segunda-feira, 16 de dezembro de 2019

A indisfarçada vocação direitista do PAN


Existe uma lei na política, que pede meças às das que cientificamente se vão comprovando: quando alguém diz que não é de esquerda nem de direita, depressa se demonstra a sua filiação neste último campo político. Sobre o PAN pode haver quem ainda duvide de onde deva ser acantonado já que o seu grupo parlamentar está colocado entre o Partido Socialista e o PPD, mas as posições que vai tomando, mesmo quando se abstém ou aprova o que o Governo apresenta, não engana para que lado mais se inclina. Veja-se agora a posição de anticomunismo primário assumida pelo mais conhecido dos seus deputados, quando esteve em discussão o prosseguimento de grupos de amizade parlamentar com a China ou com Cuba.  Agindo como um macartista apostado na caça às bruxas, André Silva quis liminarmente acabar com eles como se o diálogo entre instituições parlamentares a nível transnacional se cingisse tão-só pelos seus duvidosos preconceitos ideológicos.
Por muito que apareça acobertado em causas, que possam parecer-nos simpáticas como o são os direitos dos animais, o PAN esconde a filiação ideológica à direita de forma chico-esperta, sendo a mais recente das suas estratégias o fingir-se de ecologista. Nesse sentido é tão perigoso quanto o ultraliberal Cotrim ou o fascista Ventura. Na prática todos eles provém do mesmo indigesto caldeirão.

A confiança crescente de quem sabe para onde vai


O «Público» desta manhã traz uma sucessão de fotografias de Mário Centeno muito elucidativa sobre o seu aparente estado de ânimo nos quatro anos anteriores por altura da apresentação dos Orçamentos Gerais do Estado. Na primeira, coincidente com o do OE-2016, vemo-lo crispado, quase com a sensação de quem se vê acossado pelos constrangimentos e ainda não tem plena confiança nas estratégias para os superar.
Na segunda fotografia, referente ao OE-2017, a pose ainda é de preocupação, mas os ombros levantaram-se indicando uma maior segurança no rumo entretanto seguido.
A definitiva demonstração dos bons resultados explica o meio-sorriso da época do OE-2018: crescia a convicção na capacidade de demonstrar aos parceiros do Eurogrupo a bondade da solução governativa portuguesa ao ponto de o nomearem seu presidente.
O sorriso abriu-se completamente na imagem de há um ano, quando apresentou o OE-2019: comprovava-se a competência com que se vencera toda uma legislatura sem percalços e em convergência com os parceiros da maioria parlamentar.
Da primeira para a quarta fotografia a evolução foi sempre em crescendo abrindo-se a nossa curiosidade para a análise da sua fisionomia e postura corporal quando hoje entregar o Orçamento para 2020 ao Presidente da Assembleia da República. Os prosélitos das direitas estarão particularmente atentos a quaisquer sinais sobre a sua tese referente às supostas divergências entre Centeno e Costa. Como comenta David Pontes no seu editorial, à falta de sublinhar pontos fortes que, em si não vislumbra, a direita limita-se a tentar encontrar pontos fracos no adversário: “E se ontem era a relação entre os partidos da aliança parlamentar que estava sob escrutínio, hoje parece ser a relação entre o primeiro-ministro, António Costa, e o seu ministro das Finanças que melhor serve este propósito. Mas é duvidoso que as divergências, naturais quando se pensa no trabalho supranacional que Centeno tem de fazer no Eurogrupo, se traduzam em qualquer coisa de substantivo na frente política interna.” O tema pode servir para animar as duvidosas esperanças dos que têm vivido estes quatro últimos anos como um suplício, mas não corresponderão a nada de verdadeiramente essencial. No momento certo Mário Centeno transitará para o cargo que lhe é devido por direito e o governo, mesmo sem ele, prosseguirá no rumo que tem sido o seu, confiante de saber bem para onde vai, e citando José Régio, ainda melhor sabendo não querer ir por aí, sendo esse aí aquilo que as direitas gostariam de ver concretizado  na forma de mais privatizações, maiores desigualdades e regressado forrobodó para quantos lhes pagam para serem suas marionetas.

