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Incursões

Instância de Retemperação.

Incursões

Instância de Retemperação.

06
Dez19

Porque correm atrás do Partido Iniciativa Liberal?

JSC

Há dias o Jornal I fez grande manchete de primeira página, com foto em grande pose, com o único deputado do Partido Iniciativa Liberal. Hoje, o Jornal Económico faz grande manchete de primeira página, com foto em grande pose, com o mesmo deputado.


É caso para perguntar, o que é que o Partido Iniciativa Liberal tem?

A conversa dos liberais, uma elite que se protege sob o manto que designa de “ideologia liberal”, é um embuste, um logro, a começar pelo próprio nome. A palavra “liberal” tende a ser entendida como defensores da “liberdade”, o que leva o povo eleitor a olhá-los como inofensivos para a liberdade e direitos individuais. Acresce um discurso assente em pseudo-verdades que à luz do senso comum são assimiladas como verdades inteiras. Veja-se o velho, muito velho, jargão, “menos Estado, melhor Estado”, que ainda rende e vende opções políticas.


Na verdade, a palavra “liberal” é o mesmo que “capitalismo desenfreado”, “sem regulação”. O Estado, para os liberais, é apenas um instrumento, um mecanismo de transferência dos recursos captados, sob a forma de impostos ou outros, para os agentes económicos privados. Essa transferência pode assumir muitos nomes, “parcerias público privadas”, “concessões”, subvenções”, “comparticipações”, isenções fiscais”. Resume-se tudo ao mesmo, transferir dinheiro público para agentes económicos privados.


Os liberais do Iniciativa Liberal estão em linha com os mais que velhos defensores da “liberdade de mercado”, os que sacralizaram o mercado como fonte de todo o bem desde que o Estado estivesse fora da economia. O problema é que não demorou muito a que os próprios Estados aderentes concluíssem pela “falência dos mercados”, pela sua incapacidade em repor equilíbrios económico sociais sem a intervenção reguladora do Estado.


No entretanto, drenaram-se recursos públicos para as empresas, estas drenaram matérias primas e recursos para os países centrais, a que se seguiu a atração de cérebros e quadros especializados. Deu-se por assente, à vista desarmada, que o “liberalismo” criou riqueza, bem-estar. Os deserdados ficaram na sombra. Estavam criadas as condições para a propagação do liberalismo.

 

Para esta fantasmagórica ideia muito contribuem os instrumentos difusores de notícias. Por exemplo, somos atulhados com notícias sobre os coletes amarelos; os sem abrigo; os que tudo fazem os para ajudar, naquela hora; notícias sobre tempo de esperas nos hospitais púbicos, cansaço dos médicos, cansaço dos enfermeiros, cansaço dos professores, cansaço dos ajudantes nas escolas, cansaço físico, cansaço mental, cansaço, um cansaço de notícias.

As margens do caminho estão feitas. Agora é só abrir alas, dar espaço, para os "liberais" combaterem os malefícios do Estado, tudo que for serviço público. Neste quadro até se entende melhor o quê, quem faz correr a comunicação social na promoção intensiva do deputado do PIL.

04
Dez19

au bonheur des dames 419

d'oliveira

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O que é demais é demais!

mcr 5-XII-2019

 

Escrevi pouco sobre Tancos. Aquilo, aquele roubo de meia dúzia de armas mostrou apenas algumas evidências de que o “manto diáfano da fantasia” esconde. A “trágica nudez da realidade” é, de facto, esta: o país de sucesso é quanto muito um destino barato para turistas apressados à procura de sol, sal e sul. E de segurança nas ruas, interlocutores nacionais simpáticos (quando não quase servis) a arranhar as línguas da estranja que não faz o mínimo esforço para perceber uma velha nação e um povo sofrido e provinciano que agradece a esmolinha de uma visita apressada a baixo preço.

Sob o manto inconsútil referido está um país adiado, sem ferrovia que se aguente, com uma produtividade das mais baixas da Europa, sempre à espreita de uns dinheirinhos da União Europeia e da ajuda sem desfalecimentos do Banco Central Europeu. Um país que, se os cálculos eleitorais se confirmarem, continuará a aguardar as reformas imprescindíveis, escondendo-se atrás de uma mais que ilusória proto-regionalização (que aliás já foi duramente derrotada mas que insiste em regressar à superfície sob o aplauso de uma pequena elite regional que já se vê sentada à mesa do orçamento das regiões prometidas.

Tancos, melhor dizendo a tropa está como o SNS ou a Educação. Em estado quase comatoso, vivendo um dia a dia incerto, remendando hoje, cortando amanhã, prometendo sempre.

As forças armadas tem menos efectivos do que deveriam, muito menos dinheiro do que precisam, uma estrutura antiga de que os paióis são a vera imagem. Fechaduras obsoletas, alarmes antigos e desactivados, patrulhas incertas e vedações podres.

No meio deste cenário de catástrofe apenas surpreende o facto de haver uma criatura com o título de “Ministro da Defesa (Nacional)”. Para quê? Fora o facto incontestável que isso serve para gastar dinheiro e dar um tacho a um boy, para nada mais tem serventia que se veja. O que aliás se comprova quando nos lembramos que o cargo recaiu no sr. doutor. Azeredo Lopes ex comissário político para a imprensa e afins onde tão bons serviços prestou a Sócrates & Cia.

