
A sociedade de consumo não se faz só do prazer de consumir. Faz-se, também, de horrores que nos atormentam desde o século passado. Foram as guerras, a bomba atómica e a ameaça nuclear. Foram epidemias como a pneumónica, a tuberculose, e mais recentemente a Sida. E agora são as angústias com o endividameno que se pode ou não deve comer, com a doença das vacas loucas, as dioxinas nas aves, as dúvidas sobre o excesso de metais pesados no peixe ou os alimentos transgénicos. São os temores provocados pelo crescimento demográfico e as ameaças de fome. São as preocupações com o ambiente, o trabalho infantil e as novas formas de escravatura adoptadas pelas multinacionais, como forma de garantir produção a custos reduzido. São as secas e as cheias, a ameaça de desertificação e as marés negras que ficam por explicar convenientemente. É a pedofilia, a escravatura, o tráfico e o turismo sexual. São os meninos soldados a morrer, e os meninos roubados à escola para trabalhar em grandes multinacionais, contribuindo, em troca de salários de miséria, para encher as montras de produtos que ajudam a construir as nossas vaidades, ou a satisfazer os nossos prazeres.
Perceber isto demorou algum tempo. Só quando alguns países do Terceiro Mundo começaram a colocar questões sobre o valor das pessoas na sociedade de consumo e a alertar para o facto de não ser possível aos consumidors exercer o tão proclamado direito à escolha, (que as associações americanas, consubstanciavam na realização de testes comparativos) quando vivem em países onde nem sequer as necessidades básicas da maioria da população estão satisfeitas, é que o movimento dos consumidores começa a pensar à escala global e a colocar outro tipo de questões. Estávamos no final da década de 70 e Anwar Fazal- Presidente da IOCU ( Organização Internacional das Associações de Consumidores, actualmente CI) - afirmava:
"O acto de compra é um voto num determinado modelo económico e social, num modo particular de produção de bens. Preocupamo-nos com a qualidade dos bens e com a satisfação que dels extraimos. Contudo, não podemos ignorar as condições em que os produtos são feitos- o impacto ambiental e as condições de trabalho."

É nessa altura que, no seio do movimento de consumidores, se começa a olhar para o mercado como um esbanjador, capaz de criar desigualdades profundas e delapidar os recursos do planeta.Os movimentos ambientalistas estavam então em grande expansão, tendo contribuído, de forma significativa, para que o movimento consumerista se tornasse menos influenciado pela vertente material do consumo e passasse a dar mais importância às implicações de um modelo económico depradador.
Que dizer de um mundo onde morrem diariamente 50 mil pessoas por falta de água potável e cuidados de higiene, ou um quarto da população está impossibilitada de satisfazer as suas necessidades básicas, enquanto se gasta um milhão de dólares por dia em armamento?
Como se pode admitir que sejam exportados para países do Terceiro Mundo pesticidas e medicamentos que foram proibidos nos países de origem?
Que benefícios resultam para o consumidor, da existência de 30 marcas de detergentes, uma centena de cosméticos, 50 variedades de colas ou 75 marcas de sabonetes?
Porque razão se hão-de produzir dezenas de medicamentos com o mesmo efeito terapêutico? Que custos tem para o ambiente o fabrico de determinados produtos? É lícito que as multinacionais estejam a enriquecer à custa do trabalho infantil e do trabalho escravo?
E que dizer de um mercado que, em vez de funcionar a favor do ser humano, satisfazendo-lhe as necessidades básicas, se serve da sua máquina geradora de ilusões para incitar ao endividamento, de que resultou uma crise económica e financeira que está a deixar milhões de pessoas à míngua?
O desemprego aumentou de forma assustadora nos primeiros anos da década de 90, o poder de compra desceu de forma drástica. Enquanto a fome e a pobreza alastram (um terço da população mundial vive com um dólar por dia) morre de fome uma criança em cada oito segundos, e 80 países (em África, na Ásia e na América Latina) não têm dinheiro para comprar alimentos que supram as carências alimentares das suas populações, há um pequeno número de nababos que controlam o mundo, substituindo-se aos governos democraticamente eleitos. Haverá alguma coisa para comemorar, enquanto a defesa do consumidor não se preocupar com estes problemas?