terça-feira, 2 de dezembro de 2008

Tailândia: E Viva o Rei!

Já perdi a conta ao número de vezes que estive na Tailândia. Quando vivia no Oriente, procurava as suas ilhas, ainda paradisíacas, na época de Natal e em fins de semana prolongados para retemperar forças nas suas águas tépidas e cristalinas. A distância era curta e as viagens e estadia. bastante baratas.
Depressa aprendi o significado de “Terra dos Sorrisos”: um povo afável, atencioso e cosmopolita, num país que não sendo só praia (as maiores belezas naturais da Tailândia estão a norte) é à beira-mar que se despe de preconceitos, espraiando-se em extensos areais então imaculados, banhados por águas límpidas convidando a mergulhos intermináveis.
Desde que a Tailândia se tornou um destino turístico tão desinteressante como Varadero, Cancun ou Punta Cana, não voltei lá, embora o meu amigo Arnaldo Gonçalves me afiance que continuam a existir muitos paraísos por descobrir.
Os únicos laços que mantenho com a Tailândia são através dos magníficos blogs Combustões e Visto de Bangkok, tendo sido por isso com alguma surpresa que tomei conhecimento da crise desencadeada há meses, pela oposição ao Governo que, desde 2007, reclamava ter havido fraude no último sufrágio eleitoral.
Não me vou alongar em considerações sobre a crise. A quem quiser saber pormenores, aconselho vivamente a leitura do Combustões ( com link na coluna da direita) e do Visto de Bangkok. ( link a partir do Combustões) Apenas queria realçar que os mortos - cuja contabilidade está por fazer – não deram a sua vida em vão. O Tribunal Constitucional reconheceu a fraude eleitoral, os três partidos da coligação foram dissolvidos, os seus líderes proibidos de exercer qualquer cargo durante cinco anos e a população que ocupava os aeroportos rebentou num vendaval de lágrimas.
Não posso deixar de reflectir sobre o exemplo de civismo que vem da Tailândia, que hoje recuperou o direito a ser conhecida como “A Terra dos Homens Livres”. Porque é disso que se trata, efectivamente. A democracia emporcalhada que nos impingem a Ocidente, feita de jogos de interesses onde a alta finança dita regras e se perpetua na liderança, através de alguns capangas, e amparada no poder económico que a sustenta, não venceu na Tailândia. Venceu a perseverança de homens que reclamavam justiça e a reposição da verdade. Onde muitos preconizavam uma guerra civil e o regresso da ditadura, ocorreu um belo exemplo de Democracia, sufragada por um Rei que lhe serve de garante.
Ainda não é possível saber, com segurança, como irá evoluir a situação política na “Terra dos Sorrisos”. Se as coisas derem para o torto, vão correr rios de tinta e a situação será mesmo abertura de Telejornais. Se tudo correr bem, como se espera, continuará sem se falar da Tailândia. Os bons exemplos não devem ser muito divulgados, para não estragar a paz podre desta democracia de faz de conta onde o Ocidente se afunda. E, por via das dúvidas, também é melhor omitir o papel importante que o Rei teve na manutenção da Democracia que os partidos no poder se preparavam para entregar nos braços do capitalismo ocidental, sob o epíteto generalista de Globalização.

Conversas de cama ( sem bolinha vermelha)


Li há dias,num estudo, que os portugueses estão a ficar sedentários e cada vez mais cedo se habituam a ler, ver televisão, ou estudar, no remanso do leito.
Estou em crer que tal se deve, em grande parte, ao facto de haver cada vez menos diálogo intergeracional no meio familiar, o que conduz a que cada um se isole no seu quarto, transformando-o num inexpugnável forte, cujo epicentro é a cama. E como o pensamento é célere em divagações, dei por mim a conjecturar acerca da influência que a cama tem no nosso comportamento enquanto consumidores.