Era uma vez a obsessão com o PIB


Há quem continue a perorar sobre a necessidade de se garantir maior crescimento económico - sobretudo nos partidos de direita onde ainda é mistificação com que se procura iludir os respetivos eleitorados - mas os tempos próximos tenderão a remetê-la para o caixote do lixo das coisas irrecicláveis. O PIB está definitivamente desvalorizado enquanto indicador a respeito do qual todos os outros se devem subordinar. Mormente pelas razões que fazem dos EUA um exemplo insofismável: apesar de apresentar um dos maiores PIBs mundiais por habitante, como se portam os outros indicadores como os referentes à pobreza, à saúde, à educação, à criminalidade ou à desigualdade? De que vale ter um elevado PIB/hab se uma grande percentagem dos que aí vivem competem com os dos países subdesenvolvidos na sua pobreza?
Joseph Stiglitz já o vem dizendo há muitos anos mas, apesar de galardoado com o Nobel da Economia, não tem sido levado em conta. Mas agora proclama-o em mais alta voz e vê a Islândia a dar-lhe razão: as bitolas para aferir o desenvolvimento de um país são outras e prescinde bem dessa obsessão com o crescimento, ademais incoerente com os requisitos impostos pela emergência climática. 

domingo, 15 de dezembro de 2019

Um Orçamento à medida das nossas realidades


Gostaria que o Orçamento Geral do Estado para 2020 me desse fundamentadas expetativas de ver aumentados os rendimentos (por aumento da pensão de reforma) e reduzidos os impostos (por revisão dos escalões do IRS).

Eu, que antipatizo seriamente com este tempo outonal e, ainda mais, com os rigores do inverno, igualmente preferiria ter sempre dias ensolarados, com brisas ligeiras e águas do mar a dezanove ou vinte graus para passa-los à beira-mar com o horizonte azulado e sem nuvens como paisagem de fundo.
Tivesse poderes mágicos e obviamente faria desaparecer da política internacional os trumps, os bolsonaros ou os salvinis, que fazem dos nossos telejornais o desfile de uma tremenda galeria de horrores.
Tais exemplos demonstram que a realidade é uma e os nossos desejos dificilmente com eles se compadecem. Por isso mesmo voltando ao primeiro compreendo perfeitamente que o documento ontem aprovado em conselho de ministros não é o que mais me conviria, mas é o melhor possível dentro dos constrangimentos a que António Costa e a sua equipa se devem ater.
Um amigo  e colega de profissão acusou-me ontem de enviesar argumentos para quase sempre defender o governo, mas convenhamos ser estranha essa conclusão em quem não só faz o mesmo para defender os que, à esquerda, o contestam. Aquilo que ele designa como contorcionismo não é mais do que a perspetiva distinta de cada um perante uma mesma realidade, que se analisa consoante esses tais desejos. Que até acabam por ser muito semelhantes, por não duvidar ter ele a mesma ambição de alcançarmos uma sociedade liberta deste capitalismo, que nos explora e oprime, e se paute por mais justiça social, menos desigualdades e recuperada para a importância dos valores da fraternidade entre os seus cidadãos.
Podemos almejar esse objetivo a breve prazo? Claro que não e quem o dizia era o José Mário Branco, que citava a propósito o cientista alemão cujos trabalhos em prol da cura da sífilis conheceram centenas de falhanços para, enfim, alcançar o pretendido sucesso. Por isso mesmo creio no êxito final do modelo socialista, hoje imperativamente associado à preocupação com a sustentabilidade do planeta, por muitos falhanços que, desde a revolução bolchevique russa tenha passado e ainda acabe por passar.
Surpreende-me que aquele meu amigo não pense assim, já que a profissão o terá habituado a cingir-se à leitura de manómetros, termómetros e outros indicadores quantitativos para melhor gerir a operacionalidade e a manutenção das instalações que geriu. E sempre soube quanto a leitura de pressões, temperaturas, consumos e outras medidas implicaram decisões sobre a velocidade com que o navio poderia singrar nas águas oceânicas. Quantas vezes a súbita alteração da temperatura da água do mar bastava para logo obrigar a alterar o fluxo do vapor para as diversas extrações, quando de instalação a turbinas se tratava.
Ao contrário do que Catarina Martins, Jerónimo de Sousa, Rui Rio ou os seus oponentes pressupõem, um Orçamento não é desenhado apenas em função das realidades internas do país. Sujeita-se aos constrangimentos externos, sejam eles económicos, sejam os decorrentes dos tratados a que o país se sujeita. Daí a importâncias das contas certas que António Costa reivindica como um dos eixos fundamentais do documento. Porque só com elas pode prosseguir o rumo tomado nestes últimos anos, quando começou a reduzir as desigualdades entre os portugueses - conforme o demonstra o coeficiente de Gini  - e se travou às quatro rodas a intenção das direitas em tudo privatizar.
Desejaríamos mais? Claro que sim! Mas o setor da Saúde, que ainda dá motivos às oposições para porem em causa os benefícios das políticas implementadas, sofre o efeito prolongado dos cortes impostos por Passos Coelho. Esse meu amigo sabe de sobra que, em mecânica, uma máquina não gripa quando lhe cortam o óleo que lubrifica as suas superfícies em movimento, mas quando a temperatura sobe e elas tendem a agarrar. Acusar António Costa do quase gripanço dos hospitais públicos é esquecer - até mesmo desculpabilizar - quem quis cortar na lubrificação.
É por tudo isto que, não esperando outro benefício do novo Orçamento que um Serviço Nacional de Saúde recuperado ou uma sociedade portuguesa mais igual, esteja totalmente de acordo com o que ele pressupõe. Porque já no século XVIII o filósofo francês Voltaire reconhecia que o ótimo pode ser inimigo do bom e querendo-o impor, será este último a ficar em causa, perdendo-se ambos como resultados das nossas insensatas ações e decisões.

