quinta-feira, dezembro 19, 2019

um parágrafo de Alves Redol

«A terra daquele cemitério era sua, como a aldeia e tudo o que lhe ficava à volta. E ali era ele quem mandava. Já marcara o lugar para o genro -- seria metido num dos jazigos da família, no dos aparentados, ao pé das mulheres, das crianças e dos homens; de certos homens que disso pouco mais tinham do que o corpo. De cova aberta no chão, bem funda, só os que davam à terra o que ela merecia.Tradição herdada do avô, não seria ele quem iria traí-la, porque ali estava, sozinho, podia dizê-lo, desde os quinze anos, de dentes cerrados e corpo jogado para diante na mesma luta sem quartel.» Barranco de Cegos (1961)

a música em 2006: «As Atrizes»

terça-feira, dezembro 17, 2019

«Leitor de BD»

A Toutinegra, de André Oliveira e Bernardo Majer
e Modesto e Pompon, de Franquin


«Out of the Shadows»

segunda-feira, dezembro 16, 2019

RTP. conversa fiada e 135 assinaturas

Não antipatizo com Maria Flor Pedroso nem tenho simpatia extrema por Sandra Felgueiras, e também não tenho acompanhado ao pormenor a questão que levou à demissão da primeira do lugar de directora de informação da RTP.
O tipo de jornalismo que faz Pedroso não me interessa nada, é um jornalismo de salão pelos meandros dos estado-maiores partidários, da intriga política. É esse o jornalismo que a caracteriza, fazendo-o porém tanto quanto me é dado perceber com isenção. Já o jornalismo de Felgueiras é muito mais importante, correndo, porém, o risco de cair no sensacionalismo, o que normalmente creio não acontecer.
O jornalismo é afectado por duas pragas que o destroem: dorme demasiadas vezes na cama do poder e prostitui-se ao sensacionalismo, sendo os lenocidas os donos dos órgãos que recorrem a semelhantes práticas. Ora creio que nem uma nem outra podem ser acusadas desses defeitos.  
Se a questão do programa sobre o lítio na Serra do Barroso, cuja emissão foi adiada para depois das eleições me causa algumas dúvidas -- se eu fosse director de informação talvez não permitisse que um programa com óbvias interferências na campanha eleitoral fosse para o ar, nas condições miseráveis em que se faz política agora -- até porque o assunto não perderia actualidade por uma semana ou duas, como se vê.
o caso relatado que a leva à demissão parece-me ser insustentável e tal decisão só perca por tardia. Pelos vistos a ex-directora de informação disse uma coisa na reunião do conselho de redacção e escreve outra hoje. Se é a versão de hoje que está correcta, a demissão e respectiva justificação não fazem qualquer sentido, o que me leva a concluir que de facto a senhora interveio no decurso de uma reportagem de uma colega (e subordinada) sua. A circunstância de não ter ido à reunião do conselho de redacção marcada para esta tarde, como estava previsto, só vem confirmar essa ideia.
Mas o que mais me chateia nisto, porém, é a conversa da treta dos comunicados que pretendem lançar areia para os olhos do público: se a senhora não fez nada do que foi acusada pela colega, não tem nada de demitir-se nem o conselho de administração da RTP aceitar a sua demissão. Portanto, balelas.
Faz-me também impressão o movimento de 135 jornalistas, entre grandes profissionais e irrelevâncias, a defesa acérrima de uma (estando embora no seu direito de exercer o direito à amizade); no entanto, e isso é que me faz confusão, a defesa de uma é -- ou parece ser -- a implícita condenação de outra, por parte desses mesmos 135 colegas. Ora se a primeira admitiu ter interferido no trabalho da segunda, duma forma assaz contestável, boicotando objectivamente o trabalho da sua equipa, admissão essa confirmada pela sua assinatura em acta -- o que levaria qualquer pessoa com dois dedos de testa a perceber que deixara de ter condições para continuar directora de informação -- parece-me que os 135 amigos, colegas e jornalistas fizeram o papel de 135 idiotas inúteis.

a música em 1999: «Mon amie la rose»

criadores & criaturas



Hermann, Greg e Comanche e Red Dust



sábado, dezembro 14, 2019

a música em 1980: «Fool For Your Loving»


JornaL

André Vergonha. Ao contrário do que diz Pacheco Pereira, não é policiamento de linguagem, é puxar as orelhas a um senhorito mal-criado, para cuja espertalhice pessoas duma certa idade não têm cu. Na vox pop é conhecido pelo tipo que "diz as verdades", ah ah ah.

