sexta-feira, 16 de janeiro de 2009

Rochedo das Memórias (88)- As feridas da Guerra(1919)

Os alemães assinam o Tratado de Versailles, pondo oficialmente termo à I Guerra Mundial. Nasce a Sociedade das Nações, mas os Estados Unidos ficam de fora, porque se recusaram a assinar o Tratado. Começa a perceber-se que os Estados Unidos não vão fazer a vida fácil ao mundo durante o século XX, mas não nos adiantemos…
Na Europa, desmoronamento dos estados austro-húngaro e do Império Otomano deu lugar a uma série de pequenos Estados, com fronteiras ainda mal definidas.
É também neste ano que o Sinn Fein proclama a República Independente da Irlanda. Vai haver muita bordoada na ilha, mas não só…porque em Itália Mussolini funda a Liga Fascista, carimbando o prenúncio de tempos de barbárie.
O Exército Vermelho sai vitorioso, a Rússia invade a Ucrânia e Lenine acredita – depois da vitória da Revolução em 1917- que o exemplo pode alastrar a todo o mundo alcançando o triunfo do Movimento Operário. Nesse sentido convocou para Moscovo o Congresso da Internacional Comunista, base de sustentação para a vitória. Desiludido com o fracasso, acusará os partidos socialistas e sociais democratas de terem traído a revolução.
De outras traições foi vítima, este ano, Rosa Luxemburgo. O cadáver da “socialista exemplar” do início do século é encontrado num canal de Berlim. Mas não morreu afogada… fora antes fuzilada pelas tropas alemãs.
Poucos meses antes ( Janeiro) abortara a tentativa de instaurar a democracia na Alemanha. Apesar de os alemães terem votado massivamente pela democracia, a Assembleia Constituinte resultante das eleições não conseguiu reunir em Berlim… por oposição do Presidente americano Wilson que, pouco antes, invadira a Costa Rica!


Tudo isto tem uma explicação simples… Quando estava prestes a perder a guerra, a direita alemã, no poder, “entregou” o governo a socialistas e sociais democratas, mas a assinatura do Tratado de Versailles, que a direita criticou, impôs medidas draconianas à Alemanha. O desentendimento entre socialistas e sociais democratas levou ao fracasso e a uma crise sem precedentes, de que a direita se aproveitaria. Alheios ao fracasso da democracia alemã, não foram também os movimentos separatistas da Baviera e da Renânia, que aproveitavam a crise alemã para relembrar os tempos do império perdido e abrir caminho a Hitler.
O ano fica, no entanto, marcado por um surto de greves em toda a Europa. O movimento sindical cresce, ganha força e alcança algumas conquistas para os trabalhadores, como a jornada de trabalho de 8 horas ( Cerca de um século mais tarde, Sarkozy imporá em França a semana de 65 horas, sendo seguido por outros países europeus…Alguém por aí falou de progresso social?).
Os sindicatos conhecem outras vitórias importantíssimas, durante os anos 20, como o direito de voto universal, o direito de reunião e a criação obrigatória do fundo de desemprego, mas a sua força não se prolongará durante muito tempo. A grave crise económica lança milhares de trabalhadores para o desemprego e os salários reais descem assustadoramente. À guisa de exemplo, refira-se que na Alemanha os salários representavam, em 1919, apenas 70 por cento do valor dos salários em 1913. A direita europeia estava nas suas sete quintas.

Mas nem tudo eram más notícias. Volta a ser possível viajar no o Expresso do Oriente, de Paris a Istambul e o arquitecto Walter Gropius funda a Bauhaus que irá marcar e influenciar a as artes europeias durante décadas.
Data deste ano, também, a criação da United Artists, por iniciativa de alguns dos maiores nomes da 7ª Arte, onde despontam Charles Chaplin e Mary Pickford.

Erik Sati compõe Sócrates, um drama sinfónico que haveria de chegar a Portugal, em versão estereofónica. E continuava, claro, a loucura das velocidades, porque ainda não se tinham esgotado os ecos do Manifesto Futurista. Entre os records estabelecidos neste ano, destaque para o de Erma Murray, nos 100 m bruços, com 1m 33s e 2 décimos.



Em Portugal os governos sucedem-se a um ritmo alucinante e o ano ficará assinalado por diversos movimentos revolucionários. O mais importante terá sido a derrota da monarquia do Norte. Nos anos 80, porém, vai surgir um novo rei no Norte, que abrasará o país. Chama-se Pinto da Costa e conseguirá inúmeras vitórias para os azuis e brancos, destronando os Vermelhos que se tinham sentado na cadeira do poder, com o beneplácito do Estado Novo.
Ainda durante este ano foram construídos os bairros sociais do Arco do Cego ( Lisboa) e Sidónio Pais ( Porto).



Cenas de Táxis (6)


Passava pouco da uma da manhã quando apanhei o táxi. O taxista reconheceu-me, porque em muitas noites de quinta-feira me tem conduzido naquele percurso entre a Lapa e o Lumiar. Mal entrei, perguntou-me logo: “para o sítio do costume?”
Ainda me estava a acomodar no banco de trás, já ele dizia: “Aquilo é que foi um desastre!”.
Qual desastre?
Não me diga que ainda não sabe do avião.
Qual avião?
O que caiu em Nova Iorque
Não, não sabia… quando foi isso?
Olhe, foi quando ia jantar… ouvi aqui na rádio.
Morreu muita gente?
Morreram todos afogados no mar. Eram 146
No mar?
Foi o que eles aqui disseram, senhor. Só se os seus colegas se enganaram.
Não me apeteceu dar-lhe explicações. Limitei-me a manifestar a minha consternação e a dizer que em desastres aéreos, normalmente não há sobreviventes.
Quando cheguei a casa, fiquei a saber que, felizmente ninguém morrera. E percebi, também, por que razão , muitas vezes, os jornalistas são considerados mentirosos.
Na próxima vez que me trouxer a casa, vai ter de me ouvir!...