Alguns -
quer dizer nem todos.
Nem a maioria de todos, mas a minoria.
Excluindo escolas, onde se deve
e os próprios poetas,
serão talvez dois em mil.
Gostam -
mas também se gosta de canja de massa,
gosta-se da lisonja e da cor azul,
gosta-se de um velho cachecol,
gosta-se de levar a sua avante,
gosta-se de fazer festas a um cão.
De poesia -
mas o que é a poesia?
Algumas respostas vagas
já foram dadas,
mas eu não sei e não sei, e a isto me agarro
como a um corrimão providencial.
Wislawa Szymborska
Alguns gostam de poesia - Antologia, Czeslaw Milosz e Wislawa Szymborska, Selecção, introdução e tradução do polaco de Elzbieta Milewska e Sérgio das Neves,Cavalo de Ferro, Editores, Lda., Março de 2004
A espessura do tempo
«Tudo é semente.» Novalis
13/10/2019
11/10/2019
Tricórnio
23
Mau não ter prémio nenhum.
Pior nunca ter estado em mesa redonda
de um festival literário.
Francisco José Craveiro de Carvalho
Tricórnio, Edição Busílis (Tropelias & Companhia - Associação Cultural), julho 2019
Mau não ter prémio nenhum.
Pior nunca ter estado em mesa redonda
de um festival literário.
Francisco José Craveiro de Carvalho
Tricórnio, Edição Busílis (Tropelias & Companhia - Associação Cultural), julho 2019
08/10/2019
ESPANTA-ESPÍRITOS
Neve sândalo ranúnculo
porcela madrepérola
bambu
eis as palavras de que se precisa
Depois
é só deixar correr a brisa
Jorge Sousa Braga
O POETA NU [poesia reunida], Assírio & Alvim, Junho 2007
porcela madrepérola
bambu
eis as palavras de que se precisa
Depois
é só deixar correr a brisa
Jorge Sousa Braga
O POETA NU [poesia reunida], Assírio & Alvim, Junho 2007
07/10/2019
O MEU MELHOR ÂNGULO
Prefiro o agudo. Muito menos o recto
e nunca o obtuso. O raso adormenta
todas as audácias e o adjacente agrega-nos
em parede mútua e indissolúvel. Assim,
é no estreito e resguardado vértice
do agudo que apetece ficar, abrigada
do rotundo e celebrado círculo.
Inês Lourenço
COISAS QUE NUNCA, &etc, Lisboa, Julho de 2010
e nunca o obtuso. O raso adormenta
todas as audácias e o adjacente agrega-nos
em parede mútua e indissolúvel. Assim,
é no estreito e resguardado vértice
do agudo que apetece ficar, abrigada
do rotundo e celebrado círculo.
Inês Lourenço
COISAS QUE NUNCA, &etc, Lisboa, Julho de 2010
05/10/2019
DO CANTO DE DÉBORA (Jz 5,31)
Os que te amam sejam como o sol
no cimo do seu esplendor
José Tolentino Mendonça
A ESTRADA BRANCA, Assírio & Alvim, Lisboa, Março 2005
no cimo do seu esplendor
José Tolentino Mendonça
A ESTRADA BRANCA, Assírio & Alvim, Lisboa, Março 2005
01/10/2019
[A elipse à mão]
A elipse à mão
ficou de traço grosso.
O lápis desleixado culpou a afiadeira.
Francisco José Craveiro de Carvalho
As sapatilhas de Usain Bolt e outros tercetos, Companhia das Ilhas, Julho de 2015
ficou de traço grosso.
O lápis desleixado culpou a afiadeira.