Esta estranha personagem poderá ser um professor razoável mas olhando para o seu percurso tem-se a extravagante sensação que sofre de “cataventismo”. Pouco antes de ter lugar à mesa do Orçamento e do Conselho de Ministros, a criatura, corrijam-se se estiver errado, estava de alma e coração com o sr. Presidente da Câmara do Porto como Chefe de Gabinete.

 

 

Diria que se trata de uma pessoa para todas as estações não fosse isto dizer precisamente o contrário do que o título do filme do grande Zinemann tem por objecto. Que me conste o dr. Rui Moreira encabeçou vitoriosamente um movimento de cidadãos liberal-conservadores de bom tom que nada tem a ver com a alegada “esquerda” representada pelo PS. Enfim, feitios!

E feitios que estão a acabar num processo torpe de armas roubadas e miraculosamente encontradas pela pj militar. Do que se lê nos jornais ou se ouve na televisão, o Ministro sabia de tudo, cobriu tudo e, por isso terá mentido com todos os dentes. O processo o dirá quando (oh quando?...) tiver lugar.

É óbvio que nada disto retira responsabilidades a essa coisa chamada Estado Maior e ao punhado de criaturas fardadas e carregadas de condecorações e títulos pomposos. Também nada disso retira o tom afrontoso que presidiu à suspensão de três oficiais superiores encarreirados para o tirocínio ao generalato e que tinham a difícil missão de comandar as unidades estacionadas em Tancos. É verdade que as suspensões foram levantadas mas a vergonha, essa, permanece. E a ver vamos se isso, este percalço na carreira não vai afectar a vida futura e a promoção desses oficiais...

Todavia, para além do que se vai sabendo, cresce, incontidamente, a desconfiança sobre o modo de agir dentro da tropa. Num sistema fortemente hierarquizado concebe-se mal que alguém, mesmo um major ou um coronel aja sem conhecimento dos seus superiores.

Há, a latere, uma história de recusa de um juiz a um pedido de intercepção telefónica de presumíveis criminosos mas isso é para outro post dedicado apenas aos senhores magistrados que, actualmente, servem para tudo desde homem de futebol até secretário de Estado. A gente vê, ouve (e pasma) juízes a opinarem sobre tudo com um à vontade que ultrapassa as suas claras funções e permite duvidar do bem fundado de opiniões e, pior!, decisões.

Perguntará alguma leitora (ou algum leitor) por que raios estou eu a escrever sobre um tema que o ruído do futuro orçamento, dos novos mini-partidos, da senhora Katar, do cavalheiro de saia plissada ou da chegada da jovem sueca atiram para o limbo noticioso. Pois é precisamente por isso. Para que não se diga que as pessoas atordoadas pelo dia a dia frenético, pela black friday pelo Natal à porta ou pela história mal contada do lítio e subsequente fuga rápida de um secretário de Estado incapaz de enfrentar os cidadãos que protestavam, se calaram.

Não, não se calaram nem se calam.

03
Dez19

Os novos deputados emergentes

José Carlos Pereira

A polémica suscitada pelo comportamento e atitudes da deputada Joacine Katar Moreira, eleita pelo Livre, trouxe de novo à baila a questão das responsabilidades individuais dos deputados e os compromissos, valores e princípios defendidos pelos partidos políticos que candidatam esses deputados. Joacine Katar Moreira "cresceu" após a sua eleição e parece considerar-se acima do colectivo que representa e pelo qual foi eleita. Veremos o que vai ocorrer daqui em diante, mas a imagem pública do Livre, depois da grande vitória eleitoral, pode ficar irremediavelmente comprometida.

Não é o primeiro caso de eleição emergente que resulta em decepção para o eleitorado. Recorde-se a eleição para o Parlamento Europeu de Marinho Pinto e de um segundo deputado pelo MPT, em 2014, que redundou pouco tempo depois em divórcio e levou Marinho Pinto a desvincular-se do MPT e a criar um novo partido, situação que levaria à perda do seu mandato de deputado se tal ocorresse no nosso parlamento. Em 1991, tivemos também a ascensão ao parlamento do deputado Manuel Sérgio, do PSN, que não passou de um fogacho sem continuidade.

Nas últimas legislativas, tivemos, além do Livre, a eleição de deputados únicos da Iniciativa Liberal e do Chega. No primeiro caso, assistiu-se à insólita situação de ver o líder do partido, que não foi eleito pelo círculo do Porto, bater com a porta e dizer que não lhe podiam exigir mais tempo e dedicação.  O que sucederia se tivesse sido eleito? Quanto ao Chega, tem actuado como um partido unipessoal, com registos de divergências e até de afastamentos entre vários fundadores, que se terão fartado dos comportamentos do líder.

