo mergulho numa obra hoje muito vasta, cada livro um tesouro de densidade e deleite próprios. Mas fui realmente tomada pela obsessão por produzir versões dos poemas que compõem esse livro que representou minha primeira introdução à poeta: Kinky, verdadeira caixa de surpresas, ode à e desconstrução da cultura e política dos EUA, torvelino de criações – sendo cada uma, uma posta em cena da ícone cultural da Barbie. Ali, a Barbie passa por quase infinitas metamorfoses, vamos dizer que do mesmo tamanho da sua quase onipresença social.  E Duhamel, sempre irônica, nunca tem medo de apontar diretamente para os impasses de nosso tempo, e nos revelar um ângulo – ou uma armadilha – diferente.
Miriam Adelman
*

Como ajudar as crianças em tempos de guerra 

Mister Rogers recomenda dizer às crianças americanas
que a tristeza faz parte.  Apresente então para elas o globo
em lugar do mapa ordinário,  para mostrar e dizer
quão longe realmente fica o Oriente Médio.  Enfatize que
assistir meteorologia da TV Saudita não quer dizer
que se chega lá de carro. Enfatize para elas o que
seu presidente lhes garante:  que toda vida é preciosa,
a de uma criança iraquiana igual à do soldado americano.
Diga isto para seus filhos, acreditando ou não
nas palavras dele.  Fale para as crianças que seus pais
sejam civis ou soldados, as amam, seja qual for
o chão que habitem. Considere descrever para elas
a guerra como ela é,
mas se sua filha jogar Nintendo, não lhe sirva
sangue em lugar de leite no cereal matinal.  Se seu filho
andar numa gangue perigosa, então deixe que ele
te explique a guerra.  Aos pequeninhos, sugira
que levem seus jogos de química para a areia do parquinho.
Se você ensina arte, explique eventos atuais
com bonecos de papel.  Uma corrente de homens de cartolina vermelha:
George Bush, Dick Cheney, Sadam Hussein, et cetera.
Peça para os aluninhos que amassem um dos bonecos,
que lhe deem o nome Noriega. Que o joguem num copo de papel
que representa a cadeia.  Nesse momento pode fazer perguntas
para que percebam o quanto um boneco se parece
com o outro.  Peça para cada criançinha
escolher um que seja seu favorito.
É esse que devem retalhar, os pedaços mais minúsculos
que suas tesourinhas permitam.
Talvez alguns aluninhos se inquietem, se polvilhando uns
aos outros com os pedaçinhos cor carmim.   Permita isso:
confete, carnificina, neve vermelha, bombas.

How to Help Children Through Wartime

Mister Rogers says to tell your American young
it’s OK to be sad.  Present them a globe
rather than a flat map to show-and-tell
how far away the Middle East really is.  Stress
that the TV Saudi weather report
doesn´t mean the country is within driving distance.  Stress
that their U.S. president assures them that all life is precious,
an Iraqi child’s equal to that of an American soldier.
Tell your children this, whether or not
you yourself believe him.  Tell children that parents,
be they civilian or soldier, love them regardless
of what soil they’re on.  Consider letting children know
what the war is really like,
but if your daughter has Nintendo, do not pour blood
instead of milk on her Cheerios.   If your son
is in a dangerous gang, let him explain
war to you instead.  Encourage all elementary schoolers
to take their chemistry sets to the sandbox.
If you teach art, explain current events
with paper dolls.  A strand of red construction paper men:
George Bush, Dick Cheney, Sadam Hussein, et cetera.
Have students crumple up one doll and name him
Noriega. They may throw him in a Dixie cup
that represents a jail. Then you may ask questions
that lead students to notice the resemblance
of one paper man to the next.  Have each of the children
pick a doll who represents their favorite.
Instruct them to cut that man up into the teeniest pieces
their safety paper scissors will permit.
Members of the class may begin to get restless, to sprinkle
each other with the crimson bits.  Allow this:
confetti, bloodshed, red snow, bombs.

