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quarta-feira, 25 de abril de 2018

Come on. Let's swing again! ( uma história de Abril)




Aviso: Esta é uma crónica de costumes e não é ficção. O narrador é o único intérprete desta história, cujo nome não foi alterado.

Carlos  Alberto e  Manuela foram meus colegas de trabalho há muitas décadas. Eram ambos fervorosos sportinguistas e estavam casados, respectivamente, com Aurora e Bernardo, fervorosos benfiquistas.
Naquele tempo o futebol ainda era um traço de união pelo que, apesar de ser portista, fui muitas vezes com os dois casais ver jogos a Alvalade, à Luz ou às Antas em sã convivência.
Sempre separei a minha vida privada do convívio com colegas de trabalho, mas aqueles dois casais convidavam-me quase todos os fins de semana para emparceirar com eles, um outro casal e umas amigas  solteiras como eu.
Durante cerca de dois anos fomos algumas vezes juntos  a discotecas, passar fins de semana à Ericeira e Praia Grande e a almoçaradas/jantaradas em grupo.
Depois iniciei a minha vida de andarilho e os nossos encontros acabaram aí. Uma vez vim de férias a  Portugal e telefonei ao Carlos Alberto para o desafiar a tomar um copo.
Combinámos encontro no Metro e Meio. Disse-me que iriam os quatro e depois rumariam ao Charlie Brown.
Quando cheguei, já lá estavam Carlos Alberto e Manuela. Não estranhei o "descaso", pois era já bastante normal quando convivia com eles.  Não esperava era pelo que vinha a seguir. Calos Alberto e Manuela comunicaram-me que  viviam juntos e Aurora e Bernardo tinham mesmo casado.
Fingi-me muito surpreendido com esta "troca" de casais, mas na verdade não estava. Tinha-me apercebido desde sempre que as cumplicidades entre aqueles dois casais  emparceiravam melhor fora do contexto das certidões de casamento. Se alguma surpresa tive, foi pelo facto de os quatro continuarem a dar-se muito bem e a conviver sem complexos, como quando formavam os  casais Carlos / Aurora e Manuela/Bernardo.
Continuavam a ir ao futebol  e a passar fins de semana juntos.
Os anos passaram, ainda me encontrei com eles algumas vezes quando vinha a Portugal, mas cada vez mais espaçadamente.
Quis o acaso que, pouco depois de me ter sido diagnosticado o cancro, encontrasse Manuela no Curry Cabral. Eu estava em vésperas de ser operado, ela a acompanhar a Mãe a quem fora diagnosticado um cancro no fígado.
Prometi dizer quando seria operado, mas não cumpri. A verdade é que durante meses, após a operação, não queria ver ninguém e, muito menos, quem me recordasse um tempo em que era jovem e feliz.
Um dia, próximo do Natal de 2015, Carlos Alberto telefonou-me a perguntar  quando seria operado. Na verdade já fora operado em Outubro, mas disse-lhe que tinha sido apenas nos finais de Novembro, estava em convalescença e pedia desculpa, mas não queria ser visto por ninguém. Assim que estivesse pronto a vê-los telefonaria para que me visitassem, ou nos encontrássemos.
Os meses foram passando, Carlos Alberto e Manuela de vez em quando telefonavam, mas fui arranjando sempre desculpas para não nos encontrarmos.
Naturalmente, os telefonemas foram escasseando, até desaparecerem por completo.
Este ano, dias antes do Carnaval, de partida para Barcelona, telefonei a Carlos Alberto. Depois de muitas desculpas, lá arranjei coragem para sugerir um encontro, logo que regressasse a Lisboa.
Na véspera da deslocação do Porto ao Estoril, a Primavera anunciou-se em jeito de partida carnavalesca atrasada e eu decidi telefonar. Carlos Alberto disse-me que no dia seguinte vinham ver a segunda parte do jogo ( todos a torcer pelo Estoril, obviamente) e propunha um almoço, ou jantar depois do jogo.
Por razões várias optei pelo almoço.  Quando nos sentámos à mesa, a forma com se distribuíram sugeriu-me que ia voltar a ser surpreendido.
Não me enganei.
Semanas mais tarde, em vésperas de Páscoa, Carlos Alberto desafiou-me para almoçar. Apareceu acompanhado de Aurora.  
Agora, que estão os quatro reformados, resolveram voltar aos casais originais. Uma das razões  invocadas, foi a de Manuela e Bernardo quererem sair de Lisboa e viver na quinta da família de Bernardo perto de Lamego. Já Carlos Alberto e Aurora  não suportavam a ideia de abandonar Lisboa, por isso, decidiram que o melhor era retomarem o projecto inicial.
Come on. Let's swing again?

terça-feira, 20 de março de 2018

O Drama, a Tragédia, o Horror!


Manhã de domingo, algures no Ribatejo
Enquanto a câmara nos mostrava umas estradas parcialmente alagadas, a jornalista fugia afogueada da intempérie e lançava perguntas a quem encontrava à mão.
Num notável esforço para dramatizar a situação traçava cenários de grande catástrofe e procurava com denodo sinais de destruição.
Às perguntas sobre as cheias os entrevistados respondiam com um sorriso.
Cheias? Isto são só inundações, menina.  E pequenitas.Todos os anos temos cá disto e bem pior.
Mas a ponte está cortada ao trânsito, como fazem para ir trabalhar?
( Eu que me lembro bem dos idos de 70 , quando  duas vezes por semana atravessava a ponte parcialmente alagada numa Renault 4 por onde entrava água até me ensopar as galochas, não pude deixar de esboçar um sorriso com o horror da repórter, perante uma ponte cortada ao trânsito, mas com as faixas de rodagem parcialmente visíveis e por isso transitável por veículos TT em caso de emergência)
A entrevistada não sorriu por compaixão, mas sempre foi dizendo:
- Temos de ir à volta, menina. Paciência! Já estamos habituados, porque todos os anos acontece o mesmo.
E os prejuízos das cheias para a agricultura?
-Ó menina!- respondeu condescendente o agricultor. Esta água é ouro para os campos. Renova-os e torna-os mais férteis.
A jornalista –repórter, ou vice versa, estava descoroçoada com a indiferença dos ribatejanos a uma tão grande catástrofe.  Para ela aquelas estradas parcialmente alagadas e os terrenos circundantes  submersos eram uma paisagem digna do Inferno de Dante.  Aquele cenário era  o espelho do drama, da tragédia, do horror!
Tive vontade de lhe telefonar e convidá-la para ver as fotografias dos anos 70 que tenho no meu espólio. Especialmente uma, onde o meu  supervisor do PNUD, um belga de provecta idade vai sentado no capô da Renault 4 ( com água até meio das portas) a dar-me orientações para não cair em buracos, nem sair da estrada.
Antigamente é que havia cheias, menina! O que acabou de ver e reportar aos telespectadores com tanta emotividade, foi apenas um  transtorno para os ribatejanos.

