Já perdi a conta ao número de vezes que estive na Tailândia. Quando vivia no Oriente, procurava as suas ilhas, ainda paradisíacas, na época de Natal e em fins de semana prolongados para retemperar forças nas suas águas tépidas e cristalinas. A distância era curta e as viagens e estadia. bastante baratas.Depressa aprendi o significado de “Terra dos Sorrisos”: um povo afável, atencioso e cosmopolita, num país que não sendo só praia (as maiores belezas naturais da Tailândia estão a norte) é à beira-mar que se despe de preconceitos, espraiando-se em extensos areais então imaculados, banhados por águas límpidas convidando a mergulhos intermináveis.
Desde que a Tailândia se tornou um destino turístico tão desinteressante como Varadero, Cancun ou Punta Cana, não voltei lá, embora o meu amigo Arnaldo Gonçalves me afiance que continuam a existir muitos paraísos por descobrir.
Os únicos laços que mantenho com a Tailândia são através dos magníficos blogs Combustões e Visto de Bangkok, tendo sido por isso com alguma surpresa que tomei conhecimento da crise desencadeada há meses, pela oposição ao Governo que, desde 2007, reclamava ter havido fraude no último sufrágio eleitoral.
Não me vou alongar em considerações sobre a crise. A quem quiser saber pormenores, aconselho vivamente a leitura do Combustões ( com link na coluna da direita) e do Visto de Bangkok. ( link a partir do Combustões) Apenas queria realçar que os mortos - cuja contabilidade está por fazer – não deram a sua vida em vão. O Tribunal Constitucional reconheceu a fraude eleitoral, os três partidos da coligação foram dissolvidos, os seus líderes proibidos de exercer qualquer cargo durante cinco anos e a população que ocupava os aeroportos rebentou num vendaval de lágrimas.
Não posso deixar de reflectir sobre o exemplo de civismo que vem da Tailândia, que hoje recuperou o direito a ser conhecida como “A Terra dos Homens Livres”. Porque é disso que se trata, efectivamente. A democracia emporcalhada que nos impingem a Ocidente, feita de jogos de interesses onde a alta finança dita regras e se perpetua na liderança, através de alguns capangas, e amparada no poder económico que a sustenta, não venceu na Tailândia. Venceu a perseverança de homens que reclamavam justiça e a reposição da verdade. Onde muitos preconizavam uma guerra civil e o regresso da ditadura, ocorreu um belo exemplo de Democracia, sufragada por um Rei que lhe serve de garante.
Ainda não é possível saber, com segurança, como irá evoluir a situação política na “Terra dos Sorrisos”. Se as coisas derem para o torto, vão correr rios de tinta e a situação será mesmo abertura de Telejornais. Se tudo correr bem, como se espera, continuará sem se falar da Tailândia. Os bons exemplos não devem ser muito divulgados, para não estragar a paz podre desta democracia de faz de conta onde o Ocidente se afunda. E, por via das dúvidas, também é melhor omitir o papel importante que o Rei teve na manutenção da Democracia que os partidos no poder se preparavam para entregar nos braços do capitalismo ocidental, sob o epíteto generalista de Globalização.