quinta-feira, 28 de maio de 2020

LÍRICAS PORTUGUESAS - 2.ª SÉRIE (Cabral do Nascimento, edição)

«Ao apresentarmos a segunda série das Líricas Portuguesas afigura-se-nos desnecessário dar aos leitores qualquer explicação no género da que fez o compilador da Fénix Renascida, que pretendeu salvar do "silêncio pouco merecido os grandes partos dos engenhos mais elevados".» Uma nota de humor deste compilador, Cabral do Nascimento (1897-1978), que infelizmente se excluiu, certamente por pudor, da obra em que deveria também figurar.


Gosto muito de antologias; e gosto ainda mais das que são panorâmicas. Prefiro-as às antologias temáticas (sou co-autor de uma publicada e várias por aí), mais fáceis de organizar, ou, pelo menos, levantando menos problemas quanto à selecção. As que pretendem fazer um ponto de situação, além de --  sendo os seus organizadores honestos e competentes --, pedirem um conhecimento extensivo, neste caso da poesia do período que versam, assumem também um risco: o risco da exclusão. Exclusão que é sem dúvida desagradável para as vítimas dela, como o poderá ser para o antologiador, num futuro mais ou menos distante, pela possibilidade de ser apontado por negligência, preconceito ou mero desconhecimento.
(Sempre me causou alguma estranheza a ausência do Borges na Poesia do Século XX, do Sena, publicada em 1978, enquanto que o Ruy Belo já o traduzira e publicara na antiga Dom Quixote.)
Cabral do Nascimento escolhe um conjunto de cinquenta autores (clicar na capa), correspondentes a um intervalo de cinquenta anos entre o nascimento do mais velho, António Feijó (1859-1917), e do mais jovem, Adolfo Casais Monteiro (1908-1972). Desta meia centena, desconhecia três: Queirós Ribeiro, António Fogaça e João Saraiva, e gostei de lê-los. Outros há que, apostaria dobrado contra singelo, duvido se encontrassem numa antologia igual, cobrindo o mesmo período, organizada hoje: por exemplo, Manuel da Silva Gaio, Júlio Brandão, Cândido Guerreiro e até Luiz de Montalvor, para não dizer mais.
Há ausências que me parecem problemáticas: a de Saul Dias -- dos poetas da presença  um dos que menos envelheceu. O organizador da 3.ª série, Jorge de Sena outra vez, irá colmatar estas ausências, vincando que o seu lugar seria nesta 2.ª Série. Só podiam ser cinquenta, um por cada ano a que a antologia corresponde, e por isso, salvaguardando-se também, Cabral do nascimento sugere uma nova antologia para agrupar nomes preteridos.
O prefácio avança com verdade elementares, hoje, mas que à época (1945) faziam ainda sentido, em torno de forma e conteúdo, indivíduo e grupo, num período em que a dava tudo à estalada por razões que hoje nos fazem sorrir. Aqui, como noutras coisa, Régio sobressaía pela grande lucidez, qualidade que não faltava a Cabral do Nascimento quando a certa altura sustenta: «[…] tudo é susceptível de constituir a substância lírica -- até um simples nada.» Nada, aliás, título do extraordinário livro de estreia poética do negregado Júlio Dantas (1896), aqui presente (Almada está fora…), tão bom quão péssimo é os segundo e derradeiro, Sonetos (1916). Mas estou a adiantar-me... As notas biobibliográficas são tão boas quanto sucintas, e o prazer da leitura é grande. A ela voltarei, claro.


título: Líricas Portuguesas - 2.ª Série
antologiador: Cabral do Nascimento
edição: Portugália Editora
colecção: «Antologias Universais»
data: [1946]
impressão: Gráfica Santelmo, Lisboa
págs.: 367.
data de posse: Junho de 2004

terça-feira, 19 de maio de 2020

MAR MORTO (Jorge Amado)

Na correspondência que trocavam, Ferreira de Castro, escrevendo a Jorge Amado após receber  Mar Morto (1936), disse-lhe ser este romance um poema em prosa, no que eu não poderia estar mais de acordo, até pelo sentido épico de que se reveste a luta do homem contra os elementos -- uma épica colectiva, como teria forçosamente de ser. 
«Agora eu quero contar as história da beira do cais da Bahia.», escreve o narrador, como um autor popular vendendo nos mercados a sua literatura de cordel. Sem arrebiques acacianos, o escritor dessacraliza-se: «Vinde ouvir a história de Guma e de Lívia, que é a história do amor no mar. E se ela não vos parecer bela a culpa não é dos homens rudes que a narram. É que a ouvistes da boca de um homem da terra, e dificilmente um homem da terra entende o coração rude dos marinheiros.»
A grande literatura proletária e romântica, de que o autor, aos 24 anos e recém-licenciado no Direito que nunca praticou, se fez veículo.
Uma nota para a capa muito interessante desta minha edição, da autoria de José Ruy, a figuração de Janaína (ou Iemanjá), deusa marítima que colhe o seu tributo...