§

Barbie Oriental 

Ela pode ser do Japão, do Hong Kong, da China,
das Filipinas, do Vietnã, da Tailândia o da Coréia.
A menininha que brinca com ela pode decidir:
O sul, o norte, uma província
nebulosa. Tanto faz, segundo a Mattel, que relata
que esta Barbie continua tendo “olhos arredondados”
porém “boca e busto menores” do que
sua irmã dos EUA. As meninas, como alguns homens já crescidos
gostam da variedade, desde que bonita, desde que
haja cabelo comprido para mexer.
Num comercial nas horas noturnas, a Manhattan Cable
oferece um serviço de acompanhantes “Geishas to Go”
garotas do “Oriente, onde os homens são rei…”
O Ken Branco deita barriga para baixo
enquanto uma Barbie Oriental caminha sobre suas costas.
Ou é uma mulher de verdade pisando no Ken?
Ou uma Barbie Oriental pisando num homem real?
Você precisa viajar ao Japão
para comprar esta Barbie específica. Uma garota geisha
pode chegar à porta do teu apartamento em Nova Iorque
em menos de uma hora. Por sinal,
não existe um Ken Oriental.
Os que estudam o delicado equilíbrio
do comércio e câmbio americanos
entenderão.

Oriental Barbie

She could be from Japan, Hong Kong, China,
the Phillipines, Vietnam, Thailand or Korea.
The little girl who plays with her can decide.
The south, the north, a nebulous
province. It´s all the same, according to Mattel, who says
this Barbie still has “round eyes”
but “a smaller mouth and bust”
than her U.S. sister. Girls, like some grown men,
like variety, as long as it’s pretty, as long
as there’s long hair to play with.
On a late night Manhattan Cable commercial
One escort service sells Geishas to Go,
girls from “the Orient, where men are kings…”
White Ken lies on his stomach
while an Oriental Barbie walks on his back.
Or is it a real woman stepping on Ken?
Or Oriental Barbie stepping on a real man?
You have to travel to Japan
to buy this particular Barbie doll. A geisha girl
can be at your door of your New York apartment
in less than an hour. Of course,
there is no Oriental Ken.
Those who study the delicate balance
of American commerce and trade understand.
§

Barbie bicentenária 

Por ser a boneca mais popular
do século XX, a Barbie é enterrada
numa cápsula do tempo na Filadélfia
no dia 4 de julho, 1976. Ela é espremida entre
uma embalagem vazia de Kentucky Fried Chicken
e uma lata cheia de Coca-Cola, pois virou
ícone cultural e agora tem que pagar o preço.
Ela se lembra de um tempo
em que ainda poucas meninas a conheciam
e não precisava fazer tanta pose.
Agora, sendo verdadeiro item para colecionador,
precisa garantir – cada cabelo no seu lugar!
Eu acabo de ser eleita
Garota Personalidade, uma categoria superlativa
do anuário escolar. Posso
posar para foto com o fofinho
do Garoto Personalidade, o primeiro
e único jogador do time de futebol
que quer sair comigo.
Ele diz querer namorar firme comigo
e com outra garota ao mesmo tempo.
Não acho justo, mas sendo Garota Personalidade
demoro demais para o conseguir dizer.
Veja, eu já passei da idade de brincar de boneca,
mas por algum motivo se implantaram no meu subconsciente.
Eu não me pareço nada com a Barbie,
então talvez nem mereça um namorado todo meu. Pior ainda, a meu ver,
minha rival lembra uma delas.
Quando finalmente, constrangida, escrevo um bilhete
para o Garoto Personalidade, o enfio na fresta do
armário errado. O garoto-ninguém que o encontra
não quer devolver, nem quando peço
muito educadamente. Logo todos vão saber
que não sou sempre bem-humorada.
Temendo um escândalo, peço conselhos
aos Mais Bem-vestidos e Os com Maior Probabilidade
de Sucesso na Vida. Estes dizem não se importar
com o que as massas pensam. Sinto que mentem –
mas podem retirar meu título Garota Personalidade,
nem ligo mais. Pelo menos estou melhor
que aquela Barbie Bicentenária que ficará
numa abafada cápsula até o ano 2076.
Talvez ao final, a pressão terá sido excessiva.
Talvez – como eu – , poderá se expressar.
Talvez venha a piscar para a lata de Coca-Cola
antes de sacudirem, explodirem, detonarem
com tudo.

