20 dezembro 2019

kitsch de Natal

Esta manhã ia-me desgraçar no Boden, que está com saldos de 50% - ia-me desgraçar à grande e à francesa, mas por sorte estava tudo esgotado.

Maravilhosa sociedade de consumo, que me permite choques de adrenalina sem mandar a minha conta bancária para a psiquiatria.

(Não, senhores, não tenho uma neta secreta. É cá coisas, não preciso de explicar tudo. E também não, não sou maluca a ponto de ir fazendo um enxovalzinho por conta de eventuais netos.)




19 dezembro 2019

estes filhos




Estes dois têm agora 22 e 25 anos, e anteontem vieram dormir a nossa casa para fazerem uma surpresa ao pai na madrugada do seu aniversário: acordá-lo a cantar, com as prendas, as velas e o bolo - a nossa tradição familiar.

Há muitos anos ouvi um pai dizer que o maior prazer da vida é ter filhos adultos. Entendo cada vez melhor esse sentimento.

(O Fox também veio, claro, e de manhã levei-o ao lago, enquanto os miúdos retomavam o sono depois do pequeno-almoço. Não chegámos nem a metade do caminho: o Fox quis voltar para casa, porque estava cheio de medo que o Matthias se fosse embora sem ele.)

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As fotos foram-me lembradas esta manhã pelo facebook. Publiquei-as lá há alguns anos, com o seguinte texto:

No parque do museu Kröller-Müller, em 2011. Viagem à Holanda com dois adolescentes: muitas horas no carro e mais horas ainda em museus. Diz que a adversidade treina o carácter. A estes dois, treinou a capacidade de se rir da e com a mãe que lhes calhou em sorte.

O Matthias foi há dias para a Itália, passar algum tempo com a irmã. A Christina escreveu pouco depois que não têm passeado muito, porque ele levou o computador e fica em casa a estudar. E ela? Estuda também, e comenta "este rapaz é uma boa influência para mim".
Coisas boas da vida: irmãos.

(Algo me diz que tenho neste bom entendimento uma culpa parcial. Do tempo em que me vinham fazer queixinhas, e eu os mandava para o quarto falar um com o outro até terem decidido que castigo é que cada um deles merecia.)

(Se querem saber tudo:
nos EUA, eles andaram numa escola que tinha um método fantástico: a peace table. Quando havia um conflito entre dois miúdos - mesmo miúdos de 3 anos -, sentavam-se frente a frente a uma mesa, com a mão sobre o coração, e conversavam sobre o que tinha acontecido ("eu senti", "eu pensei") (o que me lembra outra muito engraçada; a Christina, praí aos nove anos, dias depois de ter uma sessão sobre comunicação não violenta, voltou para casa toda contente a dizer que tinha conseguido formular uma "mensagem-em-eu" (tradução super rápida, espero que percebam a ideia) numa discussão com uma amiga. E que frase? Esta maravilha de comunicação não violenta: "EU acho que tu és parva").
Voltando ao assunto: quando eles me apareciam a fazer queixinhas "ela fez-me isto! / mas ele antes fez-me aquilo!" e eu percebia que ia ser bem enrolada por ambos, mandava-os para o quarto discutir o que tinham feito e que castigo merecia cada um. Geralmente diziam "deixa lá, afinal não é preciso". Outras vezes iam mesmo conversar, e daí a bocado vinham-me dizer os castigos - que geralmente tinham pesos diferentes.)


mais notícias da minha aldeia

Estou (mais uma vez) a pensar que Berlim tem quase 4 milhões de habitantes, e eu me sinto numa aldeia.

Há dias, por exemplo: no regresso do ensaio do coro, no centro da cidade entrei no autocarro onde vinha uma vizinha nossa (o mais interessante desta coincidência: é a chefe de um projecto da Siemens com um orçamento de 3 mil milhões de euros; claro que tinha dinheiro para pagar o táxi, mas usar o autocarro é menos mau para o clima. No caminho para casa contou-me que tem um híbrido com capacidade de bateria suficiente para levar a filha à escola, ir trabalhar, e voltar para casa - é quanto basta; e estão a pensar vender o carro do marido porque a família não precisa de dois carros).

Ou ontem, por exemplo: tentei comprar bilhetes para o Oratório de Natal na Kammermusiksaal, no dia 23, e já estavam praticamente esgotados na venda online. Em desespero de causa telefonei para o escritório da agência. Apresentei-me com o apelido do Joachim, porque os alemães ficam um bocado à rasca quando ouvem "Araújo" ao telefone, e a senhora riu-se: "ah, que bom ouvi-la de novo! Somos vizinhos do Matthias!", e eu "em Wedding?" e ela "não, em Zehlendorf" - estava a falar do ex-marido de uma prima do Joachim. O apelido é raríssimo (não deve haver mais de 50 deles na Alemanha inteira) e em Berlim há logo dois com nomes iguais.

Hhavia bilhetes, e até a um preço bem aceitável.
Já disse que Berlim me parece uma aldeia? Eles mandam os bilhetes para casa das pessoas, juntamente com a factura para pagar.


