terça-feira, 19 de fevereiro de 2008

E de repente,na manhã ...

O repórter da RTP está em Setúbal, à fala com algumas vítimas das inundações. O coro de lamentos sucede-se. "Fiquei sem nada; foi tudo destruído;como vai ser agora a minha vida?". Vemos as imagens, partilhamos a dor das vítimas e de repente, perante a pergunta do repórter "Isto foi uma desgraça, não foi?", um homem com a casa ( ou o estabelecimento, não cheguei a perceber...) inundada, limpa a testa do suor e responde:

"Desgraça? Não, foi só uma cheia! Desgraça foi em Moçambique!"

Ouço isto pela manhã e sinto-me rejuvenescer. Ainda há, em Portugal, gente que responde ao infortúnio com uma palavra solidária. Hoje já ganhei o dia!

Conversas com o Papalagui (20)

- O Bush disse que estava muito satisfeito com a renúncia de Fidel Castro e espera que Deus abençoe o povo cubano, permitindo a realização de eleições democráticas.
-Pois, ele sabe do que fala... se nas eleições de 2000 nos EEUU tivessem sido respeitados os resultados, nunca chegaria a Presidente...

Aos "doutorados" em cubanês

O que eu tenho a dizer aos “doutorados” em sociologia e política cubana, é apenas isto:
Madrugada de um dia qualquer . Como acontece todas as semanas, ao alvorecer de um dia qualquer, centenas de portugueses aterram na Portela, provenientes de Cuba.
A maioria não vai a Cuba passar férias só porque é barato. Vai para poder dizer mal de Cuba e de Fidel quando regressa. A maioria passa cinco dias numa estância balnear - em estabelecimentos tão atípicos e assépticos como os de outra estância balnear qualquer - e um dia em Havana, mas quando chega a Portugal já se sente um especialista habilitado a falar sobre os horrores de Cuba, a miséria do seu povo e as atrocidades de Fidel Castro. Quando lhes perguntamos se sabem como era a Cuba antes de Fidel, sob a ditadura de Fulgêncio Baptista, alguns respondem com um encolher de ombros e outros mais “letrados” olham-nos com um ar de desprezo e atiram:
-Quero lá saber o que se passou em Cuba no século XVIII?
Quem esteve mais do que um dia em Havana- com pouco mais tempo do que para trazer de recordação um exemplar do “Gramma”- e num arrojo destemido deu um salto a Cienfuegos - sente-se já detentor de um Mestrado em História e Sociologia Cubana. Esquece-se que Cuba vive um embargo selvagem imposto pelos americanos há quase meio século, mas tem bem presente na memória o medo que viu estampado em cada rosto e comoveu-se com a miséria , a falta de hamburguers, telemóveis e outras maravilhas da tecnologia que há meia dúzia de anos lhe eram desconhecidas e cuja necessidade nunca reclamaram, até ao momento em que a sociedade de consumo lhos serviu em bandeja de prata, com a mesma volúpia com que Satanás tentou Cristo.
Curiosamente, estes portugueses não se sentem condoídos com os dois milhões de portugueses que vivem no limiar da pobreza. Preferem chamar-lhes malandros e acusarem-nos de não quererem trabalhar. Porque cá- afirmam- ao menos vivemos em liberdade!

Em tempo: recomendo também os artigos de Luís Rainha e Fernanda Câncio no 5dias e subscrevo na íntegra o que a Fernanda diz no final do seu post:
"enganei-me. muito. tenho pena. as agências de viagem não. enquanto for a ditadura romântica das caraíbas, com a sua miséria charmosa e os seus posters de 10 metros com ‘cuba no se alquila ni se vende’ e ‘hasta la victoria siempre’, a sua baixíssima criminalidade e as suas putas de graça, cuba vende mais."

Rochedo das Memórias 11- Há luzes na Cidade, mas a noite em Portugal vai ser longa...

