13/10/2019

Alguns gostam de poesia

Alguns -
quer dizer nem todos.
Nem a maioria de todos, mas a minoria.
Excluindo escolas, onde se deve
e os próprios poetas,
serão talvez dois em mil.

Gostam -
mas também se gosta de canja de massa,
gosta-se da lisonja e da cor azul,
gosta-se de um velho cachecol,
gosta-se de levar a sua avante,
gosta-se de fazer festas a um cão.

De poesia -
mas o que é a poesia?
Algumas respostas vagas
já foram dadas,
mas eu não sei e não sei, e a isto me agarro
como a um corrimão providencial.

Wislawa Szymborska

Alguns gostam de poesia - Antologia, Czeslaw Milosz e Wislawa Szymborska, Selecção, introdução e tradução do polaco de Elzbieta Milewska e Sérgio das Neves,Cavalo de Ferro, Editores, Lda., Março de 2004

11/10/2019

Tricórnio

23


Mau não ter prémio nenhum.
Pior nunca ter estado em mesa redonda
de um festival literário.

Francisco José Craveiro de Carvalho

Tricórnio, Edição Busílis (Tropelias & Companhia - Associação Cultural), julho 2019

08/10/2019

ESPANTA-ESPÍRITOS

Neve sândalo ranúnculo
porcela madrepérola
bambu
eis as palavras de que se precisa

Depois
é só deixar correr a brisa

Jorge Sousa Braga

O POETA NU [poesia reunida], Assírio & Alvim, Junho 2007

07/10/2019

O MEU MELHOR ÂNGULO

Prefiro o agudo. Muito menos o recto
e nunca o obtuso. O raso adormenta
todas as audácias e o adjacente agrega-nos
em parede mútua e indissolúvel. Assim,
é no estreito e resguardado vértice
do agudo que apetece ficar, abrigada
do rotundo e celebrado círculo.

Inês Lourenço

COISAS QUE NUNCA, &etc, Lisboa, Julho de 2010

05/10/2019

DO CANTO DE DÉBORA (Jz 5,31)

Os que te amam sejam como o sol
no cimo do seu esplendor

José Tolentino Mendonça

A ESTRADA BRANCA, Assírio & Alvim, Lisboa, Março 2005

01/10/2019

[A elipse à mão]

A elipse à mão
ficou de traço grosso.
O lápis desleixado culpou a afiadeira.

Francisco José Craveiro de Carvalho

As sapatilhas de Usain Bolt e outros tercetos, Companhia das Ilhas, Julho de 2015

30/09/2019

Recobro

Quando a luz se vê ao fundo
do túnel da inconsciência
e tremeluz - num segundo
recobras da tua ausência
para outra realidade:
oxalá o bisturi
cortasse a malignidade
que desdobra a coisa-em-si

Domingos da Mota

28/09/2019

CONSULTA EXTERNA

O ar pesa demasiado nas folhas
que coroam os troncos decepados
e assim murmuram, invisíveis e frondosas

Às vezes, espreitamos da porta
as raízes resistentes, reerguemos
a altura dos ramos, mas eles furam-nos
os olhos e sacodem os pássaros
contra todos os vidros

Ei-los que volteiam, de peito colorido
agonizando na zona
mais exposta das caldeiras

Há dias em que se ouve um pouco mais
ou por causa da chuva, ou do vento
ou do tempo que de todo nos cai
um comboio que atravesse o rio
sons da maresia, e agora tão só

os ecos surdos no fundo do corredor
e outras tantas coisas
sem um nome que se diga

José Manuel Teixeira da Silva

TUTANO, Revista de Poesia, Teatro e Todas as Artes, nº Zero, Poetria, Porto, Agosto de 2019

24/09/2019

IN MEMORIAM

               ao meu Pai


Fosses vivo e terias
agora uns cento e oito,
partiste há sessenta e cinco,
tinha eu sete, e como sinto
a falta que me fizeste,
mais do que pão para a boca,
o vazio que deixaste
neste caminho de pedras,
a falta de ar que sufoca
quem tem de subir a pulso
e dá com o nariz na porta
uma e outra e outra vez,
e quando a porta se abre,
numa fila aguarda a vez,
mas raramente lá cabe.
Partiste há sessenta e cinco,
muitos anos de distância:
quantos mais virão depois,
minha pobre ignorância?