Jorge Amado, Mar Morto [1936], 4.ª ed. portuguesa, Mem Martins, Publicações Europa-América, s.d. 
colecção: «Livros de Bolso» #6
impressão: Gráfica Europam
capa: José Ruy
págs.: 195
data de posse:Junho de 1984

sexta-feira, 24 de abril de 2020

OS AMERICANOS E PORTUGAL I -- OS ANOS DE RICHARD NIXON (1969-1974)

Este livro de José Freire Antunes (1954-2015) ocupa a minha estante permanente de historiografia de ter sido, à data da leitura, um exemplo evidente de como se podia escrever história contemporânea com o rigor possível, sem o distanciamento temporal julgado necessário para abordar o que foi.
Historiografia de curtíssima duração (cinco anos), com um aparato crítico igual ao que vemos em estudos relativos a épocas recuadas, o que desmente a piada de já não me lembro quem, para o qual a História ia só até ao século XV; tu o que depois ocorreu era já do domíno do jornalismo…
Parte do projecto de investigação desenvolvido pelo autor nos Estados Unidos, «The Americans and Portugal: 1941-1976», beneficiando da recente abertura de alguns arquivos.
No limiar do capítulo I, «Política externa: um novo globalismo», temos um subcapítulo sem título, dedicado ao percurso político de Richard Nixon (1913-1994), da mercearia paterna em Yorba Linda, no condado de Orange, Califórnia até à Casa Branca, aos cinquenta e cinco anos. A presidência como obsessão, muito bem esgalhado, em menos de três páginas: «Ao longo de uma trajectória intermitente de sucessos e de ocasos, perseguira obsessivamente o supremo poder da Casa Branca: e faria desse poder o terminal trágico da sua carreira pública.»
Muito bem escolhida foi a epígrafe de Henry Kissinger -- «esse homem fatal», como diria Eça de Pinheiro Chagas --, com muito que se lhe diga sobre as alegadas "responsabilidades" das nações, algo que, de acordo com o secretário-de-estado os Estados unidos só haviam descoberto com a II Guerra Mundial, e diz esta verdade, que o era para as velhas elites do poder, quer do Estado Novo quer da República e da Monarquia: «Hoje em dia, o país mais pobre da Europa Ocidental -- Portugal -- tem os mais pesados compromissos fora da Europa porque a imagem histórica de si mesmo está ligada ás suas possessões ultramarinas.»

ficha
autor: José Freire Antunes
título: Os Americanos e Portugal -- vol. I -- Os Anos de Richard Nixon (1969-1974)
colecção: «Participar» #30
editora: Publicações Dom Quixote
local: Lisboa
ano: 1986
impressão: Gráfica Barbosa & Santos
págs.: 411
data de posse: Natal de 1986

quarta-feira, 8 de abril de 2020

uma história de amor

Gabriela, Cravo e Canela é um romance de costumes e uma crónica de amor -- o amor entre uma retirante e um imigrante sírio estabelecido na cidade de Ilhéus -- o amor de Nacib a Gabriela. E não se estranhe que aqui tanto se fale de amor, porque não há tema literário mais elevado do que o amor…
Aliás, é assim que o narrador inicia o proémio: «Essa história de amor -- […]», como que desintoxicando-se dos três volumes de Os Subterrâneos da Liberdade
A introdução do narrador define o tempo e o espaço -- Ilhéus, 1925 --, trazendo ao proscénio um acontecimento de disrupção (palavra horrível…), o assassínio a tiro, em flagrante delito de adultério, do dentista Osmundo Pimentel e Sinhàzinha Guedes Mendonça pelo marido desta, o fazendeiro encornado Jesuíno Guedes Mendonça.
Escândalo público comentado na capital do cacau por algumas figuras gradas a que somos apresentados:João Fulgêncio, dono da papelaria Modelo, «centro da vida intelectual» da cidade; o político Mundinho Falcão; o advogado e publicista Ezequiel Prado, homem de verbo fácil; e, obviamente, Nacib, dono de um restaurante, a braços com a saída da cozinheira.