Estes exemplos devem servir de reflexão a todos os que se manifestam defensores de candidaturas independentes e de círculos uninominais, que nestes novos tempos potenciam o aparecimento de políticos populistas, mais fieis ao pragmatismo da acção do que à comunhão e ao compromisso com valores e princípios ideológicos. É certo que os partidos políticos tradicionais não têm sido uma escola de boas práticas e que é necessário aproximar eleitos de eleitores, mas estes exemplos recentes devem servir-nos de reflexão sobre os caminhos a percorrer no futuro.

 

29
Nov19

au bonheur des dames 418

d'oliveira

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Aventuras da Desrazão

 

mcr 29-XI-19

 

Depois da surpreendente teoria do salário mínimo nacional dever ser definido à base do amor (e amor caro, amor a 900 euros mensais...) eis que a deputada Joacine Katar Moreira “contrariando uma das marcas genéticas do LIVRE” se absteve num voto sobre Israel. Notem que a criatura até estava de acordo em condenar. Mas não o fez por ter havido um problema “de comunicação” entre ela e o famigerado grupo de contacto (parece ser este o nome da direcção do partido). Ou seja, além da gaguez física há estoutra gaguez intelectual. Vejamos: se o LIVRE dá (como afirma Rui Tavares) uma grande liberdade aos seus eleitos, se os eleitos são a favor da condenação de Israel (e neste caso da ocupação de territórios árabes exteriores às fronteiras definidas e reconhecidas internacionalmente) por que bulas a conhecida senhora se abstém?

Eu, desde o primeiro dia, entendi que JKM funcionava em roda livre e que se considerava uma diva e pensava ser (mal, mas já lá iremos) a única responsável pelo seu lugar no Parlamento. E da cenografia que marca cada passo que dá nos “passos perdidos”, incluindo os de polícia ao lado para afastar os maldosos jornalistas. Nos meus tempos de menino e moço, falava-se muito da “sociedade do espectáculo” numa adaptação demasiado livre das teses “situacionistas”. “Mal comparado” eis-nos na dita situaçãoo! Credo!

Conviria lembrar à Sr.ª Moreira que ela só senta o dito cujo na AR porque um partido chamado LIVRE a candidatou. Sem ele, ela continuaria feliz e desconhecida do povo português. Passo por alto o curioso sistema interno que alavancou a sua ida para deputada mas, tendo em conta a pequena e divertida história do LIVRE, tudo ali parece possível incluindo até o fazer política.

Também recordaria, se é que a coisa tem alguma importância que, ao contrário do que Joacine afirma, a sua eleição teve os seus pontos mais fortes nos bairros ricos de Lisboa (Belém, por exemplo) e não naqueles onde as minorias “perseguidas” pelo racismo existem e, eventualmente, votam. Os bairros “pobres e problemáticos” deram o lugar ao Sr. Ventura, esse representante (segundo o falecido camarada Dimitrov) da “ditadura terrorista do capital”. (os leitores mais avessos à história do comunismo em geral e do Komintern em particular perdoarão esta minha mania de referir uma história que até o PCP - et pour cause - já esqueceu convenientemente).

Perguntarão as leitoras e leitores (se posso usar imodestamente este plural) que interesse terão a média e alta burguesias lisboetas em catapultar uma “esquerdista” em vez de darem o seu aval às tradicionais forças que as representam (PS, PPD ou CDS). Em poucas palavras diria que para uns o PS se esquerdizou demasiadamente graças à “geringonça”, que o PPD já não sabe a quantas anda com um dirigente vinda da província nortenha e com sotaque tripeiro (oh que horrorrrr!!!) e que o CDS se perdeu num optimismo “crístico” depois de ter obtido um bom resultado nas autárquicas. Num palavra, o CDS parece querer imitar o sapo que inchou demasiadamente sem perceber que lá dentro só havia ar e vento. O LIVRE era pois uma escapatória simpática depois desse lugar já ter sido ocupado pelo BE que, também ele, vai buscar os seus votos à “gente educada” e bem posicionada na vida, na Academia, nas artes e nos costumes.

Tenho por mim, que ninguém esperava uma eleição do LIVRE que, na realidade é mais um epifenómeno a juntar a outros. Dir-me-ão que poderiam ter optado pelos liberais (e também isso ocorreu, aliás). É até provável que para a próxima vez estes aumentem o seu score (como inevitavelmente ocorrerá com a gentinha de Ventura). Basta apenas que mantenham uma posição clara, de bom senso na AR. São os eleitores que pagam os impostos (e que impostos!) que aderirão com mais facilidade às teses da Iniciativa Liberal, como serão os eleitores de menos posses que se sentem ameaçados por comunidades imigrantes e ciganas que aumentarão o espólio do CHEGA. A Direita Extrema (não vou ainda usar a fácil terminologia de “fascista”) existe, sempre existiu mas só agora, como em várias outras geografias europeias, sente um desejo de segurança e um medo, muitas vezes, irracional. O “mainstream” político europeu (social democrata e conservador) não tem sabido ou podido responder às angústias, inquietações ou medos de uma parte da população que começa a descrer da “Europa” e muito mais do multiculturalismo emergente que põe em causa uma herança cultural que não se resume à “igualdade, fraternidade e liberdade” herdadas da Revolução Francesa. O século XX, com o seu tremendo e trágico cortejo de regimes fascistas e comunistas, com o abrandamento económico actual com a decrescente natalidade, com a difícil reintegração das sociedades de leste, parece propício a este fenómeno de abandono de uma certa democracia ocidental, de algum liberalismo temperado por políticas sociais avançadas desenvolvidas pela social democracia (e por alguma democracia cristã com fortes preocupações sociais).

