14/04/2020

Coro das almas confinadas

Porque tudo está mal,
aqui e ali, nos lares e
nos centros de repouso;
porque tudo está mal,
e eu não ouso dizer bem
do mal que descobri;

porque tudo está mal,
e o mal avança,
e o mal contagia
e o mal, sem rosto,
coloca num dos
pratos da balança
a ameaça  iminente
do sol posto.

Sendo o mal insidioso,
não te aprestes a sair
para a rua descansado,
sem máscara nem luvas
nem distância;
sofreia o desejo, a velha
ânsia de viver como
outrora.

Põe de lado
alguma dessa raiva
que destilas
para aguentar,
de pé,
penosas
filas.

Domingos da Mota

13/04/2020

[Com a peste no ar, trava-se o beijo]

Com a peste no ar, trava-se o beijo,
O beijo que no rosto se daria,
E o toque perdido de desejo
Que a beijos ardentes levaria;

Com a peste no ar, o beijo faz-se
Platónico, distante, surreal,
Um beijo que não beija a tua face,
Um beijo meramente virtual,

Asséptico, sem germes, sem contacto,
Um beijo, como tantos, ecléctico,
Sem lembrança de toque nem de olfacto,
Apenas, puramente, cibernético:

Um beijo mascarado e de luvas
Que nem sabes sequer se é de Judas.

Domingos da Mota

12/04/2020

PÁSSARO EM QUEDA NUM LUGAR SAGRADO

Naqueles dias
vimos o pássaro em queda
num lugar sagrado
Voou com asas todas brancas
e uma cauda como leque de sol
Vimos o remoto relâmpago
o susto do baque
nos vidros mais comuns
a morte, ilusão de transparências
Abandonou outras imagens
idênticas asas perdidas
a glória fulminada
o risco do sangue

E vimos a inspiração do quadro
os homens e as mulheres
num canto do mundo
respirando a luz
como se fosse o silêncio inteiro
Contemplavam depois a própria cegueira
prisioneiros de um pó dourado
com os pés enleados em raízes
do mesmo vermelho vivo

Ficava ao largo
o sacro pescador
absorto na troca das marés
um sifão turvo de peixes
espelhos de espelhos
Prende nas suas redes
o ar da tempestade
lança-as sobre o vazio
o mais submerso mar

José Manuel Teixeira da Silva

Música de Anónimo [poesia, 2001-2009], Companhia das Ilhas, Lajes do Pico, Janeiro de 2015

10/04/2020

Quem nunca se desaveio

     Comigo me desavim

     Sá de Miranda


Quem nunca se desaveio
Ou exasperou consigo
Com o fundado receio
De ser de si inimigo,

Bem pior que o cavalo
De Tróia - e, fora de si,
Se aventurou no Dédalo,
Em busca do ser-em-si?

Quem nunca se desaveio
Com o mundo à sua volta
E adubou no seu meio
As sementes da revolta?


Domingos da Mota

09/04/2020

Ouça

Nem que a vaca
tussa
ou espirre,
ouça.

Ouça o que
lhe dizem,
siga os
conselhos

que logo
contradizem,
pois ficaram
velhos.

É tanta
a certeza
em palpos
de aranha

que a dúvida,
ela mesma,
não sabe
o que apanha.

Domingos da Mota

07/04/2020

[A flor tem linguagem de que a sua semente não fala]

A flor tem linguagem de que a sua semente não fala.
A raiz não parece dar aquele fruto.
Não parece que a flor e a semente sejam da mesma linguagem.
Retirada a linguagem
a semente é igual a flor
a flor igual a fruto
fruto igual a semente
destino igual a devir.
E era o que se pedia: igual.

José de Almada Negreiros

Poemas Escolhidos, Assírio & Alvim, Novembro de 2016

O AR APENAS

Donde
te vem
o sono
carne
de febre
ainda
não contida
febre
funesta
que ultrapassa
o som
avião vivo
que voa
sob
o peito
das aves
que no vento
dispersam
todo
o pranto?
O ar
apenas
rarefaz
as lágrimas
bebe
o ácido
feroz
que nem
as nuvens
vivas
o algodão
das penas
retém
no tempo
na rigidez
dum corpo.

Armando da Silva Carvalho

OS OVOS D'OIRO, Publicações Dom Quixote, Lisboa, Setembro de 1969

06/04/2020

Máscaras

Tantas máscaras
Sem a máscara
Poucas máscaras
Com a máscara

Máscaras sim
Máscaras não
Máscaras não
Porque sim?

Máscaras sim
Nos dirão

Domingos da Mota

04/04/2020

[Fosse corvo, melro, pomba]

Fosse corvo, melro, pomba,
fosse milhafre ou gaivota,
fosse abetarda ou a sombra

de uma ave ignota,
fosse um abutre, um pardal,
um falcão, uma andorinha,

fosse uma erva daninha,
mas é um vírus -
letal.

Domingos da Mota

03/04/2020

O MEDO

Ninguém me roubará algumas coisas,
nem acerca de elas saberei transigir;
um pequeno morto morre eternamente
em qualquer sítio de tudo isto.

É a sua morte que eu vivo eternamente
quem quer que eu seja e ele seja.
As minhas palavras voltam eternamente a essa morte
como, imóvel, ao coração de um fruto.

Serei capaz
de não ter medo de nada,
nem de algumas palavras juntas?

Manuel António Pina

POESIA REUNIDA (1974-2001), Assírio & Alvim, Lisboa, Outubro 2001

29/03/2020

A torto e a direito

Se o vírus se visse
Se o vírus falasse
Se o vírus se ouvisse
Se o vírus palrasse

Se o vírus vagisse
Se o vírus chorasse
Se o vírus se risse
Se o vírus berrasse

Se o vírus zunisse
Se o vírus piasse
Se o vírus zumbisse
Se o vírus silvasse

Se o vírus latisse
Se o vírus miasse
Se o vírus ganisse
Se o vírus uivasse

Se o vírus balisse
Se o vírus grasnasse
Se o vírus grunhice
Se o vírus zurrasse

Se o vírus tugisse
Se o vírus gritasse
Se o vírus mugisse
Se o vírus clamasse

Se o vírus carpisse
Se o vírus bramasse
Se o vírus se ouvisse
Se o vírus cantasse

Se o vírus surdisse
Se o vírus voasse
Se o vírus tossisse
Se o vírus espirrasse:

Apenas se vê
E sente o efeito
Do vírus que empesta
A torto e a direito

Domingos da Mota

27/03/2020

Provérbios e Cantares

XLIV

   Tudo passa e tudo fica;
mas nossa vida é passar,
passar fazendo caminhos,
uns caminhos sobre o mar.

*

Todo pasa y todo queda,
pero lo nuestro es pasar,
pasar haciendo caminos,
caminos sobre la mar.

António Machado

Antologia Poética, [Campos de Castela], Selecção, tradução, prólogo e notas de José Bento, segunda edição revista e aumentada, Edições Cotovia, Lda., Lisboa, 1999