O que se segue já não é sobre Berlim ser uma aldeia, mas também é importante: agora que já comprei os 8 bilhetes que queria, em lugares bons e a preços entre 14 (crianças e estudantes) e 19 euros, aviso quem estiver em Berlim que o melhor do vosso Natal pode começar já no dia 23 de Dezembro às 15:30. Cantam os Cantores Minores e o Monteverdi-Chor Berlin, e também a minha queridíssima solista soprano Marie Luise Werneburg.
O telefone é: 030 80908070
(Não me pagam comissão, mas deviam)

 

pinheirinho de Natal

Este ano resolvemos não comprar um pinheirinho de Natal. 
(A culpa é da Greta, que nos obriga a abrir os olhos para os nossos hábitos de depredação do planeta)
Em vez de ter um pinheiro de Natal, vamos ter uma anedota: o hibisco da sala decorado com velas e outra tralha natalícia. 
Está fora de causa ir comprar um pinheiro, mas confesso que a o hibisco me está a deixar um pouco, como direi, desinstalada.
E de repente dei comigo a pensar: uma amiga minha já comprou um, já o tem em casa - mas vai passar o Natal a Portugal. E se eu lhe fosse pedir o dela emprestado? 
(acho que a última vez que tive uma ideia assim boa foi no dia seguinte a festejar os meus 50 anos, quando pensei abrir uma lojinha de ramos de flores em segunda mão...)

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Se morasse em Portugal, tinha boa solução: alugar um "pinheiro bombeiro". Pelo que me contaram, é uma solução para
aproveitar os «pinheiros» que são cortados para desbaste para prevenção de incêndios, e depois serão transformados em biomassa, que serve simultaneamente para angariar fundos para bombeiros.

Mais informações aqui: https://www.rnters.com/pinheirobombeiro

17 dezembro 2019

parece o facebook


"Isto parece o facebook!" foi o comentário revoltado e triste ouvido a uma visitante da casa de Max Liebermann, ao ler esta carta dirigida ao pintor, na altura em que fora nomeado director da Academia das Artes de Berlim:



                                                                                                                Berlim, 6 de Agosto de 1924
                                                                                                                W 15 Fasanenstraße 15



Para o senhor (professor) Max Liebermann
                                          Berlim, W. 7 Pariser Platz 7

Graças à sua capacidade tipicamente judaica de se insinuar, conseguiu o lugar de director de um Instituto Superior de Artes alemão, que é de todos o menos merecido por um judeu untuoso como você. 


Todos os alemães estão profundamente revoltados com esta usurpação infundada e esta pouca vergonha. Pode ter a certeza de que muito em breve rebentará a tempestade, e toda a escumalha mentirosa de judeus será rapidamente varrida da Alemanha, mas você será enforcado porque conspurcou a arte alemã. De facto, você só chegou tão alto devido à ajuda dos percevejos judeus que usaram o dinheiro deles para lhe pagar. O enorme movimento alemão contra o judaísmo parasita e fraudulento já não está disposto a aceitar passiva e calmamente os seus actos maléficos e criminosos, antes conseguirá, com a maior precisão e energia, exterminar para sempre essa corja. A nossa paciência chegou ao fim. No que lhe diz respeito, não lhe concederemos tempo algum para se regozijar com este triunfo. Se dentro de 8 dias não prescindir voluntariamente do cargo de que se apoderou de forma insolente, do mesmo será

v i o l e n t a m e n t e 
 afastado.


Assinado: Seidl  


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Parece o facebook, e parece os comentários nos jornais: a identificação de um inimigo ao qual se atribuem parasitismo e intenções malignas em relação a "nós" (os políticos, os refugiados, os migrantes, os ciganos, os negros de certos bairros), a ilusão de que se fala em nome de todo um povo, o apelo à violência ("e ninguém lhe dá um tiro?"), a redução de humanos a substantivos colectivos de animais ou a pragas de insectos.

Já vimos aonde é que esta linguagem, aliada a um contexto de instabilidade da Democracia, pode levar. Hoje em dia já vemos esta linguagem banalizada no espaço público, e o seu uso - consciente ou involuntário - é um importante instrumento do insidioso ataque às Democracias que está a ser conduzido "com a maior precisão e energia".

Se fosse hoje, o Herr Seidl residente na Fasanenstraße nº 15, um dos bairros mais chiques da Berlim daquela época, responderia às críticas que alguém dirigisse aos termos desta carta alegando que tem o direito de dizer o que pensa porque esta corja esquerdista ainda não conseguiu acabar com a liberdade de expressão, e que nenhuma ditadura do politicamente correcto o impedirá de dizer as coisas como elas são e como têm de ser abertamente ditas.

Que não haja dúvidas: este tipo de discurso dos Herr Seidl do nosso tempo faz parte de uma estratégia de destruição da Democracia e das impressionantes conquistas em termos de incorporação dos valores humanísticos que as sociedades fizeram após o pesadelo da segunda guerra mundial. Temos obrigação de tomar medidas para proteger o mundo do século XXI e de evitar que se repitam as catástrofes do século XX. Neste vídeo, Sacha Baron Cohen reflecte sobre algumas medidas possíveis e urgentes.  



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À margem do tema do post, deixo mais alguma informação sobre as perseguições de que o pintor Max Liebermann foi alvo por ser judeu.




16 dezembro 2019

Joseph Wulf




A pequena exposição que está neste momento a decorrer na casa da Conferência de Wannsee (que mencionei aqui) é sobre Joseph Wulf, um judeu nascido em Chemnitz no seio de uma família de abastados comerciantes polacos. Aos cinco anos foram viver para Cracóvia, onde Wulf cresceu e começou a estudar para rabino, embora preferisse ser escritor. Herdeiro de várias culturas, em casa falava alemão, polaco e iídiche com a mulher, e polaco com o filho. A invasão da Polónia mudou a sua vida abruptamente: começou a lutar na resistência. Capturado, conseguiu sobreviver a dois anos em Auschwitz. Fugiu durante uma marcha da morte. A mulher e o filho também conseguiram sobreviver ao Holocausto, escondidos na quinta de um lavrador. Mas perdeu a restante família: pai, mãe, irmão, cunhada e sobrinha.