Francisco José Craveiro de Carvalho
As sapatilhas de Usain Bolt e outros tercetos, Companhia das Ilhas, Julho de 2015
30/09/2019
Recobro
Quando a luz se vê ao fundo
do túnel da inconsciência
e tremeluz - num segundo
recobras da tua ausência
para outra realidade:
oxalá o bisturi
cortasse a malignidade
que desdobra a coisa-em-si
Domingos da Mota
do túnel da inconsciência
e tremeluz - num segundo
recobras da tua ausência
para outra realidade:
oxalá o bisturi
cortasse a malignidade
que desdobra a coisa-em-si
Domingos da Mota
28/09/2019
CONSULTA EXTERNA
O ar pesa demasiado nas folhas
que coroam os troncos decepados
e assim murmuram, invisíveis e frondosas
Às vezes, espreitamos da porta
as raízes resistentes, reerguemos
a altura dos ramos, mas eles furam-nos
os olhos e sacodem os pássaros
contra todos os vidros
Ei-los que volteiam, de peito colorido
agonizando na zona
mais exposta das caldeiras
Há dias em que se ouve um pouco mais
ou por causa da chuva, ou do vento
ou do tempo que de todo nos cai
um comboio que atravesse o rio
sons da maresia, e agora tão só
os ecos surdos no fundo do corredor
e outras tantas coisas
sem um nome que se diga
José Manuel Teixeira da Silva
TUTANO, Revista de Poesia, Teatro e Todas as Artes, nº Zero, Poetria, Porto, Agosto de 2019
que coroam os troncos decepados
e assim murmuram, invisíveis e frondosas
Às vezes, espreitamos da porta
as raízes resistentes, reerguemos
a altura dos ramos, mas eles furam-nos
os olhos e sacodem os pássaros
contra todos os vidros
Ei-los que volteiam, de peito colorido
agonizando na zona
mais exposta das caldeiras
Há dias em que se ouve um pouco mais
ou por causa da chuva, ou do vento
ou do tempo que de todo nos cai
um comboio que atravesse o rio
sons da maresia, e agora tão só
os ecos surdos no fundo do corredor
e outras tantas coisas
sem um nome que se diga
José Manuel Teixeira da Silva
TUTANO, Revista de Poesia, Teatro e Todas as Artes, nº Zero, Poetria, Porto, Agosto de 2019
24/09/2019
IN MEMORIAM
ao meu Pai
Fosses vivo e terias
agora uns cento e oito,
partiste há sessenta e cinco,
tinha eu sete, e como sinto
a falta que me fizeste,
mais do que pão para a boca,
o vazio que deixaste
neste caminho de pedras,
a falta de ar que sufoca
quem tem de subir a pulso
e dá com o nariz na porta
uma e outra e outra vez,
e quando a porta se abre,
numa fila aguarda a vez,
mas raramente lá cabe.
Partiste há sessenta e cinco,
muitos anos de distância:
quantos mais virão depois,
minha pobre ignorância?
Domingos da Mota
[revisto]
Fosses vivo e terias
agora uns cento e oito,
partiste há sessenta e cinco,
tinha eu sete, e como sinto
a falta que me fizeste,
mais do que pão para a boca,
o vazio que deixaste
neste caminho de pedras,
a falta de ar que sufoca
quem tem de subir a pulso
e dá com o nariz na porta
uma e outra e outra vez,
e quando a porta se abre,
numa fila aguarda a vez,
mas raramente lá cabe.
Partiste há sessenta e cinco,
muitos anos de distância:
quantos mais virão depois,
minha pobre ignorância?
Domingos da Mota
[revisto]
23/09/2019
21/09/2019
SIM, NÃO, TALVEZ
Rimo leve, levemente
como quem rima por mim.
Quero amar perdidamente?
Sim.
Sendo eu pobre a rima é-o
por natural condição.
É de tirar-lhe o chapéu?
Não.
Sem lugar, para onde irei
cumprido o breve entremez?
Pasárgada, onde sou rei?
Talvez.
Vitor Silva Tavares
textinhos, intróitos & etc de Vitor Silva Tavares, [púsias], Pianola editores, 2017
12/09/2019
A poesia é a sombra do silêncio
A poesia é a sombra do silêncio.
[Notas Sobre Silêncio] in NERVO/6 colectivo de poesia setembro/dezembro 2019, Editora Maria F. Roldão
[Notas Sobre Silêncio] in NERVO/6 colectivo de poesia setembro/dezembro 2019, Editora Maria F. Roldão
10/09/2019
ANJA
a José Rodrigues
Anja esculpida
em metal fundente
ora incandescente:
em carne viva
Domingos da Mota
Bolsa de Valores e Outros Poemas, Temas Originais, Lda., Coimbra, 2010
Anja esculpida
em metal fundente
ora incandescente:
em carne viva
Domingos da Mota
Bolsa de Valores e Outros Poemas, Temas Originais, Lda., Coimbra, 2010
09/09/2019
é comovente, a tua poesia
é comovente, a tua poesia
chego a ter pena de ti e às vezes medo
ardes-me na mão como uma brasa ao rubro
e eu sinto-a e apetece-me levá-la à boca, queimar-me.
adorava que me visitasses mais vezes
tens um quarto cá em casa, louceiro, agasalho
e pão, ainda fresco, coberto com um pano, na masseira de pinho
aguardarei todos os dias, enquanto pascerei vacas até que venhas
e ordenharei úberes brancos, de leite branco e espumoso, meu poeta.
não te esqueças, às vezes tenho fome, muita fome e o jejum mata-me.
