Grupos Naturais – Dar Pano para Mangas /Dar Parte a / de / Dar Parte de Doente / Dar Parte de Fraco / Dar Pateada

Dezembro 6, 2019 - Leave a Response

 

Grupos Naturais – combinação de grupos a dois, associados naturalmente, frequentemente verbo-substantivo, constituindo expressões vulgarizadas pelo uso.

Apresentação de alguns exemplos:

 

Dar pano para mangas – oferecer muita matéria para discutir, trabalhar.

      Ex.: O tema escolhido pela Vitória dá pano para mangas; nem ela imagina!

 

Dar parte a / de – comunicar, participar; apresentar queixa.

Ex.: A Maria deu parte à polícia do assalto de que fora alvo.

O João, que reconheceu o ladrão, deu parte dele à autoridade.

 

Dar parte de doente – declarar-se doente por meio de documento médico.

      Ex.: Esta semana o Sr. José não está ao serviço; deu parte de doente.

 

Dar parte de fraco – dar-se por vencido.

      Ex.: A Esmeraldo não gosta de caldeirada, mas não deu parte de fraca, e comeu o que a anfitiã lhe pôs no prato.

 

Dar pateada – manifestar o seu desagrado ruidosamente.

Ex.: O filme tinha cenas que eram uma desgraça. Os espectadores deram pateada.

 

(continua)

Maria Andresen – [Apenas os Ventos…]

Dezembro 6, 2019 - Leave a Response

 

Apenas os ventos que sempre amaram a casa rude e retraída

apenas eles assobiam sobre o sítio, ponderosos e longos

assobios, no seu correr desatinado; como

só informe e não humanos pode ser o pranto

 

Manto devido, em que não tocamos.

 

ANDRESEN, Maria, Livro das Passagens

 

Maria Andresen (Porto, 1948)
Poetisa, coautora dos Cadernos de Literatura, ensaísta, professora na FLL, licenciada em Filologia Românica, mestre em Ensino da Literatura, doutorada em Literatura Comparada, filha da poetisa Sophia de Melo Breyner Andresen.

Literatura Africana de Expressão Portuguesa, Angola – Manuel Rui – Poesia Necessária

Dezembro 6, 2019 - Leave a Response

 

1

 

De palavras novas também se faz país

neste país tão feito de poemas

que a produção e tudo a semear

terá de ser cantado noutro ciclo.

 

2

 

É fértil este tempo de palavras

em busca do poema

que foge na curva das palavras

usadamente soltas e antigas

distantes das verdades dos rios

do quente necessário das brasas

do latejar silencioso das sementes

dentro da terra

quando chove.

 

3

 

Proponho um verso novo

para as laranjas (por exemplo) matinais

e os namorados

com que havemos de encher todos os dias

os mercados.

 

4

 

Proponho um verso novo

para as guelra do peixe sem contar

para a abundância da carne

e a liberdade das aves desenhada

no amor das escolas

dos campos

e das fábricas.

 

5

 

Proponho um verso novo

para o leite obrigatório em cada dia

e a medalha olímpica

que o riso das crianças já promete.

 

6

 

Proponho um verso novo

para o milho a mandioca suculenta

o amadurecido cacho de dendém

alegre na fartura dos dedos

e das bocas.

 

7

 

Produzir na palavra

É semear e colher

É cumprir na escrita

A produção.

 

8

 

Produzir na palavra

É cantar no poema

Todas as raízes

Deste chão.

 

Manuel Rui (Nova Lisboa, Angola, 1941)
Poeta, cronista, crítico, ensaísta, professor de literatura, colaborador em jornais, revistas e programas de rádio e cinema, advogado, fundador e membro da União dos Artistas e Compositores Angolanos, da Sociedade de Autores Angolanos e da União de Escritores Angolanos.

Manuel Gusmão – Variações do Branco

Dezembro 6, 2019 - Leave a Response

 

Ergues o olhar: surpreendes por instantes essa hora

em que o mundo envelhece: ténues as variações do branco

parecem dissolvê-lo numa longínqua música, anterior à chuva

 

Ou será então a imagem submersa de um filme a preto e branco

 

Há próximo um branco vibrante: o da cal ainda recente

mas que a humidade salina já a espaços mordeu,

recortando as feridas cinza na varanda a que vens.

 

Não há ninguém aqui. Quem te chame, digo.

 

Há o branco baço na parede que em frente em vão separa

rua e praia. Tendo já transposto essa fronteira incerta

ou erguendo-se para lá dela há o branco pobre da areia:

 

As dunas plenárias sustentam os corpos deitados de mar e céu.

Aí é agora o grande branco: o clarão velado e difuso

que guarda e distribui a memória embaciada do azul

e do verde, do oiro e da prata — uma lembrança vã.