Com a queda da União Soviética minada pelo desastre económico e financeiro, pela escassez de bens de consumo, pelo descrédito em que a sua “nomenclatura” tinha caído, o comunismo deixou de ser uma força actuante na Europa Ocidental (particularmente na França e na Itália onde os pc locais tinham uma fortíssima posição no parlamento, nos sindicatos e nas elites intelectuais ).

Os últimos anos 60 e toda a década seguinte marcaram claramente o fim da influência de Moscovo mesmo se isso tivesse sido mascarado pela irrupção do Maio de 68, pela guerrilha ideológica “pró-chinesa” ou pelos movimentos “anti-autoritários”. A URSS foi substituída no imaginário intelectual de alguma juventude mais aguerrida por Cuba, pela China e pelo Vietnam. Infelizmente nenhum destes modelos durou mais do que um suspiro. Cuba ruiu depois de andar ao colo dos russos durante duas décadas, a China foi sepultada pelos milhões de vítimas da revolução cultural (que acresceu aos desastres das “cem flores” e do “grande salto em frente” e o Vietnam mostrou depois da vitória a sua face menos agradável na relação com o resto dos países da Indochina mas também pela tragédia inominável dos “boat people”.

É deste desabar ideológico que se foi agravando até ao fim do século XX que começam a despontar as variadas novas formulas esquerdistas que, aliás, foram paralelamente acompanhadas pelo renascer mesmo se diferenciado das direitas derrotadas durante a 2ª Grande Guerra.

Portugal não escapou (como escaparia?) a esta nova desordem política. Houve sempre um núcleo de Esquerda radical (inclusive no Parlamento não só com a UDP mas também com pequenas correntes dentro do PS que foram sendo pouco a pouco varridas para o exterior (os sequazes de Manuel Serra ou o POUS) e para a inoperância. A isso, conviria acrescentar as depurações dentro do PC (de onde saíram para o PS e para o BE grupos mais ou menos organizados que no caso do último foram mesmo fundamentais para o crescimento e êxito eleitorais registados nas últimas décadas. O PS devorou mais de meio MES, arregimentou toda uma série de ex-comunistas notórios deixando para o PPD e para o BE a pesca à linha de ex-maoístas, ex- trotskistas e antigos militantes católicos” em ruptura.

Não deixa, aliás, de ser curioso, e sobretudo irónico, que Joacine, imite (ou esteja perto de imitar), talvez sem querer, Rui Tavares que, eleito pelo BE, cedo se desprendeu mas manteve o seu lugar no Parlamento Europeu. Isto ao arrepio daquele mínimo ético que mandaria o eleito em ruptura a abandonar o grupo que o elegeu e o cargo que a ele deve.

Não admira pois que num artigo confuso (no Público) Tavares se embrulhe ao tentar explicar o que se passa entre a estrela que ele ajudou a criar e o partido em que ambos eventualmente militam. Todas as restantes e notórias notícias que vem do pequeno partido são espadeiradas na água e entram ousadamente no ridículo e na crónica bem humorada do “fait divers” Quando não é assim e recorrem a um agente da autoridade para proteger o sacro descanso político e a vacuidade ideológica da deputada fazem prever uns “amanhãs que cantam” demasiado sinistros. Enquanto o deputado Ventura fala aos polícias a senhora deputada já os vai usando para repelir jornalistas curiosos...

Les beaux esprits se rencontrent.

* na estampa:colonato invasor da terra palestiniana cercado por um muro que lembra outros não tão recentes.

 

 

28
Nov19

De onde vêm os "sem abrigo"?

JSC

Às vezes se nos pusermos a pensar sobre o que se vê e ouve podemos correr o risco de estabelecer ligações desfocadas da prática, do concreto imediato. Claro que se não nos pusermos a pensar não corremos tal risco nem outro de natureza afim.

Anda todo o mundo político-comunicacional entusiasmado com a ideia presidencial de, num prazo muito curto, dar uma casa a cada um dos “sem abrigo”. As pessoas tendem a entusiasmarem-se com estas coisas. Aliás, só por si, o verbo ‘dar’ pressupõe coisas bonitas, justas.

As pessoas, incluindo o Presidente, poderiam questionar, De onde vieram os “sem abrigo”? Como nasceram no Intendente? Na Batalha? Como aumentaram de número? De género? As pessoas poderiam pensar essas e outras coisas mesmo correndo risco de lhe responderem, o que é que isso importa agora? Agora, dirão, há que cumprir a senda do Presidente, há que dar uma casa a cada um.

O problema é que no mundo da pobreza nem a história avança nem os pobres mudam. Nos idos anos 80/90 do Século passado os “sem abrigo” de hoje eram os “moradores das barracas”, barracas que proliferavam nos terrenos baldios e nos subúrbios. Então, os poderes públicos desenvolveram um “Plano de Erradicação da Barracas”. Construíram-se milhares de casas para albergarem os sem abrigo de então, previamente identificados.

