a vida breve, revele-a
a pulsação que lateja
no efémero da camélia,
ou no lustro da cereja,
é a do coração que dita
a dor que lhe sobejou
e tenta deixá-la escrita
mas não conta o que escapou
pelo espelho, quando a máscara
vai perdendo o frenesim,
e agora tanto lhe faz: para
o caso é mesmo assim,
nem há lixa ou aguarrás
que apague as marcas que traz.
Vasco Graça Moura
uma carta no inverno, Quetzal Editores, Lisboa, 1997
A espessura do tempo
«Tudo é semente.» Novalis
03/01/2020
01/01/2020
[Saber ganhar nem todos nós sabemos]
Saber ganhar nem todos nós sabemos;
saber perder nem todos conseguimos;
saber olhar o muito que não temos;
saber contar as metas que atingimos;
saber correr parado vendo quem
estuga o passo e acelera e vai
em busca de não sei que coisa nem
se na passada perde o pé e cai;
saber chegar ao pé de quem caiu
e dar-lhe a mão, sorrir-lhe, levantá-lo;
chamar o 112 se o que viu
for mau demais para poder cuidá-lo:
saber no fundo que ignora muito
quem muito sabe de saber fortuito.
Domingos da Mota
saber perder nem todos conseguimos;
saber olhar o muito que não temos;
saber contar as metas que atingimos;
saber correr parado vendo quem
estuga o passo e acelera e vai
em busca de não sei que coisa nem
se na passada perde o pé e cai;
saber chegar ao pé de quem caiu
e dar-lhe a mão, sorrir-lhe, levantá-lo;
chamar o 112 se o que viu
for mau demais para poder cuidá-lo:
saber no fundo que ignora muito
quem muito sabe de saber fortuito.
Domingos da Mota
31/12/2019
Passagem de ano
Um ano passa; vem outro:
se fosse novinho em folha,
mas de novo tem apenas
a folha do calendário,
o aumento dos impostos,
das portagens, das viagens
e das coisas necessárias
para uma vida frugal.
Contudo, seja bem-vindo
o novo que se anuncia,
enquanto o velho partindo
cospe fogo de alegria.
Domingos da Mota
se fosse novinho em folha,
mas de novo tem apenas
a folha do calendário,
o aumento dos impostos,
das portagens, das viagens
e das coisas necessárias
para uma vida frugal.
Contudo, seja bem-vindo
o novo que se anuncia,
enquanto o velho partindo
cospe fogo de alegria.
Domingos da Mota
30/12/2019
[No inverno, a árvore]
No inverno, a árvore
pede à neve:
- Agasalha-me!
Albano Martins
Com as Flores do Salgueiro, Edições Universidade Fernando Pessoa, Porto, 1995
pede à neve:
- Agasalha-me!
Albano Martins
Com as Flores do Salgueiro, Edições Universidade Fernando Pessoa, Porto, 1995
28/12/2019
[Oh anda ver]
Oh anda ver
uma bola de neve
a arder
Matsuo Bashô
O GOSTO SOLITÁRIO DO ORVALHO seguido de O CAMINHO ESTREITO, versões e introdução de Jorge Sousa Braga, Assírio & Alvim, Lisboa, Maio 2003
uma bola de neve
a arder
Matsuo Bashô
O GOSTO SOLITÁRIO DO ORVALHO seguido de O CAMINHO ESTREITO, versões e introdução de Jorge Sousa Braga, Assírio & Alvim, Lisboa, Maio 2003
26/12/2019
SETE PANFLATOS e um provérbio colombiano
6.
Portanto para si acabou a missa do galo!
já lhe disse que estou farta
de discriminações,
e esta é uma discriminação de base;
não aceito, fim.
Compreendo.
claro que não compreende, os homens
não compreendem da missa a metade!
Quê, da missa do galo?
não é isso,
mas sabe qual é a discriminação
da missa do galo, sabe?
.....................................
pois, por que é que não é
da galinha, sabe?
Claro, a galinha não canta!
a galinha não canta!?
Não, nunca ouvi.
então!! depois de pôr o ovo
a galinha não canta?!
Tem razão! e estrelado
é o céu que nós é
nesta noite prometido...
e olhe que escalfado
não lhe fica atrás!
a galinha sabe o que faz
e fica feliz!
o galo não sabe nada e você
também não sabe o que diz!
