terça-feira, 24 de março de 2020

a sultana jubilosa

Hürrem Sultan (c.1502-1558), ou Roxelana, como é conhecida no Ocidente, antiga escrava de origem ucraniana, favorita e depois consorte do califa e sultão Solimão o Magnífico, foi a mulher mais influente do Império Otomano, no período áureo do poder turco. Entre muitos retratos seus que subsistem, avulta o de Ticiano, La Sultana Rossa (c. 1550). Com raízes na Ásia Central, e tendo penetrado bem dentro da Europa – os turcos estiveram à beira de conquistar Viena no século XVII – o resultado foi um mosaico cultural fascinante, em que Oriente e Ocidente se misturam. Na colecção «Reignes de Sang», da Delcourt, saíu o primeiro tomo dedicado à sultana, Roxelane la Joyeuse, com texto de Virginie Gregnier e desenhos de Olivier Roman.

domingo, 22 de março de 2020

O álbum de que todos falam

Não se afigurava possível, mas parece que alguém “limpou” o cowboy que atira mais rápido do que a própria sombra… Uma homenagem de Matthieu Bonhomme, já de 2016, a Morris e à grande personagem criada em 1946, agora em edição de A Seita, O Homem que Matou Lucky Luke.

sábado, 21 de março de 2020

Boris Vian

Sexo, álcool, jazz e racismo no sul dos Estados Unidos, Irei Cuspir-vos no Túmulo (1946) livro agreste e cru de Vernon Sullivan, a.k.a. Boris Vian, que à época se apresentou como “tradutor”, conhece agora uma adaptação em BD por Jean-David Morvan, com desenhos de Rey Macutay, Rafael Ortiz, Scientronc. Edição Glénat.

quarta-feira, 18 de março de 2020

Tarzan

Tarzan dos Macacos, romance publicado em 1912 por Edgar Rice Burroughs (1875-1950), escritor de pulp fiction, tornou-se o epítome de uma certa visão do homem ocidental e da efectiva supremacia de então. A história é conhecida: após um naufrágio ao largo da costa ocidental de África, lord e lady Greystoke, aristocratas britânicos, constroem uma cabana, procurando rodear-se dum mínimo de conforto com os salvados do navio. John Clayton, nascido em plena selva, não chegará a ter memória dos pais. Será Kala, uma fêmea gorila quem descobrirá um bebé a quem chamará Tarzan, ‘o de pele branca’, na sua língua simiesca… Dotado de grande inteligência, destreza física, uma força sobre-humana e um grito de guerra que atemoriza os outros animais, chegado à idade adulta, Tarzan virá a tornar-se o ‘rei’ incontestado dos símios e, com magnanimidade, ditará a lei naquele território.
Tarzan combina a fantasia do bom selvagem às avessas com a do fardo do homem branco, polvilhada pelas imaginosas narrativas finisseculares. Nessa medida, não estranha vê-lo em auxílio do rei Dalon, bem amado soberano cujo reino com cenário medievo fora tomado de assalto por dois aventureiros anglófonos, Flint e Gorrey. Se o monarca parece provir do círculo arturiano, também a princesa Nakonia se assemelha a uma estrela de Hollywood. Ingenuidades que atingem um patamar hilariante quando Tarzan se dirige aos seus num inglês impecavelmente traduzido: «Pois bem! – exclama Tarzan – apesar de ser uma loucura, guiar-vos-ei!»... Narrativa de aventuras puras, verifica-se uma quase paragem da História, quando, depois de expulsos pelo nosso herói, os dois rufias, recorrendo ao financiamento de um magnata do crime, Andol Rakka – o nome orientalizante é outro cliché –, invadem de novo o reino com uma poderosa força de guerra, composta por mercenários, blindados e aviões. Será o homem-macaco a liderar os animais da selva para o embate; os súbditos, aparentemente, parecem incapazes de defender-se por si sós...
O que há de particular interesse neste álbum, é a passagem de testemunho de Hal Foster para Burne Hogarth – os dois maiores desenhadores da série –, de um domingo para o outro: 2 e 9 de Maio de 1937. Foster (1892-1982), vindo da publicidade, trabalha na personagem de Burroughs durante oito anos, abandonando-a para criar o Príncipe Valente, uma das melhores bandas desenhadas de sempre; Hogarth (1911-1986) responde a um concurso aberto pela UFS, com uns desenhos à maneira de Foster, sendo contratado.
Se o primeiro é um soberbo fisionomista e, conhecendo Valente, já o estamos a ver nas vinhetas do homem-macaco, Hogarth, embora ainda muito colado ao primeiro, revela um plasticidade superior no movimento e na anatomia, qualidades que levará ao máximo na adaptação da história original, em 1973.
Tarzan na Cidade do Ouro – 3.ª parte
desenhos: Hal Foster e Burne Hogarth
edição: Futura, Lisboa, 1987
capa de Augusto Trigo, a partir de vinheta de Hogarth

segunda-feira, 16 de março de 2020

eles existem

A vida cinzenta dos jovens nos subúrbios de Paris, a falta de horizontes, a ausência de exemplo, o desengano, as estratégias de sobrevivência de quem cresce na sombra, nos lugares que preferimos não conhecer. En Falsh,t. 1 – On Est Là, trabalho soberbo de Oz e Bastien Sanchez, edição Delcourt.

