Aviso prévio:
Anda meio país a festejar a atribuição de não sei quantas estrelas a restaurantes portugueses. Nesta matéria como sabem os leitores do On the rocks, desde 1 de Abril de 2012, sou relapso.
No entanto, como maioria dos leitores que aportam a este Rochedo não visitam a filial, aqui deixo o texto onde justifico a minha ignorância sobre a nouvelle cuisine. Mais de quatro anos depois, resta-me acrescentar que Rui Veloso estava cheio de razão quando cantava " Não há estrelas no Céu". Pois não, foram todas para os restaurantes...
Não sou grande apreciador da nouvelle cuisine. Apesar de cultivar uma alimentação frugal e adequada à idade, sou mais de sarrabulhos, feijoada à transmontana ou favas com entrecosto, quando amesendo com amigos em prolongado convívio.
No entanto, como (quase) todos os homens, sou fraco perante os exóticos gostos das mulheres e por vezes concedo visitar esses altares da gastronomia, cedendo ao apelo de vozes femininas a quem estes locais onde o preço de uma refeição é inversamente proporcional ao da quantidade de comida que nos colocam no prato, agrada sobremaneira.
Tal como acontece com os títulos nobiliárquicos e a avaliação dos produtos tóxicos pelas agências de rating, nestes restaurantes onde se fala em surdina e os empregados nos rodeiam a mesa como se estivessem a executar um bailado em pontas, enquanto decantam o vinho, o nome dos pratos também é determinante para a elaboração do preço. Já aprendi, por isso, que quanto mais sofisticado for o título do prato colocado na coluna da esquerda das ementas, mais desproporcionada será a relação qualidade preço fixada na coluna da direita.
Apesar de ser uma pessoa mais ou menos familiarizada com os segredos da culinária, não foram raras as vezes em que já me senti tentado a propor a existência de um glossário acompanhado as ementas, para evitar o incómodo de perguntar ao empregado:
“ Desculpe, mas o que é isto de línguas de fettucini com repas de suíno em couli de frutos silvestres?”
Não é que não me tivesse passado pela cabeça que a tradução correcta fosse “ pasta com presunto, ensopada num molho agridoce”, mas nestas situações gosto sempre de confirmar, se um prato daqueles vale mesmo 25€!
Bem, mas neste restaurante a que fui atraído pelos pedidos dengosos de Marlene Vanessa, a tradução até nem era difícil. Havia, por exemplo, “ O prato que a Branca de Neve serviu aos 7 anões”*, que a Ana Zannatti me ensinou a confeccionar nos longínquos anos 80 e que por vezes reproduzo fielmente, para impressionar alguns convivas que aportam ao meu rochedo.
Também não tive dificuldade em interpretar o significado de “ Cama de borreguinho em almofada de cítricos e lençol de frutos do Atlântico”. Não me pareceu nada módico que me cobrassem 20€ por um bocado de borrego recostado sobre uma rodela de laranja com sumo de limão e coberto por umas rodelas transparentes de ananás dos Açores” mas, à falta de alternativas que me fizessem explodir no palato as excrescências salivares, foi este o prato que escolhi.
Já a Marlene Vanessa escolheu, sem hesitações, “Espuma de ruibarbo e rabano com espargos salteados, alcachofra, portobellos e tomate cereja”. Não sei se a escolha teve a intenção de me provar os seus conhecimentos da nouvelle cuisine, ou foi motivada pela sua aposta numa dieta que lhe permita manter firmes as curvilíneas formas que, a cada passada, parecem indecisas entre saltar da blusa prudentemente desabotoada no topo, ou pela generosa racha da saia que permitia antever o prazer do pecado da carne.
Sei, é que Marlene Vanessa recusou o “amuse bouche” de anchovas de escabeche com raspas de tomate, cebola e coentros, que nos serviram para amenizar a espera e invocar o néctar de Baco, criteriosamente por mim escolhido. Exibindo os conhecimentos adquiridos na Faculdade de Medicina – que garante aplicar nas dietas nutricionais prescritas aos seus pacientes- Marlene teceu uma longa dissertação sobre os malefícios das anchovas para a pele que apenas me despertaram o apetite para abocanhar a dose dela. Porém, o recato que um homem deve ter nestes locais inibiu-me de o fazer e, se lamentei não estar a jantar no tasco do senhor Alexandre, para deixar a gula em roda livre, logo me reconfortei ao pensar que outros pitéus me poderiam estar reservados para mais tarde.
O jantar decorreu naquela conversa pisca-pisca que deixa sempre no homem a dúvida de estar a ser cana de pesca ou isco para o anzol. Quando, no momento de pedir o café, sugeri um digestivo, Marlene Vanessa colocou o duque de trunfo na mesa, cortando-me a manilha de copas:
“ Já é um bocado tarde e gostava que fosses lá a casa para me dares a tua opinião sobre dois quadros que comprei no fim de semana. Podíamos tomar lá o copo. Que te parece?”
Neste momento, se o protagonista masculino fosse Santana Lopes, talvez tivesse pensado que estava a ouvir o tão famoso concerto para violinos de Chopin , mas como eu sou pessoa buçal e de gostos simples apenas pensei: “Que se lixe! Quero lá saber se sou cana ou isco…o importante é que haja pescaria!”.
E foi assim que, a pretexto de apreciar duas obras de arte, algumas horas mais tarde estava a apreciar pormenorizadamente os relevos de uma outra que não vinha no catálogo, mas tinha a preciosa vantagem de falar e ser sensível ao toque.
Deitado na cama perfumada de Marlene Vanessa, não senti falta dos lençóis de frutos dos Açores, nem da almofada de cítricos. Lembrei-me apenas da Branca de Neve e das vantagens da “nouvelle cuisine”.
*“ O prato que a Branca de Neve serviu aos 7 anões” é um gratinado onde o ingrediente base é o queijo da serra.Ou melhor, a casca...