Vinte anos volvidos o Presidente mobiliza os poderes públicos, para dar casa aos “sem abrigo”. De onde vêm os “sem abrigo”, Senhor Presidente?

21
Nov19

E o absentismo? Quem cuida do absentismo senhores jornalistas?

JSC

O estado de criar a balbúrdia nas Escolas Secundárias prossegue o seu caminho. Por algum lado se consolidou a ideia de gerar o caos no ensino público. Há uma agenda clara, visível, com acções concertadas, dia a dia. Os alunos são o instrumento primordial na acção. A todos, associaçoes de pais incluídos, a comunicação social abre o microfone. Não só abre o microfone como incita ao azedume. E se os entrevistados não são acutilantes, o(a) jornalista tem sempre a pergunta certa para obter a resposta óbvia.


Vejamos, ontem foi o dia da folgança na Escola Daniel Sampaio da Charneca da Caparica e numa Escola de Macedo de Cavaleiros. Nesta fase as razões para fechar as escolas é sempre a mesma: Exigem o reforço do pessoal não docente.


A Jornalista passa a notícia. Escola fecha por falta de pessoal. Depois, pelo meio, diz que a escola tem “16 funcionários sendo que 6 estão de baixa por tempo indeterminado”. A jornalista podia pensar, afinal a Escola tem pessoal, o que acontece é que estão doentes. O que se terá passado na Charneca para, de uma assentada, 37,5% dos funcionários ficarem doentes? Quê epidemia ocorreu por ali? E, já agora, em outros locais onde falta tanta gente por doença.


Esta questão, tão óbvia, bem poderia ser colocada às Direcções das Escolas, às Associações de Pais, dos Alunos, aos entrevistados. Seria curioso conhecer a resposta, as soluções que têm para combater o absentismo. E, já agora, porque não conhecer a opinião do sempre presente presidente bastonário dos médicos. Afinal as baixas são concedidas, penso, pelos senhores doutores em medicina.


Contudo, o que a jornalista quer saber é em que “isso afecta o aproveitamento dos alunos?. Em tudo, dizem. A jornalista insiste, “e a senhora sente algum desgaste na sua saúde?" A resposta óbvia, induzida, “claro que sim”.


Em coerência, a jornalista deveria ter prosseguido e perguntado: “então porque não mete baixa”? Não perguntou, mas deve ter pensado que aquela funcionária é uma palerma, bem poderia ir de baixa para cuidar da sua saúde. Grande oportunidade noticiosa era se fossem todos de baixa. Todos menos os alunos, que ficavam para o filme.

Ainda se ouve uma funcionária, a gente faz falta num lado depois fazemos falta noutro lado e andamos assim a ir de um lado para o outro, cansamo-nos muito. É a deixa para nova questão com resposta óbvia, “e a segurança dos alunos está em causa?” Claro que sim, respondem de pronto.


É chegado o momento da conclusão jornalística, o Governo tem de reforçar o pessoal em todas as escolas.

E o combate ao absentismo, quem cuida disso ou isso não é tema para o jornalismo de folhetim?


Seguiu-se igual reportagem numa Escola de Macedo de Cavaleiros, 3.000 alunos sem aulas durante 3 dias. É uma acção do Sindicato recém-formado que dá pelo nome, bem português, STOP.


Quem e como se conseguirá parar esta agenda destruidora da Escola pública?
E quem cuidará da praga do absentismo?
É legítimo que o Governo – este ou outro – deva dotar as Escolas com mais de um terço dos funcionários para suprir o crónico absentismo? Os contribuintes, jornalistas incluídos, estão disponíveis para pagar?
E o que fazer com esta comunicação social?

 

20
Nov19

Diário político 224

d'oliveira

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Foge cão que te fazem barão.

Mas para onde se me fazem visconde?

d'Oliveira, Nov19

 

Este texto havia de chamar-se “e ele a dar-lhe e a mula a fugir”, ou seja perdi uma oportunidade de ouro para dar nome a uma croniqueta, dure ela o que durar na memória de algum leitor.

O caso é o seguinte

Julgo lembrar-me de uma declaração de Sª. Ex.ª , o Senhor Presidente da República onde, ainda em princípio de mandato, afirmava que neste país havia condecorações mais. E por tudo e por nada!

E, em consequência a nova Presidência seria muito mais cuidadosae atenta a essa chuva de benesses honoríficas.

Um jornal pegou-lhe nas palavras e descobriu que Soares teria sido o mais pródigo, logo seguido de Sampaio. Eanes e Cavaco tinham sido menos generosos ou até, no caso do segundo, forretas.

Contudo, passados estes aos de presidência, beijinhos e “selfies” a esmo (a pontos de o meu amigo K dizer que, mais dia menos dia, seria o único português que não se retratara mão na mão com o Presidente. E isso, essa desconcertante ausência, dar-lhe-ia, vejam bem!, uma infinita notoriedade, quiçá um lugar na história das primeiras décadas deste século.)as condecorações dispararam a um ritmo jamais visto. Pelos vistos aquela prometida acalmia nas comendas foi esquecida, obnubilada pela pertinácia dos portugueses que se terão excedido em acções meritórias obrigando o seu lídimo representante a dar o dito por não dito. 