«Assim era em Ilhéus, naqueles idos de 1925, quando floresciam as roças nas terras adubadas com cadáveres e sangue e multiplicavam-se as fortunas, quando o progresso se estabelecia e transformava a fisionomia da cidade.»




sábado, 21 de março de 2020

GABRIELA, CRAVO E CANELA (Jorge Amado)

Leitores de Jorge Amado, há-os de três tipos: os que gostam do primeiro Jorge Amado, o autor militante comunista, o que influenciou a primeira geração dos neo-realistas e que caiu fundo em vários modernistas da presença -- quem a leu, sabe que é assim -- e que a partir do progressivo afastamento do Partido Comunista do Brasil (PCdoB) se aburguesara, tornando-se, inclusivamente uma espécie de propagandista turístico de certas delícias tropicais; outros pelo contrário, acham que este era um panfletário e que o grande escritor é o segundo Jorge Amado. Ambos estão fundamentalmente errados, embora algumas das críticas e ditirambos possam fazer sentido de forma parcelar. A verdade é que no essencial se trata do mesmo Jorge Amado: sim, há uma epígrafe de Karl Marx em Seara Vermelha (1944) e sim, Dona Flor encorna o marido vivo com o marido morto, os três na mesma cama. Sim, O Mundo da Paz é uma intragável mistela propagandística do regime de Stalin e Navegação de Cabotagem  é o renegar da cegueira sem eliminar ou esconder dsse zelo funcionário.
O título charneira, o antes e o depois, dá-se com Gabriela, Cravo e Canela, o romance que se sucede, após quatro anos, a Os Subterrâneos da Liberdade (1954), um louvor ao PCdoB...
Que Gabriela, Cravo e Canela é um romance extraordinário, balzaquiano no melhor sentido da palavra, não há dúvida; resiste a todas as adaptações, por boas ou muito más que sejam. Resiste até a uma miserável capa deste minha edição portuguesa das Publicações Europa-América, quando esta editora a estreara em 1960 -- após a autorização a contragosto de Salazar, que quis ler o que estava em vias de autorizar… --, com uma bela cobertura de António Domingues, e um prefácio de Ferreira de Castro, que só não o escrevera a contragosto porque ditado pela amizade, já então de três décadas, entre ambos.

Jorge Amado, Gabriela, Cravo e Canela [1958], 15.ª edição portuguesa, prefácio de Ferreira de Castro, Mem Martins, Publicações Europa-América, 1978.
Colecção: «Obras de Jorge Amado» #7
Data de posse: Outubro de 1983

quarta-feira, 26 de fevereiro de 2020

luta de classes

«As nuvens encheram o céu até que começou a cair uma chuva grossa. Nem uma nesga de azul. O vento sacudia as árvores e os homens seminus tremiam. Pingos de água rolavam das folhas e escorriam pelos homens. Sós os burros pareciam não sentir a chuva. Mastigavam o capim que crescia em frente ao armazém. Apesar do temporal os homens continuavam o trabalho. Colodino perguntou:»

A acção decorre provavelmente no tempo presente da narrativa, na Fazenda Fraternidade, município de Ilhéus, estado da Baía.

A insistência na palavra "homens", a dar substrato ao desejo, em dúvida manifestada pelo autor: «Será um romance proletário?» Já não heróis individuais e povo como motivo pitoresco, mas homens, neste caso trabalhadores da fazenda de cacau: Colodino, Antônio Barriguinha, Honório... mais à frente João Grilo. "Fraternidade" o irónico nome da fazenda, tal como o seringal em A Selva , de Ferreira de Castro -- que Jorge Amado lera --, tinha por crisma "Paraíso", como um dichote.

O antagonismo de classes é-nos dado pelas variações sobre o nome do patrão, Manoel Misael de Souza Telles, o "Mané Frajelo" (flagelo), "Mané Miserave Saqueia Tudo", "Merda Mexida Sem Tempero"; pelo confronto entre a casa opulenta do coronel, onde viviam mulher, filha e filho estudante no Rio, «elegante e estúpido», que destratava os trabalhadores; e as choças de barro cobertas de palha  -- «Deus também é pelos ricos...», observa um; e pela extorsão que Mané Frajelo exerce contra os homens que trabalham para si, com a cumplicidade do despenseiro João Vermelho. E depois as contas, três mil e quinhentos (réis?) por dia era a paga a cada um, retirada dos mil contos anuais que Frajelo ganhava com o trabalho destes homens.

E uma personagem sobre a qual cai um mistério, Honório, «Preto, forte, alto, brigão», que o patrão não despedia, apesar da grande dívida contraída no armazém.«Bebia cachaça pelo gargalo da garrafa e jamais foi visto embriagado. Mané Frajelo respeitava-o.»

