Boa noite e votos de uma excelente semana.
segunda-feira, 22 de maio de 2017
Memórias em vinil (CXXXIX)
Boa noite e votos de uma excelente semana.
A II Revolução Francesa En Marche?
Ainda é muito cedo para prever o futuro da França de Macron, mas há uma coisa que parece
inquestionável: a aceitação do seu governo a nível interno está em grande parte
dependente da relação que estabelecer com Merkel.
Nas vésperas da
segunda volta das presidenciais, Marine Le Pen disse num comício: “a França será sempre governada
por uma mulher. Ou por mim, ou por Merkel".
Face ao comportamento dos dois últimos presidentes franceses, Marine Le Pen tem razão. Sarkozy e Hollande desbarataram
a popularidade granjeada antes das eleições, por se terem deixado dominar por
Merkel. Sendo quase certo que Merkel ganhará as eleições de Setembro e que a
relação com Macron parece ser bastante empática, se o jovem presidente francês quiser sobreviver, tem de mostrar aos franceses que Le Pen estava enganada. Para isso não pode
cometer os mesmos erros dos antecessores.
A nível interno pode
dizer-se que as escolhas de Macron para
o governo, se não dinamitaram os dois principais
partidos, debilitaram-nos fortemente. As escolhas foram cirúrgicas e provocaram
fortes rombos nas hostes republicanas e
soialistas
Muitos analistas prevêem
a possibilidade de o partido fundado à pressa por Macron poder ter a maioria absoluta nas
legislativas de Junho e dar-se ao luxo de prescindir do apoio dos partidos
tradicionais. Neste cenário, a pedra na engrenagem será uma extrema esquerda mais buliçosa e com mais forte apoio popular.
A confirmar-se esta previsão, será o fim da V República e uma
revolução programática
com forte influência no sistema
partidário francês, cujo exemplo
poderá contagiar outras geografias europeias.
Se Macron não conseguir eleger a maioria dos deputados, mas estabelecer
com sucesso acordos à direita e à esquerda que permitam estabilidade,
assistiremos então a uma revolução mais “douce” e menos programática, mas ainda
com ingredientes inovadores suficientes para se expandir no espaço europeu.
Seja qual for o cenário, não se pode esquecer a força dos
sindicatos em França. Esse é um outro desafio à capacidade negocial de Macron.
Perdida a esperança de construir uma Europa solidária e dado
como adquirido que o mercado de trabalho e o perfil da empregabilidade estão em profunda transformação, Macron terá de
conseguir sensibilizar os sindicatos para essa nova realidade global. Mais do
que discutir salários e regalias é importante estabelecer novas regras para o
mercado de emprego que dignifiquem e valorizem o trabalho.
Sendo Macron um liberal, não se pode esperar que preconize
medidas muito favoráveis aos trabalhadores, mas se conseguir um entendimento
com os sindicatos que permita reduzir substancialmente a taxa de desemprego ( a
redução do horário de trabalho e o aumento das férias poderá ser colocado na
mesa das negociações) poderá amaciar a contestação nas ruas.
Macron tem dado provas de ser inteligente e sagaz. Quero
acreditar que conseguirá levar a bom porto a revolução que preconiza e poderá
influenciar o futuro não só dos franceses, mas também da Europa.
Não são muito claras as posições de Macron face à imigração
e aos refugiados, mas não poderá deixar de interligar estes temas com as questões laborais. E só terá sucesso,
se apresentar propostas inovadoras.
Neste momento pode dizer-se que há uma revolução En Marche
em França. Se irá abortar ou ter
sucesso, é impossível prever, mas uma coisa é certa. O falhanço do projecto
Macron terá como consequência imediata a vitória de Marine Le Pen em 2022.
Esperemos que todos os intervenientes neste processo tenham em
mente o risco de um falhanço. Inclusivamente actores externos, pois o que se
passar em França nos próximos dois ou três anos, será determinante também para
o futuro da Europa.
Impeachment? I don't believe!
Começa a espalhar-se a convicção de que, mais tarde ou mais cedo, será aberto um processo de impeachment para afastar Trump da Casa Branca.
Sinceramente, não acredito que tal venha a acontecer. Pelas mesmas razões que não acreditei quando se colocou a hipótese em relação a Nixon e Bill Clinton. Poder-se-á dizer que o processo de impeachment contra Nixon só não avançou, porque ele se demitiu. É verdade, mas com Trump a situação é diferente: os próprios democratas vêem com alguma relutância a concretização de um processo de impeachment, porque a concretizar-se o lugar seria ocupado pelo vice-presidente Mike Pence.
Ora, por incrível que pareça, Pence é 10 vezes pior do que Trump. Além de Criacionista e homofóbico, xenófobo e acérrimo defensor da retirada de direitos cívicos aos homossexuais, Pence é a encarnação do macaco Adriano. As sua posições homofóbicas posicionam-no como um aliado de Putin e da extrema direita europeia.
Mike Pence tem, pois os mesmos defeitos de Trump, mas é ainda menos inteligente e os interesses que o movem são ainda mais sinistros, podendo contribuir para um retrocesso civilizacional sem paralelo na sociedade americana.
Acresce que as eleições de 2018 poderão alterar a relação de forças no Senado e na Câmara de Representantes, dando maioria aos democratas, mas um processo de impeachment poderá ser-lhes prejudicial
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