Meu caro Rentes de Carvalho. Você tem a honra de ser o primeiro escritor a entrar para esta caderneta. Aviso-o, no entanto, que a sua admissão não se deve ao facto de você ser um crápula, mas sim por ter despertado uma gigantesca onda de indignação nas redes sociais.
Não sei se era essa a sua intenção quando, numa entrevista, disse que ia votar na extrema direita holandesa, porque eles nunca poderiam formar governo e era preciso agitar as águas para sair do marasmo em que a Europa está mergulhada.
Eu percebo o seu ponto de vista, mas permita-me dizer-lhe que considerei essa afirmação deplorável e muito naif.
Não alinho com os que insinuam ser a sua afirmação fruto da senilidade. Pelo contrário, acredito que sabia muito bem a alhada em que se iria meter. Não sei se conseguiu o efeito pretendido mas devo dizer-lhe que não tinha necessidade de ser tão radical. Pôs-se a jeito e a turba não lhe perdoou
Numa coisa, porém, estou consigo. A onda de impropérios que lhe dirigiram nas redes sociais, o rasgar de vestes e a quase unanimidade sobre a falta de qualidade dos seus livros ( aposto que muitos nem sequer sabem o título de um dos seus livros, quanto mais lê-los...) demonstra que a esquerda tuga usa consigo exactamente os mesmos critérios de "saneamento" com que a direita colocou Saramago no Index.
Quero dizer-lhe que o descobri apenas há meia dúzia de anos e só li quatro dos seus livros. Bastava no entanto ter lido "Ernestina" para nunca o colocar no Index dos escritores proscritos. Já passei a idade dos radicalismos ideológicos e sinto-me bem assim. Então por que raio o coloco nesta caderneta? perguntarão os leitores.
Porque um escritor consagrado ( mesmo que seja de direita, mas não extremista) nunca pode proferir publicamente o seu apoio a um grupo fascista, nem esquecer a sua condição de emigrante. Logo, que é um alvo da extrema-direita.
Por outro lado, devia saber que o país onde vive é, juntamente com a Alemanha, um dos que mais detesta Portugal e não admite sequer a ideia de que os portugueses possam ser um povo feliz.
Os seus leitores portugueses mereciam um pouco de solidariedade.