Bicentennial Barbie

Because she is the most popular doll
of the twentieth century, Barbie
is buried in a time capsule in Philadelphia
on July 4, 1976. She is scrunched between an empty Kentucky
Fried Chicken bucket and a full Coca- Cola can.
She’s become a cultural icon and now she has to pay
the price. She remembers a time
when just a few girls knew her
and she didn´t have to put on such airs.
Now a full-fledged collectible, she has to make sure
every hair is always in place. I’ve just been voted
Best Personality, a superlative category
in our junior high yearbook. I’m able to pose
for a picture with the cute Best Personality boy,
the first and only football player
to ever ask me on a date.
He says he wants to go steady with me
and another girl at the same time.
I don’t think it’s fair but being the Best Personality girl,
it takes me a long time to say that.
You see, it’s turned out that although I’m too old
to still play with fashion dolls, they’ve somehow become implanted
in my subconscious. I don’t look anything like Barbie so maybe I don’t deserve
a boyfriend of my own. And to make things worse, in my mind,
my rival resembles Barbie quite a bit
When I finally write the Best Personality boy
an angry note, flustered, I slip it between the slots
of the wrong locker. The nobody boy who finds it
won’t give it back, even when I ask him politely.
Soon everyone will know I’m not always in a good mood.
Fearing a scandal, I ask advice
of the Best Dressed and Most Likely to Succeed.
They say they don’t care what the masses think –
and though I sense they’re not telling the truth-
suddenly it doesn’t matter if my class
takes my Best Personality honor away or not.
At least I know I’m better off
than that one repressed Bicentennial Barbie
who’ll be stuck in that stuffy time capsule
until the year 2076. Maybe
when she finally comes out, the pressure
will have been too much. Maybe she’ll be able, like me,
to express herself. Maybe she’ll wink at the Coca-Cola can
before they both shake, explode, make a mess.
§

Barbie como mafiosa
Para Dangerous Diane

Quando lhe repassam o saquinho de cocaína,
Barbie foge para seu beco preferido.
Ela tira sua cabeça e se preenche com o pó
Como se fosse tão inocente quanto um saleiro de curvas gostosas.
Os malandros deixam o tráfico de pequenas coisas para ela-
e enquanto ela desliza pelos aeroportos internacionais
ou os agitados cais dos portos, ninguém lá em cima
se enerva. Seja aninhada entre o receptor
e a base do telefone de um automóvel, ou guardadinha
na gaveta de uma cômoda com um pequeno gravador no
seu torso oco, Barbie ama o divertimento e o tesão da aventura.
Mas por ser uma boneca muito séria, ela também sabe dar o beijo
da morte se precisar.  Seus ousados lábios
se recusam a abrir, tornando-a a mais perfeita guardadora de segredos.
Nas conferências de imprensa, ela negará todas as afiliações.
Só estou brincando, dirá ela, ou
Vocês não conseguem provar nada.  Mal tenho cérebro.
Quando a Barbie fica assim tão na cara, por vezes
o poderoso chefão passa apertos. Sua mulher fica com ciúmes,
se perguntando porque a Barbie liga para o marido não-boneco de outra
de cabines telefônicas no meio da noite.
Os detalhes das senhas, dos sapatos de cimento e das propostas irrecusáveis,
todos precisam ser bem pensados. O chefão
vai acalmar sua esposa, argumentando que é só ela
que ele ama:  esta Barbie nem sequer é uma dama de verdade.
Não sei porque você se preocupa.
A esposa admite que se sente tola, mas ao voltar
para a cama fica de olho aberto. Os policiais
se sentem tolos também, prendendo brinquedos.
Por isso a Barbie anda por onde ela quiser tendo a audácia
de deixar seus óculos escuros em casa.   Ela freqüenta
clubes privados enfumaçados e senta à janela nas mesas
dos cafés de Little Italy.  Mas são as praias dos resorts
que ela mais gosta,  onde pode realmente espairecer
e ser ela mesma. Sua pequena caixa de isopor  segura o cantinho
da sua toalha de praia de marca. Ela observa seu namorado loiro
Malibu Ken, mexendo com seus pé-de-pato e óculos.
Ela o ama porque ele não sabe de nada –
mera peça acessória para seus crimes.