sexta-feira, 13 de dezembro de 2019

Reino Unido até quando?


Fiquei chateado com a vitória de Boris Johnson nas eleições de ontem no Reino Unido? Nem pensar, porque a política não é assunto que mereça reações emotivas e, pelo contrário, incita a reflexões estritamente racionais. Nesse sentido, Jeremy Corbyn até pode dar-se por satisfeito por ter tido esta derrota histórica, já que ela seria ainda mais avassaladora se, formando governo de coligação com os nacionalistas escoceses e com os liberais-democratas, voltasse à pugna eleitoral com o saldo da separação definitiva da Escócia. Porque não tenhamos dúvidas em como Nicola Sturgeon, vendo avalizada a vocação independentista do seu partido com a eleição de 48 deputados para Westminster dos 59 em liça na Escócia, depressa se apressaria a conseguir um segundo referendo enquanto o parceiro da coligação potencial seria fervido em lume forte pelos furiosos brexiteers. Nesse sentido acabará por ser Boris Johnson a merecer a ambicionada “estátua” de ser o primeiro-ministro que, querendo sair da Europa, terá visto o Reino Unido desunir-se definitivamente.
Há obviamente o problema dos portugueses aí emigrados eventualmente instados a regressar. Mas não necessitamos urgentemente dos médicos e dos enfermeiros, que foram ali procurar melhores condições de vida? Provavelmente as comparadas expectativas de futuro valorizarão as oferecidas por Portugal, com o rumo traçado por António Costa desde 2015 e a avançar com solidez e determinação, quando, ao invés, ainda residem num país em navegação à vista tendo ao leme um egomaníaco manipulado por eminências pardas dispostas a acentuar as opções ultraliberais, as que porão seriamente em causa o Serviço Nacional de Saúde onde tantos portugueses trabalham.
Se a política fosse apenas a que se espera no curto prazo, a vitória de Johnson poderia preocupar-nos, embora não faltem em Bruxelas ou Estrasburgo os que tudo fazem para torpedear o pouco que resta do projeto europeu no que chegou a ter de melhor. Desde os tempos de Thatcher que os britânicos sempre foram os refilões, que mais queriam para si e menos pretendiam contribuir para os outros. Nesse sentido a saída da União Europeia nunca constituirá mais do que a pedra definitivamente expulsa dum dos sapatos com que prosseguirá a tormentosa caminhada para um futuro ainda assaz duvidoso. Quanto aos que diabolizaram Corbyn bem podem esperar pelo ricochete: os militantes mais jovens do partido não se identificam com os blairistas, apostando bem mais nas opções socialistas do que nas bolorentas terceiras vias tão ansiadas por quantos das ideias de esquerda há muito se dissociaram.

quinta-feira, 12 de dezembro de 2019

Quando se retiram argumentos a quem eles já faltavam!


