«Mas talvez a resposta para toda esta onda de desinformação não seja a sua desconstrução, mas a ignorância sobre ela. Desprezar. Deixar de lado o zunzum das redes. E regressar ao jornalismo 1.0. O jornalismo sério, investigativo, a olhar de frente para o mundo. O único em que as pessoas acreditam. O jornalismo sempre foi um negócio cujo modelo se baseia na sua credibilidade: os consumidores de informação só a valorizam ao ponto de pagá-la se lhe derem verdade. Perdê-la é perder tudo. Até o negócio.»
Catarina Carvalho – 16 Novembro 2019
«Não há soluções mágicas para um problema complexo - e algures entre o otimismo de Madrid e o pessimismo do encontro de Cascais, com pedidos lancinantes para que o Estado intervenha com subsídios, estará a visão do que pode ser o jornalismo como negócio com futuro. Mas o novo contrato, mais direto, entre os consumidores e os produtores de jornalismo torna ainda mais evidente a relação de confiança: só vão pagar o que valorizarem.
As experiências mostram que o que valorizam é o mais básico: investigação, vigilância dos poderes, exclusivos, rigor e histórias bem contadas e surpreendentes.»
Catarina Carvalho – 7 Dezembro 2019
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Catarina Carvalho está bem intencionada, e é só. Daí aparecer afundada nas areias movediças da ingenuidade mediológica, isso de achar que a imprensa corresponde a alguma forma de estabelecimento da “verdade” e que os consumidores de notícias são cidadãos angélicos dependentes do labor jornalístico purificado para darem sentido ao seu mundo celeste. Nada mais falso, nada mais lunático na era digital, pese ser um lugar-comum romântico. A ingenuidade acerca dos meios de comunicação social nasce da obliteração cognitiva das dimensões antropológicas, psicológicas e sociológicas onde o acto informativo semiótico ocorre – a intencional elaboração de uma informação, as condições da sua transmissão ou difusão, e as circunstâncias da sua recepção, descodificação, interpretação e assimilação. Por cima deste apagamento, o congénere acerca das dimensões culturais, históricas, económicas e políticas que geram situações diversas numa mesma sociedade, quanto mais num planeta com 193 países reconhecidos pela ONU. A complexidade em causa supera a dos fenómenos meteorológicos em ordens de grandeza talvez impossíveis de calcular.
Mesmo com a concorrência da rádio e da televisão, a era pré-Internet mostrava como os jornais em papel não correspondiam – em nenhum caso – à visão idílica e redutora que esta jornalista está a promover ao apelar à “investigação” e à “credibilidade”. A escolha por um jornal ou outro ocorria sempre num contexto que remetia para prévios factores condicionadores da construção da identidade de cada indivíduo, da sua posição na hierarquia social e do percurso existencial idiossincrático que viesse a ser o seu na travessia longitudinal pela vida. Pensando em Portugal a partir do Estado Novo, antes do 25 Abril a escolha por um dado jornal resultava da disponibilidade (era o que estava em cima da mesa do café, ou o que dava para comprar na cidade, ou o que circulava como panfleto) ou da percepção de estar mais próximo ou mais afastado do regime. Depois de 1974, os critérios foram análogos: disponibilidade e percepção ideológica e partidária. Não há registo de ter aparecido um único jornal que prometesse apenas “investigação” e “credibilidade” doesse a quem doesse. O Expresso e o Independente não o foram, bem ao contrário, o Diário de Lisboa, a República e o A Capital não o eram, longe disso. Até o Público do Vicente Jorge Silva, talvez o que mais se aproximou desse ideal na sua carta de intenções, estava irremediavelmente posicionado de acordo com as preferências ideológicas do seu director e da Redacção que seleccionou. E depois tornou-se numa aberração caluniadora e golpista da Sonae com o Zé Manel a dar a mão a Cavaco na vingança contra o alvo comum. Há lições a tirar desse desfecho mas não temos quem as tire.
Os jornais de sucesso nunca foram – nunca de nunca – apenas veículos de “notícias”, de apanhados quotidianos do devir banal ou excepcional das dimensões mais importantes das comunidades. Foram igualmente fontes de opinião, educação, entretenimento e tribalismo. Foram peças sistematicamente usadas na disputa política e na propaganda. Cada leitor estabelecia o seu pessoal modo de leitura, não sendo razoável esperar de alguém que tivesse lido o jornal todo, sequer que desse mais atenção a uma secção do que a outra dado tal ser do foro da subjectividade. Os jornais, portanto, eram também revistas, almanaques, recreio. E as capas das edições, diárias ou hebdomadárias, tinham forte poder de influência sobre as conversas dos protagonistas e seus públicos no variegado espectáculo humano. Com a Internet, a montante continuou imutável o modelo antropológico de criação de “informação”, apenas tendo de se adaptar aos novos formatos de agregação de palavras e audiovisual, mas a jusante algo radical acontecia pela primeira vez na história da imprensa: os consumidores de jornalismo deixavam de depender das edições dos jornais para captarem a “informação” sobre a actualidade. Algo similar tinha acontecido com a rádio e com a televisão face ao papel, meios muito mais rápidos e envolventes do que aquele dependente da celulose (TSF no incêndio do Chiado e CNN na 1ª Guerra do Golfo, para ilustrar com dois paradigmáticos exemplos, embora esse processo seja muito mais vasto e antigo). Porém, até com a rádio e com a televisão o ciclo das 24 horas, com os seus subciclos relativos, manteve-se operativo. O hábito de comprar, ou tão-só ler, um jornal diário justificava-se no pressuposto de continuar a produzir a “actualidade”, de existir nessa edição algo de “novo”, algo relevante para a nossa relação com os nossos grupos relacionais num ciclo de 24 horas ou 7 dias. Com a Internet, os ciclos temporais desfizeram-se perante a constante disponibilidade dos outrora leitores para serem utilizadores. Ao poderem escolher as fontes da informação sem custo financeiro e sem restrições espaciais ou logísticas, o ciclo da informação transformou-se na voragem do presente. A informação em celulose fica não só obsoleta no acto mesmo de ser impressa como as complementares funções de alimento da identidade e passatempo evaporam-se perante as infindas possibilidades gratuitas – e tão mais apelativas – ali mesmo no ecrã de casa, do emprego, na mão.
Que fazer? Olhar para as plataformas que vendem conteúdos televisivos sem grelha. A grelha deixa de fazer sentido quando se dá ao utilizador o poder de controlar as condições temporais de consumo dos produtos audiovisuais. O mesmo precisa de acontecer no jornalismo, a aceitação de que o conceito de “edição” se tornou obsoleto. Em vez de organizar o trabalho jornalístico pelas datas de publicação, cada unidade considerada como “notícia” deve ser entendida como um espaço – e uma oportunidade – de subsequente actualização. O desafio editorial seguinte passa a ser o de organizar estas mónadas de que se constitui a actualidade. Igualmente, o consumidor de jornalismo quer ter futilidade, narcisismo e tribalismo à sua disposição, genética oblige. A imprensa do futuro precisa de se reinventar como um parque de diversões cognitivo e intelectual.