
Hoje, pelas 18 horas, no Instituto Franco- Portugais, assinalam-se os 25 anos da morte de Ary dos Santos. Uma justíssima homenagem a um dos mais talentosos poetas portugueses, que perdura na memória de muitos, mas os mais jovens desconhecem.
Presto-lhe a minha homenagem , transcrevendo o poema "Poeta Castrado, não!"
Serei tudo o que disserem
por inveja ou negação:
cabeçudo dromedário
fogueira de exibição
teorema corolário
poema de mão em mão
lãzudo publicitário
malabarista cabrão.
Serei tudo o que disserem:
Poeta castrado não!
Os que entendem como eu
as linhas com que me escrevo
reconhecem o que é meu
em tudo quanto lhes devo:
ternura como já disse
sempre que faço um poema;
saudade que se partisse
me alagaria de pena;
e também uma alegria
uma coragem serena
em renegar a poesia
quando ela nos envenena.
Os que entendem como eu
a força que tem um verso
reconhecem o que é seu
quando lhes mostro o reverso:
Da fome já não se fala...
é tão vulgar que nos cansa...
mas que dizer de uma bala
num esqueleto de criança?
Do frio não reza a história...
a morte é branda e letal
mas que dizer da memória
de uma bomba de napalm?
E o resto que pode ser
o poema dia a dia?
Um bisturi a crescer
nas coxas de uma judia;
um filho que vai nascer
parido por asfixia?!
Ah não me venham dizer
que é fonética a poesia!
Serei tudo o que disserem
por temor ou negação:
Demagogo mau profeta
falso médico ladrão
prostituta proxeneta
espoleta televisão.
Serei tudo o que disserem:
Poeta castrado não!
(José Carlos Ary dos Santos)
Que falta nos faz, Zé Carlos, uma voz como a tua, que se erga para denunciar, sem rebuço, os podres deste país de corruptos autodidactas, sempre de dedo em riste, apontando indignados, a perversão da moral e os " maus costumes".