Os factos
Dezenas de escolas encerradas. Hospitais a funcionar com os serviços mínimos. Nos transportes, alguns autocarros a circular, mas quase vazios. São apenas alguns exemplos do que vi ontem em Lisboa.
Uma grande manifestação que decorreu de forma ordeira, até ao momento em que alguns desordeiros de encomenda, misturados entre os manifestantes, ultrapassaram os limites. Foi aí que me assustei. A reacção da polícia foi manifestamente desajustada em relação ao que se estava a passar e fiquei convencido que a polícia está manifestamente impreparada para lidar com situações mais violentas.
Fiquei petrificado quando ouvi Garcia Pereira afirmar ( garantindo que havia pessoas - incluindo jornalistas- que o poderiam testemunhar) que polícias à paisana desceram disfarçadamente a Av D. Carlos perseguindo manifestantes para depois os deterem. A ser verdade, a sensação que tive, em frente à AR de que estava a viver momentos que já não presenciava desde o tempo do salazarismo, ganha ainda cores mais negras. Vêm aí dias difíceis…
Os números
Só por má fé , cegueira, ou desfazamento total da realidade, se pode dizer que a Greve Geral não teve uma grande adesão. Ganha por isso foros de ridículo, ver o governo anunciar que a percentagem de grevistas foi de 3,6% ( corrigido às 18 horas para pouco mais de 10%).
Nada pior do que um governo autista, que nos quer fazer passar a todos por estúpidos. Mas ver o inefável Relvas na RTP, debitando uma cassette gasta e fugindo das perguntas que lhe foram colocadas por JRS, como diabo da cruz, demonstra que o governo se assustou com a adesão.
Continuará – não tenho dúvidas- a ser autista e a prosseguir uma política suicidária que conduzirá o país ao abismo. Continuará a acusar os sindicatos de irresponsabilidade, porque nenhuma daquelas cabecinhas percebeu que enquanto as manifs forem controladas pelos sindicatos, não haverá tumultos. (Salvo, claro está, se eles forem provocados por agentes infiltrados nas manifs com esse propósito já que só o governo tiraria dividendos, neste momento, se houvesse distúrbios.)
Indiferente aos protestos e às próprias agências de rating que, em dia de greve geral reconhecem a sua descrença quanto à eficácia das medidas que estão a ser adoptadas e, sem complacências, nos atiram inapelavelmente para o caixote do lixo, persiste teimosamente no erro.
Talvez a expressão assustada de Relvas tivesse também a ver com isso. Quando uma agência de rating chinesa prevê que a recessão em 2012 atinja os 3,5%, está-se a aproximar das perspectivas do governo que, prosseguindo a sua política de dar as más notícias às pinguinhas, se recusa a admiti-lo, colocando – por agora- a recessão nos 3% por uma questão estratégica. ( Lembre-se que apenas há um mês o governo garantia que a recessão em 2012 seria de 1,8%)
Lá para Junho virá admitir que as coisas não correram bem, a recessão se aproxima dos 4% e será necessário tomar medidas adicionais. Sem dar garantias aos portugueses de que sairemos da recessão com as medidas de austeridade que então serão anunciadas, Vítor Gaspar continuará a dizer que não há alternativa. Lá para final do ano, se as coisa não melhorarem Cavaco dirá basta e cumprirá finalmente o seu sonho: ser presidente de um governo de sua iniciativa, liderado por um PM da sua confiança, que cumprirá as suas directivas.
Não estou certo que os portugueses recebam com alívio essa decisão. O mais provável é que a luta endureça e comecemos a viver, em Portugal, aquilo que temos visto na Grécia através da televisão. Dentro de um ano saberemos.