Barbie as Mafiosa
– for Dangerous Diane

When she’s slipped the bag of cocaine,
Barbie ducks into her favorite alley.
She pulls her head off and fills herself up
As though she’s as innocent as a shapely salt shaker.
The wise guys leave the trafficking of small things to her –
and as she glides through international airports
or bustling loading docks, no one at the top’s
disappointed. Whether nestled between the receiver
and base of a car phone, or tucked into a bedroom drawer
with a tiny tape recorder in her hollow torso,
Barbie loves fun and the thrill of adventure.
But being a no-nonsense doll, she can also give a kiss
of death if she has to. Her sassy lips
refuse to part, making her the perfect keeper of secrets.
At the press conferences, she’ll deny all affiliations.
I’m just playing, she’ll say, or
you can’t prove a thing. I barely even have a brain.
When Barbie is this visible, sometimes
the big boss sweats. His wife gets jealous,
wondering why Barbie calls another woman’s non-doll husband
from phone booths in the middle of the night.
The details of passwords, cement shoes and unrefusable offers
I’m just playing, she’ll say, or
you can’t prove a thing. I barely even have a brain.
When Barbie is this visible, sometimes
the big boss sweats. His wife gets jealous,
wondering why Barbie calls another woman’s non-doll husband
from phone booths in the middle of the night.
The details of passwords, cement shoes and unrefusable offers
all have to be worked out. The mob leader
will try to calm his spouse, claiming she’s the only one
he loves: this Barbie dame’s not even a real dame.
I don’t know what you’re so worried about.
The wife admits she feels silly, but when she returns
to bed, she keeps one eye open.
The cops feel silly, too, arresting toys,
so Barbie goes everywhere with the gall
of leaving her sunglasses at home. She frequents
the smoky private clubs and gets window tables
in Little Italy cafés. But it’s the resort beaches
she likes best, where she can really unwind
and be herself. Her little cooler weighs down the corner
of her tiny designer towel. She watches her blond boyfriend
Malibu Ken fiddles with his flippers and goggles.
She loves him because he knows nothing –
a mere fashion accessory to Barbie’s crimes
§

Casamento 

Barbie imagina se seria traição
sonhar com namorados, bonecos que
Mattel nunca fabricou para suas brincadeiras.
Um com dreads rastafári feitos de pelúcia
Em lugar de duros arcos de plástico,
Outro gordinho, meio calvo
Com óculos de John Lennon
E um terceiro com um nariz grande e sexy
como Gerard Depardieu.
Porém, supõe ela, seu Ken é mesmo inofensivo
Peitoral todo sarado afastado por rígidos seios
que não cedem ao toque
e ele não pode lhe obrigar à nada
quando ela não está
com vontade.
Ela se lembra das últimas palavras
da descontinuada boneca Midge,
“Hey Barbie, não complique,
É um casamento, não é?”
Desde o outro lado do corredor
Entre o monte de brinquedos pra menino
O Soldado Joe de vez em quando olha pra ela
Mas não faz exatamente seu tipo.
Ela na sua caixa, com elásticos que prendem
Seus braços.
A capa de plástico distorce sua visão
Do mundo.
Não é só aventura romântica o que ela deseja::
Há passeios de balão,
Aulas no curso noturno, trabalho de caridade.
Barbie se consola, reconhecendo que não é
Muito diferente do resto de nós, de como jogamos:
Entre gratidão e ambição,
Passividade e culpa.

Marriage

Barbie wonders if it’s cheating
when she dreams of fashion doll boyfriends
Mattel never made for her to play with.
One with Rastafarian dreadlocks –
spun with fuzz, not stiff
like the arcs of a plastic Jello mold.
Another chubby and balding
with John Lennon glasses.
And a third with a big sexy nose
like Gerard Depardieu.
Still, she supposes, Ken is harmless enough.
His pecs kept at bay by her stiff unyielding breasts.
And there is nothing he can force on her
When she’s not in the mood.
She remembers discontinued Midge’s last words:
“Hey Barbie, it’s a marriage, don’t knock it.”
From the stack of boy’s toys across the aisle,
GI Joe occasionally gives Barbie the eye,
though he’s not exactly what she has in mind.
In her box, elastic bands hold back her arms
And the plastic overlay she peers through
distorts her view of the world.
It’s not only a romantic fling she desires:
there are hot air balloon rides,
night school classes, charity work.
Barbie comforts herself
knowing she’s not much different
from the rest of us, juggling gratitude,
ambition, passivity and guilt.
§