O fim da suborçamentação do Serviço Nacional de Saúde, mediante o reforço de 800 milhões de euros no próximo ano e a contratação de mais 8400 profissionais, constituiu a boa notícia de ontem, embora se revele ingrata para os que, à custa do setor, porfiam nas críticas ao governo e para quem faz dele um negócio, já que verá prejudicadas as previsões de rentabilidade das suas clínicas e unidades hospitalares.
Será bastante para resolver de vez todos os problemas anunciados nos últimos anos? De modo algum, porque os cortes aplicados pelo governo de Passos Coelho não se sentiram com a expectável gravidade logo a seguir, mas revelaram a virulência no prazo bastante para todas as responsabilidades serem transferidas dos autores da malfeitoria para os que nada tinham tido a ver com ela e a tentaram esforçadamente contrariar. Quem conhece as leis da mecânica ou as da natureza sabe bem como existe um hiato significativo entre a causa, que produz um mal e o momento em que ele mais se agudiza. Daí que este orçamento de 2020 seja o que, verdadeiramente, começará a demonstrar os benefícios das políticas implementadas desde 2016 para recuperar o combalido SNS.
É natural que João Miguel Tavares seja um dos que não goste desta notícia e por isso escolha outra para o persistente exercício de maldizer sobre o governo. Desta feita pega na questão da delação premiada, badalada nos últimos dias como hipótese de alteração da legislação sobre as áreas da Justiça, e faz um desesperado lamento sobre a impossibilidade de se tornar possível entre nós essa prática oficial da bufaria nos tribunais. Nele se verifica mais uma eloquente demonstração da incapacidade do escorpião em iludir a natureza tornando-se diferente do que é. E este Tavares não consegue reprimir as saudades do tempo em que a delação era ameaça persistente para quem incorria no sério risco de se sujeitar às torturas dos pides na Rua António Maria Cardoso. Que cómodo seria pagar a dois tunantes, que afiançassem ter ocorrido uma qualquer vilania por parte de um político socialista para logo receberem crédito de algum Carlos Alexandre e assim, sem outras provas, enfiá-lo na prisão de Évora?
O que Tavares quer ostensivamente ignorar é ter sido durante o período em que António Costa foi ministro da Justiça, que se produziu a única legislação consistente e coerente destinada a combater a corrupção em Portugal. Nenhum outro político - mormente os que ele gostaria de ver novamente no poder - tem tais provas dadas contra algo que, enganadoramente, quer assacar a uma suposta «cultura socialista», mas tem-se mostrado particularmente proveitosa para os Dias Loureiros, os Paulos Portas, e outros que tais, relativamente a quem o mesmo Tavares não se tem mostrado nada obcecado.

terça-feira, 10 de dezembro de 2019

Os sinais que importa não ignorar


Uma das muitas injustiças relacionadas com as alterações climáticas tem a ver com o facto das consequências negativas acontecerem nas geografias periféricas em relação aquelas onde maior poluição se produz. Embora todos saibamos como os ursos polares andam a extinguir-se, esfomeados ou afogados por nadarem até à exaustão nos mares onde antes sabiam gelada a superfície, ou que populações ribeirinhas das ilhas do Pacífico ou do Bangladesh veem inundadas as terras e destruídas as culturas, tudo isso passa-se tão longe do ocidente que os seus líderes tardam em tomar as medidas exigidas pela emergência climática, arriscando a que, quando as tomem já seja tarde demais.
Talvez as tragédias causadas por incêndios descontrolados ou furacões violentíssimos deem para suscitar algum rebate de consciência. Ou que, mesmo no centro da Europa, populações tenham de ser transferidas dos vales férteis à beira dos Alpes, cujos glaciares vão derretendo e retirando ao frágil permafrost a capacidade de manter coladas as escarpas que tenderão a colapsar sob a forma de perigosos aluimentos de terras e rochas. Quando a frouxidão dos governos perante os perigos iminentes passarem a traduzir-se em vítimas caucasianas e ricas talvez cresça a consciência de não ser possível adiar por mais tempo a revolução político-social, que substitua este modelo económico em roda livre, que a nada mais liga senão ao lucro dos que, à sua pala, acumulam obscenas fortunas.
Nesta mesma Europa outro fenómeno está a constatar-se no Mar Báltico: à conta da acidificação e da eutrofização das suas águas as populações de arenque, tão fundamentais para manterem o equilíbrio do ecossistema em que vivem, estão a reduzir-se aceleradamente, confrontando quem vive da sua pesca e das indústrias associadas a verem condenado o seu modo de vida.
E, cereja (podre) em cima do infecto bolo, pode constituir outra descoberta recente dos cientistas: sob o gelo milenar existem na região ocidental da Antártica cerca de cento e cinquenta vulcões cujo adormecimento se deve à intensa camada de gelo que os tem coberto e arrefecido. Ora, acaso o degelo prossiga ao ritmo que vem acontecendo, crescem as probabilidades de ver o continente austral replicar a Islândia na manifestação de erupções, que não só agravarão os efeitos das atividades humanas na atmosfera, mas também mais rapidamente promoverão a subida do nível dos oceanos pondo em causa muitas das megalópoles que, em todos os continentes, vivem à sua beira.
Quer queiram, quer não, os dirigentes políticos do futuro imediato confrontar-se-ão com a urgência de rapidamente tomarem as medidas, que melhorem as possibilidades de resiliência da espécie humana, nem que para tal atirem de vez para o lixo o capitalismo, substituindo-o por um ecossocialismo, que dê resposta aos constrangimentos, que  só os cegos não quererão ver.

