Porque tudo está mal,
aqui e ali, nos lares e
nos centros de repouso;
porque tudo está mal,
e eu não ouso dizer bem
do mal que descobri;
porque tudo está mal,
e o mal avança,
e o mal contagia
e o mal, sem rosto,
coloca num dos
pratos da balança
a ameaça iminente
do sol posto.
Sendo o mal insidioso,
não te aprestes a sair
para a rua descansado,
sem máscara nem luvas
nem distância;
sofreia o desejo, a velha
ânsia de viver como
outrora.
Põe de lado
alguma dessa raiva
que destilas
para aguentar,
de pé,
penosas
filas.
Domingos da Mota
A espessura do tempo
«Tudo é semente.» Novalis
14/04/2020
13/04/2020
[Com a peste no ar, trava-se o beijo]
Com a peste no ar, trava-se o beijo,
O beijo que no rosto se daria,
E o toque perdido de desejo
Que a beijos ardentes levaria;
Com a peste no ar, o beijo faz-se
Platónico, distante, surreal,
Um beijo que não beija a tua face,
Um beijo meramente virtual,
Asséptico, sem germes, sem contacto,
Um beijo, como tantos, ecléctico,
Sem lembrança de toque nem de olfacto,
Apenas, puramente, cibernético:
Um beijo mascarado e de luvas
Que nem sabes sequer se é de Judas.
Domingos da Mota
O beijo que no rosto se daria,
E o toque perdido de desejo
Que a beijos ardentes levaria;
Com a peste no ar, o beijo faz-se
Platónico, distante, surreal,
Um beijo que não beija a tua face,
Um beijo meramente virtual,
Asséptico, sem germes, sem contacto,
Um beijo, como tantos, ecléctico,
Sem lembrança de toque nem de olfacto,
Apenas, puramente, cibernético:
Um beijo mascarado e de luvas
Que nem sabes sequer se é de Judas.
Domingos da Mota
12/04/2020
PÁSSARO EM QUEDA NUM LUGAR SAGRADO
Naqueles dias
vimos o pássaro em queda
num lugar sagrado
Voou com asas todas brancas
e uma cauda como leque de sol
Vimos o remoto relâmpago
o susto do baque
nos vidros mais comuns
a morte, ilusão de transparências
Abandonou outras imagens
idênticas asas perdidas
a glória fulminada
o risco do sangue
E vimos a inspiração do quadro
os homens e as mulheres
num canto do mundo
respirando a luz
como se fosse o silêncio inteiro
Contemplavam depois a própria cegueira
prisioneiros de um pó dourado
com os pés enleados em raízes
do mesmo vermelho vivo
Ficava ao largo
o sacro pescador
absorto na troca das marés
um sifão turvo de peixes
espelhos de espelhos
Prende nas suas redes
o ar da tempestade
lança-as sobre o vazio
o mais submerso mar
José Manuel Teixeira da Silva
Música de Anónimo [poesia, 2001-2009], Companhia das Ilhas, Lajes do Pico, Janeiro de 2015
vimos o pássaro em queda
num lugar sagrado
Voou com asas todas brancas
e uma cauda como leque de sol
Vimos o remoto relâmpago
o susto do baque
nos vidros mais comuns
a morte, ilusão de transparências
Abandonou outras imagens
idênticas asas perdidas
a glória fulminada
o risco do sangue
E vimos a inspiração do quadro
os homens e as mulheres
num canto do mundo
respirando a luz
como se fosse o silêncio inteiro
Contemplavam depois a própria cegueira
prisioneiros de um pó dourado
com os pés enleados em raízes
do mesmo vermelho vivo
Ficava ao largo
o sacro pescador
absorto na troca das marés
um sifão turvo de peixes
espelhos de espelhos
Prende nas suas redes
o ar da tempestade
lança-as sobre o vazio
o mais submerso mar
José Manuel Teixeira da Silva
Música de Anónimo [poesia, 2001-2009], Companhia das Ilhas, Lajes do Pico, Janeiro de 2015
10/04/2020
Quem nunca se desaveio
Comigo me desavim
Sá de Miranda
Quem nunca se desaveio
Ou exasperou consigo
Com o fundado receio
De ser de si inimigo,
Bem pior que o cavalo
De Tróia - e, fora de si,
Se aventurou no Dédalo,
Em busca do ser-em-si?