Domingos da Mota

[revisto]

21/09/2019

SIM, NÃO, TALVEZ

Rimo leve, levemente
como quem rima por mim.
Quero amar perdidamente?
Sim.

Sendo eu pobre a rima é-o
por natural condição.
É de tirar-lhe o chapéu?
Não.

Sem lugar, para onde irei
cumprido o breve entremez?
Pasárgada, onde sou rei?
Talvez.

Vitor Silva Tavares

textinhos, intróitos & etc de Vitor Silva Tavares, [púsias], Pianola editores, 2017

12/09/2019

A poesia é a sombra do silêncio

A poesia é a sombra do silêncio.

[Notas Sobre Silêncio] in NERVO/6 colectivo de poesia setembro/dezembro 2019, Editora Maria F. Roldão

10/09/2019

ANJA

         a José Rodrigues



Anja esculpida
em metal fundente

ora incandescente:
em carne viva

Domingos da Mota

Bolsa de Valores e Outros Poemas, Temas Originais, Lda., Coimbra, 2010

09/09/2019

é comovente, a tua poesia

é comovente, a tua poesia
chego a ter pena de ti e às vezes medo

ardes-me na mão como uma brasa ao rubro
e eu sinto-a e apetece-me levá-la à boca, queimar-me.

adorava que me visitasses mais vezes
tens um quarto cá em casa, louceiro, agasalho
e pão, ainda fresco, coberto com um pano, na masseira de pinho

aguardarei todos os dias, enquanto pascerei vacas até que venhas
e ordenharei úberes brancos, de leite branco e espumoso, meu poeta.

não te esqueças, às vezes tenho fome, muita fome e o jejum mata-me.

Aurelino Costa

Domingo no Corpo, Ilustrações, Anxo Pastor, Foto do Autor, Raúl da Costa, Deriva Editores, Porto, Janeiro de 2013

05/09/2019

Nunca mais

Não venhas com desculpas, não suporto
as mentiras que inventas, esse modo
de comeres as papas na cabeça, e
continuares a gozar à tripa forra.
Não inventes enredos, não
acolho as cantatas à capela,
as distorções.
Se
um dia defendi:
olho por olho; e parti
alguns dentes: não me
vais tolher com o medo
de castigos ou de penas terríficas,
infernais. Os amigos não empatam 
os amigos. Não voltes a mentir-me,
nunca mais.

Domingos da Mota

03/09/2019

O barrete

O barrete, o solidéu,
A mozeta, o arminho,
E a pompa, meu deus do céu,
De luxo  pré-tridentino.

Domingos da Mota

31/08/2019

HISTÓRIA UNIVERSAL

Um homem nasce chora cresce ri
sofre e faz sofrer caminha canta
tem sede fome frio medo pressa
perde-se transborda arde sorri.

Um homem sozinho no meio da noite
assobia para amansar os monstros que o habitam.

Abraça empurra mata beija morre
cansa-se de si mesmo apaixona-se
dá-se à vida sabe que se acaba
que escorre o que é por entre os dedos.

Um homem olha o céu as nuvens e diz-se
em silêncio que breve
que bela e fugidia é, foi, a vida.

*

HISTORIA UNIVERSAL


Un hombre nace llora crece ríe
sufre y hace sufrir camina canta
tiene sed hambre frío miedo
se pierde se desborda arde sonríe.

Un hombre solo en medio de la noche
silba para amansar las bestias que lo habitan.

Abraza empuja mata besa muere
se cansa de sí mismo se enamora
se da a la vida sabe que se acaba
que se cae lo que es de entre sus dedos.

Un hombre mira el cielo las nubes y se dice
en silencio lo breve
lo hermosa y fugitiva que es fue la vida.

Juan Vicente Piqueras

INSTRUÇÕES PARA ATRAVESSAR O DESERTO, poemas escolhidos, tradução João Duarte Rodrigues e Manuel Alberto Valente, Assírio & Alvim, Fevereiro 2019

28/08/2019

Sobre a correspondência

Quando o correio chega cedo
     Sinto-me defraudada
           Por já não ter
               De aguardar por ele.

*

On letters


When the post comes early
      I feel cheated,
         Not having it now
            To look forward to.

