A propósito de falta de critérios, Francisco Lyon de Castro contou-me em 1999 uma história que ilustra bem a forma como a Censura actuava. Durante uma Feira do Livro, um padre reparou que estava à venda um livro intitulado "A Inquisição Portuguesa" de António José Saraiva. Telefonou imediatamente para a Censura perguntando, indignado, como era possível estar à venda um livro contra a Igreja. E assim os serviços da Censura proibiram o dito livro, receando represálias caso não actuassem dessa forma.
Maria Teresa Horta, por sua vez, conta o seguinte episódio a propósito de um corte feito a um poema de António Ramos Rosa que deveria ser publicado no suplemento “Literatura e Arte” do vespertino A Capital:
Maria Teresa Horta, por sua vez, conta o seguinte episódio a propósito de um corte feito a um poema de António Ramos Rosa que deveria ser publicado no suplemento “Literatura e Arte” do vespertino A Capital:
“Indignada com a situação, telefonei a um censor, tentando-o convencer que estava a cometer uma injustiça. Ele ficou admirado com a minha reclamação e perguntou-me porque é que me fazia tanta diferença uns versos num poema tão grande e interrogava-me:
- Mas porque é que a senhora se dá ao trabalho de discutir comigo e tentar convencer-me a retirar um corte que não vou retirar?E não retirou, mas o poema também não saiu!”
Outro aspecto curioso da censura, tinha a ver com o facto de muitas vezes as próprias citações de algumas altas individualidades serem cortadas, quando transcritas em jornais e revistas. Na opinião de José Carlos Vasconcelos, “os cortes eram feitos por os censores terem consciência do ridículo das frases ou matérias transcritas e quererem evitar a sua exposição pública.” Ainda de acordo com a sua opinião, “o mais vasto e mais importante era o que a Censura nem chegava a precisar de cortar, porque já não se escrevia…porque não se podia escrever sobre quase nada o que tinha a ver com a realidade mais profunda do País, sobre a forma como as pessoas viviam e os problemas que tinham.”
Outro aspecto curioso da censura, tinha a ver com o facto de muitas vezes as próprias citações de algumas altas individualidades serem cortadas, quando transcritas em jornais e revistas. Na opinião de José Carlos Vasconcelos, “os cortes eram feitos por os censores terem consciência do ridículo das frases ou matérias transcritas e quererem evitar a sua exposição pública.” Ainda de acordo com a sua opinião, “o mais vasto e mais importante era o que a Censura nem chegava a precisar de cortar, porque já não se escrevia…porque não se podia escrever sobre quase nada o que tinha a ver com a realidade mais profunda do País, sobre a forma como as pessoas viviam e os problemas que tinham.”
(Continua)