sexta-feira, 20 de junho de 2008

No aconchego das palavras





Hoje fugiram-me as palavras. Diante do teclado só via letras que não consegui articular.Como se de repente tivesse desaprendido de falar.
Perguntei pelas palavras a um dicionário, que me disse que tinham fugido porque se sentiam traídas.
Traídas? Mas por quem?- perguntei.
Pelos homens, como tu, que as usam sem lhes dar o merecido valor .
Mas as palavras têm valor?- perguntou ao meu lado a tabuada.
Ignorante!- retorqui com o apoio do dicionário.
Ignorante, eu?

Ignorante e inútil- acrescentei.
Inútil? Essa é boa! Que seria de ti sem mim? Sou eu, com os meus números, quem te paga o ordenado ao fim do mês, quem te ajuda a fazer os orçamentos que cobras nos artigos que escreves. Sem mim, serias nada.
Existiria melhor sem os sacripantas dos teus números. Tolhem-me os movimentos, condicionam as minhas escolhas e obrigam-me a viver a vida num trapézio de orçamentos.
E que farias tu sem um livro de cheques?- perguntou o dicionário
Livro de cheques? A maioria deles são carecas. Já não se usam. Eu sou toda novas tecnologias. Internet nas Finanças, nas compras por correspondência, nas viagens, no pagamento do seguro do carro... Aliei-me às imagens e reduzi os catálogos da La Redoute a peças de museu. Já não preciso das palavras, só de gestos. E tu dicionário , também serás em breve peça de museu, substituido que será pela linguagem SMS, as palavras do futuro.
As palavras não caíram em desuso. É através delas que exprimo os sentimentos- repliquei indignado.
Sentimentos? Ainda tens disso? Provavelmente estás fora de moda. O sentimento dos homens hoje em dia reduz-se a uma conta bancária e um cartão de crédito. São números, meu velho amigo. Olha para o Sócrates. Ele é que é futuro. Novas tecnologias, dinheiro, lucros, essa é a linguagem que resta. É a linguagem dos números.
Não é verdade- interrompeu o dicionário vendo-me em apuros. Se reduzires os homens a números é o fim da Humanidade.
Então, prepara-te para o fim- retorquiu a tabuada com um sorriso cínico.
Fiquei a vê-la a esgueirar-se entre duas caixas multibanco, sedutora, no seu vestido provocante, despertando a cobiça dos homens.
.....
Pedi ao dicionário que trouxesse as palavras de volta. Obrigou-me a prometer que, daqui em diante, as trataria bem. Que não as utilizaria para agredir nem insultar de forma gratuita.
As letras são sensíveis, sabias? – perguntou o dicionário. Quando as juntamos em palavras de que elas não gostam, ficam ofendidas. Precisam de carinho, como qualquer ser humano...
Compreendi a mensagem. Fui até ao meu Rochedo e aguardei o seu regresso.

Ao fim de algum tempo, uma nuvem encobriu o sol durante alguns segundos. Olhei na sua direcção e comecei a ver as palavras desprenderem-se em direcção a mim. À frente, vinha o A .
Aconcheguei as letras no Rochedo e com elas formei as palavras
ALEGRIA,AMIZADE e AMOR. Voltei a sentir-me feliz...
Estávamos há uns minutos em silêncio, brincando com o horizonte, quando a RAIVA perguntou:
Prometes que não me voltas a usar no teu blog?
E foi assim que tomei a decisão. O Rochedo voltará a ser como prometi no primeiro post.
( aqui)

Rochedo das Memórias Especial - Lembram-se como foi?



Portugal foi eliminado pela Alemanha. Paciência. Lembram-se como foi em 2004? Afinal, a única diferença é que as ilusões acabaram mais cedo...

Segunda-feira, 14 de Junho: Isto é um pagode?
O país foi assolado por um tufão durante o fim de semana! Portugal foi derrotado pela Grécia e de outras derrotas inesperadas se falou. Regresso ao trabalho, já sem os efeitos do jet lag. Continuo estupefacto com as bandeirinhas nas janelas e nos automóveis. Ao sair do metro uma ucraniana propõe-me a compra de uma. Reparo que há algo de estranho na bandeira: os castelos foram substituídos por pagodes! Venho depois a saber que as bandeiras foram mandadas fazer na China, sob os bons auspícios da Fundação Luís Figo. Pedro Abrunhosa canta em surdina aos meus ouvidos “ Não posso mais”!
Escrevo uma carta à CML reclamando do taxista que me quis vigarizar .