quinta-feira, 8 de março de 2018

A Visita

Dedicado a todas as mulheres solitárias deste mundo

A noite caiu há muito, está escuro como breu,  uma chuva miudinha rega  a terra seca  pelo prolongado estio.  Isilda chega à janela, afasta o reposteiro, abre a vidraça para sentir o cheiro da terra húmida,  procura  luzes  acesas em alguma das casas próximas. De Monfortinho a Monsanto toda a gente  já se foi deitar. Como sempre ela é a última, esteve até àquela hora a fazer companhia às personagens da telenovela que todas as noites lhe entram em casa. Com elas bebe chá ou café, no verão um refresco, quase sempre limonada, porque limões é coisa que tem em casa com fartura.

Isilda tem a sensação que as visitas  hoje se foram embora mais cedo. Olha para o relógio a confirmar, está parado nas 11 e 23 desde a morte do tio Marcelino, porque ela nunca mais deu corda àquela geringonça. Dá uma volta pela casa a certificar-se se está tudo bem fechado, um relâmpago ilumina o corredor escuro  e logo de seguida um trovão  ribomba, fazendo estremecer as frágeis paredes da casa.
Isilda tem medo, aconchega melhor o xaile ao corpo e pede protecção a Santa Bárbara.

Santa Bárbara, Bendita
Que no céu está escrita
Com papel e água benta
Para espantar esta tormenta
Espalhe-a lá para bem longe
Onde não haja eira nem beira
Nem raminho de oliveira
Nem raminho de figueira
Nem mulheres com meninos
Nem ovelhas com borreguinhos
Nem vacas com bezerrinhos
Nem pedrinhas de sal
Nem nada que faça mal…
Amen!

Um segundo trovão leva-a de volta à sala. Fica à espera. Passam alguns minutos, mas nada.  Vai para o quarto.Antes de apagar a luz beija o retrato do marido que há 24 anos repousa na cabeceira até que alguém lhe dê outro destino, quando Isilda morrer e com ele se for encontrar. Pelo menos é assim que ela pensa... Não consegue dormir. Volta a acender a luz, pega no livro de orações e finalmente adormece.
(…)
Acorda com o sr. Abílio que lhe traz o pão à porta.Fala-lhe do quarto.
Já tiraste o leite à vaca, Abílio?
Já D. Isilda. Está tudo direitinho. Quer vir ver?
Não, já vou buscar.
 A Júlia vem trazer-lhe o almoço à hora do costume. Hoje tem um petisquinho especial!
Ela que não se atrase, ouviste?
Esteja descansada!
Isilda levanta-se.  Liga o rádio enquanto toma o pequeno almoço. Está um belo dia de sol. Talvez dê uma volta pelo jardim, mas não pode demorar muito, porque- lembra-se- é dia de o filho lhe telefonar da Suíça.
Vai arranjar-se. Já não olha para o espelho, porque não quer ver  as rugas que lhe sulcam o rosto , outrora fascínio de  bela moçoila requestada em todos os bailes de Idanha, pelos rapazes desde Monfortinho a Castelo Branco.  Sai para o jardim. Corre uma aragem húmida e opta por ficar no alpendre enquanto espera a chegada das visitas. A Estrela troca mugidos com o Loiro da D. Ester, namoro antigo, o ti Tono passa com o rebanho e saúda-a com um bom dia, ela volta para dentro, esqueceu-se de pôr as jóias, apressa-se porque as visitas estão a chegar.
Senta-se no sofá em frente ao televisor , a Praça da Alegria já regurgita de gente.
Bom dia sr. Gabriel, Bom dia menina, Sónia. Então de que vamos falar hoje?

Em tempo: Este post foi publicado no crónicas on the rocks em Maio de 2012

A estagiária




Encontrei-a no elevador. Era a nova estagiária. Jovem promissora, afiançaram-me os membros do júri que avaliaram mais de uma centena de candidatos. Cruzara-me com ela uma outra vez, quando ela andava a prestar provas. Reparei no seu ar bamboleante , contrastando com o vestuário super discreto.
 Na  véspera deste segundo encontro, a directora informara-me que no final do mês ela iria transitar para o meu departamento, pois eu era a pessoa indicada para puxar pelas suas potencialidades.
Cumprimentámo-nos circunstancialmente. Eu levava debaixo do braço “Dias Exemplares” do Michael Cunningham.  Mostrando que a diferença de idades para ela não constituía problema,  perguntou com à vontade:
 - Que andas a ler?
Mostrei-lhe o livro.
- Eh! Isso é um livro muito antigo!
Nunca leste o D. Quixote, pois não?
Ela embatucou.
Peguei-lhe no braço e conduzi-a até ao meu gabinete. Estivemos a manhã inteira a falar sobre livros.  Da parte da tarde pedi para falar com a diretora:
- Quem é que contratou esta jovem que não sabe distinguir Nietzsche de Kafka?
A directora baixou os olhos. Depois, a custo, lá me enfrentou e respondeu:
- Foi um erro de casting. Tenho a certeza que você a vai orientar bem e fazer dela uma boa editora. O potencial está lá, só é preciso despoletá-lo.
Tentei. Oh se tentei! Mas de cada vez que tentava meter naquela cabecinha noções sobre as técnicas da edição, recebia apenas como reposta um sorriso idiota e um generoso cruzar de pernas. Fiquei a saber que preferia cuequinhas azuis, mas cheguei a duvidar se ela as usava por saber que eu era adepto portista, ou se o azul, para ela, era uma cor sexy. 
Um dia conseguiu convencer-me a tomar um copo com ela ao fim da tarde. Sem cerimónias, pegou-me na mão e disse:
- Já percebi que te estás a esforçar, mas eu não estou nada interessada na edição. Interessa-me apenas o lugar. O teu lugar. Quando te reformares será meu e não te intrometas.
Antes de me reformar o lugar já era dela.
Ainda bem. É preciso dar lugar aos jovens e, principalmente, muita transparência no recrutamento.
Em tempo: Publiquei este post no "Crónicas on the rocks" em Março de 2014. 