No mesmo ano, um arquitecto desempregado inventa um jogo de sucesso estrondoso: o Scrubble. Os mais conhecedores surpreendiam os seus adversários no jogo com a palavra saca-rolhas (corkscreew), nome do objecto que tornava mais fácil a abertura das garrafas.
Em Nova Iorque,“Luzes na Cidade” com a estreia do filme de Charlot, mas em Portugal, o início da publicação do “Avante!” não contraria o retrocesso do país. Prova disso é o documentário de Manuel OliveiraDouro Faina Fluvial”. Apesar de ser aclamado internacionalmente, só virá a ser exibido em Portugal três anos mais tarde.
No ano em que Franklin D. Roosevelt é eleito presidente dos Estados Unidos ( 1932) , D. Manuel II é sepultado no panteão da Casa de Bragança e Salazar assume o cargo de Presidente do Conselho.
Do outro lado do Atlântico, Bernard Shaw proclamava que era “Certo demais para ser belo” e tinha razão. Portugal ia mergulhar numa noite tenebrosa de 40 anos, polvilhada de pesadelos. Melhor epíteto escolheu Johny Weismüller que se estreava no cinema com o filme “Tarzan, o Homem Macaco”.
No ano em que a Grande Depressão se instala inexoravelmente na Europa(1933), uma canção faz furor. "Brother can you spare a dime" retrata por palavras o cenário que se vive na Europa: actividade económica parada, desemprego, fome, miséria. Em Portugal, dava-se início ao período das eleições mascaradas, com um plebiscito ( em que as abstenções contavam como votos a favor) que aprova a Constituição de 1993.Bem a propósito, estreia o filme dos irmãos Marx, “Os Grandes Aldrabões” , um título que também assenta, como uma luva, ao Secretariado Nacional da Propaganda, criado nesse ano por António Ferro. O terror que se instalava em Portugal fazia jus a “King-Kong”, mas só décadas mais tarde uma cadeira partida cumpriria o mesmo papel da bomba de narcóticos que derrubou o gorila.
Na medicina , destaque para a descoberta da vacina contra a febre amarela e a invenção do pacemaker. Roosevelt lança o New Deal- um programa de emergência que visa o renascimento da América. Os trabalhadores organizam-se em sindicatos, aparece a primeira lgislação laboral, são fixados por lei os salários mínimos e o horário de trabalho, são atribuídos subsídios de desemprego e pensões de reforma e invalidez.. A política social estava em marcha.

Conversas com o Papalagui ( 19)

- Porque é que na secção do Internacional estão a abrir garrafas de champanhe?
- Estão a celebrar a renúncia de Fidel, que era um ditador!
- Já estou a imaginar a festa que vão fazer quando o Bush deixar de ser presidente...
- Não digas disparates, Papalagui! O Bush é o salvador do mundo!
- Porquê? Por ter invadido o Iraque com pretextos mentirosos, por causa de Guantanamo, pela forma como vão ser julgados os acusados do 11 de setembro, ou por ter contribuído para a independência do Kosovo?
- Por tudo isso e porque é um homem bom!
- Não te compreendo, tuga! Ainda há dias dizias o piorio do Bush...
- Pois, mas as pessoas mudam de opinião... não vês ali aquela que foi maoista empedernida, aquele gajo que pertenceu à Associação de Amizade Portugal /Coreia do Norte e o outro ao lado que sempre foi acérrimo defensor do “socialismo albanês”, todos a festejarem a renúncia do Fidel?
- Pois, mas eles mudaram porque são esclarecidos, ou lá como é que tu dizes...
- Pois, tão esclarecidos que até foram grandes defensores de Durão Barroso e do Aznar!
- As coisas que tu sabes, tuga!
- Pois, por isso é que te vou contando, embora duvide que percebas onde eu quero chegar...

Uma frase que explica (quase) tudo...