Agora, na hora da morte do José Mário Branco, eis que S.ª Ex.ª acolhe a ideia de uma condecoração póstuma, caso a família do finado não se oponha. E mais: S.ª Ex.ª recordou que já teria, e por várias vezes, proposto uma comenda ao cantor mas que este, como se esperava, sempre recusara.

Quem conheceu o Zé Mário, desde os seus tempos aventurosos de Coimbra sabe que isto era nele algo de inato. Para o Zé, as honrarias protocolares eram detestáveis.

Agora que o apanham morto e desprevenido, eis que a comenda ameaçadora espreita. Basta a família não se opor!

Ontem, mcr, num post aqui mesmo, já se arreceava de uma panteonização do cantor e compositor. Ainda as suas curtas linhas não se tinham (metaforicamente) secado e lá vinha a palavra do Chefe do Estado que, aliás, e sem se rir, abundava num discurso elogioso sobre um adversário político de sempre. Eu desconhecia que nos idos de 60/70, o jovem estudante de Direito Marcello Rebelo de Sousa pertencia já ao pequeno mas combativo núcleo dos admiradores do autor de FMI e, mais na época, da “ronda do soldadinho”. É sempre bom saber que, nesses tempos de combate incerto, um jovem que tudo empurrava para a Direita, se revelasse um resistente, porventura silencioso mas sempre resistente.

Não fui votante de MRS em nenhuma ocasião. Não fui seu entusiasta enquanto frenético dirigente do PPD/PSD. Ouvi-o, as mais das vezes enfastiado, na sua posição de professor Marcello comentador. E, nessa altura, apostei com um par de amigos que aquele homem, inteligente, astuto, frio e bom explicador dos assuntos que pecsava no seu comentário semanal, tinha a ambição de ser Presidente da República. Os meus amigos acharam-me “exageradote” (sic) e aceitaram todas as apostas que propus. E pagaram, sem amuos mas recusando dar-me o estatuto de pitonisa, os almoços em questão. Já renovei o dsafio mas eles, mais precavidos, ainda não se decidiram. E com o elogio ao JMB duvido que arrisquem.

Nada tenho contra o facto de o Doutor (por extenso) Rebelo de Sousa gostar de ser Presidente tanto quanto gostará de nadar. Não tenho qualquer dúvida que, no caso de se recandidatar, ganhará (sem precisar do meu solitário voto) e por larga maioria. Por um lado isso tornou-se já uma tradição: todos os Presidentes da Democracia bisaram e com inegável êxito. É mesmo provável que o PS (como outrora o PPD na 2ª eleição de Soares) apoie ou, no pior dos casos, recuse dar o aval a uma candidatura hostil a MRS. Lá terá as suas razões.

Portanto, essa futura campanha será um passeio (ainda maior e mais fácil do que o anterior) para o actual inquilino de Belém. Aparecerão, claro, uns aventureiros a disputar-lhe a eleição. Não porque pensem ganhar mas sempre é uma ocasião de se tornarem falados. Na melhor das hipóteses essa corrida ganha à partida será uma espécie de Branca de Neve contra os Sete Anões, sem rainha má, sem maçã envenenada e sem príncipe beijoqueiro e salvador. Não é a melhor história mas é a história possível.

O hino de campanha do actual Presidente poderia muito bem ser “a cantiga é uma arma” mesmo se “FMI” fosse mais promissor. Não serve por ser longo de mais e conter palavrões.

 

(Vai a crónica oferecida a Maria Assis por muitas razões e com um beijo)  

19
Nov19

au bonheur des dames 424

d'oliveira

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Zé Mário

mcr, 19.XI.2019

(52 anos, quase dia por dia, de um concerto entre amigos em Paris. Ai, amigos meus, tão livres que nós éramos...) 

 

Chega-se a uma idade em que as más notícias são a regra e as mortes se acumulam até perderem sentido. Agora, foi o Zé Mário Branco, uma amizade de quase 60 anos, forjada durante a sua curta estadia em Coimbra. Em determinada altura, hospedou-se no meu quarto, já não sei por que motivos. Provavelmente entendia que o seu dinheiro seria mais bem aplicado do que num aluguer. A D Laura, minha (e de muitos outros) generosa hospedeira facilitou um colchãozinho e ele foi meu “cabide” durante umas semanas.

Depois desapareceu, melhor dizendo, fugiu à tropa e à guerra. Sabíamos que a Isabel (Alves Costa) mãe de dois dos seus filhos fora ter com ele a Paris. Em Novembro de 1967, o CITAC, um grupo de teatro estudantil de Coimbra, no qual eu estava integrado, rumou a Paris para,  no âmbito da 5ª Bienal de Paris, apresentar” o “Grande Teatro do Mundo” encenado por Victor Garcia. Foi nessa semana fantástica, a poucos meses do “11 de Março”, que reencontrei o Zé Mário que principiava uma auspiciosa carreira de cantor e músico. Num pequeno bar da margem esquerda ouvimos, em primeira mão, canções como “ronda do soldadinho”. Mais tarde um disco, com o mesmo nome, contrabandeado chegar-nos-ia a Coimbra.  Quando o Zé regressou, logo depois do 25 de Abril, voltámos a encontrar-nos em espectáculos ou simplesmente em Lisboa.