 

Tu escreves no visível do mundo essa névoa branca e desolada

 

que o motor da paisagem produz. As folhas do ar são como

se fossem as levíssimas pétalas, as vagas sílabas de uma neve –

e essa névoa engolfa, atrasa e apaga na travessia os simulacros

 

das coisas supostas e imaginadas que o mundo te envia

enquanto esperas por alguém que não virá

 

GUSMÃO, Manuel, Migrações do Fogo

 

Manuel Gusmão (Évora, 11/2/1945)
Poeta, ensaísta, tradutor, colaborou em diversas publicações, fundador das revistas: Ariane e Dedalus, coordenador da revista Vértice desde 1988, professor universitário.

Manuel António Pina – Ouro e prata

Dezembro 6, 2019 - Leave a Response

 

A flor amarela

era a da urze?

E a de prata

a da giesta?

 

Pouca coisa são as palavras

e é o que me resta,

o seu ouro derramado

sobre as lembranças:

 

a palavra urze, a palavra giesta,

os nomes das primeiras esperanças,

o meu nome tantas vezes sussurrado

de tantas maneiras indiferentes!

 

PINA, Manuel António, Todas as Palavras, poesia reunida

 

Manuel António Pina (Sabugal, 18/11/1943 – Porto, 19/10/2012)
Poeta, autor de literatura infanto-juvenil, dramaturgo, ficcionista, jornalista, licenciado em Direito.
Galardoado com o Prémio Camões em 2011.

Manoel de Barros – Tratado Geral das Grandezas do Ínfimo

Dezembro 6, 2019 - Leave a Response

 

A poesia está guardada nas palavras — é tudo que eu sei.

Meu fado é o de não saber quase tudo.

Sobre o nada eu tenho profundidades.

Não tenho conexões com a realidade.

Poderoso para mim não é aquele que descobre ouro.

Para mim poderoso é aquele que descobre as insignificâncias (do mundo e as nossas).

Por essa pequena sentença me elogiaram de imbecil.

Fiquei emocionado.

Sou fraco para elogios.

 

Manoel Wenceslau Leite de Barros (Brasil, Cuibá, 19/12/1916 – Campo Grande, 13/11/2014)
Poeta, galardoado com diversos prémios literários,  advogado.

Luísa Ducla Soares – Poesia

Dezembro 6, 2019 - Leave a Response

 

Para mim poesia é

realismo e fantasia num

esquema hipertenso e eu

só me pertenço quando a

imaginação tem o

tamanho da minha mão.

Então

é prosa vivida em

circuito de acção.

 

Luísa Ducla Soares (Lisboa, 20/7/1939)
Poetisa ligada ao grupo Poesia 61, destacada escritora de literatura infantil, licenciada em Filologia Germânica.

Gentílicos ou Pátrios de Estados e Territórios – Ucrânia; Uganda; Uruguai; Usbequistão; Vanuatu; Venezuela; Vietname; Wallis e Futuna; Zâmbia; Zimbabué

Dezembro 6, 2019 - Leave a Response

 

Gentílicos ou pátrios – nomes que indicam: nacionalidade, origem ou lugar de nascimento, residência de alguém ou proveniência de alguma coisa.

Eis alguns, de estados e territórios:

 

Ucrânia ————————————————————– ucraniano

Uganda ————————————————————— ugandês

Uruguai ————————————————————— uruguaio

Usbequistão ———————————————————- usbeque

Vanuatu ———————————————————— de Vanuatu

Venezuela ——————————————————– venezuelano

Vietname –———————————————————- vietnamita

Wallis e Futuna ———————————————   de Wallis e Futuna

Zâmbia ————————————————————– zambiano

Zimbabué ——————————————————– zimbabuense

 

FIM

Luiza Neto Jorge – Eu, artífice

Novembro 27, 2019 - Leave a Response

 

Atento agora ao traço,

corrijo o mais da matéria,

ego a minha arte do poço

onde flutua.

 

Como o brilho se desprende

do metal mais bravo,

no forro de cada um

o desgaste é tanto

 

que eu, artífice, colho

o que de mim alimenta,

falo do que estou sendo,

da sua mão em desordem,

dos passos, das lágrima baixas

que se vão constituindo.

 

Luiza Neto Jorge (Lisboa, 1939 – Lisboa,1989)
Poetisa e tradutora, escreveu para o teatro e para o cinema, é considerada a personalidade poética mais importante da Poesia 61.

Luísa Dacosta – Quotidiano

Novembro 27, 2019 - Leave a Response

 

As mulheres afadigam-se

a estender a migalha de sargaço

que a nortada trouxe à beirada.

Mesmo à mão, sem graveta.

Interrompo o meu cerzir de escrita

e abarco-as num golpe de olhar.

Longe, num rosal de espumas,

cruzam-se duas traineirinhas:

uma entra, em direcção à Póvoa,

outra sai, rumo ao largo.

 

Luísa Dacosta (Vila Rela de Trás-os-Montes, 16/2/1927 – Matosinhos, 15/02/2015)
Escritora de literatura infantil, poetisa, contista, ensaísta, crítica literária, tradutora, colaboradora de jornais e revistas, professora, licenciada em Histórico-Filosóficas.