A saudade é um lugar de solidão.
Um lugar sem fim, de onde parto e regresso.
Um lugar que muda, sem que nada mude,
ou tudo se transforme.
Um lugar de portas fechadas, paredes frias.
Um banco gelado, num jardim que desconheço, onde me sento e sorrio
a todos quanto passam...
Sónia M
Sussurros...
18 janeiro, 2020
26 outubro, 2018
Já não sei regressar.
A mão que ampara, também puxa e prende,
escondendo a poesia aos pássaros.
Nos dias que ensaio o voo, preparo o cenário.
Um céu azul, desbotado, pende de uma gaiola dourada.
Cinco ou seis gatos pardos, sentados em poltronas gigantes,
fingem que aplaudem. Aguardam.
Eu abro os braços e todo o meu corpo é uma cruz.
Quanta beleza transpira em cima do palco onde me vês?
A dor é um poema, que se enrola à ferrugem das grades.
E eu já não sei regressar, meu bem.
Asas batem e batem , cansadas, em frente a um chão de gatos...
Sónia M
Imagem, Noell Oszvald
06 outubro, 2018
NOSSAS MARCAS NO TEMPO...
Trago dentro do meu coração,
Como num cofre que se não pode fechar de cheio,
Todos os lugares onde estive,
Todos os portos a que cheguei,
Todas as paisagens que vi através de janelas ou vigias,
Ou de tombadilhos, sonhando,
E tudo isso, que é tanto, é pouco para o que eu quero.
(Passagem das Horas, Álvaro de Campos, heterônimo de Fernando Pessoa)
07 maio, 2017
AS MÃES
AS MÃES
as mães fazem remendos bonitos
em almas rasgadas
com linhas que arrancam do peito
as mães sangram sem que se veja
colocam as mãos nos seus colos já
vazios
e esperam que regresse um sorriso que
as cure
as mães alimentam-se de pequenas
palavras
{que quase nunca dizemos}
e de abraços
{que quase nunca damos}
as mães iludem a fome
{que poucas vezes matamos}
lembrando as canções de embalar
que já não ouvimos
as mães são presente
passado e futuro sempre presentes
até ao último suspiro
curam sempre sempre sempre
mais do que podem
e quando estendem os braços
as mães são a casa
de onde nunca partimos
as mães são eternas
{também morrem as mães?}
e amamos as mães e a sua magia
sem nunca haver tempo para lho dizermos...
Sónia M
Ilustração, "Crush" by Katie m. Berggren
21 abril, 2017
17 abril, 2017
17 março, 2017
...
Dar-te-ia uma noite clara
Isenta de gritos e no
Zelo das margens do rio
Que te banha a alma, beijaria
Um a um os teus medos. Por
Entre a sede das mãos, escorreria
A verdade que entregámos aos pássaros.
Instante de luz a ofuscar os dias.
Nesga de loucura a guardar os sonhos.
Deitaria às águas um verso branco.
Astro fecundo nos meus verdes olhos.
Mistério encostado ao céu da boca do
Encanto, com que envolves
As minhas mãos vazias.
Morresse a lonjura no abraço do verso.
Antes não fosses um destino
Sem tempo. Pátria perdida...à qual nunca regresso.
Sónia M
Imagem, © Łukasz Gliszczyński
02 novembro, 2016
.
De tanto olhar pelo olho de vidro da dor
secaram-se-me os olhos.
Faço-me e desfaço-me em pele por vestir
um olhar apagado no passar dos teus dias
onde não me acho real.
O tempo habitua a dor para que já não doa.
Depois que se entende tudo é um denso vazio
a apontar o lugar onde antes havia uma ferida.
Ali esgravato para que sangre sobre a folha
duas ou três gotas de um verso só
onde um mundo gira ao contrário
para chegar ao encontro das horas.
Amarro o teu nome à palavra instante
antes que durma
e até por detrás do véu dos sonhos
o instante não é nome
ou palavra mais ou menos que seja
do que aquilo que na minha noite mergulha:
- coisa nenhuma.
O relógio marca a ilusão
de um amanhã que não chega.
Ainda assim te digo
até amanhã...
Sónia M
secaram-se-me os olhos.
Faço-me e desfaço-me em pele por vestir
um olhar apagado no passar dos teus dias
onde não me acho real.
O tempo habitua a dor para que já não doa.
Depois que se entende tudo é um denso vazio
a apontar o lugar onde antes havia uma ferida.
Ali esgravato para que sangre sobre a folha
duas ou três gotas de um verso só
onde um mundo gira ao contrário
para chegar ao encontro das horas.
Amarro o teu nome à palavra instante
antes que durma
e até por detrás do véu dos sonhos
o instante não é nome
ou palavra mais ou menos que seja
do que aquilo que na minha noite mergulha:
- coisa nenhuma.
O relógio marca a ilusão
de um amanhã que não chega.
Ainda assim te digo
até amanhã...
Sónia M
27 setembro, 2016
.
e nenhum verso te encontra.
- A luz mais lavada, que nos olhos me abra
uma certeza maior, que a da solidão da folha.
A mim, que nunca um deus me falou,
basta-me saber da aranha para acreditar na teia,
ouvir o trovão para saber da chuva.
E em tudo isto acredito.
Ensina-me, se souberes, a rezar a todos os deuses.
Que eu só sei falar ao vento, das estações que depressa passam.
De joelhos, como quem reza ou suplica, deixarei uma prece
aos pés da pedra. Farei de tudo, bem vês, que os meus frágeis ossos,
não suportam mais o peso, da ilusão que escorre pelas paredes da casa.
- Acende para mim uma luz, que já nenhum verso a encontra.
A luz mais lavada, a mais pura.
Acende...e que seja verde, como a luz que faz mover os corações de pedra.
Texto e imagem ,
Sónia M
15 julho, 2016
Não olhes agora.
Foi aí que chorei. E se o mundo ficar sem pássaros?
Sónia M
**************
Este céu…
Este céu de agora…
Este céu tem penas
que choro...
Aos milhares caem aos pés
dos que já não caminham.
Dói tanto ver o voo das aves perdidas de dor.
Faças o que fizeres
onde quer que tu vás
não olhes este céu de agora.
Pássaros desfazem-se em penas
e antes que percebas já te entraram pelos olhos.
Não queria que visses, meu bem.
Não olhes agora!
Dói ver o voo de tantas aves órfãs…
Sónia M
Imagem, Pinterest
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