quarta-feira, 14 de fevereiro de 2018

Quando S. Valentim estragou um conto de Fadas

Era uma vez uma jovem que via muitas telenovelas, lia a “Maria” e sonhava casar com um homem rico. Um dia encontrou uma Fada que lhe disse:
- Posso satisfazer-te esse desejo, com uma condição: terás de ir trabalhar  numa casa de alterne.
- Quanto tempo?- perguntou a jovem
- Não muito. O suficiente para eu fazer o meu feitiço.
Ao fim de alguns meses, numa manhã de nevoeiro, a Fada voltou a aparecer e disse-lhe :
- Prepara-te. É hoje que vais encontrar o teu futuro marido.
A jovem passou o dia em sobressalto. Foi ao cabeleireiro, pediu dinheiro emprestado para comprar um vestido novo e à noite sentou-se na sua mesa habitual à espera do homem que lhe iria mudar a vida.
Ao bater das 12 badaladas da meia-noite, viu entrar um homem que conhecia das capas de revista e não teve dúvidas que era aquele o marido que a Fada lhe destinara. Não era bonito, era já um pouco velho, mas a conta bancária colmatava esses pequenos defeitos. Pensou que a  Fada podia ter sido mais generosa,  mas  se era aquele que ela escolhera, devia saber o que estava a fazer.
Confortada com esta ideia, não hesitou. Passados alguns dias estava a viver com o homem que a Fada lhe destinara. Foram muito felizes durante dois anos. Ela começou a aparecer nas capas de revistas, exibindo roupas luxuosas e sorrisos de plástico, evidenciando o desafogo em que vivia. O problema é que o companheiro não queria nada de casamento  e ela começava a desesperar.
Um dia, numa visita a Lisboa, encontrou a Fada no Jamaica e atirou-lhe:
- Enganaste-me, Fada! Afinal ele não quer casar comigo…
- Não tenhas pressa. Ele não te dá tudo o que desejas?
- Sim, mas é velho, um dia bate a bota e eu fico sem nada…
- Eu fiz o que tinha a fazer. Agora é a ti que compete fazer o resto.
A jovem era um bocado lerda, por isso não entendeu as palavras da Fada e decidiu agir de acordo com  a sua ambição. Começou  a roubar o companheiro.
Quando percebeu que estava a ser vigarizado, o candidato a marido decidiu pô-la na rua.
Despeitada, jurou vingança e resolveu escrever um livro contando algumas malandrices do seu companheiro. Como a imaginação era demasiado fértil, carregou nas cores da paleta, inventou umas mentiras que um casal de Lisboa lhe soprou ao ouvido e tornou-se escritora de ficção.
O livro foi um sucesso de vendas e despertou a curiosidade de um realizador de cinema, que pretendeu transformá-lo em filme. A jovem já pensava ser a protagonista, mas teve de contentar-se com o argumento. Para a compensar, o realizador ofereceu-lhe uns fins de semana em Lisboa e disse-lhe que havia uma senhora que estava disposta a ajudá-la, desde que ela contasse umas histórias em Tribunal.
A jovem aceitou de imediato. Dando asas à imaginação inventou umas histórias, garantiu em Tribunal que tinha assistido a umas cenas com fruta que puseram em delírio a imprensa desportiva, o Correio da Manha e os adeptos do Benfica. Passou a ter segurança privada, espatifou um jeep durante a madrugada, em condições que a imprensa escondeu, refugiou-se no Alentejo em casa de um novo namorado, mas acabou outra vez mal, como podem ver aqui e aqui
Mas um azar nunca vem só! Os juízes descobriram que era tudo mentira e decidiram proceder criminalmente contra ela pelo crime de “testemunho falso, agravado”.
Quanto à senhora que a considerava testemunha credível, percebeu o logro em que caiu, assobiou para o ar e começou a dar entrevistas ao Mário Crespo na SIC, para falar de outros assuntos mais mediáticos.
É por estas e por outras que podemos estar descansados com a Justiça em Portugal.
Ao fim e ao cabo, foi só uma história de amor que acabou mal, em véspera de S. Valentim. Tal como o clima, também as histórias de amor e os contos de Fadas já não são como eram dantes. A culpa é da fruta, que afinal estava estragada!

AVISO: Publiquei este texto noutro blog, no  Dia de S. Valentim de 2009 mas como se tornou novamente actual para algumas cabecinhas obcecadas com o Apito Dourado ( apesar de Pinto da Costa ter sido ilibado  civil e desportivamente, continuam a esgrimir o Apito como se fosse um caso real e não de pura ficção) achei oportuno recuperá-lo para os arquivos do CR