Jorge Amado, Cacau (1933), ibidem, capítulo I, «Fazenda Fraternidade»,  pp. 19-23. 


quinta-feira, 13 de fevereiro de 2020

a mulher e a guerra

Não tem rosto de mulher, a guerra, proclama Svetlana Alexievich, e com verdade: haverá algo mais contranatura do que ter capacidade para gerar vida e em simultâneo tirá-la? No entanto, numa breve nota preambular, reproduzindo uma conversa com um historiador (pp. 11-12) não identificado -- Alexievich utiliza o método do inquérito antropológico e sociológico do informante, ocultando a identidade dos seus entrevistados --, somos esclarecidos que mulheres guerreiras houve-as desde a Antiguidade grega; e que na chamada Grande Guerra Patriótica um milhão de mulheres soviéticas integraram o Exército Vermelho, desempenhando todas as tarefas e missões que um conflito em larga escala implica; de tal modo que o léxico russo teve de adaptar-se à femininização de vocábulos até então exclusivamente masculinos.

segunda-feira, 10 de fevereiro de 2020

bendito o verbo

«Bendito Aquele que tem o reino dos céus e da Terra, que comanda a imensidão do Espaço, que conhece o Tempo…» Alcorão, XLIII, 85 -- epígrafe de O Meu Coração É Árabe. Apesar de confundir-se, erradamente, árabe e muçulmano, não há dúvida que foi no mundo árabe que surgiu a religião de que Maomé se fez profeta.

Enquanto leitor, neste caso, de uma antologia poética, direcciono o meu entendimento do Divino, aqui saudado através do livro sagrado do Islão para o Verbo -- o Verbo que abarca tudo; tempo e espaço, a matéria e o intangível. O verbo manejado pelo profeta, pelo poeta.

quinta-feira, 6 de fevereiro de 2020

CACAU (Jorge Amado)

Cacau, de Jorge Amado (1912-2001) não é certamente um dos melhores dos seus livros (para mim, Mar Morto, Gabriela, Cravo e Canela e Tenda dos Milagres, entre outros).
Por que o ponho então na minha estante definitiva? Porque, tratando-se da segunda narrativa do jovem autor (vinte e um anos), depois da surpresa inicial de O País do Carnaval (1931), que é outra coisa, o romancista viril de putas e vagabundos, como o próprio se caracterizava, está todo aqui em potência.
Claro que as chamadas putas e os alegados vagabundos são os descamisados, os outlaws, os negros, descendentes e ex-escravos, e o gosto indeclinável pela beleza feminina, coisas que incomodam os nefelibatas.
Em nota prévia, o alerta semelhante que já Ferreira de Castro (que ele lera) fizera em Emigrantes (1928) e Alves Redol faria em Gaibéus (1939): «Tentei contar neste livro, com um máximo de honestidade, a vida dos trabalhadores das fazendas de cacau do sul da Bahia. / Será um romance proletário?»

da posse: Janeiro de 2003.

edição: Planeta DeAgostini, Lisboa, s.d.
ilustrações: Santa Rosa
texto da badana: Eduardo Prado Coelho
colecção: «Biblioteca Jorge Amado»
133 págs.



quarta-feira, 29 de janeiro de 2020

13 CARTAS DO CATIVEIRO E DO EXÍLIO (Jaime Cortesão)

Há quem diga Jaime Cortesão (1884-1960) o maior historiador português do século XX, avaliação sempre difícil de fazer-se, o maior romancista, o maior pintor, o maior compositor... No caso de Cortesão, ele encontra-se sem dificuldade nos cinco dedos de uma mão.
Este livro documenta a curta passagem do historiador pelo seu país, na cadeia, entre dois exílios. É que também enquanto personagem, foi igualmente marcante no seu tempo.
Uma breve nota para dizer que Alberto Pedroso salvou estas cartas da venda a peso como lixo, tal o destino que teve a papelada da Seara Nova pertencente a Câmara Reys (1885-1961), de que foi fundador e directos até morrer.
A epígrafe é um excerto extraordinário de uma carta dirigida a Raul Proença, também do Forte de Peniche, em 14 de Julho de 1940: «... Quero sem tardar, tranquilizá-lo sobre as minhas convicções políticas de hoje. Continuam a ser integralmente as mesmas, que estabeleceram entre nós uma tão estreita solidariedade moral e intelectual. Tranquilize-se. Cada vez sinto mais que em afirmar a minha fé antiga está o meu dever de homem e de escritor…»
Há homens que têm fibra; e há outros que não. E torna-se necessário dizer que esta  antiga foi Cortesão bebê-la ao ideário anarquista de Proudhon e outros, tal como sucedeu com Antero, Eça, Raul Brandão e Ferreira de Castro, entre outros.
Da posse: Janeiro de 1993. 



Jaime Cortesão, 13 Cartas do Cativeiro e do Exílio (1940), recolha, introdução e notas de Alberto Pedroso, Lisboa, Biblioteca Nacional, 1987, 107 págs. Capa: José Maria Saldanha da Gama