Este secular objecto que proporcionou o nascimento de figuras célebres - de estadistas a actrizes de cinema - e tem sido útil a uma pléiade de cidadãos anónimos que à sua custa ascendeu ao estrelato, foi inventado para dormir, mas tornou-se num dos objectos quotidianos mais geradores de consumo. Senão, vejamos... Para além de obrigar à compra de diversos acessórios ( colchões, almofadas, lençóis, colchas, etc) , a cama é o local onde se consome uma parafernália de produtos e serviços.

A comunicação social e algumas editoras são, talvez, as grandes beneficiárias da existência da cama . É lá que muita gente lê revistas do coração, e é também graças à cama que alguns maus livros são vendidos. Ou será que não é frequente ouvir dizer “ Gosto sempre de ler um bocadinho na cama, porque me ajuda a adormecer?” Ora só é possível adormecer a ler um livro, se este for mau e nos der sono, pois quando o livro é bom, prolongamos a vigília quase até à exaustão.

O sector alimentação e bebidas é o segundo grande beneficiado, já que não são raras as pessoas que gostam de tomar o pequeno almoço na cama, ou de trincar umas bolachinhas e beber um chá ou um sumo enquanto estão a ler. É também na cama que ( habitualmente…), se geram novos consumidores os quais, logo à nascença, fazem uma despesa enorme em fraldas, biberões, farinhas lácteas, brinquedos mais ou menos irritantes e barulhentos e uma panóplia de outros produtos que lhe são especificamente associados. E já agora, porque não referir que, frequentemente, é durante a vigília que se toma a decisão de comprar aquele vestido ou aquele computador que se anda a namorar há tanto tempo, se resolve trocar de automóvel ou se programam umas férias? Para além do consumo gerado por estas actividades mais ou menos lúdicas, que fazem jus a que a cama seja considerada um local aprazível e cada vez mais procurado pelos consumidores, desde a puberdade, outro tipo de consumos coercivos, dispendiosos e desagradáveis, estão intimamente ligados com situações de cama. Refiro-me, evidentemente, ao consumo de medicamentos e outros produtos afins, que somos obrigados a adquirir quando adoecemos. Esta é, certamente, a face mais negativa do consumo gerado no ( ou a partir do ) leito. Consumo que, diga-se, pode por vezes tornar-se perigoso, apesar de ser determinado por razões que visam satisfazer o nosso conforto. É o caso, por exemplo, dos cobertores eléctricos, responsáveis por algumas mortes por electrocussão. E é, ainda, o caso de camas e colchões de água, muito utilizadas em hospitais, com o intuito de evitar que os doentes imobilizados fiquem com o corpo chagado. Ao contrário do que se possa pensar, este tipo de camas apresenta, no quotidiano, mais desvantagens do que benefícios sendo responsável ( de acordo com vários estudos efectuados por especialistas alemães), por problemas da coluna.Por outro lado, a capacidade de absorção deste tipo de camas provoca um aumento de humidade no quarto onde estejam instaladas o que, convenhamos, não é muito aconselhável, pois já temos por cá humidade suficiente para nos toldar a transparência.

Seja qual for a sua opção, não deve esquecer que a função da cama também é ajudá-lo a descansar e recuperar forças, nomeadamente favorecendo um relaxamento dos músculos enquanto repousa. Durante esse período, a espinha deve estar em posição correcta, pelo que a escolha de um colchão adequado é uma tarefa importante que contribui para preservar a sua saúde. Mas não se iluda muito com colchões ortopédicos anunciados por via telefónica. Se acredita que eles podem contribuir para a cura de alguns dos seus problemas, tire daí a ideia e quando algumas vozes sibilinas lhe prometerem o paraíso de uma noite bem dormida, com direito a brindes suplementares, tenha em atenção que do outro lado da linha pode estar alguém que lhe vai provocar insónias durante muitas noites. Arrisca-se a pagar caro por um sonho que se pode transformar num pesadelo. É que andam por aí uns vendedores de promessas, aliciando os consumidores para a compra de uns colchões ortopédicos miraculosos, mas ao contrário do anúncio do Totoloto, estes publicitários da treta vendem pesadelos caros e difíceis de digerir. E em vez de oferecer brindes, vendem contratempos. Não vá em cantigas... se for abordado por um destes vendedores de ilusões.