Brexit. Que vergonha aquele Corbyn, que nulidade, que idiota! Nem com eleições decorridas há meses percebeu o quer teria de fazer para alcançar o poder. Tem razão ao queixar-se da imprensa negativa, manejada pelas putéfias de turno. Mas não chega para explicar aquela miséria.

Caretos de Podence. Acho maravilhoso, espero que não seja tomado pela indústria do Turismo. Pedro Caldeira Cabral diz que o pior que poderia ter acontecido ao fado foi a sua classificação pela Unesco. É possível, a reflectir. Ah, na notícia ouvida numa tv qualquer nada sobre a mesma classificação da Morna e das festividades do Bumba Meu Boi, do nordeste brasileiro, expressões culturais também com raízes portuguesas. mas nem seria preciso. Então não há a CPLP, os Palops, a Lusofonia e outras semitangas?

orquestrais & concertantes: Bartók, CONCERTO para piano #3 (1945) / Schiff, Rattle

JornaL - novidades: a bandeira portuguesa foi mesmo colonialista, portanto,ó Telmo, não digas asneiras

Já tem dias, mas não quero deixar passar. Sou um fã de Telmo Correia, acho que é um estrénuo comentador do SLB e oiço sempre com prazer, no carro, no programa «Grandes Adeptos», da Antena 1, muito melhor e mais divertido que os estendais televisivos da grunhice. E até costuma fazer-me sorrir, pela forma como pica os tipos do FCP e do Sportém. Não é pois o Telmo Correia adepto do Glorioso, mas o político (está a ficar-lhe tão bem, o Chega, é ver o sorrisinho alvar do quarentenado das traseiras).
A Joacine Katar Moreira chega para três telmos, não precisa de defesa. Mas o incidente que o nosso adepto quis levantar com velhacaria foi a tal história de a bandeira portuguesa ter sido colonialista. Pois o Telmo deveria saber que até ao 25 de Abril não foi ela outra coisa. Colonialista, representando tudo o que de asqueroso o colonialismo encerra. -- desde que podemos começar a falar de colonialismo, sem anacronismos analfabetos ou ideologicamente contaminados, claro. A História não é para amadores.
Por outro lado, há aqui uns herdeiros do Estado Novo que me fatigam. Então Portugal não era do Minho a Timor? Não eram os fulas os os macondes tão portugueses quanto os transmontanos e os algarvios? Decidam-se, pá; façam movimentos para salvar os nossos compatriotas à beira-Limpopo da opressão de serem governados por si próprios, caramba! 

sexta-feira, dezembro 13, 2019

a música em 1975: «Diamonds And Rust»

«Leitor de BD»


sobre Folia de Reis, de Marcello Quintanilha
e Persépolis, de Marjane Satrapi

quinta-feira, dezembro 12, 2019

a música em 1964; «And I Love Her»

quem mais poderia ser?



miúda admirável, na inversa medida da ralé ignara e (in)útil que se permite avaliá-la com sobranceria

quarta-feira, dezembro 11, 2019

a música em 1957: «Blues In The Night»

um parágrafo de Ferreira de Castro

«Uma voz, longínqua, débil, como se saísse do centro de uma montanha e chegasse até Soriano filtrada pela terra, discordava, vagamente, do que a irmã e o filho lhe diziam. Mas ele transigia, em obediência a uma preguiça espiritual que, outrora, não tinha. E a sua discordância parecia vir mais de um "eu" antigo, que jazia dentro dele, apagado como um resíduo de carvão, do que do seu "eu" presente, daquele que nesse momento vivia.» A Curva da Estrada (1950)

terça-feira, dezembro 10, 2019

a música em 2010: «Kokpa»


