
O dia convidava a um almoço na esplanada. Como a hora já ia avançada, escolhi um espaço recatado, em Telheiras, que serve almoços até tarde.
Poucos minutos depois de me ter sentado chegou uma senhora a meio caminho, entre os 40 e os 50, corpo escorreito a pedir “mão de mexer”, como diria o Rui Veloso. Vinha com o filho, aparentando uns 18 anos e um corpo amolecido por uma dieta alimentar à base da batata frita, hamburguers e toda a variedade de “fast food”. Pediram a lista e ele, claro, escolheu um hamburguer no pão com batatas fritas. Para acompanhar, a óbvia Coca Cola
“ Não peças isso, Pedro, olha o que a médica te disse! Tens de comer saladas, coisas saudáveis, em vez dessas porcarias. Ou queres ficar como o monstro do teu pai?”.
“ E tu o que vais comer?”
“ Vou pedir uma salada”.
Mirou e remirou a lista e por fim fez o pedido.“ Traga-me uma salada de frutas. E para beber uma caipirinha”.
Continuei a ler e a dar umas garfadas na minha salada de frango crocante. Um arroto fez-me levantar os olhos das páginas da “Visão”. O jovem, que entretanto já se esparramara na cadeira, deslizando rumo à calçada portuguesa, libertava os gases da Coca –Cola. A mãe riu-se. Eu distraí-me um pouco da leitura. Ele pegava nas batatas com a mão e mergulhava-as ora no ketch-up, ora na mayonnaise. Metia metade à boca e repetia a operação com a metade sobrante. Sorvia a Coca Cola por uma palhinha, abrilhantando o acto com efeitos sonoros.
Acelerei a refeição. A mãe acelerou na caipirinha, enquanto comentava:
“ Na happy hour as caipirinhas são melhor servidas”.
Pediu outra e um café. O jovem, entre dois arrotos, pediu reforço de Coca-cola. Pedi a minha bica e voltei a mergulhar na leitura.
Ela pediu a conta, o jovem pediu à mãe:
“ Deixa-me pagar hoje o almoço!”.
“ Estás-me a pedir desculpa por me teres batido ontem? ”- perguntou num sussurro, mas mesmo assim audível.
Ele levantou o corpo pesado, enlaçou-a num abraço forte e cobriu-a de beijos. Pagou a conta.
Ela disse:“ Vai andando, fico aqui a corrigir uns testes daquela turma de monstrinhos”.