Aurelino Costa
Domingo no Corpo, Ilustrações, Anxo Pastor, Foto do Autor, Raúl da Costa, Deriva Editores, Porto, Janeiro de 2013
chego a ter pena de ti e às vezes medo
ardes-me na mão como uma brasa ao rubro
e eu sinto-a e apetece-me levá-la à boca, queimar-me.
adorava que me visitasses mais vezes
tens um quarto cá em casa, louceiro, agasalho
e pão, ainda fresco, coberto com um pano, na masseira de pinho
aguardarei todos os dias, enquanto pascerei vacas até que venhas
e ordenharei úberes brancos, de leite branco e espumoso, meu poeta.
não te esqueças, às vezes tenho fome, muita fome e o jejum mata-me.
Aurelino Costa
Domingo no Corpo, Ilustrações, Anxo Pastor, Foto do Autor, Raúl da Costa, Deriva Editores, Porto, Janeiro de 2013
05/09/2019
Nunca mais
Não venhas com desculpas, não suporto
as mentiras que inventas, esse modo
de comeres as papas na cabeça, e
continuares a gozar à tripa forra.
Não inventes enredos, não
acolho as cantatas à capela,
as distorções.
olho por olho; e parti
alguns dentes: não me
vais tolher com o medo
de castigos ou de penas terríficas,
infernais. Os amigos não empatam
os amigos. Não voltes a mentir-me,
Domingos da Mota
as mentiras que inventas, esse modo
de comeres as papas na cabeça, e
continuares a gozar à tripa forra.
Não inventes enredos, não
acolho as cantatas à capela,
as distorções.
Se
um dia defendi:olho por olho; e parti
alguns dentes: não me
vais tolher com o medo
de castigos ou de penas terríficas,
infernais. Os amigos não empatam
os amigos. Não voltes a mentir-me,
nunca mais.
Domingos da Mota
03/09/2019
O barrete
O barrete, o solidéu,
A mozeta, o arminho,
E a pompa, meu deus do céu,
De luxo pré-tridentino.
Domingos da Mota
A mozeta, o arminho,
E a pompa, meu deus do céu,
De luxo pré-tridentino.
Domingos da Mota
31/08/2019
HISTÓRIA UNIVERSAL
Um homem nasce chora cresce ri
sofre e faz sofrer caminha canta
tem sede fome frio medo pressa
perde-se transborda arde sorri.
Um homem sozinho no meio da noite
assobia para amansar os monstros que o habitam.
Abraça empurra mata beija morre
cansa-se de si mesmo apaixona-se
dá-se à vida sabe que se acaba
que escorre o que é por entre os dedos.
Um homem olha o céu as nuvens e diz-se
em silêncio que breve
que bela e fugidia é, foi, a vida.
*
HISTORIA UNIVERSAL
Un hombre nace llora crece ríe
sufre y hace sufrir camina canta
tiene sed hambre frío miedo
se pierde se desborda arde sonríe.
Un hombre solo en medio de la noche
silba para amansar las bestias que lo habitan.
Abraza empuja mata besa muere
se cansa de sí mismo se enamora
se da a la vida sabe que se acaba
que se cae lo que es de entre sus dedos.
Un hombre mira el cielo las nubes y se dice
en silencio lo breve
lo hermosa y fugitiva que es fue la vida.
Juan Vicente Piqueras
INSTRUÇÕES PARA ATRAVESSAR O DESERTO, poemas escolhidos, tradução João Duarte Rodrigues e Manuel Alberto Valente, Assírio & Alvim, Fevereiro 2019
sofre e faz sofrer caminha canta
tem sede fome frio medo pressa
perde-se transborda arde sorri.
Um homem sozinho no meio da noite
assobia para amansar os monstros que o habitam.
Abraça empurra mata beija morre
cansa-se de si mesmo apaixona-se
dá-se à vida sabe que se acaba
que escorre o que é por entre os dedos.
Um homem olha o céu as nuvens e diz-se
em silêncio que breve
que bela e fugidia é, foi, a vida.
*
HISTORIA UNIVERSAL
Un hombre nace llora crece ríe
sufre y hace sufrir camina canta
tiene sed hambre frío miedo
se pierde se desborda arde sonríe.
Un hombre solo en medio de la noche
silba para amansar las bestias que lo habitan.
Abraza empuja mata besa muere
se cansa de sí mismo se enamora
se da a la vida sabe que se acaba
que se cae lo que es de entre sus dedos.