Depois da guerra, fez parte do grupo que fundou a Comissão Central de Histórica Judaica na Polónia. O grupo coligiu documentos dos nazis e depoimentos de milhares de testemunhas, e recuperou o célebre arquivo Ringelblum do gueto de Varsóvia, para deixar aos vindouros memória do que foi o Holocausto. Com a ascensão do comunismo polaco muitos dos membros desse grupo viram-se forçados a abandonar a Polónia. Joseph Wulf acabou por se fixar em Berlim, onde iniciou um trabalho pioneiro de pesquisa sobre o Holocausto na Alemanha Federal. Apesar de ter publicado inúmeros livros muito importantes sobre a Alemanha nazi e o Holocausto, nenhuma Academia lhe ofereceu um lugar estável de investigação. Pior ainda: acusavam-no de não ter a devida imparcialidade, por ter sido vítima directa do fenómeno que estudava. Ele respondia: "não sou imparcial, mas sou objectivo!" Um dos seus maiores opositores era Martin Broszat, director do Instituto de História Contemporânea de Munique - que aderira ao partido nazi em 1944.

Em 1965 Joseph Wulf propôs que a casa onde decorrera a conferência de Wannsee se tornasse um lugar de memória do Holocausto e um centro de documentação. A ideia foi recusada pelos governos tanto alemão como berlinense. Heinrich Albertz, um dos ministros do governo de Berlim, argumentou: "The Senate’s view is that the past will not be overcome by setting aside a house, worth more than a million Marks, which is now a domicile for schoolchildren. One would have to set aside many houses to isolate every building that was a venue for horrors. One should be more concerned with the people responsible for the horrors committed in these houses." E um outro político berlinense foi ainda mais incisivo: "não queremos locais de culto do macabro". O memorial e o centro de documentação só viriam a ser inaugurados bem mais tarde, em 1992, no cinquentenário da conferência.

Por essa altura já Joseph Wulf tinha partido há muito. A perseguição aos judeus e os anos que passara em Auschwitz tinham-no traumatizado profundamente. E não estava sozinho: só nos anos setenta é que a Alemanha começou a despertar para a necessidade de dar apoio psicológico especial às vítimas  dos campos de concentração e extermínio. A morte da sua mulher, em 1972, constituiu um duro golpe do qual não se conseguiu restabelecer. Em 1974 suicidou-se, atirando-se da janela do seu apartamento junto ao Ku'damm, em Berlim.

Uns meses antes escrevera ao seu filho uma carta em jeito de testamento. Aqui a deixo, tal como a fotografei na exposição, em inglês: o grito de um desesperado consciente da loucura do mundo.






a História ao pequeno-almoço

Por estes dias tivemos a visita de uma amiga que vem de uma família com uma geografia complicada: polacos que viviam na Checoslováquia e foram apanhados pela tormenta da invasão alemã, na altura em que Hitler soube capitalizar o descontentamento dos alemães dessa região para se apoderar do país.

Ao pequeno-almoço, na nossa cozinha cheia de sol, a conversa vagueou pela memória desses tempos sombrios que a família dela transporta consigo.

Quando a Alemanha nazi começou a dominar a Checoslováquia, foi instituída uma sociedade com vários níveis: no topo os alemães da Alemanha, a seguir os alemães da Checoslováquia, depois os checoslovacos que falavam alemão. No limite de sub-humanos estavam os polacos, e a seguir vinham os judeus. O avô da nossa amiga, sendo polaco, viu-se obrigado a declarar-se adepto de Hitler para conseguir sobreviver. A estratégia deu-lhes algum alívio durante uns tempos, mas viria a ser paga com a vida de alguns membros da família quando se criou o Volkssturm (exército de civis recrutados mais ou menos à força) e os adeptos de Hitler foram obrigados a servir de reforço ao exército alemão contra o exército vermelho.

Um tio-avô da nossa amiga, homem mais teimoso e defensor dos princípios, atreveu-se a virar o retrato de Hitler contra a parede da sua loja, onde devia estar exposto. Uma ex-namorada denunciou-o aos nazis, e estes invadiram a casa dele para o matar à frente da família. Deixaram o cadáver exposto na rua durante 24 horas para que servisse de lição a todos os outros.

Lembrei a conversa que tive há muito tempo com uma polaca que vivia há décadas em Weimar. Ela louvava os alemães e tinha asco aos russos. Eu não entendia aquela transigência com a Alemanha, que preparou uma lista com quase cem mil polacos importantes que deviam ser executados logo após a invasão. "Os nazis queriam quebrar a coluna vertebral do país!", disse eu. "Ora, ora! Eles queriam era apanhar os judeus, e calhou de muitos deles serem intelectuais, professores, médicos e políticos", respondeu ela.

"Pois, não é por acaso que Auschwitz foi construída na Polónia", comentou a nossa amiga. "Ao longo da História, a Polónia ganhava as batalhas mas paradoxalmente saía sempre a perder. As fronteiras do país eram desenhadas a lápis. O povo sofria imenso, e no meio de todas aquelas tragédias cometeu o terrível erro de se virar contra o elo mais fraco - os judeus. Fizeram deles o bode expiatório. Pelo que não houve muita resistência ao Holocausto levado a cabo pela Alemanha em território polaco. Mais tarde, a ordem que resultou da segunda guerra mundial, que pôs a Polónia sob a alçada da URSS, deu origem a um ditado terrível: antes violada pelos alemães que libertada pelos russos".


tudo o que cabe num domingo

Ontem estava um domingo extraordinariamente bonito para o Dezembro berlinense. Só faltava mesmo a neve a cobrir tudo, mas essa senhora há 3 anos que não dá grandes ares da sua graça por aqui.