um parágrafo de José Eduardo Agualusa

«Fisicamente, Caninguili devia poucas graças ao Criador. Ezequiel gostava de se referir a ele chamando-o de "o nosso sapinho capenga"; e assim resumia a feiura do designado, o seu escasso metro e sessenta e o facto de mancar da perna esquerda. Quando falava, porém, com aquele seu jeito manso de acariciar as palavras, operava-se em Caninguili uma transformação sensível e tudo seria nessa altura menos certamente um sapo. Capenga! Razão por que, gatigado já da velha pilhéria, Alfredo Trony repreendera certa vez Ezequiel observando-lhe que sempre houvera no mundo príncipes disfraçados de sapos e sapos disfarçados de príncipes:» A Conjura (1998)

a música em 2002: «Quelqu'un m'a dit»

segunda-feira, dezembro 09, 2019

erotica


Jacqueline Bisset

a música em 1993: «Lone Rhinoceros»

um parágrafo de Abel Botelho

«Dali o barão, um pouco à vontade, mais fora do alcance de encontros inoportunos, continuava a perscrutar com exclusivismo ardente as imediações do Circo fronteiro. Ao descortinar na sombra dos extremos da rua qualquer escorço vago de adolescente que viesse a crescer, aproximando-se, o seu olhar piscante de míope contraía-se numa crispação de expectativa angustiada, e seguia-lhe vorazmente os movimentos, até poder analisá-lo, adivinhá-lo bem na conformação, no tipo, na plástica, no modo de vida provável, nas predilecções sensuais do temperamento, quando o rapaz entrava na zona duramente iluminada pelo renque de bicos de gás tremebrilhando sobre o portal do Circo.» O Barão de Lavos (1891)

a música em 1980: «12 O'Clock High»

domingo, dezembro 08, 2019

«Warning».

a música em 1974: «Earthrise»

um parágrafo de António Lobo Antunes

«Usava um treçolho perpétuo e cheirava não a noite como toda a casa mas já a hora do jantar e a cansaço sob a bata de sarja. Cheirava a depois da sobremesa, quando levantava os pratos, ligava a máquina e desaparecia no seu cubículo, sem se lavar, a espalhar em redor um odor melancólico de cabra. Cheirava ao que cheira hoje em dia, quase dez anos depois, em que me trata por tu, se afoga em colares de pechisbeque, e se instala ao meu lado nos assentos forrados de pele de vitela do carro, segurando a mãos ambas o guiador de verniz da carteira. Mas no tempo de que falo, no tempo deste livro, afastei a compota, recusei a torrada, provei o café a que faltava açúcar. O relógio da cozinha marcava vinte e cinco para as nove. A criada ergueu o braço, para puxar a lata de bolachas de baunilha de uma prateleira alta, e os seus aromas aumentaram: Um biscoito para o caminho, senhor doutor. As árvores da embaixada da Bolívia despiam-se de sombras. Obrigado, disse eu enquanto os cotovelos se retraíam como os leques se fecham, ofendidos: se tiver fome há uma pastelaria mesmo em frente ao consultório, não vale a pena maçar-se.» Auto dos Danados (1985)

a música em 1969: «All Shook Up»

sexta-feira, dezembro 06, 2019

um parágrafo de Eça de Queirós

«Cintinho, porém, no seu aferro de sombra, não se quis arredar da Teresinha Velho, de quem se tornara, através de Paris, a muda, tardonha sombra. Como uma sombra, casou; deu mais algumas voltas ao torno; cuspiu um resto de sangue; e passou, como uma sombra.» A Cidade e as Serras (póstumo, 1901)

a música em 1944: «White Christmas»


quinta-feira, dezembro 05, 2019

Greta Thunberg em automotora diesel

Se tivessem feito a merda do tgv, em vez de o usarem em chicana política (a propósito: e o debate ontem do PSD? O deserto e a miséria intelectual do costume*); se já o tivessem construído, escusava a Greta Thunberg de ir de automotora diesel até Madrid, num tempo recorde de 13 horas para lá chegar. Digam lá se este país não dá vontade de rir?... (*Rir, ri-me a valer ontem com a coça que o Rio deu aos dois incríveis).

