03/01/2020

vita brevis

a vida breve, revele-a
a pulsação que lateja
no efémero da camélia,
ou no lustro da cereja,

é a do coração que dita
a dor que lhe sobejou
e tenta deixá-la escrita
mas não conta o que escapou

pelo espelho, quando a máscara
vai perdendo o frenesim,
e agora tanto lhe faz: para
o caso é mesmo assim,

nem há lixa ou aguarrás
que apague as marcas que traz.

Vasco Graça Moura

uma carta no inverno, Quetzal Editores, Lisboa, 1997

01/01/2020

[Saber ganhar nem todos nós sabemos]

Saber ganhar nem todos nós sabemos;
saber perder nem todos conseguimos;
saber olhar o muito que não temos;
saber contar as metas que atingimos;
saber correr parado vendo quem
estuga o passo e acelera e vai
em busca de não sei que coisa nem
se na passada perde o pé e cai;
saber chegar ao pé de quem caiu
e dar-lhe a mão, sorrir-lhe, levantá-lo;
chamar o 112 se o que viu
for mau demais para poder cuidá-lo:
saber no fundo que ignora muito
quem muito sabe de saber fortuito.

Domingos da Mota

31/12/2019

Passagem de ano

Um ano passa; vem outro:
se fosse novinho em folha,
mas de novo tem apenas
a folha do calendário,

o aumento dos impostos,
das portagens, das viagens
e das coisas necessárias
para uma vida frugal.

Contudo, seja bem-vindo
o novo que se anuncia,
enquanto o velho partindo
cospe fogo de alegria.

Domingos da Mota

30/12/2019

[No inverno, a árvore]

No inverno, a árvore
pede à neve:
- Agasalha-me!

Albano Martins

Com as Flores do Salgueiro,  Edições Universidade Fernando Pessoa, Porto, 1995

28/12/2019

[Oh anda ver]

Oh anda ver
uma bola de neve
a arder

Matsuo Bashô

O GOSTO SOLITÁRIO DO ORVALHO seguido de O CAMINHO ESTREITO, versões e introdução de Jorge Sousa Braga, Assírio & Alvim, Lisboa, Maio 2003

26/12/2019

SETE PANFLATOS e um provérbio colombiano

6.

Portanto para si acabou a missa do galo!
já lhe disse que estou farta 
de discriminações,
e esta é uma discriminação de base;
não aceito, fim.
Compreendo.
claro que não compreende, os homens
não compreendem da missa a metade!
Quê, da missa do galo?
não é isso, 
mas sabe qual é a discriminação
da missa do galo, sabe?
         .....................................
pois, por que é que não é
da galinha, sabe?
Claro, a galinha não canta!
a galinha não canta!?
Não, nunca ouvi.
então!! depois de pôr o ovo
a galinha não canta?!
Tem razão! e estrelado
é o céu que nós é
nesta noite prometido...
e olhe que escalfado
não lhe fica atrás!
a galinha sabe o que faz
e fica feliz!
o galo não sabe nada e você
também não sabe o que diz!
Então vamos à missa da galinha,
só uma perninha?
isso é outro falar!
mas eu prefiro a asinha.

Alberto Pimenta

ZOMBO, edições Saguão, Lisboa, Maio de 2019

21/12/2019

Outro poema de Natal

E se fosse o Natal a data apenas
do nascimento de um menino algures,
menino que não cabe nos poemas
e que mora na rua de nenhures?

Domingos da Mota

20/12/2019

Boletim meteorológico

Mal prevê as depressões
As superfícies frontais
Baptiza as tempestades
Ciclones furacões
Como fulanos de
Tais

Domingos da Mota

19/12/2019

RIR, ROER

E se fôssemos rir,
Rir de tudo, tanto,
Que à força de rir
Nos tornássemos pranto,

Pranto colector
Do que em nós sobeja?
No riso, na dor
Que o homem se veja.

Se veja disforme,
Se disforme for.
Um horror enorme?
Há outro maior...

E se não houver,
O horror é nosso.
Põe o dente a roer,
Leva o dente ao osso!

Alexandre O'Neill

POESIAS COMPLETAS, Assírio & Alvim, Lisboa, Maio 2007

15/12/2019

Poema de aniversário

Malgrado as contracturas, distensões
(ondas curtas, massagens e correntes),
receitas e alvitres, sugestões
de mezinhas antigas e recentes
para as dores, ora crónicas, reais,
ora agudas, intensas, imprevistas
que por muito que sejam naturais,
não deixam de alarmar e dar nas vistas;
apesar do círculo vicioso
de evidentes erros de postura,
cada dia mais duro, mais custoso,
mais perto de falhar a quadratura;
apesar do que olhas, mas não vês,
bem-vindos sejam os teus setenta e três

Domingos da Mota

11/12/2019

10/12/2019

A rede

Há quem ache que o achamento
não terá sido um achado,
nem sequer descobrimento
do armamento furtado,
mas tão-só um urdimento
previamente encenado.

E se foi uma urdidura,
um enredo mal contado,
uma gizada aventura
com o seu quê de tramado,
à pesca da impostura
lança a rede o magistrado.

Domingos da Mota

04/12/2019

Zingamocho

Não é pássaro
de gaiola:
vai ao bodo
dá esmola

haja quem
faça do óbolo
o enfoque
da notícia

com flashes
à mistura
à guitarra
ou à viola

com aplauso
ou malícia:
gira que
gira de novo

outro fôlego
mais alarde:
zingamocho
ziguezague

Domingos da Mota