segunda-feira, 5 de fevereiro de 2018

Era uma vez... no Metro




Há uns anos, antes de os telemóveis, tablets e smartphones se terem tornado extensões do nosso corpo, era frequente ver pessoas a ler um livro nos transportes públicos.
Já em plena era tecnológica, os livros foram sendo substituídos por jornais gratuitos como o Metro, o Destak e outros.
Entretanto os jornais gratuitos desapareceram e a normalidade passou a ser passageiros grudados nos ecrãs. Ora a trocar mensagens, a jogar ou a navegar na Internet, as pessoas viajam alheadas do que as rodeia, mergulhadas no mundo que brota das mini pantalhas. São cada vez mais raros os passageiros que transportam um livro, ou um jornal e aproveitam o percurso para ler algumas páginas. Eu sou  um dos resistentes e não entro num transporte sem levar alguma coisa para ler. 
Há dias viajava entre a Quinta das Conchas e o Rato embrenhado na leitura de um livro de Mário Vargas Llosa que há muito tempo aguardava a sua vez.  A páginas tantas comecei a ouvir um diálogo e um vozear estranho. Levantei os olhos para tentar detectar a proveniência, quando deparo com dois jovens ( um rapaz e uma rapariga)  de livro na mão. Os dois  partilhavam a leitura de um livro e comentavam qualquer coisa de forma entusiástica. Não sei se a construção das frases, se um breve trecho... Como não consegui identificar o livro, apurei o ouvido para ver se apanhava alguma pista. Ao fim de alguns segundos percebi que se tratava de um livro de Haruki Murakami ( Homens sem Mulheres)e consegui mesmo identificar a história a que se referiam. Tendo em consideração  a temática do conto, não me admirei que a discussão fosse animada. E bem disposta.

Lamentei que tivessem saído no Saldanha, pois gostaria de ter sabido quem levaria a melhor. 
Numa próxima oportunidade vou escrever um post sobre este conto, para conhecer as vossas reacções.
Por agora fico com a imagem de dois jovens no Metropolitano,  agarrados a um livro e em animada conversa sobre ele. Gostava de presenciar cenas destas com mais frequência...

terça-feira, 7 de novembro de 2017

Portugal no Coração



Correu por aí a notícia de  que um canal de televisão norueguês, a propósito da crise catalã,  publicou a imagem de  um mapa onde a Ibéria  era toda ocupada por Espanha.
A situação é recorrente e até já vi um mapa com o mesmo erro numa revista brasileira.
Também já aqui vos contei  um episódio de há muitos anos, durante um jantar em Barcelona com o meu irmão e duas jovens suecas.  Elas  tinham passado férias no Algarve, nesse Verão, mas estavam muito pesarosas por não terem tido tempo de ir a Portugal.
Também este Verão, quando estava a jantar  num restaurante aqui da Linha, um casal norueguês meteu conversa a propósito da nossa gastronomia, que eles não apreciavam por ter bastante gordura. 
Disse-lhes que tinham razão mas, como me disseram que dali a dois dias iam para  Marbella e outras praias da costa do Mediterrâneo, avisei-os que a comida espanhola é bastante mais gorda do que a nossa.
Notei que eles se entreolharam, interrogativos, mas logo percebi a razão, quando o  homem me perguntou:
- A comida do sul é muito diferente daqui?
Expliquei-lhe que no sul de Portugal a comida era muito parecida com a que estavam a comer ( polvo grelhado) mas que em Espanha não iriam encontrar peixe grelhado como em Portugal, porque os espanhóis não sabem grelhar peixe.
- Cada província tem o seu tipo de comida e forma de cozinhar? Na Noruega também temos algumas diferenças, mas não são muito significativas.
- Pois, mas entre Portugal e Espanha as diferenças são bastante grandes. Ainda mais do que entre a Noruega e a Suécia, por exemplo. Países diferentes, culturas diferentes, gastronomia também diferente- expliquei
A senhora olhou-me com um ar tão espantado que tive de lhe perguntar:
- Sabem que Marbella fica em Espanha, não sabem? E que Espanha e Portugal são dois países diferentes, cada um com as suas leis e a sua língua...
Não sabiam. Estavam em Portugal há 5 dias, convencidos que estavam a passar férias numa província espanhola! ( Como a Catalunha, ou a Galiza, por exemplo).
Ficaram espantadíssimos ( diria mesmo incrédulos)  quando lhes disse que Portugal era um país independente desde 1143, muito antes de a Espanha se tornar um Estado com a configuração actual.
Durante mais de uma hora dei-lhes uma aula de História. Estavam absolutamente atónitos e talvez até um pouco envergonhados, por só terem descoberto que Portugal era um país independente - e não uma província de Espanha - na noite do quinto dia. 
Ao contrário do que possam pensar, também não eram analfabetos. Ele era engenheiro reformado e ela funcionária do Estado.
Perguntei-lhes  o que tinham visitado. Apenas Lisboa, onde visitaram os  Jerónimos, Torre de Belém, Castelo de S. Jorge e bairros históricos ( pela descrição Alfama, Mouraria e Bairro Alto) e, na manhã dessa sexta -feira, tinham ido a Sintra. O resto do tempo passaram-no entre Cascais e Estoril, onde estavam hospedados.
Por vezes custa a acreditar que, em pleno século XXI, haja turistas que não saibam que a Ibéria é partilhada por dois países independentes.
Lamentavelmente, não me lembrei de lhes perguntar se tinham comprado a viagem numa agência mas todos os dias, quando me cruzo com turistas no paredão, me pergunto quantos deles pensam estar numa província espanhola. Como as suecas que encontrei em Barcelona, nos anos 80,ainda antes de Portugal pertencer à UE. 
Pior ainda é pensar que, muitas vezes, é a  comunicação social a prestar informação errada. E isso é mesmo indesculpável.



quarta-feira, 25 de outubro de 2017

"Saída de praia"




Ela saiu da loja  sorridente e visivelmente feliz  com a “saída de praia” que acabara de comprar na loja dos indianos do Tamariz.
Quando se juntou às amigas que a esperavam à saída do túnel, disse num tom bem disposto
“ What a bargain! I feel as if I am in Morocco or India.”
E lá foi, feliz da vida, estender-se no areal a desfrutar o sol numa maravilhosa tarde de Outubro e, muito provavelmente, a antecipar o prazer de estrear a sua “saída de praia”. Lindíssima, aliás...

segunda-feira, 23 de outubro de 2017

Feios, porcos e maus!