Então vamos à missa da galinha,
só uma perninha?
isso é outro falar!
mas eu prefiro a asinha.
Alberto Pimenta
ZOMBO, edições Saguão, Lisboa, Maio de 2019
21/12/2019
Outro poema de Natal
E se fosse o Natal a data apenas
do nascimento de um menino algures,
menino que não cabe nos poemas
e que mora na rua de nenhures?
Domingos da Mota
do nascimento de um menino algures,
menino que não cabe nos poemas
e que mora na rua de nenhures?
Domingos da Mota
20/12/2019
Boletim meteorológico
Mal prevê as depressões
As superfícies frontais
Baptiza as tempestades
Ciclones furacões
Como fulanos de
Tais
Domingos da Mota
As superfícies frontais
Baptiza as tempestades
Ciclones furacões
Como fulanos de
Tais
Domingos da Mota
19/12/2019
RIR, ROER
E se fôssemos rir,
Rir de tudo, tanto,
Que à força de rir
Nos tornássemos pranto,
Pranto colector
Do que em nós sobeja?
No riso, na dor
Que o homem se veja.
Se veja disforme,
Se disforme for.
Um horror enorme?
Há outro maior...
E se não houver,
O horror é nosso.
Põe o dente a roer,
Leva o dente ao osso!
Alexandre O'Neill
POESIAS COMPLETAS, Assírio & Alvim, Lisboa, Maio 2007
Rir de tudo, tanto,
Que à força de rir
Nos tornássemos pranto,
Pranto colector
Do que em nós sobeja?
No riso, na dor
Que o homem se veja.
Se veja disforme,
Se disforme for.
Um horror enorme?
Há outro maior...
E se não houver,
O horror é nosso.
Põe o dente a roer,
Leva o dente ao osso!
Alexandre O'Neill
POESIAS COMPLETAS, Assírio & Alvim, Lisboa, Maio 2007
15/12/2019
Poema de aniversário
Malgrado as contracturas, distensões
(ondas curtas, massagens e correntes),
receitas e alvitres, sugestões
de mezinhas antigas e recentes
para as dores, ora crónicas, reais,
ora agudas, intensas, imprevistas
que por muito que sejam naturais,
não deixam de alarmar e dar nas vistas;
apesar do círculo vicioso
de evidentes erros de postura,
cada dia mais duro, mais custoso,
mais perto de falhar a quadratura;
apesar do que olhas, mas não vês,
bem-vindos sejam os teus setenta e três
Domingos da Mota
(ondas curtas, massagens e correntes),
receitas e alvitres, sugestões
de mezinhas antigas e recentes
para as dores, ora crónicas, reais,
ora agudas, intensas, imprevistas
que por muito que sejam naturais,
não deixam de alarmar e dar nas vistas;
apesar do círculo vicioso
de evidentes erros de postura,
cada dia mais duro, mais custoso,
mais perto de falhar a quadratura;
apesar do que olhas, mas não vês,
bem-vindos sejam os teus setenta e três
Domingos da Mota
12/12/2019
11/12/2019
10/12/2019
A rede
Há quem ache que o achamento
não terá sido um achado,
nem sequer descobrimento
do armamento furtado,
mas tão-só um urdimento
previamente encenado.
E se foi uma urdidura,
um enredo mal contado,
uma gizada aventura
com o seu quê de tramado,
à pesca da impostura
lança a rede o magistrado.
Domingos da Mota
não terá sido um achado,
nem sequer descobrimento
do armamento furtado,
mas tão-só um urdimento
previamente encenado.
E se foi uma urdidura,
um enredo mal contado,
uma gizada aventura
com o seu quê de tramado,
à pesca da impostura
lança a rede o magistrado.
Domingos da Mota
04/12/2019
Zingamocho
Não é pássaro
de gaiola:
vai ao bodo
dá esmola
haja quem
faça do óbolo
o enfoque
da notícia
com flashes
à mistura
à guitarra
ou à viola
com aplauso
ou malícia:
gira que
gira de novo
outro fôlego
mais alarde:
zingamocho
ziguezague
Domingos da Mota
de gaiola:
vai ao bodo
dá esmola
haja quem
faça do óbolo
o enfoque
da notícia
com flashes
à mistura
à guitarra
ou à viola
com aplauso
ou malícia:
gira que
gira de novo
outro fôlego
mais alarde:
zingamocho
ziguezague
Domingos da Mota
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