Quando comecei a trabalhar na Delegação Regional de Cultura, no Porto, idealizou-se uma série de concertos de música popular que começaria, nem podia ser de outra maneira, com o Zeca Afonso, outro velho amigo de Coimbra. E com ele, depois dele, vieram o Zé, o Vitorino, o Sérgio e viria, se não morresse abruptamente, o Adriano. Fiz parte da pequeníssima equipa (onde destaco a acção extraordinária e perfeita de Luísa Feijó) que trabalhou arduamente para apresentar estes espectáculos no “Auditório Nacional de Carlos Alberto”. Escusado será dizer que registámos enchente sobre enchente. Foi a DRN quem, primeiro que quaisquer outros, deu uma sala  do Estado à música de intervenção e a uma série impar de cantores de mpp que ainda hoje são escutados e aplaudidos.

Depois, o resto é história, uma que outra vez lá nos encontrávamos e retomávamos uma antiga e quase ininterrupta conversa começada nos anos sessenta em Coimbra à luz fraterna do associativismo estudantil e das lutas que íamos travando com maior ou menos sucesso.

Com a Isabel a relação foi mais continuada pois além dela se instalar no Porto, foi na DRN, e com a DRN, que lançou o Festival Internacional de Marionetas do Porto que dirigiu até, subitamente, morrer. Desses anos de trabalho também já foram, entre outros, o Rui Feijó (primeiro e insubstituível Delegado Regional do Norte) e o Manuel Matos Fernandes, um animador cultural  cultíssimo e com uma invulgar capacidade de trabalho.

Da qualidade musical do Zé, para além do seu enorme talento poético, outros falarão. Da sua generosidade e do seu intenso labor em aproximar músicos, estilos e gerações diferentes haverá seguramente melhores e mais avisados testemunhos. Mas do amigo que trocava sonhos naqueles dias sombrios de Coimbra em que fintávamos a adversidade, a polícia, e o embiocamento provincial e provinciano do país, posso falar sem rebuço. Como uma das suas criações, o Zé era um “Ser Solidário”. E isso vai fazer falta, muita falta.

(Nota à parte: foi noticiado que se estava a preparar uma edição completa e, espero, “raisonée”, da sua obra musical. Esperemos que isso se torne realidade tão depressa quanto possível. E, já agora, por favor não o queiram emparedar no Panteão como vai sendo moda... Isso seria uma segunda morte para ele. E para mortes basta uma e a definitiva

14
Nov19

As grandes noticias do dia

JSC

Um encontro de médicos especialistas da diabetes conclui que estamos mal na prevenção desta maleita. Porque a população está cada vez mais envelhecida, porque os jovens estão cada vez mais obesos. A partir deste saber dito por especialistas, lançam-se fóruns, debates, ouvem-se outros especialistas, convocam-se as diversas associações – de médicos, utentes e outros – que cuidam da diabetes e temos matéria para uns dias de entretenimento público.


De um encontro de médicos especialistas no tratamento do cancro da mama ganha relevo a declaração de uma investigadora. Anuncia, com grande estrondo, há uma política de saúde para ricos e outra para pobres. Porquê? Porque, diz, há um medicamento que poderia dar mais um ano de vida, um ano, o Infarmed ainda não o disponibilizou, acusa. A partir deste nicho de sabedoria, não contraditado, lançam-se fóruns, debates, ouvem-se outros especialistas, convocam-se as diversas associações – de médicos, utentes e outros – que cuidam do cancro da mama e temos matéria para uns dias de entretenimento público.

 

De uma plataforma entre a Fenprof e uma ou duas associações lança-se um desafio ao Ministro da Educação para que apresente uma lista das escolas com amianto nas suas instalações. Este anúncio ganha relevo comunicacional e assume grande urgência pública. A partir deste desafio lançam-se fóruns, debates, ouvem-se especialistas, convocam-se as diversas associações – de professores alunos, pais dos alunos e outros – que interagem com as escolas e temos matéria para uns dias de entretenimento público.


Tanto entretenimento para quê, a favor de quem? Há claramente uma agenda medíocre na comunicação social. É lamentável que o próprio serviço público de comunicação social – RTP/RDP – alinhe e até lidere essa agenda.


Depois, há muitos especialistas, presidentes de associações, a carecerem de visibilidade, que contribuem para essa agenda. Quem ouvir as recentes declarações do Professor/sindicalista Mário Nogueira, a propósito do amianto nas escolas, ficará elucidado sobre o que é um discurso populista, vazio, fulanizado. Conversa que apenas acrescenta ao campo do populismo.


O populismo é o grande beneficiário deste modelo de comunicação assente numa lógica de entretimento público. O problema é que tudo isto apenas aproveita à direita da direita. O resultado das últimas eleições provam-no.