Durante a entrevista, Sócrates disse mais ou menos isto: “ Uma pessoa que escolhe como profissão ser político...”.
Esta frase é a chave da personalidade de Sócrates e explica a sua actuação à frente do Governo. O nosso PM não está na política como um missionário ( como muitos gostam de afirmar) mas porque escolheu a política como profissão.
Dizia-me há dias um ex-deputado do PS- que atingiu alguma notoriedade até meados da última década:
“ Quando vou ao Rato, já não me sinto na sede do PS, parece que acabei de entrar numa fábrica... agora já ninguém se trata por camarada, mas sim por sr. doutor , ou sr.engº.”
Ora aí é que está o busílis. Sócrates escolheu a “fábrica” do PS para singrar na política, começando como operário ( consta que terá optado inicialmente pelo PPD, mas não terá sido bem aceite...) . Desde então, tornou-se PS, mas não propriamente socialista, ou social democrata. Trabalhou diligentemente para o patrão que lhe deu emprego, aspirando a subir na hierarquia. Como um paquete de um hotel ou o segurança de uma discoteca, que acaba dono do estabelecimento, Sócrates acabou “dono” do PS e impõe a sua lei. O seu objectivo é, como o de qualquer outro empresário, apenas o lucro. Daí que veja o País na mesma perspectiva e dimensão. Como uma fábrica que tem de dar lucro, mesmo que para tal tenha que despedir trabalhadores. Por isso é insensível aos números do desemprego e aos problemas sociais. Olha para a sua “fábrica” com desvelo, considera-se um empresário com visão de futuro, mas não enxerga que o Departamento de Recursos Humanos serve apenas para registar a assiduidade. Sócrates apenas vê no horizonte a necessidade de ganhar quotas de mercado e fazer algumas benfeitorias, para depois trocar a sua “fábrica” por outra com mais projecção internacional.

Entrevista, ou conversa em família?

Goste-se ou não, a verdade é que Sócrates se saiu bem da entrevista de ontem à SIC. Em certos momentos foi ele que conduziu a entrevista para transmitir a mensagem que pretendia fazer passar.
Falou de um país que só existe na sua cabeça e de alguns dos seus seguidores? É verdade!
Jogou com os dados ( como os do desemprego, por exemplo) de forma a tirar conclusões no mínimo falaciosas? Certamente que sim !
Fugiu habilmente a questões incómodas? Claro que sim, mas porque isso lhe foi permitido.
Manifestou o habitual desprezo pelos problemas que afectam os portugueses? Isso já lhe é habitual e não é de estranhar. Sócrates é insensível aos problemas sociais e não vai mudar, porque está convicto de que é a Santíssima Trindade “qualificação, tecnologia, inovação”, que salvará o país.
Sócrates conseguiu, durante 45 minutos, expôr com convicção a política do seu Governo e justificar medidas aparentemente injustificáveis, mostrou estar bem preparado, não vacilou, manteve o controle emocional, evitando a crispação e transmitiu a ideia de que o futuro vai ser o paraíso. Foi um discurso anunciando “amanhãs que cantam”, mas onde não faltou a pontinha de arrogância que o caracteriza e que é do agrado de muitos portugueses. Aquela frase “Há mas são verdes” é reveladora de um estilo pouco ortodoxo, mas que colhe frutos.
O à-vontade com que Sócrates conduziu a conversa e dominou o tempo, deu a sensação de que estava num comício ou em “conversa em família” e não numa entrevista.
Ontem, a SIC ofereceu um bom presente de aniversário ao PM e ao seu Governo. Sócrates deve estar grato.Continua a ignorar o país real e a viver na ficção de “Alice no País das Maravilhas”, mas abriu a campanha eleitoral para 2009. Basta ver como televisão, rádio e imprensa empolaram o “tabu” quanto à sua recandidatura às legislativas de 2009, para se perceber que conseguiu os objectivos. Desviou as atenções da entrevista, para uma questão especulativa de que a comunicação social muito gosta, mas que em nada interessa aos portugueses, que vivem da realidade e não de futurologia.

Comunicado da Central de Informação

“Sua Excelência o Senhor Primeiro Ministro, Engenheiro José Sócrates, concedeu ontem uma entrevista ao canal privado de televisão SIC. Demonstrando um grande à vontade, Sua Excelência respondeu às perguntas dos dois jornalistas com proverbial desenvoltura, aproveitando para esclarecer os portugueses acerca de assuntos que os jornalistas não lhe colocaram.”