O poema é exacto: palavra verso e poema geralmente significam solução em um corpo formalmente fechado e poeticamente aberto.
Vasco Pereira da Costa, Campo
Vamberto Freitas
Tirem o ilhéu da ilha, mas a ilha nunca sai dele ou dela. Nem vale a pena mencionar Antero de Quental, que escolheu a sua ilha de São Miguel para morrer, ou as obras de grandes escritores como Vitorino Nemésio, Emanuel Félix, Álamo Oliveira, Onésimo Teotónio Almeida, João de Melo e Cristóvão de Aguiar, e isto só para falar de alguns que viveram as suas vidas entre mar e terra. Vem aí uma nova geração que já está a dar continuidade a esta tradição. Os seus nomes ficam necessariamente para outra ocasião. Tenho lido e escrito sobre Vasco Pereira da Costa desde há muitos anos. Este título da sua mais recente poesia, Campo, por mais irónico que nos pareça, não me surpreende nada. O autor nasceu na Ilha Terceira, mas foi desde cedo para a Universidade de Coimbra, e daquela cidade voltava só esporadicamente, ou então quando exerceu funções como Director Regional de Cultura nos VIII e IX governos aqui das ilhas. De resto, toda a sua obra, dividida entre poesia e ficção, demonstra perfeitamente essa sua dualidade de ser e estar entre nós, com títulos que incluem Nas Escadas do Império (contos) até à poesia de Ilhíada antes e depois, escrita entre 1972 e 2012. Se digo aqui “entre nós” é porque a sua obra inclui ainda os poemas My Californian Friends, com duas edições de 1999 e 2000. Apesar do título em inglês, toda a poesia está escrita na nossa língua, e constitui uma comovida homenagem aos anos em que ele participou num encontro cultural no Vale de São Joaquim (Tulare), então organizado por Diniz Borges, e que juntava gente ligada à literatura e à cultura em geral, vinda um pouco de toda a parte. Nesses mesmos poemas tanto recorda eventos inesquecíveis como revê ou reencontra velhos amigos e conhecidos lá imigrados há várias décadas. Vasco Pereira da Costa vem também no seu presente livro relembrar-nos de outro facto muito importante na literatura portuguesa, e que perdura há séculos: os açorianos tem no seu imaginário todo o país de norte a sul com dois arquipélagos pelo meio, ao contrário da maioria dos continentais que só se lembram da Madeira com uma espécie de parque de diversões e os Açores pelos sismos ou pelo seu o anti-ciclone, que muitos ainda não sabem se é uma tempestade ou uma anti-tempestade. Campo, na minha interpretação, significa ou simboliza toda uma vida entre mar e terra, toda uma riquíssima vivência noutros continentes ou em pessoa ou através das suas literaturas. Há uma característica admirável em toda a sua obra, e regressa às páginas deste livro: um conhecimento profundo das literaturas e mitologias clássicas, desde a antiga Grécia aos moderníssimos Estados Unidos, e, por certo, a literatura lusófona. Ler Vasco Pereira da Costa é aliar o mais longo passado aos nossos dias. Evita a política propriamente dita, mas não evita as insinuações às realidades presentes que sofremos ou às quais sobrevivemos. Do poema “Porto De Abrigo”, a lembrar os seus Açores, que vai aqui em forma ou linhas diferentes, sem os devidos espaços:“e trás os montes o mar/era a seara verde ao vento leve:/a vaga breve envolvia na penumbra/o horizonte em grisalha bruma/Desenhei os contornos de uma ilha/ então o meu olhar em quilha/rasgou a ondulação de centeio/verde era o mar no meu vagante anseio/um final acenou em chão firme e calejado/(alvorada a torga o azul do rosmaninho)/e achei um porto de abrigo depurado:/naco de pão presunto copo de vinho”. Toda a escrita é essencialmente “memória” de tempos e lugares, seja ela ficção, poesia ou temas-outros. Só a poesia nos coloca tanto em geografias e em determinados tempos, mas muito especialmente na alma do seu autor. Ao contrário do que diziam certos críticos de tempos quase esquecidos, o “autor” não morreu nem nunca deixou de ser o “narrador”, aliás como afirmava José Saramago. O “narrador” é o que inventa as suas personagens, e em cada uma delas está parte do leitor, ou na sua experiência de vida ou nos seus sentimentos. Até mesmo um assassino nos retrata no que durante uma vida sentimos perante outros. O que nos separa são as acções que cometemos ou não. Quando um poeta retrata ou nos dá uma visão de territórios conhecidos ou imaginados, devolve-nos a nós próprios. A grande arte é isso e só isso quando se torna.“universalista”. Reproduz também a nossa humanidade e/ou desumanidade em palavras que depressa se tornam as nossas, que mexem não só com supostos estilos geniais, mas muito certeiramente com o nosso mais profundo sentir. Quando lemos um poeta, lemo-nos a nós próprios. Por mais abstractas ou deambulantes que nos pareçam as suas palavras ou metáforas.