Destino Manifesto

Nas Filipinas
as trabalhadoras das fábricas
de bonecas de moda
recebem um bônus em dinheiro
se se esterilizam. Nas esteiras,
rodam com excesso de velocidade
pedaços de corpos.
Nada a ver com o famoso episódio da tv
quando Lucy e Ethel experimentam
um dia de trabalho, botando chocolates dentro de caixas
numa linha de produção nos Estados Unidos. Elas
enchem suas bocas com uma boa parte
dos doces que vêm velozmente, dão risadas
de baba marrom quando são despedidas porque
realmente não tem importância –
Ricky e Fred têm bons empregos.
Para provar que são eles mesmos
os que devem trabalhar,
os garotos fazem uma bagunça na cozinha
da Lucy, uma panela de arroz explodindo
como um vulcão branco. As mulheres
nas Filipinas e noutros lugares ponderam
o big business, os benefícios de descontinuar
a própria linhagem. Nos seus sonhos
estas mulheres embalam úteros de Toys R Us
enquanto uma Barbie estéril, seu cabelo preso
sob um capacete de Lucite, finca a bandeira da Mattel
numa lua que pouco convence.

 

Manifest Destiny

In the Philippines
women workers in fashion doll factories
are given cash incentives
for sterilization. Body parts roll
too fast on conveyor belts.
It’s not like the famous episode
in which Lucy and Ethel
try a day of work, boxing chocolates
on an assembly line in the U.S. They stuff
most of the quick-coming candy
into their mouths, laugh brown drool
when they are fired because it really doesn’t matter –
Ricky and Fred have good jobs.
To prove they’re the ones
who belong at work, the men on t.v.
make a mess in Lucy’s kitchen,
a pot of rice exploding
like a white volcano. The women
in the Philippines and elsewhere ponder
big business, the benefits
of discontinuing its own children. In dreams
these women package Toys “R” Us Uteruses
while a sterile Barbie, her hair tucked up
inside her Lucite helmet, plants
a flag for Mattel on the cheesiest moon.
§

O corpo é meu!

“Era-se um tempo em que a Barbie nem podia dobrar
os joelhos”, eu falo para minhas sobrinhas Kerri e Katie
que sentam na minha frente no chão da sala
desta América de colarinho azul e rosa. Estão abrochando as minúsculas
calças de courino
nas suas Barbies Roqueiras
e grandes guitarras pretas
sobre seus ossudos quadris de relâmpago. Katie me entrega
sua boneca porque precisa da minha ajuda
com os pequenos botões que serpenteiam nas costas
da blusinha tomara que caia da Barbie. “Minha primeira Barbie
nem podia mover a cintura”. Eu estou falando como alguém
que já vivesse o suficiente
para ver mudanças significativas. Minhas sobrinhas
estão de costas para a TV que parece estar sempre ligada,
onde eu estiver. E atrás de suas cabecinhas
loiras inocentes, Jessica Hahn
faz uma aparência-relâmpago num vídeo da MTV.
Ela roda como uma sexy bola de pinball ,
e tenta desesperadamente sair de uma jaula côncava.
“O corpo é meu”, recentemente ouvi ela dizer
numa entrevista matinal na TV. Ela começou
justificando suas fotos nuas na Playboy.
“O corpo é meu”, ela repete
como uma boneca Chatty Cathy
com um disco arranhado enfiado nas costas.
“O corpo é meu”, ela começava a responder
a toda e qualquer pergunta do entrevistador –
onde ela cresceu, se ainda vai à igreja.
“O corpo é meu?”
Ainda assim as palavras eram as mesmas,
mas quanto mais acusações, mais mudavam
suas inflexões. Jessica olhava para além
do set onde alguém lhe parecia estar dando
pistas. Meu namorado dava risada.
“Que tal pôr um pouco de convicção nisso, Jessica?”,
ele falava para a TV. Então, tentando estimular
mais a conversa, ele me dizia, “Olha, meu bem,
ela nem parece saber se o corpo é seu
ou não!” Ele tinha razão
mas sabia enquanto o colocava
que tinha escolhido as palavras erradas.
Eu tinha bebido muito café. Encontrei-me
defendendo Jessica energicamente,
culpando sua desorientação
como resposta a nossa sociedade misógina –
o deslocamento que todas as mulheres sentem
do seu eu corporal.
E depois com todas essas teorias que eu vinha lendo!
Ele foi trabalhar mais ou menos concordando
mas dizia também que o tinha deixado exaurido.
E agora minha irmã me culpa da mesma coisa
porque assinalo para Katie que ela está errada
ao pensar que só meninos devem sujar-se
e só meninas usarem brincos.
“As pessoas devem fazer qualquer coisa que desejarem”.
Discorro sobre minha amiga que usa capacete
quando vai ao trabalho onde mexe
com eletricidade igual seu pai.
Katie brinca com seus cadarços
e pede suquinho. Minha irmã diz,
“Deixe ela em paz. Nem entrou no primário ainda”.
Kerri, a maior, se concentra, tentando
passar um grande pente para humanos
no cabelo sintético cheio de gel
da boneca. Por tanta força que exige desemaranhá-lo
de repente, sem querer, sai a cabeça da Barbie,
e uma menor, sem rosto, suporte apenas,
emerge do pescoço. Por um instante
nós todas – dois pares de irmãs, com um
intervalo de vinte anos – compartimos a epifania
sobre Mattel: lavagem cerebral, pedaço de plástico
que nos diz quem Barbie é. Mas logo
o rosto de Kerri é todo pânico, como esperando um castigo.
As lágrimas despontam no canto dos seus olhos.
Faço um resgate rápido,
enfiando a cabecinha moldada
de novo no corpo, seus traços maleáveis
se distorcendo sob meu polegar. Apesar de boneca adulta,
sua moleira ainda está aberta. Sob a pressão
do meu toque, seu rosto esmaga, como alguém
que se olha na casa dos espelhos.
Mas ao soltá-la, ela imediatamente volta,
o sorrisinho educado, o nariz perfeito
e pronta para pôr tudo em seu lugar:
a Barbie pertence à América –
metade vítima, metade pequeno soldado
cor-de-rosa.