Tínhamos amigos de visita por cá, e levámo-los a uma voltinha clássica dos dias bonitos: o lago Wannsee.



Começámos pela casa de Max Liebermann. Estamos quase no Natal, mas não há sinais de a neve ter alguma intenção de vir até Berlim. No jardim havia um carreiro de couves de Bruxelas, por sinal bem viçosas. Ao lado de outro, de couves com folhas avermelhadas. Jardim de pintor é assim: uma paleta de cores.

(nota mental: da próxima vez fotografo do jardim para a casa, para não apanhar aqueles carros estacionados na rua)



Não se vê bem, mas a casa foi desenhada de modo a que quem se senta no banco branco atrás da fotógrafa deixe que o olhar vagueie pelos canteiros - que no verão transbordam com as cores das flores, dos frutos e dos legumes - até ao fundo deste caminho, e atravesse a casa de encontro ao deslumbrante azul do lago.



No meio do caminho havia bétulas, havia bétulas no meio do caminho - sei há anos que estão ali, e surpreendem-me sempre.


Esta fotografia não presta para nada, mas a cena era bonita: os cormorões ao fundo do quintal a saborear o sol de Dezembro.



Esta fotografia não presta para nada, mas a cena era bonita: um humano ao fundo do quintal a saborear o sol e a luz deste domingo de Dezembro.









A exposição que está neste momento na casa do Liebermann não é grande coisa. Admito que, ao fim de dez anos a tentarem encontrar temas para exposições que tenham a ver com o Liebermann ou com o Wannsee, o material comece a escassear.
Distraí-me a fotografar o jardim a partir da janela de uma das salas.


Deste lado do lago Wannsee fizeram uma urbanização de luxuosas mansões com jardim até ao lago e embarcadouros privados.


Da casa do pintor judeu Max Liebermann à casa da Conferência de Wannsee é um passeio curto. Costumamos levar os amigos a ambas. Mas descobrimos ontem que a casa da Conferência de Wannsee está em obras. Reabre no dia 20 de Janeiro, com a exposição inteiramente remodelada.
"E a foto da Leni Riefenstahl?", perguntei eu.
"Não sei. A exposição vai ser muito interactiva, é tudo o que me disseram", respondeu a senhora da recepção.
Mania de mexer em equipas que ganham, pá!

Subimos ao andar de cima, o do centro de documentação, porque havia lá uma pequena exposição. Enquanto subia, reparei pela primeira vez no trabalho de ferragem das escadas. Um trabalho de luxo, numa mansão de luxo.

Em Janeiro de 1942 decorreu aqui uma reunião com representantes de vários departamentos, com o objectivo de "afinar agulhas" para o Holocausto. Em vez de uma convocatória autoritária, os participantes receberam um convite para um aprazível pequeno-almoço numa mansão junto ao lago Wannsee: o luxo como isco para predispor as pessoas a colaborar no Horror.
A pequena exposição que está no primeiro andar da Casa da Conferência de Wannsee é sobre Joseph Wulf: um tema que merece um post só para ele.



O meu restaurante favorito no Wannsee tem uma inovação que lhe tirou toda a graça: um enorme toldo iluminado sobre o terraço junto ao lago.
Dizem que não há amor como o primeiro, mas que fazer quando o primeiro amor já não é quem era?



Um bocadinho de kitsch no Ku'damm.
(que seria do Natal sem o kitsch?...)
(um tempo mais sossegado, diria eu)


 
Para terminar o domingo em grande: Kammermusiksaal.




François-Xavier Roth e a Mahler Chamber Orchestra (que, se percebi bem, é a extensão adulta da Gustav Mahler Youth Orchestra; quando algum músico desta chega àquele ponto em que nem com a melhor das boas vontade se lhe consegue chamar "jovem", pode ir reviver os bons velhos tempos na orquestra dos seniores)


Havia Haydn, mas como não há almoços grátis tivemos de gramar também com um Ligeti. E um Martinu, mas essa peça tinha uma energia muito boa, passou-se bem.

Além de que tivemos direito a solo do Stefan Dohr: Des canyons aux Étoiles, de Olivier Messiaen.



12 dezembro 2019

"vagão"

Do dia de "vagão" na Enciclopédia Ilustrada trago um post meu e dois outros de que gostei especialmente:


