sábado, 13 de dezembro de 2008

O Rochedo de papel

Desta vez não foi a Cerejinha, nem nenhum leitor anónimo a avisar-me. Fui eu mesmo a descobrir que o Rochedo tinha sido citado mais uma vez no “Público”, a propósito disto.
Obrigado a quem por lá me lê...

A Feira dos Capões


Realiza-se hoje, em Freamunde, a tradicional Feira dos Capões , uma tradição iniciada no século XV que atrai à localidade muitos forasteiros em busca da sua carne suculenta, substituta do ancestral perú, no almoço de Natal em muitos lares portugueses.
Não resisto a recordar um episódio passado em minha casa, ainda era eu criança.
Era habitual, ao domingo, jogar-se canasta lá em casa. Quando o tempo o permitia, a tarde iniciava-se com um “cimbalino”, na Póvoa de Varzim, tomado mais ou menos à pressa, porque cavalheiros e damas ansiavam o momento de regressar ao Portoa para se reunirem à volta da mesa, somando pontos e celebrando “rovers”, cuja receita era consumida em fartos almoços de confraternização. Entre os jogadores, era presença habitual um comerciante de peles que possuía um estabelecimento muito conceituado, onde muitas senhoras da alta roda portuense escaqueiravam anualmente chorudas maquias na compra de “visons”, casacos e outras iguarias da indumentária feminina.
Numa dessas tardes, o meu pai anunciou que, realizando-se na semana seguinte a Feira dos Capões, iria a Freamunde para comprar dois exemplares daquele precioso animal, que nos iriam animar o almoço do dia 25. Alguns dos convivas dispuseram-se de imediato a acompanhá-lo. O referido comerciante, não podendo fechar o estabelecimento, alvitrou à neófita esposa, uma senhora alemã, que nesse ano o perú fosse substituído pela carne do capão, a cuja excelência e predicados teceu exaltadas loas. A princípio renitente, a senhora acabou por sucumbir ao discurso laudatório do marido e restantes comparsas. Feitas as contas aos comensais que iria receber no dia de Natal, perguntou ao marido se dois exemplares seriam suficientes. Tendo recebido um aceno afirmativo do consorte, no momento em que este acabava de completar uma “canasta” que iria fechar um “rover” a seu favor, a senhora voltou-se para o meu pai e disse:
- Então, se não for maçada, agradecia que me trouxesse um casal!
O meu pai ainda conteve o riso, mas a restante audiência rebentou numa sonora gargalhada. Eu, que à época só tinha o estatuto de assistente, por ser demasiado jovem para aquelas lides, também me fartei de rir. Uma gargalhada mimética, fruto de contágio, porque na realidade não sabia que a deliciosa carne que comia no dia de Natal era proveniente de galos capados, a quem estava vedado o galanteio das apetitosas galinhas que, inexoravelmente, acabavam no tacho em deliciosa canja.