14
Nov19

diário político 223

d'oliveira

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eu comovido a oeste”

d’Oliveira, 14.XI.19

 

Não, não é para recordar esse formidável escritor que foi Vitorino Nemésio (o homem de “mau tempo no canal”, quiçá o melhor romance português do passado século) mas apenas para, roubando-lhe o título de um livro, referir-me à primeira intervenção da senhora deputada Joacine Moreira.

E vou só referir-me ao conteúdo e não ao resto. Disse a senhora deputada que um salário mínimo de 900 euros (a sua proposta) seria um “acto de amor” !(sic).

Vejamos mrlhor. O PS propões, lá para o fim do mandato, 750 euros. O PC (como não podia deixar de ser) contrapõe 850 e o “Livre” atira com 900 euros. Porque não 1000, pergunto eu, já que é um número redondo e mágico?

Mas, para além deste disparatado leilão, há a justificação apresentada: seria um acto de amor! Saímos do campo da política, mais ainda do da economia, e caímos numa novela sentimental do século XIX ou numa imitação pueril e pobre de uma aula de catequese nos anos 40 (altura em que gramei uma senhora bondosa que, a par do “acto de contrição” e do “salve Rainha”. É bem verdade que conseguia escapulir-me para a mata de Soto Maior sempre que a bondosa criatura se distraía mas mesmo assim tive 13 valores –em Buarcos e nessa altura, a catequese tinha valores para podermos aceder à comunhão solene.

Ora, com algumas diferenças de idade, de locução de cor e de alegada ideologia, as duas mulheres assemelham-se num ponto importante: transbordam de amor pelos necessitados, pelos pobrezinhos mesmo se entre a época de uma e hoje haja uns bons setenta anos.

Em teoria, ninguém discute a necessidade de os trabalhadores deverem ter um salário decente que os ponha (a eles e à família) o abrigo das necessidades mais elementares. O problema que, entretanto se põe, é saber qual é a capacidade dos empregadores para pagar seja o que seja. E, já agora (algo de que raramente se fala), da produtividade.

Também é verdade que, em alguns países europeus, o salário mínimo é mais elevado (basta a Espanha aqui ao lado) se bem que noutros (todo o leste) chega a ser metade do que o que cá se paga.

E, mesmo em Portugal, temos patrões a pagar acima do estipulado (permitam-me o meu exemplo: tendo em conta o número de horas pago quase o dobro do futuro SMN e, quando ele chegar, continuarei, suponho, com a mesma distância, respeitando e pagando feriados, férias e subsídios de férias e Natal. Não o faço por amor, era o que faltava, mas por simples ética por respeito com um passado meu e com convicções por que me bato. E porque posso pagar isso sem cair na ruína iminente, convém acrescentar.)

A proposta da senhora deputada é pois, no actual quadro económico e financeiro nacional, um absurdo no qual nem ela provavelmente acredita.

Ou acredita num outro plano que não o político, por exemplo numa óptica do discurso amoroso, em que a paixão obnubila tudo e tudo permite. A senhora deputada ama os desprotegidos tanto ou mais que a finada madre Teresa de Calcutá, ou, mais perto, como a santinha da Ladeira. É uma espécie de missionaria laica o que para uma senhora nascida na Guiné e com dupla nacionalidade é quase um programa de vida.

Não sei se os trabalhadores portugueses, sobretudo os que nem ao salário mínimo actual chegam, apreciaram devidamente esta declaração fervorosa e ternurenta da deputada. De todo o modo, há que reconhecer que estamos no

“...Incrível pais da minha tia

trémulo de bondade e aletria...”

como Alexandre O’ Neil diria se conhecesse a senhora Moreira. Não me atrevo (ou melhor, atrevo-me mesmo) a citar Nemésio que, no livro que dá título à crónica de hoje, diz

“...fechei as pálpebras pesadas

de contradição e poesia...”

Sei que estas citações de dois eminentes poetas que muito estimo são salvas de pólvora seca contra o delírio parlamentar desta original deputada. Que dirão os do “Livre” destas prestações delico-doces da sua representante no areópago parlamentar?

Sorrirão felizes e enlevados com estas tiradas melosas m um tanto ou quanto nefelibatas da sua vistosa deputada?

Cá em casa, a coisa foi saudada com uma saudável mas impertinente gargalhada sobretudo por parte da minha mulher que, recordada da sua juventude perigosamente militante e pró-africana, a secundou com uns resmungos que até o neto do alto dos seus dois anos acabados de fazer, entendeu como reprimenda injusta por estar a tentar destruir o telemóvel da avó complacente.

Eu, limitei-me a comover-me, como em Coimbra quando ouvia os discursos do Teixeira e as tiradas do Tatonas. Ao fim e ao cabo na sua inocência e longe do nosso mundo, também eles mereciam amor. Com algum “pão e fantasia” como recomendava o excelente Comencini, um dos realizadores que marcou a minha juventude cinéfila.

* a estampa: fotograma de "pão amor e fantasia "de Luigi Comencini . E com a espampanante (ai, jesus!) Lolobrigida!