Mais um sonho lindo que acabou?


Embora seja algo tão óbvio como olhar para o Evereste e subir-lhe ao cume, simplesmente porque está lá - mas quem o disse nele encontrou a morte! - é difícil compreender a motivação dos turistas, que visitavam o vulcão da ilha White, quando ele teve assassina erupção. Cinco mortos somados a oito desaparecidos que, certamente já não conseguirão contar a surpresa, o medo e a dor de se terem acercado demais de um perigo cujo nível elevado estava declarado desde 18 de novembro. A adrenalina pode não ser fácil de controlar, mas a probabilidade de se perder a vida deveria constituir-lhe inibidor que bastasse.
Há perigos assim, que estão à vista, mas os incautos insistem em experienciá-los. Dois meses depois das eleições de outubro anda a ser essa a atitude dos que, na legislatura anterior, deram corpo àquilo que nunca gostei de designar como «geringonça». O Bloco e os comunistas exageram no que pedem para já, ignorando as cautelas e os caldos de galinha, que a situação económica e financeira do país recomendam, mas o governo também não facilita mostrando uma assertividade para com as pretensões patronais, que estas não justificam. Pearece esquecida a experiência vivida durante o guterrismo e o socratismo, quando as confederações empresariais começaram por reagir com aparente complacência às intenções de governos, que se seguiam a desgovernações incompetentes e, sobretudo, extremamente impopulares, para logo financiarem e fomentarem a criação de um clima social e político, que redundaria no «pântano» num caso e na pressão para a rendição à troika no outro, ambos implicando o regresso das suas marionetas ao poder.
Considero António Costa um homem inteligente e competente - razão para o ter diligentemente apoiado desde que se candidatou ás primárias de 2014! - mas anda a assemelhar-se em demasia aos visitantes da ilha White: sabe que o perigo está mesmo ali à beira e dele aproxima-se perigosamente sem cuidar do que possa inesperadamente acontecer. E, movidos pela mesma macabra curiosidade, o Bloco e o PCP para ele parecem atraídos, mesmo que de direções diferentes, sempre enjeitando a prudente distância, que a manutenção dos equilíbrios anteriores pressuporia.
Quem antes assegurava as pontes e negociava cumplicidades - Pedro Nuno Santos - foi empurrado para uma gaiola supostamente dourada, a exemplo de quem, na bancada parlamentar, as assegurava mediante o recurso à retórica contundente - João Galamba.  Em aparência estes dois meses fizeram crescer abismos em quem, inteligentemente, os aproximara suficientemente para estabelecer estimulantes pontes. Oxalá eles não se tornem novamente tão profundos que tenhamos de reconhecer que os quatro últimos anos foram mais um sonho -  mesmo que não tão lindo quanto o da canção do José Mário Branco - que acabou!

domingo, 8 de dezembro de 2019

Cínicos não! Zombies talvez!


