21.9.19

e para lá está a partida

eu gostaria de
um som interrompido,
afirmar o político,
as fábulas ocas
dos tolos do destino,
sem que ninguém
me ouvindo,
permitisse ao mundo
explicar,
 que os bolsos
 das fábulas são vazios,
 e as razões fáceis
de um compromisso
 são quebradas,
enlaçadas,
num tear partido
que não pára
aos pés de uma
velha sem destino,...

eu gostaria de
qualquer som
sem pausa,
ser mudo,
oco de ideias,....

 e para lá está a partida


20.9.19

Alfabetização

por ordem alfabética arrumo os
cheiros,
as coisas resolvidas e por
resolver,
para que faça sentido o discorrer
de memórias,
os passeios arredondados
escritos com sol e enublados
nos extremos,
risos sem erres e fáceis
de se perceber no silêncio,...

enumeram-se letras da mesma forma
que estas dúvidas,
para que se opte por não
escrever,
e sentir



19.9.19

Solitude standing

vê-se tão bem a
minha solidão,
a filha da puta
da minha solidão,
tem olhos,
pernas,
desespero que
chegue para um quadro,...

anda trôpega,
a filha da puta
da minha solidão,
já fez um retrato
de dois sóis,
um sou eu
deprimido,
o outro é a lua
travestida

18.9.19

Gnose

não importa quem és,
à tarde sairás das cores inusitadas
da modorra de sempre,
e quando do sol se levantarem
os olhos,
farás de um quarto a
frase inexcedível,
as datas incontidas
em que perdeste os números,
as contas de uma lasca
de felicidade,....

das árvores,
de todas as árvores onde fizeste
poemas,
o ar sairá menos importunado,
com novos modelos de avanço
social,
e a ti restará o conformismo,
com a palavra no silêncio a crescer,...

e depois de tudo,
os teus olhos terminarão a tudo deixar


17.9.19

Não presto

o carro chega,
saem todos os olhos que
a sorte quer,
e na rua o azar,
os prismas indefinidos de quem não
se quer bem,....

há muito que não valho mais
que qualquer coisa,
não presto,
e o carro arranca,
deixo-me sozinho à
espera que um livro se escreva,
nas mãos chagas amorfas,
dificuldades em respirar
fundo as letras,....

não valho as ruas cheias
de lágrimas como se pretende
no escuro


16.9.19

Tratado quântico de desamor

havendo todas as frases
 por construir,
e um limite de
instrução definido
para que saiamos
conformados com a
pretensa eloquência de um beijo,...

a existirem fronteiras
para o que se expõe
à volúpia,
ao olhar reprovador
dos fins de tarde de chuva,....

existindo sempre
um mar entre o
que nos falta,
e um espaço restrito
para que nunca
nos toquemos,....

faremos o nojo em
períodos escassos de choro,
sem que  haja
uma consequência,
a morte inocente
de desejos inúteis,
sem corpo,
sem felizes
desnortes numa praia deserta,....

 havendo algo que se
 ponha num livro sem letras,
ninguém mais será virgem
antes de conhecer
o que ladeia o amor


15.9.19

O homem entre homens

o homem falido,
desgarrado,
sem cor de pele,
amputado de choro,
de frases incontestáveis,
com sonhos camuflados
na razão perdida,...

o homem sem que não
sabia de que,
era feito o mar,
em que som se perdia
a voz que não estava lá,...

o homem frase,
e a frase que o adormecia,
sem que a noite estivesse lá,...

o homem de todos os
homens descolado

14.9.19

Pontos cardeais

posso ter encerrado os meus pontos
cardeais,
não saber como se cosem linhas ao
paralelo do silêncio,
mas mesmo assim o Norte,
a luz fosca de um sorriso que
se aninha no horizonte,...

e mesmo perdido,
faz de mim a lonjura certa
para os passos alongados,...

escrito e reescrito com
esta certeza,
para mim foi-se embora
a latitude indefinida
da fala


13.9.19

deste quadro por pintar

lá fora disseram-me que havia um
tempo escondido por entre os
lamentos,
que noticiava sorrisos,
rios largos,
frondosos,
com árvores a beijar
o espelho da água,....

garantiam que a frase certa do desespero
é o amor,
aos poucos doseado,
com lados gastos,
jornais já lidos e que o vento apaga
de notícias,...

frisando a sorte,
amores são os instantes
deste quadro por pintar


12.9.19

Tarde, noite, madrugada

Talvez naquela tarde as coisas fossem mais fáceis,
Deixassem de haver livros por rasgar,
As mesmas senhoras de sempre decifrassem o amor nos nós dos dedos,...

Não havia vento,
Qualquer coisa que me levasse a dizer-te o quanto a noite,
Ia custar a passar,...

Desabrochei pelos arrabaldes da madrugada,
Enquanto desaprendia a tua língua



11.9.19

Look behind you


Daisy Ridley como Mary Debenham em Murder on the Orient Express (2017)

Dissenção

é como se escreve
solução,
com ênfase nas
reticências,
aproveitando o silêncio,
sempre que um beijo
é trocado pelo erro,
por impercetíveis mudanças
no curso normal das águas,....

não se escrevem problemas
sem a maior inocência possível,
quando ao lado de
um livro velho,
rasgado,
sem mortes por explicar,
nascem frutos do sonho
inodoro,
imutável,
com fins inocentes

10.9.19

Amenizado

porque não o anotei,
não me lembro já
do suor,
de desejar como o vento
um fim de dia,
uma desilusão que a rotina
ameniza,...

duas mentes pensam
melhor que uma inconsequência irrelevante


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