a música em 2017: «Walking in the Air»

quarta-feira, dezembro 04, 2019

50 discos: 38. PETER GABRIEL (1980) - #7 «Games Without Frontiers»



a música em 2001: «Sing»

um parágrafo de Mário de Sá-Carneiro

«Ah! foi bem curta -- sobretudo para mim... Esses dez anos esvoaram-se-me como dez meses. É que, em realidade, as horas não podem mais ter acção sobre aqueles que viveram um instante que focou toda a sua vida. Atingido o sofrimento máximo, nada já nos faz sofrer. Vibradas as sensações máximas, nada já nos fará oscilar. Simplesmente, este momento culminante raras são as criaturas que os vivem. As que o viveram ou são, como eu, os mortos-vivos, ou, apenas, os desencantados que, muita vez, acabam no suicídio.» A Confissão de Lúcio (1916) 

a música em 1990: «Galway Shawl»

«My Brave Face»

um parágrafo de Joaquim Paço d'Arcos

«Na noite que caía, envolvendo em sombras a figura de mulher que tanta dor exprimira, já mal se distinguiam as feições magoadas por um rictus de sarcasmo e de revolta. A voz embargara-se-lhe, porém, num soluço que não pudera abafar ao proferir as últimas palavras e ao evocar o filho. Interrompeu-a ele nessa altura para tentar acalmá-la:» Ana Paula (1938)

segunda-feira, dezembro 02, 2019

um parágrafo de Camilo Castelo Branco

«Fernão Botelho, pai do juiz de fora, saiu à frente do préstito para dar a mão à nora, que apeava da liteira, e conduzi-la à de casa. D. Rita, antes de ver a cara de seu sogro, contemplou-lhe a olho armado as fivelas de aço, e a bolsa do rabicho. Dizia ela depois, que os fidalgos de Vila Real eram muito menos limpos que os carvoeiros de Lisboa. Antes de entrar na avoenga liteira de seu marido, perguntou, com a mais refalsada seriedade, se não haveria riso de ir dentro daquela antiguidade. Fernão Botelho asseverou a sua nora que a sua liteira não tinha ainda cem anos, e que os machos não excediam a trinta.» Amor de Perdição (1862)

tinha-me esquecido deste




Josh Cooley
(no início do Verão, pedi aos meus filhos para me levarem ao cinema)


a música em 1958: «Acércate más»

um parágrafo de Augusto Abelaira

«Fazio desviou os olhos do casaco azul, já coçado, do amigo, folheou sem grande atenção um jornal. As notícias do estrangeiro: Chamberlain dirigindo-se a Mussolini no banquete do Palácio de Veneza: "É um prazer observar esta Itália poderosa e progressiva que surgiu sob a direcção e inspiração de Vossa Excelência", as tropas nacionalistas a setenta quilómetros de Barcelona. As notícias do país: Alguns guerrilheiros mortos na Abissínia, a inauguração dum quartel, uma frase: "A igualdade perante a lei é concedida a todos aqueles que ajudem a causa nacional e não recusem a sua colaboração ao Estado". Não estivesse a frase sublinhada por Domenico, e Giovanni não teria dado por ela.» A Cidade das Flores (1959)

domingo, dezembro 01, 2019

a música em 1945: «Adeste Fideles»

um parágrafo de Coelho Neto

«E, aqui na intimidade inviolável deste canhenho, confesso que admirei o homem vigilante que saíra ao meu encontro com tanta afabilidade, oferecendo-se para conduzir-me à casa. Calculei que toda a gente devia estar enfronhada no morno leito, gozando a delícia incomparável do sono, nessa noite fresca e de chuva. Além, nesse eremitério onde repousa o meu umbigo, às dez horas, a não ser em casa de Mariano Gomes, onde se carteia impudentemente o lansquenet, com pequenos intervalos de maledicência e gole, toda a povoação, beatamente ceada e rezada, dorme. De longe em longe, uma luzinha treme, traçando no pó soalheiro dos caminhos uma risca luminosa -- é algum jogador, que se recolhe despojado e trôpego, ou o santíssimo padre Coriolano, que anda a correr o aprisco, a ver se alguma ovelha bale, roída pelo arrependimento do pecado, que é uma chaga terrível que a gente cura com as drogas da filosofia ou com a boa e sadia campónia, que, mais do que os santos, sabe levar os seus eleitos ao Paraíso, por um caminho bem diferente desse que a igreja conspícua e autera manda que se trilhe -- ninguém mais.» A Capital Federal (1893)

a música em 1937: «Good Morning Blues»

erotica


Rosamund Pike

sábado, novembro 30, 2019

a música em 2015: «Violent Motion Pictures»

