quarta-feira, 7 de maio de 2008

Rochedo das Memórias 44- Do E.T. a Tomás Taveira

Em 1982, um extra-terrestre deixa o mundo com uma lágrima ao canto do olho: ET é o último sucesso de Spielberg. A sociedade de consumo vai explorar o pequeno alienígena até à exaustão e não há lar que não tenha uma réplica. O cinema não vive, porém, refugiado na ficção . Claude Chabrol e Martin Scorcese, emprestam aos seus filmes uma forte crítica à época.
Os consumidores preferem perseguir o sonho, refugiando-se na ficção do prazer consumista, transportando para as salas de cinema a sua preferência para o género. Começou a fuga em frente. “ Não queremos a realidade, queremos o sonho!”- proclamam. Será feita a sua vontade!
A revista "Time" dá nas vistas ao eleger como "Homem do Ano" o PC (computador pessoal). A comunidade yuppie rejubila e os restantes seres do Planeta, numa tentativa de interpretar a escolha, mergulham na leitura de "As Brumas de Avalon".
No meio de uma greve geral, o país vai com Fausto "Por Este Rio Acima", enquanto em Fátima um Padre Krohn tenta assassinar o Papa, e a RTP exibe a primeira telenovela portuguesa: Vila Faia.
Umas ilhas perdidas no meio do Atlântico são a causa de uma guerra entre a Argentina e a Inglaterra. Quando a guerra começou, a imprensa chamava-lhes “Ilhas Malvinas”, mas com a vitória da Inglaterra, passam a ser conhecidas por “Falkland”. Do mal o menos... a Argentina perde umas ilhas, mas vê-se livre de uma ditadura militar que deixou o país manchado por uma torrente de sangue.
Gabriel Garcia Marquez é galardoado com o Prémio Nobel da literatura e, em Veneza, o Leão de Ouro vai para Wim Wenders com o filme “ O Estado das Coisas”. Que não é nada bom, diga-se de passagem: o desenvolvimento industrial faz agonizar a floresta em toda a Europa Central.
No rectângulo, o movimento ecologista tem um nome: os Verdes. Mas a sociedade de consumo está imparável, por isso é publicada, finalmente a Lei de Defesa dos Consumidores. Tomás Taveira responde com o projecto da primeira catedral de consumo em Portugal. Irá chamar-se Amoreiras e motivará a organização de excursões de consumidores sedentos provenientes de todo o país e da vizinha Espanha. Isso, porém, só ocorrerá uns anos mais tarde

O ciclone em Myanmar e o efeito "boomerang"

Sim, eu sei que a tragédia provocada pelo ciclone Nargis em Myanmar ( antiga Birmânia) foi avassaladora.
Sei que se vive naquele país uma das mais hermétcas ditaduras do planeta ( embora isso não pareça afectar muito George Bush, que nunca se lembrou de invadir o país para estabelecer por lá uma das suas democracias de exportação).
Sei que o número de mortos (22 500, com tendência para aumentar), desaparecidos e desalojados é catastrófico e que grande parte do sul do país foi praticamente destruído.
Sei que é inadmissível que os soldados que sustentam a ditadura estejam refugiados na capital Naypyidam - que foi poupada pelo ciclone- deixando os feridos e desalojados ao abandono.


Mas nada disso confere a Barbara Bush o direito de vir culpabilizar o governo birmanês pela dimensão da tragédia. Ou será que mrs Bush sofre de Alzheimer e esqueceu a tragédia do Katrina em New Orleans?

É bom não esquecer que apesar de os recursos económicos e técnicos dos americanos serem incomensuravelmente superiores aos dos birmaneses, George Bush também começou por desvalorizar o possível impacto do Katrina e "ignorou" a tragédia durante quase 48 horas.

É bom lembrar que, volvidos três anos, o governo de Bush ainda não pagou grande parte das indemnizações compensatórias prometidas e que a recuperação da cidade está muitíssimo longe de ser concluída.

É bom lembrar que apesar das infra-estruturas de New Orleans e da capacidade de resposta dos serviços de socorro americanos, serem incomensuravelmente superiores aos de Myanmar, o Katrina provocou cerca de 3 mil mortos e quase um milhão de desalojados.

É bom lembrar que em Myanmar o povo vive sob uma ditadura e nos USA se vive, apesar de tudo...) em democracia. No entanto, em termos práticos, nem a junta militar, nem George Bush se comportaram à altura. O que, se tivermos em consideração as diferenças entre os dois países, acaba por os tornar muito semelhantes em momentos de desgraça.

Bob Geldof (2)

Na sequência do que escrevi mais abaixo, sobre a intervenção de Bob Geldof ontem, no Pestana Palace, acrescento o seguinte:

Se o objectivo era criticar governos que não respeitam as normas ambientais, poderia ter dado o exemplo de Portugal. Bastar-lhe-ia ter informado a assistência que a União Europeia abriu ontem mesmo três processos de infracção contra Portugal, por violação de normas ambientais em três projectos turísticos aprovados para a costa alentejana à pala dos famigerados PIN, violando as regras das áreas protegidas. Pelo contrário, preferiu bajular o governo português ( estará à espera de uma condecoração no 10 de Junho?). Uma boa demonstração da massa verde de que é feito!

Em relação ao preço das casas na Baía de Luanda- e já que deu os exemplos de Chelsea e Park Lane- poderia ter-se lembrado de invocar o preço que Tony Blair ( já possuidor de cinco mansões em Inglaterra) pagou a semana passada por mais uma em Bloomingsdale, para se perceber que não estava a dizer a verdade.