Segunda –feira 21 de Junho: Perdoa-me!
Portugal ganhou na véspera à Espanha, garantiu a passagem aos quartos de final e o País entrou em euforia. Os portugueses continuam a esgrimir e a beijar bandeiras com pagodes. Há algo de afronta e mesmo de pagão nesta idolatria por uma bandeira de contrafacção, ou é “chinesice” minha? O taxista roubou na bandeirada? A padeira enganou no pão? O sr Viegas roubou no peso do fiambre? Scolari ensaiou um número de circo com a história de Aljubarrota? Que importa, se ganhámos à Espanha ? A SIC noticia a reposição de “ Perdoa-me”! O País aplaude de pé.
Quinta-feira 30 de Junho: Crónica do Rei Pasmado
O sonho tornou-se realidade, comentam dois jovens sentados à minha frente no banco do metro. Terão finalmente decidido casar, ou algum deles ganhou o totoloto? Nada disso...Portugal está na final! Para demonstrar a sua euforia, o povo dá à bandeira os mais variados usos: chapéu, saia, top, boné, soutien tudo aquilo que a imaginação permita. Em Alcochete abriu o maior “outlet” da Europa sem ter licença? Que importa? Não é lá que está a estagiar a selecção? Lembro-me dos resultados das audiometrias. Como é possível que tenham sido menos de 5 milhões os portugueses a assistir ao Portugal- Inglaterra? E há também um site do Governo, dizendo que “ aborto é solução para gravidez precoce”. É a vez de Pinóquio atacar no mundo da sociedade de consumo com “Ensaio sobre a Lucidez” Mas há quem prefira não esquecer Jorge Andrade, que mandou Ricardo ir a Fátima sozinho, no caso de Portugal ser campeão. Teve o merecido castigo no jogo contra a Holanda: fez um auto-golo.

Segunda feira, 5 de Julho :regresso à normalidade
O País está de ressaca. Sabemos agora que de nada valeu apelarmos a todas as superstições e crenças. O ex-primeiro -ministro levou a “gravata da sorte”; Madail fez a vontade a Scolari e não foi visto no Estádio da Luz; no balneário acenderam-se velas e rezaram-se preces a Nossa Senhora de Caravaggio e a Nossa Senhora de Fátima. Cada português procurou um sinal de sorte e procurou pautar o seu comportamento, de modo a evitar o “mau olhado”. Em vão. Repetiu-se a “tragédia grega” do jogo inaugural e o troféu fugiu-nos das mãos. (Terá sido culpa do Jorge Andrade?). Contiveram-se as vozes dos que proclamavam Velas 1- Alhos 0, numa clara demonstração de que rejeitavam a táctica de António Oliveira no Mundial Coreia/ Japão.
Muitos portugueses continuarão a pensar que só Nossa Senhora dos Milagres poderá fazer alguma coisa para que comportamentos como o do taxista 2806 sejam definitivamente erradicados e os direitos dos consumidores respeitados. Algumas bandeiras com pagodes continuam hasteadas em janelas, mas já não vejo corpos femininos envoltos nas cores lusas. Chamo um taxi para me levar ao aeroporto. No caminho, vou lendo a notícia de que a Inspecção Geral das Actividades Económicas ( ainda não havia ASAE) apreendeu milhares de artigos de contrafacção, que alguns taxistas foram presos por vigarizarem turistas, que Portugal não cumpre a liberalização energética, que pagamos a electricidade mais cara da Europa, que os fogos florestais voltaram a matar. Lembro-me da carta que enviei à CML reclamando do 2806. No regresso, talvez já tenha resposta. Chego ao aeroporto, pago a corrida. Tudo certinho, sem vigarices. A vida regressou à normalidade. No avião, a passageira do lado lê David Lodge :“Um almoço nunca é de graça”.
Este ano ( 2008) a euforia cabou mais cedo. Foi como regressar a 1996, quando fomos eliminados nos "quartos" pela República Checa.
Moral da História: Scolari fez-nos regressar à casa de partida.