Quem nunca se desaveio
Com o mundo à sua volta
E adubou no seu meio
As sementes da revolta?
Domingos da Mota
Sá de Miranda
Quem nunca se desaveio
Ou exasperou consigo
Com o fundado receio
De ser de si inimigo,
Bem pior que o cavalo
De Tróia - e, fora de si,
Se aventurou no Dédalo,
Em busca do ser-em-si?
Quem nunca se desaveio
Com o mundo à sua volta
E adubou no seu meio
As sementes da revolta?
Domingos da Mota
09/04/2020
Ouça
Nem que a vaca
tussa
ou espirre,
ouça.
Ouça o que
lhe dizem,
siga os
conselhos
que logo
contradizem,
pois ficaram
velhos.
É tanta
a certeza
em palpos
de aranha
que a dúvida,
ela mesma,
não sabe
o que apanha.
Domingos da Mota
tussa
ou espirre,
ouça.
Ouça o que
lhe dizem,
siga os
conselhos
que logo
contradizem,
pois ficaram
velhos.
É tanta
a certeza
em palpos
de aranha
que a dúvida,
ela mesma,
não sabe
o que apanha.
Domingos da Mota
07/04/2020
[A flor tem linguagem de que a sua semente não fala]
A flor tem linguagem de que a sua semente não fala.
A raiz não parece dar aquele fruto.
Não parece que a flor e a semente sejam da mesma linguagem.
Retirada a linguagem
a semente é igual a flor
a flor igual a fruto
fruto igual a semente
destino igual a devir.
E era o que se pedia: igual.
José de Almada Negreiros
Poemas Escolhidos, Assírio & Alvim, Novembro de 2016
A raiz não parece dar aquele fruto.
Não parece que a flor e a semente sejam da mesma linguagem.
Retirada a linguagem
a semente é igual a flor
a flor igual a fruto
fruto igual a semente
destino igual a devir.
E era o que se pedia: igual.
José de Almada Negreiros
Poemas Escolhidos, Assírio & Alvim, Novembro de 2016
O AR APENAS
Donde
te vem
o sono
carne
de febre
ainda
não contida
febre
funesta
que ultrapassa
o som
avião vivo
que voa
sob
o peito
das aves
que no vento
dispersam
todo
o pranto?
O ar
apenas
rarefaz
as lágrimas
bebe
o ácido
feroz
que nem
as nuvens
vivas
o algodão
das penas
retém
no tempo
na rigidez
dum corpo.
Armando da Silva Carvalho
OS OVOS D'OIRO, Publicações Dom Quixote, Lisboa, Setembro de 1969
te vem
o sono
carne
de febre
ainda
não contida
febre
funesta
que ultrapassa
o som
avião vivo
que voa
sob
o peito
das aves
que no vento
dispersam
todo
o pranto?
O ar
apenas
rarefaz
as lágrimas
bebe
o ácido
feroz
que nem
as nuvens
vivas
o algodão
das penas
retém
no tempo
na rigidez
dum corpo.
Armando da Silva Carvalho
OS OVOS D'OIRO, Publicações Dom Quixote, Lisboa, Setembro de 1969
06/04/2020
Máscaras
Tantas máscaras
Sem a máscara
Poucas máscaras
Com a máscara
Máscaras sim
Máscaras não
Máscaras não
Porque sim?
Máscaras sim
Nos dirão
Domingos da Mota
Sem a máscara
Poucas máscaras
Com a máscara
Máscaras sim
Máscaras não
Máscaras não
Porque sim?
Máscaras sim
Nos dirão
Domingos da Mota
04/04/2020
[Fosse corvo, melro, pomba]
Fosse corvo, melro, pomba,
fosse milhafre ou gaivota,
fosse abetarda ou a sombra
de uma ave ignota,
fosse um abutre, um pardal,
um falcão, uma andorinha,
fosse uma erva daninha,
mas é um vírus -
letal.
Domingos da Mota
fosse milhafre ou gaivota,
fosse abetarda ou a sombra
de uma ave ignota,
fosse um abutre, um pardal,
um falcão, uma andorinha,
fosse uma erva daninha,
mas é um vírus -
letal.
