domingo, 28 de dezembro de 2008

Noite de Natal em Pinamar

O Sol escondeu-se há pouco para além dos Andes. Alguns pedaços de “asado de tira” e de “lechon” jazem ainda no churrasco do jardim, rescaldo de uma ceia farta.
Acabo o gelado de dulce de leche com raspas de limão e afasto-me discretamente para um recanto do jardim, com um copo de cidra.
Ali fico durante uns minutos apanhando o ar fresco da noite, olhar fixo nas estrelas, à espera que me envies um sinal.
Um avião cruza o céu, sem fazer ruído, piscando as luzes. Sigo-lhe o rasto e aterro na esplanada do café de S. João do Estoril onde te vi pela última vez.
Estremeço. Sinto-te a respiração. Pressinto o calor do teu afago. Ouço a tua voz, em surdina, pedir –me um beijo, enquanto te preparo o “mate” com rum.
Lá dentro as crianças, em reboliço, desembrulham as prendas do Menino Jesú.
Não sabem que os algozes que há anos lançaram o avô sobre o Atlântico de Península Valdés, foram libertados por ordem da Justiça argentina.
Ignoram que a tia Patty desapareceu no aeroporto de Ezeiza, levada por militares, perante o desespero e a impotência da irmã, que a esperava para a felicitar pelo casamento.
Sinto a mão de Laura pousar, firme, no meu ombro. Os nossos olhares cruzam-se. Estão marejados de lágrimas. Prenhes de dor e revolta. Recordam uma família destroçada por uma ditadura infame. Sonham uma família que nunca chegou a ser, porque militares filhos da puta lhe negaram o direito de existir.
“Não sabemos se está morta” – diz Laura num sussurro tantas vezes repetido.
A Mercedes interrompe-nos o silêncio cúmplice.
Mummy, Mummy mira! Bolas de sabão desprendem-se –lhe da boquita, entre sorrisos. Vejo-te subir no ar dentro de uma dessas bolas coloridas. Não consigo perceber se estás feliz. Sei que não estás aqui. Que não poderemos repetir a noite de Natal em Ushuaia, onde passámos o último Natal das nossas vidas. Que não voltarei a passear contigo no Parque Nacional de Los Alerces. Que não voltarei a abraçar-te ao pôr do sol naquele rochedo do Guincho. Que não voltarei a preparar-te o mate com rum. Que não deixarei de pensar que tudo poderia ter sido diferente se tivesse partido contigo naquela tarde em que te despediste de mim, na esplanada do café de S. João do Estoril, felicidade estampada no rosto. Partias para dar a boa nova à tua família. Lamentavas apenas que o teu pai, amante de Portugal, do Fado, do Estoril e das touradas, já não pudesse ter a felicidade de te ver casada com um português. Ignorávamos que partias ao encontro da morte, seguindo o destino do teu pai.
Que mal fizeste? Lutar contra a ditadura é crime? Como se chamarão aqueles que lutam para nos negar a Liberdade?
É quase meia- noite. Dentro de alguns minutos o fogo de artifício irá iluminar o mar, abafando o som das ondas a derramar-se na praia.
Cá em cima atearemos fogo ao espantalho da Ditadura, que ficará a arder até ser dia. Um dia havemos de nos reencontrar. Seja quando for, havemos de regressar, numa noite de Natal, à nossa casa de Pinamar. Dançaremos um tango e viveremos uma noite de milongas. Apenas com a Lua como testemunha, iluminando os nossos corpos nus, gritaremos enfim AMERICA LATINA LIBRE!