
Um jornal envia um repórter a Bombaim. Como o objectivo é tentar convencer os pais de uma criança de 10 anos a vender a filha, arranja-lhe uma companheira que se faz passar por sua mulher. Chegados à fala com o pai da criança, declaram pertencer a uma família rica do Médio Oriente. O pai acede vender a filha por 300 mil euros.
A criança que o suposto casal pretende comprar não é uma criança qualquer. Chama-se Rubina Ali, vive num bairro de lata de Bombaim, já ganhou um Óscar, graças ao sucesso do filme “Slumdog Millionaire”, onde desempenhou o papel de Latika
O“News of the World”não precisava de ir à Índia para fazer uma reportagem deste jaez. Infelizmente não são raros os casos de pais que vendem as filhas. Na Índia, na China, em Portugal ou em qualquer parte do mundo, há sempre pais dispostos a trocar os filhos por uma boa maquia em dinheiro.(Notícias recentemente vindas a lume demonstram que até há pais, portugueses, que adoptam filhos e depois os abandonam no Brasil).
O objectivo do jornal, porém, não era divulgar a existência de situações de miséria que levam os pais a vender um dos filhos para conseguir alimentar os restantes. Se fosse, não lhe faltariam situações anónimas ilustrativas da miséria em que vive uma grande parte da população mundial. O jornal preferiu apimentar a notícia com uma criança que o mundo inteiro conheceu.
À primeira vista, até parece uma boa ideia. Chama mais a atenção da opinião pública e pode rotular-se o trabalho como jornalismo de investigação.
Vendo bem as coisas não foi isso que se passou. O jornal ( “News of the World”) fez deste caso notícia de primeira página. Provavelmente até lhe chamou “jornalismo de investigação”, reforçou a tiragem e viu a notícia divulgada pelo mundo inteiro, mas desviou as atenções do essencial.
O Ocidente tem as mãos sujas porque é, em grande parte, culpado da miséria que se vive nos países pobres. Esqueceu-se que a notícia tem um efeito de “boomerang”. Pelo menos nas consciências de quem não seja insensível à dor e miséria do próximo.
Moral da história: o jornal comportou-se como um “Slumdog” e fez um negócio milionário. Mas terá feito jornalismo?Para mim, a resposta não é fácil. E para vocês?