Domingos da Mota
03/04/2020
O MEDO
Ninguém me roubará algumas coisas,
nem acerca de elas saberei transigir;
um pequeno morto morre eternamente
em qualquer sítio de tudo isto.
É a sua morte que eu vivo eternamente
quem quer que eu seja e ele seja.
As minhas palavras voltam eternamente a essa morte
como, imóvel, ao coração de um fruto.
Serei capaz
de não ter medo de nada,
nem de algumas palavras juntas?
Manuel António Pina
POESIA REUNIDA (1974-2001), Assírio & Alvim, Lisboa, Outubro 2001
nem acerca de elas saberei transigir;
um pequeno morto morre eternamente
em qualquer sítio de tudo isto.
É a sua morte que eu vivo eternamente
quem quer que eu seja e ele seja.
As minhas palavras voltam eternamente a essa morte
como, imóvel, ao coração de um fruto.
Serei capaz
de não ter medo de nada,
nem de algumas palavras juntas?
Manuel António Pina
POESIA REUNIDA (1974-2001), Assírio & Alvim, Lisboa, Outubro 2001
02/04/2020
30/03/2020
29/03/2020
A torto e a direito
Se o vírus se visse
Se o vírus falasse
Se o vírus se ouvisse
Se o vírus palrasse
Se o vírus vagisse
Se o vírus chorasse
Se o vírus se risse
Se o vírus berrasse
Se o vírus zunisse
Se o vírus piasse
Se o vírus zumbisse
Se o vírus silvasse
Se o vírus latisse
Se o vírus miasse
Se o vírus ganisse
Se o vírus uivasse
Se o vírus balisse
Se o vírus grasnasse
Se o vírus grunhice
Se o vírus zurrasse
Se o vírus tugisse
Se o vírus gritasse
Se o vírus mugisse
Se o vírus clamasse
Se o vírus carpisse
Se o vírus bramasse
Se o vírus se ouvisse
Se o vírus cantasse
Se o vírus surdisse
Se o vírus voasse
Se o vírus tossisse
Se o vírus espirrasse:
Apenas se vê
E sente o efeito
Do vírus que empesta
A torto e a direito
Domingos da Mota
Se o vírus falasse
Se o vírus se ouvisse
Se o vírus palrasse
Se o vírus vagisse
Se o vírus chorasse
Se o vírus se risse
Se o vírus berrasse
Se o vírus zunisse
Se o vírus piasse
Se o vírus zumbisse
Se o vírus silvasse
Se o vírus latisse
Se o vírus miasse
Se o vírus ganisse
Se o vírus uivasse
Se o vírus balisse
Se o vírus grasnasse
Se o vírus grunhice
Se o vírus zurrasse
Se o vírus tugisse
Se o vírus gritasse
Se o vírus mugisse
Se o vírus clamasse
Se o vírus carpisse
Se o vírus bramasse
Se o vírus se ouvisse
Se o vírus cantasse
Se o vírus surdisse
Se o vírus voasse
Se o vírus tossisse
Se o vírus espirrasse:
Apenas se vê
E sente o efeito
Do vírus que empesta
A torto e a direito
Domingos da Mota
28/03/2020
27/03/2020
Provérbios e Cantares
XLIV
Tudo passa e tudo fica;
mas nossa vida é passar,
passar fazendo caminhos,
uns caminhos sobre o mar.
*
Todo pasa y todo queda,
pero lo nuestro es pasar,
pasar haciendo caminos,
caminos sobre la mar.
António Machado
Antologia Poética, [Campos de Castela], Selecção, tradução, prólogo e notas de José Bento, segunda edição revista e aumentada, Edições Cotovia, Lda., Lisboa, 1999
Tudo passa e tudo fica;
mas nossa vida é passar,
passar fazendo caminhos,
uns caminhos sobre o mar.
*
Todo pasa y todo queda,
pero lo nuestro es pasar,
pasar haciendo caminos,
caminos sobre la mar.
António Machado
Antologia Poética, [Campos de Castela], Selecção, tradução, prólogo e notas de José Bento, segunda edição revista e aumentada, Edições Cotovia, Lda., Lisboa, 1999
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