quinta-feira, 5 de março de 2020

Ernestina, J. Rentes de Carvalho


Há muito que andava para me dedicar à leitura de Rentes de Carvalho e perceber o que a torna apelativa, quer no estrangeiro, onde primeiro granjeou uma horda de fãs, e em Portugal.
Gostei muito desta leitura, por diversos motivos, sendo que o equilibro resultante dos mesmos é em si mesmo um dos motivos. Através de uma autobiografia ficcionada, o autor revisita a sua infância e juventude até ao momento em que visita pela última vez a terra transmontana de origem da família. Essa revisitação resulta numa história em que o autor explora as fronteiras entre realidade e ficção; o processo de construção da memória; o retrato burilado da sociedade das primeiras décadas do século passado, a evolução das grandes cidades e a dureza da vida rural; o divagar do tempo e de outros tempos; um certo realismo que o autor torna mágico pela sua visão da infância; e o magistral uso da linguagem e do tom.
Este retrato e esta viagem ao passado tem a mais valia de permitir a identificação de uma grande parte da população nacional o que possibilita a sua adesão à obra e de funcionar como um registo de um passado e de um modo de vida que já não existe e que o presente e a tecnologia tornam exótico, o que também o torna apelativo.
Terei de regressar à obra de Rentes no futuro, pois parece-me que o seu modo peculiar e binocular de observar a realidade o tornar realmente uma voz única no panorama das nossas letras.
Editora: Quetzal | Colecção: língua comum | Local: LX | Edição/Ano: 5º, Jul 2014  | Impressão: Bloco Gráfico, Lda. | Págs.: 280 | Capa: … | ISBN: 978-972-0-14699-4| DL: 382502/15 | Localização: BLX BECCE 808.1/CAR (80374311)

sábado, 29 de fevereiro de 2020

Leituras nos Transportes Públicos #02.20

Fevereiro
3
As vitimas de salazar
4
Uma mãe como tu, Sally Hepworth
5
14
Sapiens, Yuval HArari
16
Todos os dias são meus, Ana Saragoça
18
A sexta extinção, James Rollins
19
Sapiens, Yuval HArari

1Q84, Haruki Murakami

Amor entre guerras, Sofia Ferros

Como é linda a puta da vida, Miguel Esteves Cardoso
20
Essa Gente, Chico Buarque
21
Retratos com erro, Eucanaã Ferraz

Casei com um beduíno, Marguerite van Geldermalsen

Os ensinamentos de Don Juan, Carlos Castaneda
24
27
Happy Memory
28
O nosso reino, valter hugo mãe

terça-feira, 25 de fevereiro de 2020

Sabrina, Nick Drnaso


O ano transacto foi pródigo em apreciações positivas a este livro, cujo género não faz parte dos meus hábitos de leitura, mas no qual já tive muito boas surpresas. Esta é uma elas. E porquê? Primeiro, porque nos parece levar num sentido. Depois, porque, gradualmente, à sua história base vai acrescentando diversas camadas e transversalidades que permitem várias abordagens e identificações.
Sabrina é uma jovem – como tantas outras – que vive o seu quotidiano de pequenos planos intercalados com a sua vida profissional e as relações amorosa, familiar e de amizade. Um dia desaparece no seu caminho habitual. Passa-se quase um mês sem qualquer pista, qualquer resposta. A família reage de um modo, o namorado de outro, ambos tentando acomodar esse vazio nas suas vidas e perceber razões e hipóteses. Inesperadamente, um vídeo – que se torna viral - apresenta detalhes da sua morte. Violenta, às mãos de um qualquer inadaptado social que se faz ouvir através do massacres de inocentes aleatórios. Uma vez mais, família e namorado processam a situação de modo diferente. Este, recorre à ajuda de um antigo amigo – a lidar com os seus próprios problemas – e que acaba por ver-se envolvido numa teoria da conspiração em que media e alguns sedentos de protagonismo transformam a tragédia. Minimizando-a, apagando-a da memória pública. Mas a memória privada é mais duradoura e tem que lidar com o impacto deste desaparecimento e desta violência no seu estado mais puro. Sem diluições, sem filtros.
O interessante neste livro é este mesclar de domínio privado e domínio público, tão sem ou com tão ténues fronteiras no mundo actual. Bem como o modo como no apresenta estas realidades e nos aponta caminhos de reflexão, caminhos que devemos percorrer, embora o autor não siga connosco. Ele diz-nos: esta é a realidade. A nós cabe perceber como queremos que ela continue. E é esta mescla e ponto de reflexão que tornam esta história tão rica e que permita que permaneça connosco muito depois da sua leitura.
Mesmo que este género não vos seja habitual ou até estranho, Sabrina é um bom motivo para saírem da vossa zona de conforto. Saiam!
Título Original: Sabrina | Tradução: José Lima | Editora: Porto Editora | Local: Porto | Edição/Ano: 1ª, 2018 | Impressão: Bloco Gráfico | Págs.: 204 | ISBN: 978-972-0-03168-6 | DL: 452393/19 | Localização: BLX Oli/BD 82 BD NT/DRN (80422034)