I.
De Maria Esteves:

Ainda
Dentro de vagões selados
andam nomes pelo país,
quanto ao sítio para onde vão
e quando é que descerão
não me perguntem, não digo, não sei.
.
O nome de Nathan vai aos murros no tablado,
o nome de Isaac vai cantando alucinado,
o nome de Sara grita por água para o nome
de Aarão que morre de sede.
.
Não saltes em movimento, nome de David,
tu que és nome à tragédia condenado,
a ninguém atribuído, sem morada,
pesado em demasia para usar neste país.
.
Demos ao nosso filho um nome eslavo,
que aqui nos são contados os cabelos,
que aqui se separa o bem do mal
pelo recorte das pálpebras e pelo nome.
.
Não saltes. O filho será Lech.
Não saltes. Não é altura ainda.
Não saltes. Qe a noite se propaga como um rir
e arremeda nos carris o bater dos rodados.
.
Uma nuvem de gente lá foi pelo país,
de grande nuvem chuva pouca e uma lágrima,
chuva pouca e uma lágrima,
chuva pouca e uma lágrima, tempo seco.
Ao bosque negro conduzem os carris.
.
Estrondo de rodas. Bosque, denso bosque.
Estrépito no bosque dos gritos suplicantes.
Estremunhada escuto noite fora
matraquear o silêncio no silêncio.
Wislawa Szymborska (Polónia), PAISAGEM COM GRÃO DE AREIA. Tradução de Júlio Sousa Gomes. Relógio D'Água.
.
Não poderia deixar passar a palavra do dia, #vagão, sem aqui trazer este poema, por demais pungente, que nos dá a ver o horror, o supremo horror, vivido pelos deportados que, sufocando de medo, sede, angústia e tudo o mais que nem ousamos imaginar, eram levados para os campos da morte, ou para o "bosque negro", onde o menor mal era a morte.
Os transportes ferroviários foram tão importantes na Alemanha nazi que a wikipedia tem uma página que lhes é dedicada, "Ferrovias do holocausto". Ele há coisas!
Não apaguem a memória!


II.
De José Praça:

No memorial de Yad Vashem em Jerusalém, dedicado às vitimas do Holocausto, encontra-se o vagão de Birkenau, junto ao qual se pode ler este poema do israelita de origem alemã Dan Pagis (1930-1986). A terrível simplicidade de um discurso abruptamente interrompido, deixando à imaginação do leitor as causas do corte e a sequência do seu raciocínio. Por vezes, o horror descreve-se assim.
_________

Escrito com lápis num #vagão fechado

Aqui neste vagão
sou Eva
com o meu filho Abel.
Se tu vires o meu outro
filho Caim, filho do homem,
diz-lhe que eu...

Dan Pagis

Foto do site do Memorial de Yad Vashem.




 
III.
O meu contributo:



  (foto: daqui)

Como já muitos disseram, a palavra #vagão traz uma associação imediata ao Holocausto. Mas, estranhamente, a primeira associação que fiz foi ao vagão da pedreira de Buchenwald – que não é um vagão, é um carro com rodas de ferro. Algum curto-circuito nas minhas sinapses olhou para aquele carro e viu nos braços dos prisioneiros de Buchenwald a locomotiva e os carris que lhe faltavam.

Também pensei no filme “Lion – a Longa Estrada para Casa”. Viram? A cena em que o miúdo entra para o vagão de um comboio parado e adormece é de partir o coração.

Mas não tenho como fugir ao tema do Holocausto.

A estação berlinense de S-Bahn que uso com mais frequência é a de Grunewald. Um bairro de luxo, uma praceta linda, uma estação com uma entrada muito bonita. Raramente passo por aquela porta sem me lembrar das centenas de judeus que todas as semanas, às vezes várias vezes por semana, desfilavam pelas ruas do bairro com os poucos haveres que lhes permitiam transportar. Passavam em frente aos palacetes (alguns dos quais eles próprios tinham frequentado – embora esse detalhe não seja aqui chamado, porque a dignidade humana não depende da riqueza e da cultura de cada um), e ao chegar à praceta, no exacto lugar por onde eu passo várias vezes por semana, dava-se o golpe: em vez de usarem a entrada dos seres humanos, eram obrigados a subir a rua inclinada que dava acesso à plataforma das mercadorias. Os moradores daquele bairro de privilegiados eram testemunhas regulares da ignomínia, e eu transporto a memória dela.

No Museu do Holocausto em Washington d.C. entra-se para a exposição atravessando um vagão usado no transporte dos judeus e de ciganos. É uma experiência chocante, que começa pela surpresa do seu tamanho diminuto e o esforço de imaginar o que seria tantas dezenas de pessoas viajando de pé, comprimidas umas contra as outras, em viagens intermináveis a uma média de 20 km/h, porque o comboio, já de si lento, era obrigado a dar prioridade a todos os outros comboios.

Os primeiros vagons usados no Holocausto eram antigas carruagens de terceira classe, do séc. XIX. Mas as janelas grandes permitiam muitas fugas, e os bancos reduziam a capacidade de transporte, pelo que os nazis trocaram aquelas carruagens por vagões de mercadorias.
Nem todos os vagões eram de transporte de gado (e nestes, os nazis fecharam os respiradouros com tábuas, para evitar as fugas), e a cruel realidade é que as pessoas eram transportadas em condições mais próximas das de mercadorias inertes do que das de animais. Mas o nome que foi dado aos vagões da deportação foi “vagão de gado”: pelo poder simbólico do nome, e pelo destino comum dos animais e das pessoas vítimas desses transportes: o matadouro industrial.








o tempo em que festejavam o dia dos meus anos


A frase "My birthday is coming" que acompanha esta imagem do blogue Humans of New York que encontrei aqui, tornou muito presente esse tempo em que o meu aniversário era uma data muito especial e aguardada com expectativa.

Por uns momentos penso, com um sorriso, como era bom aquele tempo em que festejavam o dia dos meus anos.

(Pensando bem, prefiro estar no tempo de hoje, nesta rima natural dos dias com alegrias. Não sei o que é que o Álvaro de Campos tomava, que não tomo.)

11 dezembro 2019

dar a mão

Mais notícias do que se passa na Alemanha. Desta vez, é sobre a recusa da presidente da Câmara de Eisenach de apertar a mão a alguns colegas do Conselho Municipal, por serem neonazis.