Un hombre mira el cielo las nubes y se dice
en silencio lo breve
lo hermosa y fugitiva que es fue la vida.
Juan Vicente Piqueras
INSTRUÇÕES PARA ATRAVESSAR O DESERTO, poemas escolhidos, tradução João Duarte Rodrigues e Manuel Alberto Valente, Assírio & Alvim, Fevereiro 2019
28/08/2019
Sobre a correspondência
Quando o correio chega cedo
Sinto-me defraudada
Por já não ter
De aguardar por ele.
*
On letters
When the post comes early
I feel cheated,
Not having it now
To look forward to.
Neil Curry
companhia a Mrs Woolf, tradução de Francisco José Craveiro de Carvalho, edições de Sérgio Ninguém/Eufeme, Setembro 2017
Sinto-me defraudada
Por já não ter
De aguardar por ele.
*
On letters
When the post comes early
I feel cheated,
Not having it now
To look forward to.
Neil Curry
companhia a Mrs Woolf, tradução de Francisco José Craveiro de Carvalho, edições de Sérgio Ninguém/Eufeme, Setembro 2017
26/08/2019
CÃO
Cão passageiro, cão estrito,
cão rasteiro cor de luva amarela,
apara-lápis, fraldiqueiro,
cão liquefeito, cão estafado,
cão de gravata pendente,
cão de orelhas engomadas,
de remexido rabo ausente,
cão ululante, cão coruscante,
cão magro, tétrico, maldito,
a desfazer-se num ganido,
a refazer-se num latido,
cão disparado, cão aqui,
cão além, e sempre cão.
Cão marrado, preso a um fio de cheiro,
cão a esburgar o osso
essencial do dia a dia,
cão estouvado de alegria,
cão formal da poesia,
cão-soneto de ão-ão bem martelado,
cão moído de pancada
e condoído do dono,
cão: esfera do sono,
cão de pura invenção, cão pré-fabricado,
cão-espelho, cão-cinzeiro, cão-botija,
cão de olhos que afligem,
cão-problema...
Sai depressa, ó cão, deste poema!
Alexandre O'Neill
POESIAS COMPLETAS, Assírio & Alvim, Maio 2007
cão rasteiro cor de luva amarela,
apara-lápis, fraldiqueiro,
cão liquefeito, cão estafado,
cão de gravata pendente,
cão de orelhas engomadas,
de remexido rabo ausente,
cão ululante, cão coruscante,
cão magro, tétrico, maldito,
a desfazer-se num ganido,
a refazer-se num latido,
cão disparado, cão aqui,
cão além, e sempre cão.
Cão marrado, preso a um fio de cheiro,
cão a esburgar o osso
essencial do dia a dia,
cão estouvado de alegria,
cão formal da poesia,
cão-soneto de ão-ão bem martelado,
cão moído de pancada
e condoído do dono,
cão: esfera do sono,
cão de pura invenção, cão pré-fabricado,
cão-espelho, cão-cinzeiro, cão-botija,
cão de olhos que afligem,
cão-problema...
Sai depressa, ó cão, deste poema!
Alexandre O'Neill
POESIAS COMPLETAS, Assírio & Alvim, Maio 2007
24/08/2019
ARTE POÉTICA
Olhar o rio que é de tempo e água
E recordar que o tempo é outro rio,
Saber que nos perdemos como o rio
E que os rostos passam como a água.
Sentir que a vigília é outro sono
Que sonha não sonhar e que a morte
Que teme a nossa carne é essa morte
De cada noite, que se chama sono.
Ver no dia ou até no ano um símbolo
Quer dos dias do homem quer dos anos,
Converter a perseguição dos anos
Numa música, um rumor e um símbolo,
Ver só na morte o sono, no ocaso
Um triste ouro, assim é a poesia
Que é imortal e pobre. A poesia
Volta como a aurora e o ocaso.
Às vezes certas tardes uma cara
Olha-nos do mais fundo dum espelho;
A arte deve ser como esse espelho
Que nos revela a nossa própria cara.
Contam que Ulisses, farto de prodígios
Chorou de amor ao divisar a Ítaca
Verde e humilde. A arte é essa Ítaca
De verde eternidade e não prodígios.
Também é como o rio interminável
Quem passa e fica e é cristal dum mesmo
Heraclito inconstante, que é o mesmo
E é outro, como o rio interminável.
Jorge Luís Borges
POEMAS ESCOLHIDOS, Selecção feita pelo autor, tradutor, Ruy Belo, Publicações Dom Quixote, Lisboa, Outubro de 1971
E recordar que o tempo é outro rio,
Saber que nos perdemos como o rio
E que os rostos passam como a água.