sábado, 22 de fevereiro de 2020

Escrita Criativa: Dicionário Esquecido


Uma das características que me atrai na Escrita Criativa é o seu manancial de possibilidades de (re)aprendizagem. Uma delas é o voltar a palavras esquecidas ou em desuso no nosso quotidiano, seja porque pertencem a áreas especificas do saber, seja porque fazem parte de outros tempos, usos e costumes. O nosso dicionário esquecido. Que melhor forma de celebrar o Dia Internacional da Língua Materna, que se celebrou ontem, 21 de Fevereiro, do que trazer de novo para o conhecimento de uma dúzia de interessados algumas dessas palavras?
Foi assim que, hoje, (re)descobrimos as seguintes:
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sexta-feira, 21 de fevereiro de 2020

retratos com erro, eucanaã ferraz


Não me é fácil escrever sobre poesia. Correcção. Não me é fácil escrever sobre livros de poesia. Há poemas que nos conquistam. Muitos que não encontram em nós qualquer ressonância. Alguns roubam-nos um sorriso passageiro.
Gostei de descobrir o trabalho deste autor brasileiro e apreciei como em certos poemas dialoga com Portugal, através dos seus autores, da sua história, da sua cultura. Partilharei aqui alguns desses poemas e deixarei que vos falem por si.
Editora: tinta da China | Coord. Colecção: Pedro Mexia | Local: LX | Edição/Ano: 1ª Maio, 2019  | Impressão: Rainho e Neves, AG | Págs.: 112 | Capa: Vera Tavares | ISBN: 978-989-671-489-5 | DL: 454607/19 | Localização: BLX PG 82P(81)-1/FER (80431731)

quinta-feira, 20 de fevereiro de 2020

Não te rendas, Mario Benedetti

Não te rendas, ainda estás a tempo
de alcançar e começar de novo,
aceitar as tuas sombras
enterrar os teus medos,
largar o lastro,
retomar o voo.
Não te rendas que a vida é isso,
continuar a viagem,
perseguir os teus sonhos,
destravar os tempos,
arrumar os escombros,
e destapar o céu.
Não te rendas, por favor, não cedas,
ainda que o frio queime,
ainda que o medo morda,
ainda que o sol se esconda,
e se cale o vento:
ainda há fogo na tua alma
ainda existe vida nos teus sonhos.
@ Cultura Inquieta

terça-feira, 18 de fevereiro de 2020

Comunidade de Leitores da Biblioteca Palácio Galveias: o que orientou a escolha de leituras?