It’s My Body

“There was a time when Barbie couldn’t even
bend her knees,” I told my nieces Kerri and Katie
who sit before me on a living room floor
in blue and pink collar America.
They are strapping their Rock-n-Roll Barbies
into tiny leatherette pants
and big black guitars
with jagged lightning hips. Katie hands me
her doll because she needs help
with the tiny buttons that snake the back
of Barbie’s off-the-shoulder blouse. “My first Barbie
couldn´t even twist her waist”. I am talking
like a person who has lived long enough
to see significant change. My nieces
have their backs to the TV which seems always on,
wherever I am. And behind their blond
innocent heads, Jessica Hahn
makes a cameo appearance on an MTV video.
She rolls like a sexy pinball,
then tries to claw herself out of a concave cage.
“It’s my body”, I recently heard her say
on a morning talk show. She started
by defending her nude poses in Playboy.
“It’s my body”, she repeated
like a Chatty Cathy doll
with a skipping record stuck in her back.
“It’s my body,” she began to answer
her interviewer’s every inquiry –
where she grew up, if she still went to church.
“It’s my body?”
The words stayed the same,
but as more accusations came, her inflections
changed. Jessica looked beyond the studio set
where somebody seemed to be cueing her
that message. My lover was laughing.
“How about a little conviction there, Jessica?”,
he said to the TV. Then, trying to coax
more conversation, he addressed me, “Look,
honey, she doesn’t even seem to know if it’s her body
or not.” He was right,
but he knew as he brought it up,
it was the wrong thing to say.
I’d had too much coffee.
I found myself energetically defending Jessica,
blaming her disorientation
as a response to our misogynous society-
the dislocation all women feel
from their physical selves.
And then came the theories I’d been reading.
He left for work kind of agreeing
but also complaining that I’d made him exhausted.
And now my sister is blaming me for the same thing
because I am pointing out to Katie that she is mistaken
to think only boys should get dirty
and only girls should wear earrings.
“People should be able to do whatever they want.”
I lecture her about my friend who wears a hard hat
when she goes to her job and works
with electricity, just like her daddy.
Katie fiddles with her shoelaces
and asks for juice. My sister says,
“Give the kid a break. She’s only in kindergarten.”
Older Kerri is concentrating, trying
to get a big comb for humans
through her doll’s Moussed synthetic hair.
Because untangling the snarls needs so much force,
suddenly, accidentally, Barbie’s head pops off,
and a smaller one, a faceless socket,
emerges from her neck. For an instant
we all –two sets of sisters, our ages
twenty years apart – share a small epiphany
about Mattel: this brainwashed piece of plastic cerebrum
is underneath who Barbie is. But soon
Kerri’s face is all panic, like she will be punished.
The tears begin in the corner of her eyes.
I make a fast rescue attempt,
spearing Barbie’s molded head
back on her body, her malleable features distorting
under my thumb. Although a grown doll,
the soft spot at the top of her skull
still hasn’t closed. Under the pressure
of my touch, her face is squashed, someone
posing in a fun house mirror.
But the instant I let go, she snaps back
into a polite smile, her perfect nose
erect and ready to make everything
right: Barbie is America’s –
half victim, half little pink soldier.