um parágrafo de Aquilino Ribeiro

«Do pinhão, que um pé-de-vento arrancou ao dormitório da pinha-mãe, e da bolota, que a ave deixou cair no solo, repetido o acto mil vezes, gerou-se a floresta. Acudiram os pássaros, os insectos, os roedores de toda a ordem a povoá-la. No seu solo abrigado e gordo, nasceram as ervas, cuja semente bóia nos céus ou espera à tez dos pousios a vez de germinar. De permeio desabrocharam cardos, que são a flor da amargura, a abrótea, a diabelha, o esfondílio, flores humildes, por isso mesmo troféus de vitória. Vieram os lobos, os javalis, os zagais com os gados, a infinita criação rusticana. Faltava o senhor, meio fidalgo meio patriarca, à moda do tempo.» A Casa Grande de Romarigães (1957)

«Mellow Yellow»

quinta-feira, novembro 28, 2019

a música em 1990: «Fields Of Athenry»

acordo de 'cavalheiros' ou as notícias que ficam esquecidas, por estragarem narrativas

Afinal, não houve atraso nenhum de Joacine Katar Moreira e da sua equipa na apresentação da iniciativa sobre a Lei da nacionalidade; simplesmente, havia um acordo de cavalheiros não escrito e que, portanto, não faz parte do 'regimento' da Assembleia da República, quanto a prazos -- acordo que vem da legislatura anterior, e que não havia sido comunicado à deputada do Livre.
Claro que esta notícia só escavando é que se encontra, o que é preciso é continuar a ladrar e alimentar telenovelas. Ainda esta manhã, na TSF, a intriga se renovava, com a notícia da demissão de um fundador do partido, e requentava. Mas quanto àquela notícia -- relevante, para o esclarecimento da informação bombástica de ontem, que era a do Livre ter falhado os prazos numa iniciativa legislativa que era uma sua bandeira --, nem uma palavra. Curiosamente, ainda ontem a criatura que dirige a informação lá do posto, do alto da nulidade analítica que lhe desassiste, concluía, um mês depois da tomada de posse, que a deputada não tinha condições para continuar a exercer o mandato. E é isto um director de informação.
Perante este esta matilha, faço votos nitzscheanos para a fortaleza de Joacine, dentro do Livre e nos carris, sempre em bitola variável, claro está...

quarta-feira, novembro 27, 2019

a música em 1989: «Baticum»

um pouco menos de ruído, se faz favor

Como não há para aí cão, gato ou bicho careta que não fale do Livre, eu que tenho sempre falado, e assinei para a sua formação, direi o seguinte:
1. Votei primeiro no Livre, e depois em Joacine; e assim continuarei, enquanto achar o Livre interessante -- aliás a única coisa que suscita interesse naquele hemiciclo, para além do PCP, por razões meramente históricas (sem menosprezo).
2. Joacine foi para mim uma magnífica surpresa, mesmo com uma visão da História discordante da minha.
3. Joacine enriquece o Livre, portanto faz-lhe falta.
4. Joacine 'precisa' do Livre, pois por muito inteligente, por muito gaga, por muito negra e por muito gira (que o é -- ah, o meu sexismo, impenitente e militante) que seja, é o Livre -- enquanto for o Livre -- que lhe dá brilho. Joacine sem Livre é de menos; Joacine no Berloque, no PC, no PS, seria de menos, e sozinha ainda mais de menos.
5. Ao contrário do que tenho ouvido dizer, o que me interessa no Livre é a forma quase libertária como o partido se estrutura. Apresenta dificuldades? Claro que sim -- é muito mais fácil todos responderem às ordens do dono ou do chefe. O sucesso do Livre prende-se mesmo com esta visão que os comentadores à esquerda criticam; para ser uma réplica dos outros, não me apetece.
6. A piada fácil adeja; deve dar um gozo do caraças gozar com o Rui Tavares e aproveitar para fazer amochar a Joacine, tão saliente, não é verdade? Até o rebotalho dos fedorentos andam a ganhar a vida à conta.
Como votante, e entusiasta do projecto, sugiro mais afinação e menos ruído, senão, não.

no LEFFest #6


Abel Ferrara, Tommaso (Itália, 2019)
«Selecção oficial - em competição» (filme vencedor)



terça-feira, novembro 26, 2019

segunda-feira, novembro 25, 2019

domingo, novembro 24, 2019

no LEFFest #4 (uma obra-prima)