Uma das questões inerentes às primeiras sessões da CL é a inevitável (e as suas variantes): como é que chegou a estes livros?
A principal linha orientadora tem origem no espaço físico da Biblioteca, mais propriamente na Sala Saramago e na homenagem que a mesma procura fazer a um dos seus utilizadores mais distintos e que sempre valorizou a importância desta no seu percurso profissional e pessoal. Então, a primeira ideia foi homenagear e revisitar a obra de Saramago. Mas como faze-lo quando na cidade existe a Fundação Saramago, que por sua vez já teve uma comunidade que revisitou toda a sua obra. Este facto obrigava a uma tónica diferente. Qual?
Pareceu-me natural que a homenagem andasse lado a lado com outros autores com os quais poderíamos estabelecer uma relação de diálogo entre as suas obras. A primeira relação seria inevitavelmente com os autores premiados com o Prémio José Saramago. Mas não poderíamos ficar por ai. A determinada altura seria redutor. Então, foram incluídos, mas era necessário ir mais além. Que além é esse?
Após algumas pesquisas, peguei então em alguns dos temas abrangentes que Saramago tão bem explora e pensei em livros e/ou autores que também se poderiam enquadrar nos mesmos. As grandes temáticas são: utopias & distopias (reflexão social), desterritorialização (migrações), inquietação existencial (reflexão sobre a condição humana), lusofonia e inovação da linguagem (espaço de diálogo, enriquecimento e influência da Língua Portuguesa). Depois, importava começar. Por onde?
Apesar da relutância religiosa do autor, ou talvez por essa ironia, vinha-me à mente a frase: no princípio era o verbo. O verbo. A palavra. O nome. A primeira palavra que nos é dada. Todos os nomes. A importância do nome na definição da identidade. Estava então encontrada a linha orientadora para este primeiro ciclo da Comunidade: O nome. A partir dai, foi relativamente fácil alinhar títulos cujo diálogo – por vezes, mais óbvio e profundo, outras, mais ligeiro - com a obra de Saramago passasse por este prisma.
Em Setembro, o prisma será diferente, mas a lógica subjacente será a mesma. A proposta está a ser alinhavada e está a compor-se. Mas calma, ainda é cedo. Por agora, relembro apenas a selecção de títulos deste semestre para poderem ler e, se possível, participar no diálogo. In loco ou à distância.
Boas leituras!


Programa 2020 (1º Semestre)
13 de janeiro: Todos os Nomes, José Saramago
10 de fevereiro: Autobiografia, José Luís Peixoto
9 de março: Ernestina, J. Rentes de Carvalho
13 de abril: Os Malaquias, Andrea del Fuego
18 de maio: As primeiras coisas, Bruno Vieira Amaral
8 de junho: Eliete, Dulce Maria Cardoso

quarta-feira, 5 de fevereiro de 2020

Sou um crime, Trevor Noah


Leiam, leiam, leiam! É a primeira e quase única coisa que vos posso dizer. Leiam para aprender, leiam para compreender, leiam para aceitar, leiam para perceber o vosso lugar no mundo. Esta é uma daquelas leituras que vai permanecer comigo durante muito tempo. Pelo momento, pela perspectiva, pela partilha.
Através de uma escrita fluida, Trevor Noah leva-nos numa viagem pela sua infância e juventude e, de uma forma muito desassombrada, transmite-nos e faz-nos reflectir sobre racismo, totalitarismo, patriarquismo, religião, cultura, língua, circunstância, história, opressão, educação, transformação, pobreza e privilégio e de como tudo isto combinado destrói e condiciona a vida de todos nós, neste planeta plantado à beira sol. Foi e será uma aprendizagem, porque há muito que ainda estou a processar. E creio que, nos próximos dias, farei mais algumas partilhas especificas, mas, por agora, só posso dizer: Leiam! Leiam! Leiam!
Subtítulo: Nascer e crescer no apartheid| Título Original: Born a crime: Stories from a South African Childhood |Tradução: Eugénia Antunes | Editora: Tinta da China | Edição/Ano: 1ª, Nov 2018 | Local: Lisboa | Impressão: Rainho e Neves | Capa: Tinta da China | Págs.: 278 | ISBN: 978-989-671-464-2| D.L.: 447525/18 |Localização: BLX  It 791 NOA/NOA (80421636)

