Quando era miúdo detestava jogar “Monopólio”. Irritava-me aquele jogo em que as pessoas ganhavam graças à conjuntura da sorte dos dados e de alguma estratégia( que me parecia) gananciosa, levando os restantes parceiros à falência. A minha ira aumentava quando, à roda do tabuleiro, aparecia o R. filho de um médico muito conhecido no Porto. Ruivo e sardento, as lentes grossas conferiam-lhe um ar patusco, mas a frieza com que jogava ( não só o Monopólio, como qualquer outro jogo) retirava-me o prazer de com ele participar em qualquer actividade lúdica. Lia nos seus olhos uma vontade indómita de vencer, mas o que mais me encanitava era o ar displicente com que encarava a vitória. Para ele, vencer era o resultado natural de qualquer jogo em que participasse. Talvez por isso – e por só confiar nas suas próprias capacidades- não gostava de participar em jogos de equipa. Sempre que o fazia, se visse que a vitória lhe podia fugir, armava uma zaragata com os parceiros e retirava-se.
Aos 12 ou 13 anos eu não percebia rigorosamente nada de política. Sabia, porém, que não gostaria de viver num mundo em que os vencedores fossem os mais sortudos e vivaços, ou tivessem a frieza e o calculismo do R.
Não imaginava, na altura, que o mundo dos adultos era mesmo assim. Acreditava que os mais honestos e trabalhadores seriam recompensados, pois era isso que me ensinavam em casa e na catequese.
Na Faculdade comecei a perceber que afinal o mundo não era nada daquilo que imaginara, mas foi só no final dos anos 80 que comecei a acreditar que o mundo poderia vir a ser ainda pior.Em 1991 escrevi um artigo na “Tribuna de Macau” sobre a globalização que mereceu diversas críticas jocosas, pelo tom catastrofista que ressaltava do texto. Resumindo, em poucas palavras, punha em causa a bondade da globalização e manifestava a minha preocupação quanto ao resultado final, que admiti poder ser o aumento das desigualdades e a tentativa de imposição do pensamento único. Nesse artigo usei precisamente o exemplo do “Monopólio” e a personalidade do R., para sustentar a minha teoria, na qual eu próprio não queria acreditar.
Enquanto houve prosperidade económica, muito se falou da solidariedade mundial, especialmente entre os europeus, que falavam de uma Europa unida por objectivos comuns. Quando os sinos tocaram a rebate, alertando para o caos financeiro, fruto de muitas actividades especulativas, começaram a baixar as expectativas e cada jogador deste “Monopólio” em que se transformou o mundo começou a tratar da sua vidinha, defendendo os seus interesses.
É claro que, como acontece frequentemente nos jogos de “Monopólio”, alguns adversários uniram-se em acordos pontuais para tentar evitar que o crónico vencedor, detentor dos títulos “tóxicos” alcançasse mais uma vitória. Porém, a coligação financeira europeia rapidamente tremeu, perante a fragilidade de alguns parceiros, como a Grécia, Espanha e Portugal.
A Alemanha foi a primeira a dar indícios de pretender abanar a coligação europeia. Começou por dizer à Grécia que, se precisava de dinheiro, vendesse algumas das suas ilhas. Depois, a muito custo, lá acedeu a emprestar uns euritos mas, em contrapartida, quer exigir que os países que recorram ao Fundo Europeu, submetam os seus orçamentos à aprovação prévia do Parlamento alemão! Esta tentativa de ingerência na autonomia de países soberanos não é só intolerável. É, acima de tudo, uma aberração!
Entretanto, com os povos dos países do sul da Europa condenados a viver à míngua, os jogadores peritos em especulação nos mercados financeiros continuam a exigir medidas mais drásticas. Já não se trata, porém, de tentar vencer este jogo de Monopólio do Euro. Eles já sabem que essa vitória está garantida e o seu próximo passo é asfixiar os países europeus governados por partidos socialistas, obrigando-os a capitular. A vitória que falta à Internacional da Finança, é a vitória da sua ideologia, de molde a impor o pensamento único. À Banca já não lhe basta conduzir as políticas económicas. Quer, também, impor a sua ideologia e assim governar o Mundo, sem ter de pagar o ónus dos políticos, nem ter de se submeter a eleições.
Desgraçadamente, tem o apoio da srª Merkel que procura comandar o jogo europeu, impondo as condições e as regras. Ora nós já sabemos como acabou a história quando, no século passado, a Alemanha tentou por duas vezes impor a sua hegemonia no espaço europeu. Esperemos que a cena não se repita mas, confesso-vos, não estou nada optimista.