Chistian Petzold, Phoenix (Alemanha e Polónia, 2014)
(«Homenagem Christian Petzold»)


a música em 1941: «Gloomy Sunday»

no LEEFest #3


Paul Schrader, Auto Focus  EUA, 2002
Homenagem Willaem Dafoe


a música em 1939: «Fine And Mellow»

no LEFFest #2




Wes Anderson, The Life Aquatic with Steve Zissou / Um Peixe Fora de Água (EUA, 2004)
Homenagem Willem Dafoe


sábado, novembro 23, 2019

polícias: degradações, um gesto e uma pergunta

Degradação 1: o entrincheiramento dos deputados em face de uma manifestação de agentes de segurança e representantes da autoridade do estado democrático, demonstra a má consciência dos partidos do poder: PS, PSD e CDS -- este a mostrar querer competir com o Chega, o que lhe proporcionará um triste fim, e será bem feito, o outro faz muito melhor esse papel. O Telmo Correia que vá comentar o Benfica, que é o que ele faz bem (SLB, SLB, etc...)

Degradação 2: as condições de trabalho e os vencimentos de PSP e GNR mostram bem que se estão a marimbar para eles. É natural que eles se sintam desrespeitados. Curiosamente, o mesmo não se passou com os magistrados do Ministério Público… Ah, esta politicalha.

Degradação 3: a PSP e a GNR cantando o hino de costas para a Assembleia da República, mesmo que esta se tenha posto a jeito (ver 1)

Degradação 4: a infiltração nas polícias dos movimentos populistas e de extrema-direita. Os inocentes deixam-se manipular.

Gesto: vi um sindicalista da polícia puxar as orelhas ao espertalhão do Chega, e a declarar perante as câmara o repúdio por este aproveitamento.

Sabe-se, por acaso, quanto gasta o estado, em todos os níveis da administração, com sinecuras e inutilidades (autopromoções e propaganda em proveito próprio, viagens, motoristas, assessores, cartões de crédito)? Aposto que não…


no LEEFest #1


Robert Eggers, The Lighthouse (EUA, Canadá, 2019) - Selecção oficial - Fora de Competição


quinta-feira, novembro 21, 2019

quarta-feira, novembro 20, 2019

o génio de José Mário Branco: a transgressão na tradição, ou vice-versa

transformar a banalidade em brilho. Sempre foi assim (embora por vezes também fosse um chato, um chato genial, vamos lá). Detestara o fado por más razões. (Então o fado não é o nosso blues?...) Até que se encontrou com ele: 2 fados 2 no Ser Solidário, grandes fados. E depois de o encontrar, faz o Camané, faz isto, com a maravilhosa Katia Guerreiro. E isto é revelador de uma segurança, de um conhecimento profundo, de um amor à música, e neste caso ao fado, que é o que lhe permite a transgressão, ou seja, o avanço, ou seja, o progresso, ou seja, a revolução. Sempre coerente.

"hoje já poderiam estar os 'caterpillares' a funcionar no Montijo"

Raras vezes ouvi em público tal brutal desfaçatez da ganância, como na entrevista deste senhor à Antena 1 e ao JE. A dos caterpílares é uma; outra é a lógica de merceeiro, expendida sem pudor: se os turistas não vierem para aqui irão para outro lado. Rebentar com o país por causa do turismo... Tudo isto é nauseante. Continuo a dizer que uma boa maneira de todos os portugueses de bem se manifestarem contra este processo lesivo e muito duvidoso será o da resistência contra este processo feito despudoradamente nas nossas barbas. E nós, mansíssimos, fracos, alienados, deixamos.
No caso de a construção ser aprovada, com a desculpa dos cinquenta anos que levamos para decidir, sem que tenham sido ponderadas e explicadas todas as hipóteses, como é obrigação do governo,  tenho esperança de que a malta na casa dos vinte e trinta, que ainda não está conspurcada pelo cacau -- no fundo, é só disto que se trata -- esteja na linha da frente dessa resistência activamente pacífica, cercando, ocupando, inviabilizando qualquer trabalho.
(E ainda não foi hoje que falei das aldeias do lítio).