Numa conversa sobre sustentabilidade e alimentação, é óbvio que o problema da escassez e subida dos preços dos cereais veio à baila. Na Argentina, a "guerra da carne", provocada pelos grandes produtores, condicionou o abastecimento das grandes cidades, pelo que não admira que essa seja uma questão que os preocupe ainda mais, do que a dos biocombustíveis e do aumento acelerado dos produtos de primeira necessidade, como é o caso dos cereais ( a carne é, para um argentino, o bem alimentar mais precioso e essencial à sua dieta) .
A determinada altura, um homem de meia idade pediu a palavra para colocar uma questão curiosa: "Se tanto combatemos e lutámos para reduzir o intervencionismo do Estado, acusando-o de limitar a liberdade de iniciativa, porque é que nos devemos resignar com um modelo económico e social que permite a um grupo de especuladores privados apropriar-se da produção de bens alimentares essenciais, ameaçando de fome milhões de pessoas em todo o mundo?"
A questão é complexa e não pode ser abordada de forma simplista, mas provocou um enorme burburinho no auditório. Enrique e eu, embora analisando a questão em perspectivas diferentes, procurámos responder de forma mais ou menos satisfatória, sabendo eu que, para um europeu, a pergunta é deveras melindrosa. Claro que há muita especulação, mas há também uma falência total de um modelo de sociedade que acreditou que a regulação resolveria todos os problemas. A falência total das entidades reguladoras e da auto-regulação deu nisto: concorrência distorcida e concertação de preços por parte das grandes multinacionais que dominam o mercado.
Terminada a sessão ( muito bem moderada pela Laura, que evitou que a discussão resvalasse para um debate ideológico) fui com a Laura e alguns dos seus amigos tomar um copo a um pub em La Recoleta. Discutimos até às 3 da manhã e, no final, não me restavam dúvidas: percebia agora, ainda melhor, as razões da emergência da esquerda na América Latina. O último exemplo vem do Paraguai, com o derrube do Partido Colorado-no poder desde 1947 e cuja maior figura foi Stroessner, líder de uma ditadura durante 38 anos- por uma coligação de esquerda liderada pelo ex-bispo Fernando Lugo, amigo de Evo Morales e Hugo Chavez e proscrito pela Igreja Católica que o acusa de ser comunista.
Na América Latina, onde as ditaduras têm vindo a ser derrubadas uma a uma, ainda há espaço para sonhar com uma vida melhor e uma sociedade mais justa. Que diferença entre isto e a "velha Europa" mergulhada em contradições e a viver num cinzentismo decadente, onde as pessoas se perdem em lamentações mas são já incapazes de reagir, porque consideram que o debate de ideias não conduz a nada! Embalados pelo prazer consumista da sociedade da hiperescolha, encolhemos os ombros, indiferentes, perante a perspectiva de um dia ( que pode não vir muito longe) ser mais barato comprar um telemóvel do que cinco quilos de arroz!
Foi o resultado de os governos terem centrado as suas atenções no consumidor, em vez de o fazerem no cidadão. A Europa é a sociedade do vazio, onde o consumidor inebriado pelos bens materiais, se esqueceu da sua função de cidadania.
Chegado ao hotel, não resisti a escrever este post antes de adormecer, reconfortado pelo prazer de uma horas de conversa onde não se ouviu o toque de telemóveis, não se falou das últimas delícias consumistas, das fofocas sobre figuras do jetset (embora por aqui também existam...), nem de Alberto João Jardim, Cavaco, ou a crise no PSD.
Rejuvenesci! Hoje, voltei a ter 25 anos.
*Título roubado a Luís Sepúlveda