No «Público» Vitor Belanciano considera que vive-se hoje o cinismo como pensamento dominante: Está em todo o lado. Na boca de políticos, comentaristas, nas estruturas de poder, na opinião pública em geral, seja nas ruas ou nas redes sociais.”
Não é essa a minha perspetiva embora admita a evolução que o termo conheceu desde que foi teorizado como corrente filosófica na Grécia Antiga, quando Antístenes, discípulo de Sócrates, defendeu a virtude de se viver de acordo com a Natureza. Nesse sentido talvez quem esteja, ou esteve em Madrid, mobilizado pela Cimeira do Clima, corresponda a essa minoritária corrente de cínicos, tal qual o entendia o fundador de tal teoria.
Convenhamos que Diógenes de Sinope alterou o propósito original, embora reclamando-se igualmente desse cinismo original. Mas a sua autarkeia em nada corresponde ao argumentário do jornalista do «Público». Porque correspondia a uma indiferença perante os valores da sociedade em que estava inserido, quando hoje prevalece a preocupação com a imagem que se dá de si aos outros.
Vivendo num barril e tendo por únicos haveres um alforje, um bastão e uma tijela ele instava os contemporâneos a seguirem o exemplo do cão, que vive o presente sem ansiedade e não tem problemas quanto ao sítio onde pernoitar. Ora, ao contrário desse cínico-mor, quem nos rodeia sente deveras preocupações com o futuro, que adivinha muito diferente (e pior) em relação ao seu periclitante bem-estar atual. Um inquérito acabado de publicar revela que, por exemplo, uma esmagadora maioria dos franceses está angustiada perante o pressentimento de um devir muito pior do que o atual. E, porque o ensino, a imprensa e a subcultura consumista levaram-nos a crer que não existem diferenças entre as soluções de esquerda ou de direita, põem-se ansiosamente a esperar por um chefe que os tire de tal madorra. 
Esquecida durante séculos, a perspetiva cínica seria recuperada no século XIX  numa leitura de descrença quanto à sinceridade ou bondade das motivações e ações humanas, denunciando a frivolidade dos que nelas se entediavam. Conclui-se que não é, igualmente, esta a caracterização adequada para quem vive os tempo atuais. Porque melhor me serve a imagem da avestruz com a cabeça enfiada na areia, mas a ouvir mais ruidosa a ameaça, que poderá estraçalhá-la.
O sistema económico ainda vigente conseguiu impor a abulia como estado de alma dominante naqueles que humilha e explora. Distraiu-os com montras reluzentes e prateleiras cheias nos supermercados ou com voos baratos para lonjuras, que não se revelam mais interessantes relativamente às que estão mesmo à mão,  Fez crer que não existem diferenças entre direitas e esquerdas, sendo as ideologias uma espécie de chão que já deu uvas. Que a culpa das inexplicáveis angústias reside na presença dos que provém doutras geografias ou têm outras religiões. E se isso não bastar há sempre antidepressivos ou cocaína em quantidade suficiente para buscar «realidades» alternativas. Que até poderão estar no próprio computador com os avatares das suas second lives. Ou há sempre um qualquer tabloide à mão de semear para comprovar que vivemos numa sociedade de feios, porcos e maus, sem ponta por onde se lhe pegue, aceitando-se que a vida são dois dias e o melhor é dela colher para si o que dos outros se possa explorar. E não faltam igualmente as igrejas e seitas de todos os matizes para nos convencerem ser a passagem pela vida um vale de lágrimas e se encontrará no Além todos os benefícios de se pagar atempadamente os dízimos.
Verdadeiramente não é este o tempo dos cínicos, mas é-o decerto o dos zombies meio atordoados que vagueiam por todo o lado sem darem tino ao que possam verdadeiramente almejar. E, ao contrário dos que enxameiam os filmes de George Romero são mortos ressuscitáveis e é esse o papel que cabe às nossas esquerdas. Conjugando as forças em vez de se voltarem a digladiar - como infelizmente parece em vias de suceder entre nós! - combatendo a imprensa, que escamoteia a realidade e apenas se interessa em preservar esse desnorte coletivo e dando crédito ao que dizem os cientistas - não só os do clima, mas também os das dinâmicas sociais - encontrem o ponto de equilíbrio entre a produção de mercadorias e serviços respeitadores dos frágeis equilíbrios da Natureza, que nos alimenta ou nos dá o ar que respiramos, e a sua justa distribuição por todos quantos habitam o planeta, diluindo-se as diferenças entre Norte e Sul ou entre ricos e pobres. Com um subsequente desafio no horizonte mais alargado: a incompatibilidade dos recursos disponíveis com a já excessiva população que os utiliza...