quarta-feira, 23 de janeiro de 2008

Conversa à volta da lareira

Disse hoje à minha empregada:
- Tenha cuidado, que um dia destes vão proibi-la de acender a lareira.
Ela riu-se. Eu insisti. Ela mudou de conversa. Eu voltei à carga.
- Mas quem é que me vai proibir de acender a lareira em minha casa e porquê?
- O Estado, para proteger a sua saúde.
Ela riu-se mais e depois atirou:
- O Estado? Mas que é que o Estado quer saber da minha saúde? Há dois anos o médico disse-me que tinha que ser operada aos joelhos por causa da artrose. Disse que era urgente , mas ainda estou à espera que marquem a operação...
- Pois, mas também é para proteger o ambiente...
- Então porque é que eles deixam arder tudo no verão?
Eu ri-me. Ela riu-se. Saí de casa e fui pôr o lixo no ecoponto.
Dirigi-me para a estação de Metro caminhando ao lado de uma longa fila de automóveis, movendo-se a passo de caracol. Tive que levar o lenço ao nariz para não respirar toda aquela fumarada que saía dos escapes dos automóveis que transportavam ( quase todos ) apenas uma pessoa. Esta não é uma questão que preocupe o Estado. Sorri, peguei numa pedra da calçada e arremessei-a ao ar. Na direcção do Estado, que mais uma vez se esgueirou por entre as curvas da incoerência. Corria, leve, uma brisa de demagogia!

Sapatos e milho transgénico

O Sindicato do Calçado de Aveiro e Coimbra acusou uma empresa de estar a tratar desumanamente cinco trabalhadores por se recusarem a rescindir os contratos de trabalho. De acordo com o Sindicato foram postos de castigo na fábrica, sem trabalho, sem água, sem luz e vigiados”. A vigília, provavelmente, pretendia apurar se os trabalhadores acendiam algum cigarro. Presumo que a DGS ( fazendo honra à sigla) esteja satisfeita, mas onde está a Inspecção Geral do Trabalho?
Entretanto, os 73 trabalhadores do Ministério da Agricultura colocados no quadro da mobilidade, a quem o Tribunal deu razão, devendo por isso permanecer no seu posto de trabalho, que se cuidem! A espiga de milho transgénico que Jaime Silva exibiu perante as câmaras de televisão durante o “episódio de Silves” do Verão passado, deve estar guardada numa qualquer gaveta de um qualquer gabinete.

Cenas tristes na AR

A ida do Presidente da ASAE à Assembleia da República teve um mérito. Demonstrou ao país inteiro a leviandade com que alguns deputados expõem a sua ignorância e iliteracia, sem medo de cairem no ridículo. Ficou-me a dúvida: os deputados não lêem , ou não sabem ler?
Se Rosário Águas e Pedro Mota Soares tivessem pelo menos lido o comunicado da ASAE, não teriam feito estapafúrdias perguntas sobre bolas de berlim e colheres de pau. Como não se quiseram dar a esse trabalho, limitaram-se a reproduzir alguns boatos e lendas que a “vox populi” erigiu a verdades irrefutáveis, demonstrando assim a inutilidade da sua preesença no hemiciclo.
Qualquer funcionário público que tivesse demonstrado tanta ignorância , arriscava-se a ser alvo de um processo disciplinar. Rosário Águas e Pedro Mota Soares não terão que passar por essa provação. Os seus vencimentos - com as respectivas alcavalas que a mordomia do cargo concede- continuarão a ser depositados mensalmente nas suas contas bancárias. Graças aos nossos impostos e à benevolência dos que votaram em tão ilustres figuras.
Tenho dito!

Uma democracia de enganos

Na sequência do arquivamento do processo que lhe fora instaurado pela anterior administração da RTP, José Rodrigues dos Santos agradeceu a várias pessoas que o ajudaram. Um dos agradecimentos- que li no DN- foi para um dos membros do júri de Madrid ( o polémico concurso em que Rosa Veloso foi colocada na capital espanhola pela Administração da RTP à revelia do júri do concurso) e explica o país:
“ Dr.Luís Cara d’Anjo que, por ter sempre mantido a integridade e a verticalidade, se viu colocado numa situação penosa que o levou a ter de abandonar a empresa em 2006”.Por cá, quem não vergar a espinha à vontade do patrão e dos chefes corre o risco de ser ostracizado, perseguido, vilipendiado e vítima diária de assédio moral, até ao momento em que, sem forças para lutar, acaba por desistir.
Tem sido assim construída a nossa democracia de enganos. Assente na autocracia, nos jogos de influências, no apoio em papagaios que servem de acólitos à construção de poderzinhos pessoais recebendo depois as respectivas prebendas. Um país comandado pelo poder e a influência dos detentores de cartões rosa ou laranja que vicia as regras dos concursos, reparte os cargos nas empresas públicas e que repetidamente adapta as regras do jogo às suas conveniências e aos seus interesses. Ainda há quem se admire com as declarações de Henrique Neto, ou se surpreenda e critique a “oração de sapiência” de Luís Filipe Meneses por pretender repartir o poder na comunicação social, nos bancos e onde mais houver partilhas para fazer?