(Um post com bolinha vermelha, apesar de não contar com a colaboração dos Ena Pá 2000)
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| Fotos da Net ( sem créditos) |
Já muito se escreveu acerca da reportagem de Paulo Moura no Público de domingo sobre os
call centers.
Como o Público não permite fazer links do texto, deixo aqui alguns excertos antes de entrar no assunto que motivou este post:
1-
O sistema tinha caído e Maria levantou-se para esticar as pernas
“ Não pode estar de pé. É do regulamento” ( disse-lhe o “capataz”)
2-
“ C
ala a boca”
“Não podes tratar-me assim”
“Se não estás satisfeito, a porta da rua é ali”
3-
“Tínhamos de dar a entender às pessoas que, se não comprassem o serviço MEO, ficavam sem televisão, o que era mentira”- diz um ex-trabalhador do call center da PT em Coimbra.
4-
Competências em línguas estrangeiras, boa infra-estrutura tecnológica, salários baixos. É melhor do que a Índia ou o Norte de África, consideram as grandes multinacionais.
5-
O call center da PT em Coimbra é descrito, por muitos, como um inferno
Devo dizer-vos que não me surpreendi com a reportagem, pois conheço há muito como funcionam os call centers e há situações ainda piores do que as relatadas nesta reportagem. Foi por isso que no dia seguinte a Sócrates ter dito, na inauguração de um call center em Santo Tirso onde tinham sido criados 1200 postos de trabalho, que era um
“emprego bom e com futuro” (
18 de Agosto de 2008) escrevi :
“Não posso embandeirar em arco e aplaudir o PM, quando proclama que um “call center” é um emprego “bom e de futuro”.
Aceitar como verdade esta afirmação, é pactuar com a ideia de que o futuro está no trabalho temporário, em condições por vezes degradantes, tão severas e injustas são as regras que o pautam.
Um emprego num call center significa apenas adiar um problema e não resolvê-lo. Anunciar 1200 postos de trabalho precário, mal pago e praticado em condições de insalubridade psíco-fisiológica, como uma medida de grande impacto no combate ao desemprego, é anunciar uma grande desgraça ao país.
O que os portugueses precisam não é de empregos de circunstância, que sirvam de panaceia aos seus problemas económicos, mas sim de uma política de emprego, assente em estruturas sólidas e impactantes.
Vivemos uma era de grandes mudanças na estrutura e regras da empregabilidade. Não podemos continuar a pensar em “empregos para a vida”. No entanto, também não é desejável que transformemos a mobilidade dos postos de trabalho num cenário pós II Revolução Industrial, onde campeie a incerteza e só alguns possam organizar a sua vida em bases sólidas.
Um país com futuro precisa de criar postos de trabalho “de futuro” e os “call centers” não podem ser encarados nessa perspectiva”.
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| Assim se trabalha num call center. Neste caso, é na Índia, mas podia ser cá |
Nesse longínquo ano de 2008 os empregados dos call centers já eram tratados em condições degradantes, mas ainda eram pagos a 500€. Hoje, em alguns desses paraísos de empregos com futuro, os trabalhadores são pagos à peça.
“ Temos que fazer um número mínimo de chamadas todos os dias, mas nem todas contam para a produtividade. Se não conseguirmos aguentar uma chamada durante três minutos não é contabilizada. É por isso que às vezes temos de ser chatos, estamos a tentar aguentar as pessoas do lado de lá até aos três minutos”- confidenciou-me há cerca de um ano um trabalhador de call center
A remuneração e as condições de trabalho têm vindo a degradar-se nos call centers, mas a ACT ( Autoridade para as Condições de Trabalho) parece que está apenas preocupada em saber se os trabalhadores e as empresas respeitam a proibição de fumar.
Quando os operadores começam a trocar a Índia, Cabo Verde e outros países africanos por Portugal, para instalarem os
call centers a nível mundial, pelas vantagens que Portugal oferece, fica muito claro o que esta escumalha pretende fazer deste país:
um paraíso para o trabalho escravo.
É certo que nos call centers não poderão coser a boca a quem lá trabalha, como eu vi numa multinacional do vestuário na Índia; talvez os capatazes destas galés da modernidade laboral não possam ( por enquanto!)agredir os trabalhadores, como vi noutra multinacional do vestuário na China; admito mesmo que os trabalhadores dos call centers não sejam mantidos como reféns dentro das instalações da empresa, como vi em Guam; nem sejam transportados em voos clandestinos entre a China e aquela base militar americana no Pacífico.
Seria no entanto aconselhável que a ACT olhasse para as condições de trabalho nos call centers e agisse em conformidade, antes de Portugal se transformar no paraíso europeu da escravatura.
Para nos infernizar a vida, já chega o cheiro a caganitas de coelho que empesta o ar, misturado com os perfumes de contrafacção da Marilú.