§

Miriam Adelman, nasceu em 1955 em Milwaukee, Wisconsin. Aos 19 anos encontrou seus primeiros caminhos “para o mundo”, indo para o México, onde permaneceu por 9 anos, dedicando-se, entre outras coisas, aos estudos em sociologia na Universidad Nacional Autónoma de México. Mora em Curitiba, Brasil desde 1991; é professora da UFPR desde 1992. Além de lecionar nos programas de pós-graduação em Sociologia e Estudos Literários dessa instituição, dedica-se às paixões literárias, à fotografia, ao feminismo e às atividades equestres. Seu primeiro livro de poemas encontra-se no prelo e deve ser lançado ainda em 2019.
*
Padrão
crítica

Poesia e revolução, por Sophia de Mello Breyner Andresen

Gostaríamos de agradecer a Leonardo Gandolfi, que escavou esta fala de 1975 de Sophia de Mello Breyner Andresen, e a Tarso de Melo que nos apresentou, além de dar as devidas graças a Claudia Abeling, que fez a gentileza imensa de transcrever todo o texto a partir da seguinte referência: In: Sophia de Mello Breyser Andresen. O nome das coisas. Lisboa: Moraes, 1977. 1ª ed.

Guilherme Gontijo Flores

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Poesia e revolução

                  O amor positivo da vida busca a inteireza. Porque busca a inteireza do homem a poesia numa sociedade como aquela em que vivemos é necessariamente revolucionária — é o não-aceitar fundamental. A poesia nunca disse a ninguém que tivesse paciência.

                  O poema não explica implica. O poema não explica o rio ou a praia: diz-me que a minha vida está implicada no rio ou na praia. Como diz Pascoaes:

                                    Ah se não fosse a bruma da manhã

                                    E esta velhinha janela onde me vou

                                    Debruçar para ouvir a voz das coisas

                                    Eu não era o que sou

                  É a poesia que me implica, que me faz ser no estar e me faz estar no ser. É a poesia que torna inteiro o meu estar na terra. E porque é a mais funda implicação do homem no real, a poesia é necessariamente política e fundamento da política.

                  Pois a poesia busca o verdadeiro estar do homem na terra e não pode por isso alheiar-se dessa forma do estar na terra que a política é. Assim como busca a relação verdadeira do homem com a árvore ou com o rio, o poeta busca a relação verdadeira com os outros homens. Isto o obriga a buscar o que é justo, isto o implica naquela busca de justiça que a política é.

                  E porque busca a inteireza, a poesia é, por sua natureza, desalienação, princípio de desalienação, desalienação primordial. Liberdade primordial, justiça primordial. O poeta diz sempre:

                                    “Eu falo da primeira liberdade”

                  Dessa unidade fundamental da liberdade e da justiça o poeta formou o seu projeto oposto à divisão.

                  Se queremos ultrapassar a cultura burguesa — ou seja o uso burguês da cultura — é porque vemos nela o reino da divisão, o fracasso do projeto da inteireza. Sem dúvida grandes poetas nasceram e criaram dentro do mundo da cultura burguesa. Mas sempre viveram esse mundo como exílio e viuvez, como poetas malditos.

                  A arte da nossa época é uma arte fragmentária, como os pedaços de uma coisa que foi quebrada.

                  “Sou um espalhamento de cacos sobre um capacho por sacudir”, disse Fernando Pessoa que aqui, no extremo ocidente, percorreu até seus últimos confins os mapas da divisão e letra por letra os disse.

                  E caminhar para a frente é emergir da divisão. É rejeitar a cultura que divide, que nos separa de nós próprios, dos outros e da vida.

                  Sabemos que a vida não é uma coisa e a poesia outra. Sabemos que a política não é uma coisa e a poesia outra.

                  Procuramos o coincidir do estar e do ser. Procurar a inteireza do estar na terra é a busca de poesia.

                  Por isso rejeitamos o uso burguês da cultura que separa o cérebro da mão. Que separa o trabalhador intelectual do trabalhador manual. Que separa o homem de si próprio, dos outros e da vida.