A família passeava no paredão com dois cães de grande porte. Na praia do Tamariz, em frente a um restaurante, os cães decidiram aliviar os intestinos. Um dos membros da família  pegou num balde de uma das criancinhas, foi à praia, encheu o balde de areia e despejou-o sobre os dejectos. Limpar? Está quieto!
Uma mulher do grupo repreendeu-o:
-  Para que estás a perder tempo com isso? Vamos embora! A Câmara amanhã limpa, que é para isso que pagamos impostos.
E lá continuaram, tranquilamente, o passeio familiar dominical.

terça-feira, 19 de setembro de 2017

A vida como ela é...

Juro que quando fui apanhado numa das inúmeras armadilhas da maravilhosa ( para quem gosta de andar sempre com os olhos no chão ou apenas a vê de longe) calçada portuguesa, não estava  a pensar na patética intervenção de Cavaco Silva na Universidade de Verão do PSD. 
Nem me embrenhara na análise psicológica de um dos discursos tresloucados de Passos Coelho, na vã tentativa de tentar compreender o seu transtornado perfil psicológico.
 Tampouco ia a remoer os resultados dos últimos exames médicos que confirmaram o agravamento do meu estado de saúde e a sua irreversibilidade.
Por estranho que vos pareça, enquanto caminhava pela Avenida pensava  - até ao momento em que uma falha na calçada me provocou a queda - nas maravilhas desta vida, em tudo de bom que ela me proporcionou e a relembrar a forma entusiástica  como o médico, perante a forma serena como estou a encarar a fase final da minha vida,  apoiou a minha ideia de ir, uma última vez, até à Argentina.
Foi no momento em que me precipitei no solo e os livros acabados de comprar na Bertrand se espalharam pelo chão, que regressei ao mundo real e me confrontei com a realidade.
Ao passar por mim, uma jovem brasileira aparentando estar a gozar momento de pausa  no trabalho do lupanar, olhou para mim estendido no chão a sangrar e, sem se deter, atirou:
- "Tudo bem?  Precisa ter cuidado, meu bem!"
Não tive tempo para reagir, nem para me revoltar, pois logo de seguida uma velha "made in Avenidas Novas" asseverou:
- " Você já não é o primeiro a cair aí. Apresente queixa na Câmara, porque a culpa é deles".
Tal como a jovem brasileira, seguiu em frente depois de debitada a sentença.
Eu não cheiro mal, não estava andrajoso (até ia bem vestidinho, porque vinha à cidade) não estava embriagado, porque não bebo, e, apesar de estar magérrimo  o meu aspecto  continua a não denunciar a doença que me afecta. No entanto, devem ter passado por mim umas 20 pessoas, antes de alguém se disponibilizar a prestar-me ajuda. 
Sem forças para pedir socorro, fui salvo por uma senhora que passava com o filho e se abeirou de mim perguntando se queria que chamasse uma ambulância. Acenei que sim e enquanto o filho ligava para o INEM, ela foi comprar uma garrafa de água que, extremosamente, me deu a beber.
Quando me meteram na ambulância, pareceu-me estar a entrar no Paraíso. Acabara de ser libertado da selva em que Lisboa se transformou. Uma cidade de pacóvios mal educados e sem maneiras que vieram das berças, não sabem comportar-se à mesa, arrotam no fim das refeições, peidam-se nas salas de cinema  e esqueceram a solidariedade. Fascinados que estão com a vida na capital, tornaram-se animais de duas patas. Trocaram a carroça por um Renault clio e, pendurados em telemóveis e copos de gin acompanhando sushis, sentem-se os Reis da Selva. E realmente, são.
Pessoalmente, não tenho pena de deixar esta selva. Esta cena mostrou-me a vida como ela é. Cada vez mais desinteressante e selvagem, regida pelas leis do salve-se quem puder e do Eu, Lda. 
Mãe e filho que me acudiram, por acaso, são do Porto. Estavam em Lisboa de passagem e fizeram questão de me acompanhar ao Hospital, de onde só saíram quando souberam que estava tudo bem comigo.
Nota: o título é uma homenagem a Nelson Rodrigues, mas dedico este post em especial aos leitores e leitoras que têm um ódio visceral ao Porto e acham que os nortenhos são todos nharros e imbecis.

quinta-feira, 17 de agosto de 2017

Uma questão de berço (again)



O post que publiquei há uns dias  com  o mesmo título terá suscitado interpretações que não estavam no meu espírito quando o escrevi.  
Decidi, por isso, voltar ao assunto para fazer um esclarecimento.
A questão é transversal à sociedade. Seja em Portugal, ou noutro qualquer país do mundo onde a sociedade de consumo dita- diria mesmo impõe- regras e a estrutura das famílias se modificou, aumentando  exponencialmente o número de famílias monoparentais.
A monoparentalidade, associada ao consumismo, provocou uma alteração nas relações familiares agora muito marcada pela compra dos afectos. Os filhos "exigem"  coisas dos pais prometendo uma retribuição em afecto e os pais aceitam com naturalidade essa proposta.
Não raras vezes, com especial incidência nas famílias desestruturadas, são os pais a dar pretexto a esse comportamento dos filhos. Quando pai e mãe entram em concorrência na disputa pelo amor do filho,  este rapidamente se apercebe dessa disputa e aproveita-se dela. Já os pais, obcecados pela conquista do amor, não percebem que, com a sua disputa, estão a criar um pequeno tirano.
O tema merece um desenvolvimento que não cabe num blog como este e, muito menos, num post. 4
Termino, por isso, sublinhando que quando escrevo " uma questão de berço" não estou a fazer qualquer extrapolação para a condição social. 
Refiro-me, apenas, ao facto de ser no berço ( no sentido de casa/família) que se começam a moldar personalidades. 
Uma prova disso é que todos conhecemos jovens pobres muitíssimo bem educados e que não foram afectados pelo consumismo e jovens ricos mal educados e sofregamente consumistas. 

quinta-feira, 10 de agosto de 2017

Uma questão de berço(s)



