Tenho resistido a escrever sobre o Wikileaks e Julian Assange. Por duas razões. Em primeiro lugar,porque a estória ainda agora começou. Aquilo que por ora veio a lume reduz-se essencialmente a tricas de comadres, cuja relevância é diminuta. Os assuntos mais "quentes" como, por exemplo, a acusação de que Dilma Roussef terá participado em assaltos a bancos, ou Joaquim Chissano estar ligado ao narcotráfico, não são em si mesmo notícia. Carecem de prova e confirmação. O mesmo se diga em relação aos voos para e de Guantanamo que terão feito escala em Portugal. Enquanto não for provada a factualidade e veracidade do conteúdo dos telegramas a sua importância é, em minha opinião, muito relativa. Têm tanta relevância como as apreciações sobre o carácter de alguns líderes políticos.Em segundo lugar, porque me provoca uma forte náusea a posição de alguns comentadores que andam sempre com a liberdade de expressão na boca mas agora ou se remetem a um comprometido e esclarecedor silêncio, ou esgrimem os mais variados argumentos para acusar Julian Assange de ser um criminoso. Recuso liminarmente esta acusação uma vez que, até prova em contrário, o vejo apenas mensageiro na divulgação dos documentos.
Devo,aliás, reconhecer que estou mais interessado em seguir atentamente os próximos capítulos desta telenovela ( as múltiplas tentativas de silenciar o Wikileaks e "matar o mensageiro", ou as verdadeiras motivações de Assange) do que em conhecer o conteúdo dos documentos. É que o modo como o caso for tratado, poderá trazer preciosos esclarecimentos sobre o conceito de democracia de alguns países. Com os EUA à cabeça, obviamente… que não tendo sido competentes para proteger os seus segredos, acusam de criminosos e irresponsáveis aqueles que os divulgaram, não hesitando em recorrer a ameaças típicas de regimes que eles próprios acusam de não respeitar a liberdade de expressão.
* Filme de Joseph Losey, com argumento de Harold Pinter, interpretado por Julie Christie e Alan Bates