Eisenach é uma pequena cidade da antiga RDA, situada perto da antiga fronteira que separava as duas Alemanhas. É a terra natal de J.S. Bach, e dela faz parte a fortaleza Wartburg, na qual decorreram alguns dos episódios mais importantes da História alemã (residência da rainha Santa Isabel da Hungria e da Turíngia, que introduziu naquela região da Alemanha medieval a espiritualidade franciscana e a opção pela ajuda aos pobres - tal como a sua parente em Portugal, a nossa rainha Santa Isabel; foi também ali que Martinho Lutero se escondeu durante vários meses, enquanto traduzia o Novo Testamento para alemão, o que teve consequências enormes tanto no Cristianismo como na unificação da ortografia alemã). Para além da sua importante história, hoje em dia Eisenach tem universidade, ciência, cultura, indústria (fábrica da Opel) - e 10% de neonazis na Câmara Municipal, além de quase 12% de AfD.

Por norma, o compromisso dos membros do Conselho Municipal é selado simbolicamente por um aperto de mão com o presidente da Câmara. Mas a presidente, Katja Wolf, do partido Die Linke, recusa-se a ter qualquer contacto físico com neonazis, e em especial com Patrick Wieschke - que é um político neonazi muito influente no seu partido, com ligações à célula NSU, e registo criminal por - entre outros - atentado bombista a um estabelecimento de döner e por discurso de ódio. Patrick Wieschke levou o caso a tribunal, exigindo o cumprimento das obrigações da autarca, e este teste de stress à Democracia alemã já se arrasta há cinco anos. O tribunal de primeira instância considerou que o aperto de mão consiste numa proximidade física que pode ser muito penosa em caso de divergência inconciliável de opinião. O de segunda instância focou-se na lei, que prescreve o aperto de mão de forma clara. O caso está agora a ser tratado a nível federal, e deu azo a um intenso debate sobre a defesa da Democracia e a luta que uma sociedade livre e aberta deve travar contra tendências anticonstitucionais.

Traduzo do Spiegel alguns excertos da entrevista a Katja Wolf (sublinhados meus):

"Um aperto de mão tem uma grande força simbólica, porque representa um encontro entre pessoas do mesmo nível que se respeitam. (...) Para mim tornou-se claro que há uma fronteira pessoal: não quero ter contacto físico com determinadas pessoas, e ainda menos num contexto oficial.
(...)

Em Eisenach temos um problema com um millieu de extrema-direita, mas 90% dos cidadãos repudiam o NPD. 
O Tribunal Constitucional considerou que se trata de um partido anticonstitucional. Seria terrível estabelecer uma normalidade política com um partido destes e com a sua ideologia
Se posso ser um pouco patética: o que me move é nada menos que a defesa da Constituição - "a dignidade humana é inviolável" - que o programa do NPD basicamente rejeita. Mas a minha recusa de apertar a mão a políticos do NPD é mais do que uma decisão política. É também uma decisão muito pessoal. O sr. Wieschke é, em cada fibra do seu corpo, uma pessoa racista, de valores anticonstitucionais e de extrema-direita. Porque haveria eu de ter contacto físico com uma pessoa dessas?
(...)
A República de Weimar não falhou por causa da minoria de direita radical. Falhou por causa do silêncio da maioria democrática. É por isso que não se pode estabelecer uma normalidade com os inimigos da Constituição - e é também por isso que apelo à abolição desta regra ultrapassada do aperto de mão.."
(...)
Normalmente não sou fanática dos princípios. Mas quando se trata de contacto físico, para mim torna-se uma questão de princípio. O meu corpo pertence-me a mim!"
Neste link há um vídeo, da página do próprio Patrick Wieschke, que mostra a segunda vez (início do segundo mandato) que a presidente da Câmara se recusou a apertar a mão aos conselheiros do NPD. Patrick Wieschke é o da esquerda, de camisa vermelha, que desvia ostensivamente o olhar.

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Um comentário à margem deste assunto: esta questão do contacto físico também está a ser estudada por outros tribunais no contexto de muçulmanos que se recusam a apertar a mão a pessoas do sexo oposto.
Há uma diferença fundamental entre os casos: no desta autarca, uma parte importante da recusa funda-se na defesa dos valores constitucionais; já as imposições islâmicas vão contra a ordem constitucional alemã que impõe um tratamento de igualdade independentemente do sexo.
Mas a frase da autarca sobre o corpo dela lhe pertencer a ela, independentemente das leis do país, é também um óptimo argumento para os muçulmanos usarem em tribunal.
(Às vezes não tenho inveja nenhuma dos juízes que têm de decidir estas coisas.)


10 dezembro 2019

"Não venho para me vingar. Mas quero acusar, e não perdoo."

Hesito em traduzir este artigo que li hoje no Spiegel, porque descreve cenas de puro horror.
Mas o mundo não pode esquecer isto que aconteceu há 75 anos num dos países mais evoluídos do mundo. Temos de saber, temos de estar bem conscientes daquilo de que podemos ser capazes quando atribuímos a pessoas de certos grupos categorias que lhes sonegam a dignidade dos humanos.

O artigo do Spiegel informa que em Hamburgo está a decorrer o julgamento de um antigo SS, de 93 anos, que era guarda no campo de concentração de Stutthof, perto de Danzig. É acusado de participação no assassínio de 5230 pessoas. Na mesma sala está uma das vítimas daquele campo, que é testemunha de acusação: Abraham Koyski, de 92 anos.

Abraham veio de Israel para testemunhar neste processo. Perante o tribunal, fala com voz clara. Conta que tinha 16 anos quando chegou ao campo, juntamente com 800 judeus da Estónia. Conta que a viagem durou oito dias, e que não lhes deram comida nem água. Chegaram a meio da noite, e foram todos enfiados numa barraca com tão pouco espaço que ele dormiu em pé. 

