Felizes aqueles que que fazem dos seus dias luz Encanto de quantos se entregam à dor Luzeiro dos tristes e dos alegres Intensidade Cor Inspiração Deleite Anelo Dádiva Epifania
E de repente, já não era Natal.
Talvez não o tenha sido, nem a 25. Lá fora, a tangerineira
substituíra o pinheiro manso que encantara gerações e o presépio
jazia, deserto de mãos que o dispusessem, numa caixa de cartão.
Já viste o presépio, filha? E as
luzinhas? Estou ansiosa por que venham os meninos para ver como
reagem!
Alegrava-se na expectativa dos olhos
imensos dos mais novos, embora franzisse um pouco o sobrolho quando o
Menino Jesus ia parar ao lago, em banho prolongado, e as ovelhas
ganhavam asas, pousando nos telhados das pequenas casas.
Bivó, foste tu que apanhaste o musgo?
Bivó, quando vem o Menino a sério pôr
as prendas?
Bivó, desculpa! Não “resiti” e
comi um Pai Natal da árvore!
Olharam-se de relance e prosseguiram o seu caminho em passo menos célere. Estacaram, ambas.
Quando retrocederam, os olhos brilhavam no reconhecimento das adolescentes de outrora.
Clara?
Maria?
Um abraço imenso com mais de quarenta anos de premeio quase as deixava sem fôlego.
Depois. Depois, foi uma catadupa de palavras, com risos e lágrimas à mistura, que não era para menos, caramba. Tantos anos! Tanta vida!
Em comum, tinham o frio da camarata, os joelhos azulados dos bancos corridos da capela, os livros de banda desenhada e as fotonovelas dissimuladas pelos livros escolares na sala de estudo, os ralhetes das freiras pelas conversas nas aulas de religião e moral (valeram-lhes um Suf.- a destoar do Muito Bom de todas as outras) e o castigo quando as apanharam em flagrante a espreitarem pela janela, em poses de crescidas, para os rapazes do externato. Ah! Mas também houvera os fins de semana na casa uma da outra, metidas na mesma cama, na treta, até de madrugada; os segredos partilhados das paixões assolapadas, embora platónicas; os cigarros roubados em casa e fumados no meio dos arbustos, a que se seguia uma boa esfregadela de dentes com casca de laranja, não fosse o cheiro denunciá-las; as roupas trocadas; os batôns e os lápis dos olhos comprados em comum e, acima de tudo, o calor de uma amizade imensa, cortada abruptamente pela morte do pai de Clara, que a levara a abandonar o colégio e a partir para a Austrália com a mãe.
As mãos de ambos repousavam em cima da mesa de vidro do salão de chá. Tocavam-se, ao de leve. Havia nelas, porém, uma impressão de inquietude que denotava traços de muitos voos conjuntos.