Quando a vi a servir às mesas num modesto restaurante, arregalei os olhos de espanto. O que estaria ali a fazer, em tempo de férias, uma miúda que pertence a uma das famílias mais ricas da Linha?
A resposta veio pronta e com um brilhozinho nos olhos:
- Quero tirar a carta de condução, mas quero ser eu a pagá-la.
De imediato me lembrei dos miúdos que exigem tudo dos pais, obrigando-os a fazer sacrifícios para lhes comprar ténis, telemóveis e tudo o que o consumismo mimético reclama.
E não podia deixar de recordar aquele miúdo, filho de uma vizinha da minha irmã que vivia com muitas dificuldades desde a morte do marido. Na véspera de  fazer18 anos disse à Mãe:
- Se amanhã não me deres dinheiro para eu tirar a carta, mato-te.
Não matou, mas deu-lhe uma tareia. A mãe, como sempre, desculpou-o:
"É um miúdo muito nervoso, mas é muito bonzinho!"
Palavras para quê?

sexta-feira, 21 de julho de 2017

Em casa de ferreiro...

- Então tu andas sempre metido na política e foste casar com uma mulher que detesta política?
- Pois é, meu caro. As mulheres na política são demasiado parecidas com os homens para eu me apaixonar por elas...

quarta-feira, 14 de junho de 2017

A evolução da lingua portuguesa

Ainda sou do tempo em que se reagia à asneirada de um condutor perguntando:
- Saiu-te a carta no bolo rei?
Mais tarde, quando algumas marcas começaram a dar brindes surpresa nas embalagens, a pergunta passou a ser:
- Saiu-te a carta num pacote da Farinha Amparo?
Ontem, estava na esplanada quando uma travagem brusca e um chiar de pneus me desviou das páginas do livro que estava a ler.
Bem audível foi também  a indignação do condutor da viatura obrigada a fazer a travagem, pela inabilidade de outro:
- Saiu-te a carta no Preço Certo?
Moral da história:
A lingua portuguesa continua a evoluir ao ritmo das audiências televisivas

quinta-feira, 8 de junho de 2017

Rir( não) é o melhor remédio



Um electricista foi convidado para uma festa nos arredores de Moscovo, durante o último fim de semana. A determinada altura, inserido num grupo  onde todos estavam a contar  peripécias da sua vida, disse que tinha servido no exército russo.
Os convivas olharam para o aspecto franzino do electricista, duvidaram  e alguns começaram mesmo a rir-se.
O electricista não gostou. Foi a casa buscar uma Kalashnikov, regressou à festa matou NOVE pessoas e pegou fogo à casa.
Moral da História: Rir nem sempre é o melhor remédio...

quinta-feira, 1 de junho de 2017

O Iogurte


Era uma vez um iogurte
Era uma vez uma criança que não gostava de iogurte
A minha Mãe gosta muito de iogurte
Ai que caraças! Porque é que a professora não mandou antes fazer uma redacção sobre a vaca? Ou o boi, ou a praia que eu gosto tanto? Tinha de ser uma redacção sobre o iogurte que eu detesto. Eu sempre disse que a professora não gosta de mim

60 anos depois…
Nunca consegui comer um iogurte. As múltiplas tentativas que fiz, até desistir, saldaram-se em vómitos, má disposição e uma sensação de repugnância.
Depois de ter sido operado a médica aconselhou-me a comer iogurtes. Contei-lhe a minha má relação com os iogurtes e ela aconselhou-me a experimentar uma determinada marca de produtos biológicos.
Experimentei. Debalde. A reacção, embora menos intolerante do que era habitual noutros tempos, continuou a ser de repugnância e indisposição gástrica.
Ontem, no supermercado de produtos bioógicos aqui do Estoril, fui estranhamente atraído por umas embalagens. Peguei numa mas, logo que percebi que era iogurte, rejeitei-a. Terminadas as compras, voltei atrás e trouxe duas embalagens. A Ana adora iogurtes e está sempre a experimentar marcas novas, talvez gostasse destes.
Hoje, depois de comer a maçã, fui ao frigorífico buscar um sumo. A embalagem de iogurte olhou para mim, desafiante.
 “Experimenta-me!”- parecia dizer o maracujá plantado no rótulo.
Relutante, aceitei o desafio. 
Tenho pena de não ter gravado em vídeo  a cara que devo ter feito enquanto metia a colher à boca. Voltei a ter uma sensação estranha, mas não de repugnância. Experimentei uma segunda colher, à espera da reação. Nada de vómitos. Comi ainda uma terceira colher. Decidi ficar por ali. Tomei o meu sumo, comi a minha torrada e no final… voltei ao iogurte! 
Não o comi todo, apenas metade, porque as embalagens são grandes. Não tive vómitos nem reações de repugnância, nem má disposição. Apenas uma pequena fúria.
( SE  A MINHA AMIGA TERESA  ESTIVER A LER ESTE POST, PEÇO-LHE QUE FIQUE POR AQUI)
 É que o sacana do  iogurte é ALEMÃO e, como já aqui vos contei, na minha vida não entram produtos alemães ( com excepção de amigas/os,  salsichas e, muito raramente, noutros tempos, cerveja).
Querem ver que, às tantas, vou abrir outra excepção? 

quinta-feira, 25 de maio de 2017

As tuas mamas valem um shot?



Então este post é para ti
Muito se escreveu na imprensa e nas redes sociais sobre um vídeo em que uma miúda estava a ser masturbada num autocarro, durante a Queima das Fitas do Porto.
Nos últimos dias soube de outras situações ocorridas durante estas manifestações tribais de jovens em estado líquido, que  merecem  no  mínimo um minuto de reflexão. Entre as muitas “diversões” podia encontrar-se a “Tenda das Tetas” onde bastava uma rapariga mostrar  as mamas, para receber uma bebida à borla.
Portanto, já sabes, jovem portuguesa: se te apetece um shot, mas não tens guito, vai à "Tenda das Tetas" e tens o problema resolvido.
A imaginação não tem limites e alguém criou uma tenda ainda mais “divertida”, onde as raparigas que se beijassem na boca  tinham igualmente acesso a bebidas gratuitas. Não se pense, porém, que bastava um “selinho” como dizem os brasileiros. A fiscalização ( feita por rapazes) era apertada e as meninas só ganhavam o “prémio” se o beijo fosse suficientemente “credível”, isto é, metesse línguas entrelaçadas e outras “excitações”.