Conta como os guardas chamavam os prisioneiros para espectáculos bizarros e sádicos. Num deles, um oficial SS - obviamente sob a influência do álcool - partiu uma cadeira e obrigou um pai e o seu filho a escolherem entre o oficial matar um dos dois, ou um deles matar o outro agredindo-o com os bocados da cadeira. O pai decidiu que o filho o devia matar, e o filho assim fez. No fim, o oficial matou o filho com um tiro.

Koryski fala do seu trabalho de retirar do crematório os ossos ainda inteiros, e da tarefa de recolher de manhã os corpos dos que tinham morrido durante a noite. Fala de chamadas a meio das noites de inverno para se irem lavar: obrigados a sair nus da barraca, a tomar duche, e a regressar à barraca molhados e nus, em noites de temperaturas negativas. Acrescenta: muitos morriam depois de acções como esta.

Mas Korsyski não se lembra de rostos. "Não queríamos ver a cara de nenhum deles. Tínhamos medo."

Perto do fim da guerra obrigaram-no a sair do campo para a marcha da morte. Quilómetros e quilómetros de marcha, sem comida nem bebida, sem roupa quente, sem sapatos. Os que morriam eram empurrados para a berma do caminho. Por várias vezes Korsyski se sentou, com a esperança de receber um tiro libertador. Mas erguia-se de novo - e foi por fim libertado pelo Exército Vermelho.

A juíza pergunta-lhe porque é que fez tanta questão de vir de Israel para testemunhar neste processo.

"Temia esta pergunta", responde Abraham Koryski, e começa a chorar. "Não é fácil para mim. Não venho para me vingar. Mas quero acusar, e não perdoo. Quero que o mundo saiba o que aconteceu. Todos devem saber tudo."

E a seguir:

"A minha vingança é a minha família, os meus familiares presentes nesta sala. São o sinal de que eu consegui sobreviver a tudo isso."

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"Todos devem saber tudo".
Por isso traduzi este artigo.


"unidade"

A minha história favorita ligada ao conceito de #unidade é uma que provavelmente já contei aqui pelo menos vinte vezes. Ora bem: cá vai a vigésima primeira, com um beijinho especial para os colegas de memória mais curta.

Nos EUA, os meus filhos andaram num jardim intantil e escola primária Montessori que lhes deu asas à inteligência. E ao humanismo, mas hoje falo só da inteligência. Quando os miúdos entravam na sala, a professora do jardim infantil perguntava a cada um deles em que queria trabalhar nesse dia. A criança dizia o que lhe apetecia mais fazer, escolhia os materiais com a professora, e era deixada sozinha, inteiramente concentrada no seu - lá está - trabalho. Havia na sala cerca de 25 miúdos entre os 3 e os 5 anos, e reinava nela uma tranquilidade que levou um mãe alemã que eu conhecia a procurar outro jardim infantil para os filhos, porque achava aquilo muito pouco natural.
Para o Mathias, foi o melhor que lhe podia ter acontecido. Aos 3 anos iniciou-se no mundo da matemática com um prazer enorme. 


Um dia veio ter comigo e começou a explicar-me com um ar muito sério e concentrado:
- Há as unidades, as dezenas, as centenas, os milhares, as dezenas de milhar, as centenas de milhar, os milhões, os biliões e os zilhões. Zilhões é mais do que eu posso contar, e é quanto eu gosto de ti. 


(desculpem abrir aqui um pequeno intervalinho para babar, volto já)
(ainda há pouco tinha largado as fraldas, e já estava ali todo seguro de saber contar até milhões! É impressionante o que a escola certa pode fazer por uma criança.) 


Aos cinco anos, o miúdo que adorava resolver problemas nas viagens de carro ("16 gomas para 3 meninos dá 5 gomas a cada um, e depois parto a última em três" ou "32 gomas para 3 meninos dá dez a cada um e eu como as outras duas") veio para a escola alemã, e passou um ano inteiro a fazer contas até 10, para não se cansar muito.

06 dezembro 2019

se não fossem os amigos que nos visitam, às tantas ainda agora tinha as minhas coisas em caixotes

Hoje encontrei este apontamento antigo no facebook, e tive de me rir. É que por estes dias tenho tido cá amigos, e nos dias antes de eles chegarem fui três vezes à IKEA...
(Entretanto, fiquei a pensar: a que visita de que amigos devo a troca das lâmpadas nos casquilhos simples por candeeiros na casa toda, mais ou menos 4 anos depois de ter mudado para cá?)

Quando os meus filhos me viam a atravessar a casa de vassoura na mão e turbo ligado perguntavam: "quem é que vem cá hoje?!"
(a verdade é que essas visitas me davam muito jeito para vencer a crónica procrastinação da limpeza, da arrumação e até daquele arranjo sempre adiado - como comprar finalmente o tal candeeiro ou pendurar o tal quadro no tal lugar da parede)

01 dezembro 2019

"Jutlândia" (2)

Os meus problemas de primeiro mundo: estou na Dinamarca à espera da ligação do comboio. Já foram cancelados dois. O próximo sai praticamente duas horas depois da ligação que eu tinha previsto. O problema: estou à rasquinha para ir à casa de banho mas a da estação tem uma maquineta na porta que exige moedas dinamarquesas. E eu só tenho euros e cartão de crédito.
Os patetas dos dinamarqueses não podiam ter votado a favor do euro, caraças?
Humpf!