Campo traz-nos uma variedade de temas, todos eles interligados pela própria voz do poeta. Desde os mistérios da natureza e seus bichos em azáfama imparável, é uma perfeita representação da vida em geral, em que não faltam a sua presença diante de supostos heróis nacionais, como o que ele chama em “A Arocaia Do Largo Prior do Crato”, a garotada. Antes ou depois escreve elegias, ou então exalta a paisagem, seja ela do continente ou das suas ilhas, como a sua êxtase ante a Serra do Cume na Ilha Terceira, com vista para pastos divididos por agricultores num manto verde sem igual, “Na Serra do Cume”, na beleza do Tejo, e em “Quatro Estações”, lembrando Vivaldi, na singularidade do Mondego, à beira do qual ele vive. Depois noutro poema diz que “não vai ficar à espera de Godot, esse fantasma das palavras vazias e sem sentido, e que de qualquer modo nunca chega, e se chegasse não faria diferença alguma para o estado dos que o esperam. Creio que também queria dizer que não esperemos um rapazinho meio louco que ficou nas areias de Marrocos e dá pelo nome de D. Sebastião, destruindo-nos a todos ainda mais. A condição portuguesa actual, a que vivemos todos os dias, não tem palavra explícita aqui; tem o resto, tem a condição humana no seu melhor e pior, pelo menos na versão lusa. Campo, por mais estranho que vos pareça, faz-me lembrar Senhora das Tempestades, de Manuel Alegre, e a poesia A New Path To The Waterfall, de Raymond Carver, o americano falecido em 1988, e considerado a grande mestre do conto pós-Hemingway. Do poema “Nas Portas Do Ródão, em Campo:
“Tejo afeiçoado ao nosso ser:/Uma montanha a rasgar/ muita pedra a revolver/nas ânsias de ter o mar”.
Termino com as palavras de Elisa Branquinho, Anabela Sardo, Zaida Ferreira na contracapa de Campo: “Os lugares são reais, mas existem em cada poema numa combinação linguística que transporta em cada poema ao universo interior do poeta, resultante da proeza artística do fingimento poético que revela a sinceridade intelectual das emoções carregadas de simbolismo”.
A obra de Vasco Pereira da Costa conta ainda com outros livros que integram perfeitamente toda a sua temática de ilhéu por nascença e continental por opção. Cada leitor mais atento ou exigente que os leia verá o escritor absolutamente original que ele tem sido na sua já longa carreira. Espero agora que continue a olhar o Mondego e a reviver as suas ilhas. Cada escritor é todo um mundo próprio, só nunca nos deixamos de nos olhar nesse espelho directo ou retorcido, de nos reencontramos nas sombras de uma vida vivida nos múltiplos papéis que desempenhou entre nós, em Portugal e nos mais distantes recantos dos mundos a que pertence por afinidades familiares e do afecto e admiração dos seus leitores e amigos.
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Vasco Pereira da Costa, Campo, Calendário das Letras, Via Nova de Gaia, 2018.