Quando soube da existência destas barracas lembrei-me de imediato deuma cena ocorrida comigo junto ao Atrium Saldanha. Contei-a aqui em 2007 e recomendo a leitura, para que se perceba que agora a idade da inocência termina aos 10 anos e a "prostituição mental" começa bem cedo.

quarta-feira, 17 de maio de 2017

À mesa com... Salvador Sobral



Aviso prévio: o título deste post é um embuste. Não almocei com Salvador Sobral, como o título pode sugerir.

Hoje almocei sozinho num restaurante do Monte Estoril. Como acontece sempre que estou sozinho levo alguns jornais para fazer uma leitura mais atenta e criteriosa do que aquela que faço on line.
Minutos depois de me sentar chegaram dois funcionários de um banco, acompanhados de uma terceira pessoa que - mais tarde viria a saber- trabalha numa imobiliária.  
Sentaram-se na mesa ao meu lado. Os funcionários do banco, meus conhecidos, cumprimentaram-me. Retribuí e continuei a ler os jornais.
A determinada altura ouvi  um dos bancários dizer: 
- Aqui o doutor, que é jornalista, é que deve saber tudo. Não é, doutor?
Estava completamente alheado da conversa que se travava ao meu lado e perguntei:
- Não é o quê?
Entreolharam-se os três - perplexos ou incrédulos por eu não saber de que estavam a falar?- até que um, finalmente, pareceu ganhar coragem para quebrar o embaraçoso silêncio.
- Estávamos aqui a falar sobre o tipo que ganhou o Festival. Parece que ontem disse numa entrevista que gosta de seres humanos, sejam eles homens ou mulheres e aqui o F... ( o funcionário da imobiliária) diz que ele é gay. O doutor  que é jornalista é que deve saber.
- Sou jornalista mas não escrevo para revistas de mexericos- respondi secamente. Mas já agora, porque é que dizem que ele é gay?
- O doutor desculpe, mas um tipo que  ninguém conhecia, ganha a eurovisão e  depois dá entrevistas a dizer que o que mais lhe interessa é analisar os seres humanos, sejam homens ou mulheres está mesmo a querer dizer que é maricas. Ou pelo menos dá para os dois lados,  não lhe parece? - retorquiu o da imobiliária.
- Não, não me parece- respondi de cenho fechado. Eu também gosto de analisar os seres humanos independentemente dos sexos. Para mim, o importante, são as conversas que   têm.
( Quando acabaram de almoçar um dos funionários bancários , gestor da minha conta, ficou deliberadamente para trás e , em surdina,abordou-me  pedindo desculpa pela conversa do amigo que rotulou de machista. Sinceramente não sei o que desprezar mais. Pessoas  que não  assumem as suas posições, sendo capazes de trair os amigos, ou gente mesquinha para quem, mais importante do que a vitória de um português, é saber a sua orientação sexual).
Pois é, Salvador. Tu ganhaste para as pessoas que  te foram esperar ao aeroporto com um entusiasmo que me fez lembrar a recepção à Simone, umas décadas atrás, mas também para este povinho de merda que lá fora é capaz dizer , orgulhoso, " sou português, da terra do Cristiano Ronaldo, do Eusébio, do Carlos Lopes ou da Rosa Mota" mas em Portugal, quando fala dos seus ídolos tem o especial gozo de expressar  a sua inveja pelo seu sucesso, apelidando-os de" bichas e fufas".

terça-feira, 28 de março de 2017

Bombinhas de mau cheiro


A noite já tinha caído quando entrei no Metro. Estação de Telheiras, onde começa a Linha Verde. Já é noite cerrada.
Abro o livro que trago comigo e me fará companhia no percurso até ao Cais do Sodré e a partir dali no comboio que me levará ao Estoril. 
Tinha lido apenas meia dúzia de linhas, quando três jovens bonitas e bem aperaltadas entram e se  sentam ao pé de mim. Duas ficam no banco em frente, outra senta-se ao meu lado. É quinta-feira e pela toilette e ar festivo, deduzo que vão jantar fora e depois "curtir" a noite. 
Por breves instantes faço rewind ao tempo em que preparava as noites com mil cuidados e muita excitação à mistura, por isso, não estranhei as vozes alteradas, debitando um volume de decibéis acima da média.
Recuperei de novo a leitura  de "A Rapariga que Roubava Livros". 
O comboio iniciara o seu percurso vagaroso, debitando um ruído intenso, provocado pela fricção de ferros em conflito. As jovens  tiveram de elevar ainda mais o tom de voz, para encurtarem a distância sonora entre os bancos que as separavam. Foi então que fui obrigado a distrair-me da leitura e ouvir a conversa. A jovem ao meu lado era a mais faladora e animada. Tinha uma voz delicada e doce, mas conspurcava o ar com as palavras que lhe saíam da boca. Em cada cinco palavras que dizia uma tinha de ser a conjugação do verbo "cagar".
Outras duas eram  palavrões mais elaborados e coloridos, relacionados com a genitália masculina. 
Quando não era ela que se "c...." era uma terceira pessoa. O pai, por exemplo, para cujos conselhos ela declarava estar-se c......, também se "c....." se ela não dormia em casa. A cota da Mãe é que era a má da fita ( anotei com espanto este caso raro)
Ainda pensei sugerir à minha companheira de viagem que em vez de utilizar verbo tão escatológico, recorresse às expressões similares da minha juventude. Nesse tempo "estávamos nas tintas" ou "borrifando", expressões mais  coloridas e higiénicas do que "estar-se a c...."
Não o fiz, porque já sabia a resposta, por isso esforcei-me por me concentrar na leitura. Debalde. Até ao Chiado- onde as jovens saíram sorridentes e me desejaram boa noite educadamente- continuei a ser inundado por palavras de m.... 
O mais curioso é que, apesar de o vocabulário ser escatológico e a roçar o hardcore, a conversa não era de m..... Bem pelo contrário. Falavam de telenovelas e da alucinação que provocam nos adultos. Percebi que detestavam telenovelas para jovens, como " Morangos com Açúcar" que carinhosamente rotulavam de "punh.... ideológicas".
Foi fraco o consolo por essa constatação, embora compensado com o facto de ter registado a posteriori que aquelas três jovens não pegaram nos seus telemóveis durante o percurso. Reconfortante.
Não sou  avesso ao palavrão contextualizado e por vezes também o utilizo, normalmente como catarse para as minhas fúrias. Detesto, porém, o palavrão gratuito.
Pousar numa esplanada para ler um livro tranquilamente e ter um grupo de jovens por perto é, hoje em dia, uma actividade de risco.
Quando era jovem também tinha conversas acaloradas  em esplanadas, onde o vernáculo entrava com frequência mas, assim que se aproximavam  adultos, o tom da conversa baixava de tom e se alguém largava um palavrão, fazia-o sempre num sussurro, de modo a que os decibéis não ultrapassassem o perímetro das nossas mesas.
Hoje em dia, o palavrão tornou-se democrático e, porque não admiti-lo, um instrumento de coesão social.
Nas conversas entre jovens, em cada três palavras entra um palavrão. Os jovens parecem gostar de o exibir como prova de maturidade. Pior do que isso, quem o profere faz gala nisso.
 Não estou a generalizar. Há jovens educados e respeitadores mas seja em Camarate, na Picheleira, no Parque das Nações ou na marina de Cascais, o palavrão não escolhe lugares nem classes sociais.
Pelo contrário. Se noutros tempos foi  estigmatizante e vinculado a pessoas rudes das classes sociais  mais baixas, hoje em dia o palavrão é integrador.
De qualquer modo, não é preciso democratizá-lo ao ponto de se tornar linguagem de salão...