„Jutlândia„

Calhou de a palavra do dia na Enciclopédia Ilustrada ser "Jutlândia" logo no dia em que saí para a Dinamarca. O meu post do dia foi um diário de viagem:

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Esta vossa artista tem em casa uma pilha de livros ainda por ler que é maior que ela, mas conseguiu a proeza de sair para uma viagem de comboio pelo meio da #Jutlândia sem levar livro nenhum.
De modo que só lhe resta aproveitar o tempo com uma reportagem fotográfica manhosa.
Se forem passando por aqui, podem acompanhar em directo a (seca de) viagem que estou a ter.



Hamburgo contra o sol.
A vossa sorte é o Facebook não ter cheiros. Nem queiram saber o cheiro que o matjes deixou nos meus dedos!

Comprei
"A História da Água", de Maja Lunde (autora de "A História das Abelhas"). Uma distopia sobre a seca que vai assolar o nosso mundo. A Europa dividida entre países com água e países desertificados, e um campo francês de refugiados, onde se juntam pessoas do sul da França, da Espanha e de Portugal, que tentam - debalde, ou, literalmente: de balde - entrar nos países do norte.


Em Hamburgo entrei num comboio de dois andares e instalei -me num lugar sossegado no topo, a beber o meu café e a comer o pão com matjes, que é obrigatório quando se está tão perto do mar.
À minha frente sentou-se uma mãe jovem com o filho de três anos, e daí a nada os dois estavam a ler sossegadamente o novo livro do Astérix que eu comprei.
Quando foram à casa de banho aproveitei para lhes fotografar o farnel: caixinha de lata para o pão, garrafa para trazer a água de casa. Mais uma bola de Berlim, mais um livro.
Agora a mãe vai a ler, enquanto o miúdo ouve histórias no seu headphone.
Já estou há quase duas horas com eles, e está tudo tranquilo.
Estou a gostar imenso desta mãe que acompanha, conversa e orienta sem stress.




 
O caminho para a Jutlândia é feito de planícies verdes salpicadas de vaquinhas. Antes seria provavelmente floresta continental virgem. Ou pântanos.


Salpicada de geradores eólicos. 
Mas hoje pouco geram: não há vento.


Não sei que cidade será esta, à margem de uma auto-estrada de navios. 


Cruzamento de linhas de comboio. Nós já vamos numa via elevada, e por cima de nós passa aquela ponte altíssima. O chão de casas parece tristonho. Como será morar junto a um cruzamento de comboios que nem se dão à delicadeza de parar e convidar para ir dar uma voltinha?


Paragem de quase uma hora em Flensburg. As lojas estavam fechadas: dia da Reforma. No norte da Alemanha só os de Berlim, coitados, é que trabalham. E amanhã é feriado nos Estados católicos da RFA. Mas não em Berlim. Maldito Estado laico!

(Não tenham pena: como recompensa, o dia internacional da mulher é feriado em Berlim. Viva o feminismo!)


Ia perdendo o comboio. Primeiro fui para o cais errado. Depois fui a correr para o certo , mas à minha frente ia um senhor negro com imensa bagagem e ar de não ir para lado nenhum. Sem pressa, a ocupar o caminho todo. Entrei no comboio já depois da ordem de partida, e apanhei um raspanete em dinamarquês.
Isto começa bem!


(Fiquei a pensar se aquele senhor será um refugiado a tentar chegar à Dinamarca.)





Hey! Já cheguei à Jutlândia!

Controle de passaportes. Uffff! Felizmente lembrei-me de trazer documento de identificação. Esta história da União Europeia é enganadora: uma pessoa habitua-se a sentir-se em casa, mas é só até aparecerem os primeiros polícias a dizer “your passport please”.

 

Para já, a grande diferença entre o norte da Alemanha e a Jutlândia é terem trocado as vacas por ovelhas.

 

E é mais dourada.
 

Daqui a nada anoitece aqui na Jutlândia. Tenho de me apressar com a reportagem fotográfica.
 

Os geradores eólicos estão a trabalhar. Então como é? Será que só na Alemanha protestante é que é feriado?!Pelo altifalante avisam que estamos a chegar à próxima estação. Por enquanto dinamarquês parece-me assim: alemão falado com pronúncia francesa.
Infelizmente não saiu ninguém na estação, para eu me poder sentar do outro lado do corredor. Estou farta de fotografar a Jutlândia contra o sol poente.



Oooooh!
Colinas.Enchi-me de coragem e passei para o outro lado do corredor. Quer acreditem quer não: o sol também estava desse lado!
Não me digam que na Jutlândia há dois sóis, um à esquerda e outro à direita do meu comboio?
Vocês foram os primeiros a saber, aqui na Enciclopédia Ilustrada.



Ainda Jutlândia.

 

Mais do mesmo.

Em Fredericia mudei de comboio. E tenho o sol do lado certo. Quer dizer: do lado certo se estivesse a regressar à Alemanha. Algo me diz que os comboios na Jutlândia andam aos ziguezagues.
(Mais uma coisa que aprenderam aqui primeiro)




Não sei para onde vou, mas é bonito.
Infelizmente dinamarquês não é alemão com pronúncia francesa. Nada disso. É estranho estar num país onde não percebo patavina. Há muito tempo que isso não me acontecia.
A revisora olhou para o meu bilhete e falou-me em alemão. Simpáticos, estes jutlandianos.
Afinal a fotografia anterior era eu a sair da Jutlândia. Acabou-se-me a palavra mágica por hoje.
Boas tardinhas para todos, e até à próxima palavra!
Para a despedida, aqui vos deixo algumas imagens do sol a pousar sobre a Jutlândia.