domingo, 2 de fevereiro de 2020

O poeta, Nuno Júdice

Trabalha agora na importação
e exportação. Importa
metáforas, exporta alegorias.
Podia ser um trabalhador
por conta própria,
um desses que preenche
cadernos de folha azul com
números
de deve e haver. De facto, o que
deve são palavras; e o que tem
é esse vazio de frases que lhe
acontece quando se encosta
ao vidro, no inverno, e a chuva cai
do outro lado. Então, pensa
que poderia importar o sol
e exportar as nuvens.
Poderia ser
um trabalhador do tempo. Mas,
de certo modo, a sua
prática confunde-se com a de um
escultor do movimento. Fere,
com a pedra do instante, o que
passa a caminho
da eternidade;
suspende o gesto que sonha o céu;
e fixa, na dureza da noite,
o bater de asas, o azul, a sábia
interrupção da morte.


sexta-feira, 31 de janeiro de 2020

Leituras nos Transportes Públicos #01.20

Janeiro
4
8

Portugal visto pela CIA, Eric Frattini e Luís Naves
9
A arte subtil de saber dizer que de f*da, Mark MAnson

Pense e fique rico, Napoleon Hill

Os maias, Eça de Queiroz
13
A fórmula do ambiente, Alex Shimo-Barry
16
Volta a Portugal, Álvaro Domingues

A utopia, Tomas morus
21
A insustentável leveza do ser, Milan Kundera
24
O vestido vermelho, Stig Dagerman


Cultura, Dietrich Schwanitz

25
Autobiografia, José Luís Peixoto

26

31


domingo, 26 de janeiro de 2020

querida ÿeawele, Chimamanda Ngozi Adichie


Por estes dias, ao cruzar-me com este pequeno livro, voltei a Chimamanda e ao tema do feminismo. Um tema a que urge voltar regularmente e pensa-lo através das nossas circunstâncias, percurso, opções, e, sobretudo, pelo que ainda não conseguimos. Porque ainda há muito que batalhar, aqui, agora, algures e a qualquer momento. Porque o caminho conquistado se pode facilmente perder, porque podemos perder-nos nesse mesmo caminho.
Neste pequeno volume, a autora apresenta-nos 2 premissas e 15 sugestões para uma educação baseada na igualdade entre seres, independentemente de género. Porque embora a palavra feminismo possa induzir em erro, é de igualdade que se fala, independentemente de tudo. E Chimamamda chama a atenção para vários aspectos de como caminhar nesse sentido, sendo um deles, exactamente, a linguagem que utilizamos. E, por vezes, questiono-me se a palavra feminismo será a mais adequada para esta mesma vontade de igualdade. Mas talvez a nossa circunstância ainda não permita que se opte por uma nova palavra, talvez esta ainda seja a palavra necessária para chamar a atenção para este desequilíbrio.
O caminho para o equilíbrio faz-se de forma sistemática e verdadeira nos actos do quotidiano, nas relações que estabelecemos e mantemos, no modo como as vivemos. Seria bom que todos gastássemos um pouco a ler este livro e o triplo do tempo a pensar em como actuamos perante cada uma das sugestões da autora.  Este bem pode ser o desafio de todos nós para 2020. Aceitam? Pensem nisto…
Subtítulo: como educar para o feminismo | T.O.: dear Ijeawele, A feminist Manifesto in fifteen suggestions | Tradução: Ana Saldanha |Revisão: nuno Pereira de Sousa | Editora: Dom Quixote/Leya| Edição/Ano: 1ª, fev 2018 | Local: LX | Impressão: Eigal | Capa: Rui Rosa | Págs.: 94 | ISBN: 978-972-20-6430-9 | D.L.: 435675/17 | Localização: BLX Mar 316.346-055.2 ADI (80410386)