quinta-feira, 12 de março de 2020

a verdadeira história verídica

É o título de uma colecção humorística sobre líderes sanguinários, com textos de Bernard Swysen e o concurso de vários desenhadores.: Calígula, Átila, Torquemada, Drácula, Robespierre, Hitler e agora Stálin, numa BD animalista, com o talento de Ptiluc nas imagens: o pai, sapateiro violento e alcoólico, é um rato, a mãe uma porca, o médico uma ave pernalta, o padre ortodoxo um bode, o mestre—escola um mocho, evidentemente. Stálin, nesta fábula, aparece como um rato anafado e próspero. Mais uma série que poderia ter edição portuguesa.



quarta-feira, 11 de março de 2020

à maneira de Alice

Melvina é uma pré-adolescente um pouco aborrecida por nunca ser tida nem achada pelos pais nas decisões que lhe dizem respeito. O gato Octavius é o principal confidente. Numa tarde de queixumes, o bicho salta pelo telhado e Melvina, no seu encalço é recebida por um velho afável, de longa barba branca, que a conduz a uma sala, onde, tomando chá, a aguardam um raposo, um mocho e uma texuga… Melvina, de Rachele Aragno (Dargaud).


domingo, 8 de março de 2020

feios, velhacos e (muito) divertidos

Edibar da Silva é um extraordinário anti-herói: bebedolas, louco por cerveja (uísque também serve) consumida em casa diante da televisão ou no boteco do Bigode, de preferência na companhia do amigo dilecto, Zé Manguaça. Só uma vez, neste livro inicial recentemente editado, percebemos o que este zerói (obrigado, Ziraldo!...) faz na vida: trabalha para o município, num daqueles veículos pesados que fazem a recolha dos excrementos no saneamento básico. Para evitar ferir susceptibilidades – confirmámo-lo numa entrevista –, não sabemos qual o 'time' por que torce. Aliás, política, religião e futebol, são temas que o autor evita propositadamente; mas também não fazem grande falta: a riqueza da velhacaria de Edibar, como a de, vez por outra, a de muitos de nós, é tal, que não falta material ao autor, o brasileiro Lucio Oliveira, natural do Paraná.
Da internet e da imprensa local para o mundo lusófono (para já), Edibar é dono de um Fusca (Carocha) de 1968, um cão chamado Gole – a criatura mais inteligente da série – e consorte de “uma mulher chata”, nas suas palavras e por esta ordem de importância… Trata-se da abnegada Edimunda, moura de trabalho que sai do sério quando o marido abusa da mandriice; um estafermo no que respeita à beleza, não destoando do par, que, por sua vez, não se comove com as tentativas falhadas de sedução, mesmo com recurso a lingerie sensual, por parte da esposa. Edibar é uma espécia de casanova de bairro com as mulheres dos vizinhos – Cornélio que o diga –, e nem a esposa do médico, o Dr. Sarado, cujo armário do quarto Edibar costuma frequentar, por vezes na companhia do Zé Manguaça, é poupada, sem esquecer todo um lote de garotas de programa, não admirando, pois, os queixumes de Edimunda. A família alarga-se à sogra, a Dona Ana Conda, que nutre um correspondido ódio pelo genro, Edipai e Edimãe, surdos que nem portas e velhos gaiteiros nostálgicos, e o ainda o sobrinho Edinho, leva e traz de quiproquós.
Toda esta patota reside na Vila Xurupita, uma homenagem ao Zé Carioca de Ivan Saidenberg e Renato Canini, e a todos esses maravilhosos favelados, Nestor, Pedrão & C.ª, madraços à medida do humor doutras crianças, mais inocentes nesse então.
Edibar, com a sua boçalidade, ignorância e leveza existencial lembra alguns antecessores. Desde logo Andy Capp / Zé do Boné, do inglês Reg Smythe, que O Primeiro de Janeiro publicava – nesses tempos em que havia tiras aos magotes nos jornais... –; ou ainda, fora do mundo dos quadradinhos, o especioso Archie Bunker da série da CBS dos anos 70 All In The Family. Politicamente incorrecto, machista, grosseiro, tudo se conjuga neste cromo através da perspicácia e agudeza de Lucio Oliveira.

Edibar, vol. 1
texto e desenhos: Lucio Oliveira
edição: Polvo, Lisboa, 2019