                  E porque desalienar, conquistar a inteireza de cada homem é a finalidade radical de toda a política revolucionária, o projeto de uma política real é por sua natureza paralelo ao projeto da poesia. Mas olhando com atenção vemos que a tarefa específica da política é criar as condições em que a desalienação é possível. Em rigor, a política não cria a desalienação, mas sua possibilidade.

                  É a poesia que desaliena, que funda a desalienação, que estabelece a relação inteira do homem consigo próprio, com os outros, e com a vida, com o mundo e com as coisas. E onde não existir essa relação primordial limpa e justa, essa busca de uma relação limpa e justa, essa verdade das coisas, nunca a revolução será real.

                  Pois é a poesia que funda. Por isso Hölderlin disse: “Aquilo que permanece os poetas o fundam”.

                  E por isso a política não pode nunca programar a poesia.

                  Compete à poesia, que é por sua natureza liberdade e libertação inspirar e profetizar todos os caminhos da desalienação.

                  E quando a palavra da poesia não convier à política, é a política que deve ser corrigida. Por isso é da verdade e da essência da revolução que sempre a poesia possa criar livremente seu caminho.

                  E é muito importante que se compreenda claramente que a arte não é luxo nem adorno. A história mostra-nos que o homem paleolítico pintou as paredes das cavernas antes de sabe cozer o barro, antes de saber lavrar a terra. Pintou para viver. Porque não somos apenas animais acossados na luta pela sobrevivência.

                  E se a política deve desalienar a nossa vida política e a nossa vida econômica, é a poesia que desaliena nossa consciência.

                  Porque propõe ao homem a verdade e a inteireza do seu estar na terra toda a poesia é revolucionária.

                  Por isso a forma mais eficaz que o poeta tem de ajudar uma revolução é ser fiel à sua poesia. Escrever má poesia dizendo que se está a escrever para o povo, é apenas uma nova forma de explorar o povo.

                  Quem está realmente empenhado num país melhor e numa sociedade melhor, luta pela verdade da cultura. Aquele que é conivente da mediocridade é inimigo de uma sociedade melhor, mesmo que apregoe grandes princípios revolucionários. A revolução da qualidade é radicalmente necessária a uma revolução real.

                  Onde a poesia não estiver nada de real pode ser fundado.

                  Não é por acaso nem por uma particularidade do seu temperamento que Mao Tsé-Tung é poeta. Não é por acaso que Marx e Trotsky amaram a poesia. A poesia é primordial e anterior à política. Por isso nenhum político por mais puro que seja o seu projeto pode programar uma poética.

Mas nenhuma revolução será real se a poesia não lhe for fundamento e não permanecer sua irmã.

Mas da participação na revolução do escritor, cada escritor deve decidir por si. Cada um pode propor o seu caminho ou sua hipótese aos outros sem que ninguém seja obrigado a segui-lo. No entanto, há alguns princípios que me parecem objetivamente intrínsecos à condição do escritor. Esses princípios são:

— Lutar contra a demagogia que é a degradação da palavra. Como disse Malarmé “dar um sentido mais puro às palavras da tribu” é uma missão do poeta.

— Lutar contra os slogans. Um provérbio Burundi diz: “Uma palavra que está sempre na boca transforma-se em baba”.

— O escritor como todo homem consciente deve exercer uma ação crítica. E deve lutar por um ambiente em que a crítica seja possível. Assim, neste momento o escritor deve lutar por um ambiente são — isto é por um ambiente onde aquele que critica não seja acusado de reação ou de fascismo.

— Lutar contra a promoção do medíocre. Lutar desde já, imediatamente, por uma revolução de qualidade. E, porque queremos que a cultura seja posta em comum, lutar pela revolução da qualidade em todos os meios de comunicação social.

*

Na raiz da sociedade capitalista está o uso burguês da cultura que separa o homem de si próprio, dos outros e da vida, que divide os homens em trabalhadores intelectuais e trabalhadores manuais. Na raiz da sociedade capitalista está a cultura que divide.

Por isso, nenhum socialismo real poderá ser construído sem revolução cultural. Para que o socialismo seja real é preciso que a cultura seja posta em comum.

A revolução não é a fase final de um processo de revolução socialista, mas sim um dos seus fundamentos.

10 de maio de 1975

(Texto lido no I Congresso de Escritores Portugueses)


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