Considerada por muitos como uma das Belas Artes, a moda constitui, hoje em dia, fonte inesgotável de receitas para uma vasta panóplia de indústrias e de profissionais que gravitam nas suas zonas de influência. Tal como na história da galinha e do ovo, talvez valha a pena perguntar o que nasceu primeiro: a moda, ou o vestuário?Afirma Gilles Lipovetsky que a moda não faz furor no mundo intelectual. Afirmação no mínimo controversa, quando constatamos que inúmeros escritores e estudiosos se têm debruçado pormenorizadamente sobre o assunto ao longo dos tempos. De Barthes a Levi Strauss, de Alberoni a Baudillard, passando por Umberto Eco e pelo próprio Lipovetsky, para só citar alguns, muitos têm sido os intelectuais a debruçar-se sobre a moda.Estilistas e modelos convergem na opinião de que só os pseudo intelectuais criticam a moda, mas poucos serão os que neguem que a moda é sinónimo de controvérsia. Não só quanto à sua origem ,como quanto à sua essência e objectivos, sendo difícil compreender o problema se não fizermos a sua abordagem histórica.
Do pudor à queda da máscara
Na escola, ensinaram-nos que o aparecimento do vestuário, - subjacente ao aparecimento da moda- estava vinculado a três razões fundamentais: protecção do frio, pudor e adorno.No concernente à primeira razão invocada, não se pode deixar de levantar uma questão. Como explicar que os índios da Patagónia ou dos Andes, continuem ainda hoje a sentir a neve derreter na sua pele nua, sem terem necessidade de vestir-se?

A teoria que defende a moda como tendo origem no adorno, parece ganhar cada vez mais adeptos, com base nos estudos feitos aos costumes das tribos da Papuásia e da América Latina que, embora continuando a não usar vestuário, dão grande importância à imagem corporal, colocando objectos de adorno nas orelhas, no nariz, nos lábios ou mesmo, como acontece em algumas tribos da Papua, manufacturando artefactos, para colocarem no pénis, das mais variegadas cores e recorrendo a pinturas muito elaboradas que, ao contrário do que um visitante mais incauto possa pensar, não são objectos de protecção, mas sim de exibição sexual. Para os defensores desta teoria, o vestuário e a moda que lhe está subjacente, desenvolveram-se para acentuar o encanto sexual, chamar a atenção para determinadas partes do corpo, despertando a libido e o erotismo.
Como diz Fernando Dogana, o vestuário torna-se um prolongamento do corpo, a moda explora os símbolos da feminilidade e da virilidade.
Na verdade, também o homem exprime, através da sua forma de vestir, a sua virilidade. Já no século XVIII, a gola alta e rígida tinha essa função e, até tempos não muito recuados, a gravata exercia função similar.
O progressivo desnudamento da mulher e o aligeirar da moda masculina representa para Fernando Dogana a queda da ”máscara” que ambos estão cansados de usar na sua vida de trabalho, fazendo assim o mesmo que os guerreiros faziam no final dos combates: livrarem-se dela com alívio.
( Continua)