quinta-feira, 23 de março de 2017

Noor e a Felicidade

NOOR é uma jovem iraquiana que conheci aqui no Estoril no início do ano. 
No dia em que a conheci, explicou-me  que o seu nome  significa LUZ. Respondi-lhe que tinha uma prima que também se chamava LUZ e vi estampado no seu rosto uma alegria imensa, como se essa circunstância fosse um qualquer sinal que determinara o nosso relacionamento fortuito
 De uma simpatia ímpar  a Noor é, além de bonita,  muito comunicativa e conversadora. À segunda  conversa já sabia  que tinha nascido em Portugal, onde morava e  a razão da vinda dos pais para Portugal.
Há dias contei-lhe a minha paixão pela América Latina e em especial Argentina e ela respondeu-me:
- Compreendo que goste desses países. São países menos desenvolvidos, onde as pessoas dão mais valor às coisas e são mais felizes.
Concordei.
Hoje lembrei-lhe que há dias se tinha comemorado o Dia Internacional da Felicidade e que a ONU  elaborara um ranking dos países mais felizes do mundo.
Ela não sabia de uma coisa nem de outra, desvalorizou ambas e perguntou-me qual era o país mais feliz do mundo
Quando lhe disse que era a Noruega, ficou calada por uns momentos e perguntou-me: 
- Como é que as pessoas podem ser felizes sem sol?
Lembrei-lhe a conversa que tivéramos há umas semanas sobre a felicidade e acrescentei:
- Como os noruegueses não sabem o que é o sol nem a praia, não sentem a falta. Depois, contei-lhe a história de uma sueca, casada com um meu homólogo do PNUD. Viviam aqui no Estoril, mas ela estava horrorizada com a obsessão dos portugueses pela praia. Chegou mesmo a dizer que éramos um povo primitivo e ignorante, porque nos estendíamos ao sol "o ano inteiro" sem  cuidar das consequências para a saúde. Ainda hoje recordo o seu ar reprovador, quando um dia fomos ao Algarve e os levei a conhecer algumas praias. Foi durante uns feriados de Junho e as praias estavam a abarrotar. De portugueses, mas também de turistas. Muitos deles nórdicos. 
Inabalável, ela insistia:
- É de uma irresponsabilidade e de uma ignorância deprimente! 
Foi então que lhe respondi: 
- Somos ignorantes, mas somos felizes
A NOOR riu-se com a minha resposta  e  perguntou em que lugar estava Portugal nesse ranking.
89º- respondi
O quê? Há 88 países mais felizes do que Portugal? Não é possível. E o Iraque, em que lugar está?
- 117º, se não me engano
Encolheu os ombros e respondeu:
- Pois, a Felicidade é muito subjectiva. Não consigo perceber como é que se consegue medir.
Eu também não, NOOR, mas os tipos que fazem estes rankings devem andar felizes por terem trabalho e por pensarem que são úteis ao mundo. 
Mas devem ter uma técnica qualquer, não estabelecem o ranking à sorte...
Pois não, NOOR. Fazem  uma única pergunta a mil pessoas em mais de 150 países:

"Imagine uma escada, com degraus numerados de zero na base e dez no topo.O topo da escada representa a melhor vida possível e a base  a pior vida possível. Em que degrau você acredita que está?"
O resultado médio é a nota do país - que, neste ano, variou de 7.54 (Noruega) a 2.69 (República Centro-Africana).
NOOR sorriu uma vez mais e disse em tom irónico:
- Muito científico, sem dúvida. Vou medir o grau de felicidade da minha família. Palpita-me que devemos andar entre os 9 e os 10, porque todos nos sentimos muito  felizes por viver em Portugal e estarmos longe da guerra. Até eu e a minha irmã, que nascemos em Portugal e nunca fomos aos Iraque sentimos que somos mais felizes aqui.

Adenda:(O relatório também analisa as estatísticas para explicar por que um país é mais feliz do que o outro.
Entre os dados observados, estão o desempenho da economia (medido pelo PIB per capita), apoio social, expectativa de vida, liberdade de escolha, generosidade e percepção de corrupção.