Hoje fugiram-me as palavras. Diante do teclado só via letras que não consegui articular.Como se de repente tivesse desaprendido de falar.
Perguntei pelas palavras a um dicionário, que me disse que tinham fugido porque se sentiam traídas.
Traídas? Mas por quem?- perguntei.
Pelos homens, como tu, que as usam sem lhes dar o merecido valor .
Mas as palavras têm valor?- perguntou ao meu lado a tabuada.
Ignorante!- retorqui com o apoio do dicionário.
Ignorante, eu?
Ignorante e inútil- acrescentei.
Inútil? Essa é boa! Que seria de ti sem mim? Sou eu, com os meus números, quem te paga o ordenado ao fim do mês, quem te ajuda a fazer os orçamentos que cobras nos artigos que escreves. Sem mim, serias nada.
Existiria melhor sem os sacripantas dos teus números. Tolhem-me os movimentos, condicionam as minhas escolhas e obrigam-me a viver a vida num trapézio de orçamentos.
E que farias tu sem um livro de cheques?- perguntou o dicionário
Livro de cheques? A maioria deles são carecas. Já não se usam. Eu sou toda novas tecnologias. Internet nas Finanças, nas compras por correspondência, nas viagens, no pagamento do seguro do carro... Aliei-me às imagens e reduzi os catálogos da La Redoute a peças de museu. Já não preciso das palavras, só de gestos. E tu dicionário , também serás em breve peça de museu, substituido que será pela linguagem SMS, as palavras do futuro.
As palavras não caíram em desuso. É através delas que exprimo os sentimentos- repliquei indignado.
Sentimentos? Ainda tens disso? Provavelmente estás fora de moda. O sentimento dos homens hoje em dia reduz-se a uma conta bancária e um cartão de crédito. São números, meu velho amigo. Olha para o Sócrates. Ele é que é futuro. Novas tecnologias, dinheiro, lucros, essa é a linguagem que resta. É a linguagem dos números.
Não é verdade- interrompeu o dicionário vendo-me em apuros. Se reduzires os homens a números é o fim da Humanidade.
Então, prepara-te para o fim- retorquiu a tabuada com um sorriso cínico.
Fiquei a vê-la a esgueirar-se entre duas caixas multibanco, sedutora, no seu vestido provocante, despertando a cobiça dos homens.
.....
Pedi ao dicionário que trouxesse as palavras de volta. Obrigou-me a prometer que, daqui em diante, as trataria bem. Que não as utilizaria para agredir nem insultar de forma gratuita.
As letras são sensíveis, sabias? – perguntou o dicionário. Quando as juntamos em palavras de que elas não gostam, ficam ofendidas. Precisam de carinho, como qualquer ser humano...
Compreendi a mensagem. Fui até ao meu Rochedo e aguardei o seu regresso.
Ao fim de algum tempo, uma nuvem encobriu o sol durante alguns segundos. Olhei na sua direcção e comecei a ver as palavras desprenderem-se em direcção a mim. À frente, vinha o A .
Aconcheguei as letras no Rochedo e com elas formei as palavras ALEGRIA,AMIZADE e AMOR. Voltei a sentir-me feliz...
Estávamos há uns minutos em silêncio, brincando com o horizonte, quando a RAIVA perguntou:
Prometes que não me voltas a usar no teu blog?
E foi assim que tomei a decisão. O Rochedo voltará a ser como prometi no primeiro post. ( aqui)
Aconcheguei as letras no Rochedo e com elas formei as palavras ALEGRIA,AMIZADE e AMOR. Voltei a sentir-me feliz...
Estávamos há uns minutos em silêncio, brincando com o horizonte, quando a RAIVA perguntou:
Prometes que não me voltas a usar no teu blog?
E foi assim que tomei a decisão. O Rochedo voltará a ser como prometi no primeiro post. ( aqui)