Sentir que a vigília é outro sono
Que sonha não sonhar e que a morte
Que teme a nossa carne é essa morte
De cada noite, que se chama sono.
Ver no dia ou até no ano um símbolo
Quer dos dias do homem quer dos anos,
Converter a perseguição dos anos
Numa música, um rumor e um símbolo,
Ver só na morte o sono, no ocaso
Um triste ouro, assim é a poesia
Que é imortal e pobre. A poesia
Volta como a aurora e o ocaso.
Às vezes certas tardes uma cara
Olha-nos do mais fundo dum espelho;
A arte deve ser como esse espelho
Que nos revela a nossa própria cara.
Contam que Ulisses, farto de prodígios
Chorou de amor ao divisar a Ítaca
Verde e humilde. A arte é essa Ítaca
De verde eternidade e não prodígios.
Também é como o rio interminável
Quem passa e fica e é cristal dum mesmo
Heraclito inconstante, que é o mesmo
E é outro, como o rio interminável.
Jorge Luís Borges
POEMAS ESCOLHIDOS, Selecção feita pelo autor, tradutor, Ruy Belo, Publicações Dom Quixote, Lisboa, Outubro de 1971
23/08/2019
Amazónia
Princípio do fim?
Granjeio mortífero?
E o fogo que grassa
Dantesco, terrífico,
Sem freio, soprado
Por ventos hostis
(Do agro-negócio
Aos ganhos febris):
A febre do ouro,
Petróleo, metais,
Devasta o tesouro:
Os danos? - Brutais.
Domingos da Mota
Granjeio mortífero?
E o fogo que grassa
Dantesco, terrífico,
Sem freio, soprado
Por ventos hostis
(Do agro-negócio
Aos ganhos febris):
A febre do ouro,
Petróleo, metais,
Devasta o tesouro:
Os danos? - Brutais.
Domingos da Mota
21/08/2019
mosquitos por cordas
quem convidou
os mosquitos?
quem lhes deu
tempo de antena
para ampliar
os zunidos
azucrinar
os ouvidos -
e aumentar
o escarcéu?
Domingos da Mota
os mosquitos?
quem lhes deu
tempo de antena
para ampliar
os zunidos
azucrinar
os ouvidos -
e aumentar
o escarcéu?
Domingos da Mota
19/08/2019
15/08/2019
OS ARREDORES DO MAR, OS SUBÚRBIOS DA NOITE
II
2.
Esse tumulto anda, ouvido anda no ar, esse grave que
cresce, excessivo ligeiro.
Excessivo ligeiro, o deslize veloz, no sentido do grave,
no sentido da noite.
No sentido da noite, rumor evoluindo, no sentido da noite,
reversivo do mar.
Luís de Miranda Rocha
OS ARREDORES DO MAR, OS SUBÚRBIOS DA NOITE, Editora Limiar, Maio 1993
2.
Esse tumulto anda, ouvido anda no ar, esse grave que
cresce, excessivo ligeiro.
Excessivo ligeiro, o deslize veloz, no sentido do grave,
no sentido da noite.
No sentido da noite, rumor evoluindo, no sentido da noite,
reversivo do mar.
Luís de Miranda Rocha
OS ARREDORES DO MAR, OS SUBÚRBIOS DA NOITE, Editora Limiar, Maio 1993
13/08/2019
PALAVRAS
Faço a travessia da noite
acossado por palavras.
Saem-me ao caminho com o cães
que guardam hortas,
ladram-me, procuram
morder-me os calcanhares.
Indóceis, sempre soturnas,
as palavras?
Pois são.
Mas é com elas que deito
remendos trapalhões
nesta espécie de sono com que à toa
e ingenuamente julgo limitar
os danos com que, com suas baionetas,
a noite me danifica.
A. M. Pires Cabral
A noite em que a noite ardeu, Edições Cotovia, Lda., Lisboa, 2015
acossado por palavras.
Saem-me ao caminho com o cães
que guardam hortas,
ladram-me, procuram
morder-me os calcanhares.
Indóceis, sempre soturnas,
as palavras?
Pois são.
Mas é com elas que deito
remendos trapalhões
nesta espécie de sono com que à toa
e ingenuamente julgo limitar
os danos com que, com suas baionetas,
a noite me danifica.
A. M. Pires Cabral
A noite em que a noite ardeu, Edições Cotovia, Lda., Lisboa, 2015
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