Neil Curry

companhia a Mrs Woolf, tradução de Francisco José Craveiro de Carvalho, edições de Sérgio Ninguém/Eufeme, Setembro 2017

26/08/2019

CÃO

Cão passageiro, cão estrito,
cão rasteiro cor de luva amarela,
apara-lápis, fraldiqueiro,
cão liquefeito, cão estafado,
cão de gravata pendente,
cão de orelhas engomadas,
de remexido rabo ausente,
cão ululante, cão coruscante,
cão magro, tétrico, maldito,
a desfazer-se num ganido,
a refazer-se num latido,
cão disparado, cão aqui,
cão além, e sempre cão.
Cão marrado, preso a um fio de cheiro,
cão a esburgar o osso
essencial do dia a dia,
cão estouvado de alegria,
cão formal da poesia,
cão-soneto de ão-ão bem martelado,
cão moído de pancada
e condoído do dono,
cão: esfera do sono,
cão de pura invenção, cão pré-fabricado,
cão-espelho, cão-cinzeiro, cão-botija,
cão de olhos que afligem,
cão-problema...

Sai depressa, ó cão, deste poema!


Alexandre O'Neill


POESIAS COMPLETAS, Assírio & Alvim, Maio 2007


24/08/2019

ARTE POÉTICA

Olhar o rio que é de tempo e água
E recordar que o tempo é outro rio,
Saber que nos perdemos como o rio
E que os rostos passam como a água.

Sentir que a vigília é outro sono
Que sonha não sonhar e que a morte
Que teme a nossa carne é essa morte
De cada noite, que se chama sono.

Ver no dia ou até no ano um símbolo
Quer dos dias do homem quer dos anos,
Converter a perseguição dos anos
Numa música, um rumor e um símbolo,

Ver só na morte o sono, no ocaso
Um triste ouro, assim é a poesia
Que é imortal e pobre. A poesia
Volta como a aurora e o ocaso.

Às vezes certas tardes uma cara
Olha-nos do mais fundo dum espelho;
A arte deve ser como esse espelho
Que nos revela a nossa própria cara.

Contam que Ulisses, farto de prodígios
Chorou de amor ao divisar a Ítaca
Verde e humilde. A arte é essa Ítaca
De verde eternidade e não prodígios.

Também é como o rio interminável
Quem passa e fica e é cristal dum mesmo
Heraclito inconstante, que é o mesmo
E é outro, como o rio interminável.

Jorge Luís Borges

POEMAS ESCOLHIDOS, Selecção feita pelo autor, tradutor, Ruy Belo, Publicações Dom Quixote, Lisboa, Outubro de 1971

23/08/2019

Amazónia

Princípio do fim?
Granjeio mortífero?
E o fogo que grassa
Dantesco, terrífico,

Sem freio, soprado
Por ventos hostis
(Do agro-negócio
Aos ganhos febris):

A febre do ouro,
Petróleo, metais,
Devasta o tesouro:
Os danos? -  Brutais.


Domingos da Mota

21/08/2019

mosquitos por cordas

quem convidou
os mosquitos?

quem lhes deu
tempo de antena

para ampliar
os zunidos

azucrinar
os ouvidos -

e aumentar
o escarcéu?

Domingos da Mota

15/08/2019

OS ARREDORES DO MAR, OS SUBÚRBIOS DA NOITE

II

2.

Esse tumulto anda, ouvido anda no ar, esse grave que
cresce, excessivo ligeiro.
Excessivo ligeiro, o deslize veloz, no sentido do grave,
no sentido da noite.
No sentido da noite, rumor evoluindo, no sentido da noite,
reversivo do mar.

Luís de Miranda Rocha

OS ARREDORES DO MAR, OS SUBÚRBIOS DA NOITE, Editora Limiar, Maio 1993

13/08/2019

PALAVRAS

Faço a travessia da noite
acossado por palavras.

Saem-me ao caminho com o cães
que guardam hortas,
ladram-me, procuram
morder-me os calcanhares.

Indóceis, sempre soturnas,
as palavras?

Pois são.
Mas é com elas que deito
remendos trapalhões
nesta espécie de sono com que à toa
e ingenuamente julgo limitar
os danos com que, com suas baionetas,
a noite me danifica.

A. M. Pires Cabral

A noite em que a noite ardeu, Edições Cotovia, Lda., Lisboa, 2015