domingo, 22 de março de 2020

"A Aldeia" de William Faulkner


A acabei de ler o romance do norteamericano de William Faulkner, escritor laureado com o prémio Nobel da literatura, "A Aldeia". Esta obra é a primeira de uma trilogia em torno da família Snopes no Mississipi.
Neste romance, passado no meio rural, Will Varner é o rico da aldeia, dono de vastas propriedades incluindo O Velho Domínio do Francês. Praticamente toda a atividade económica gira em torno dele: a produção de algodão, as lojas, os empregados e os arrendatários. Um dia Ab Snopes entra na loja e arrenda um terreno ao filho Jody, mas pouco depois descobre-se que ele já causara problemas a outros rendeiros da vizinhança: associado a fogos sobre armazéns dos proprietários; mesmo assim o negócio avança e pouco depois o filho de Ab, Lem, torna-se empregado da loja e vão chegando outros parentes que se instalam e o clã a cresce na economia numa teia de conluios a que os aldeões assistem e compreendem, sobretudo, através dos comentários de Ratliff que vive na cidade e conhece de infância Ab. Quem se deixará enganar pelos Snopes e até onde irão? Vai-se descobrindo neste volume da Trilogia.
William Faulkner desenvolveu um estilo de escrita literária que pratica neste romance denominado fluxo da consciência: narrativa vai sucessivamente tecendo uma teia de ideias, comentários, descrições da ação, da envolvente cénica, personagens e seu enquadramento que obriga a uma grande atenção. Isto porque do início à conclusão de um parágrafo pode existir um extenso texto cheio de complementos com referência a outros sujeitos, factos, tempos, locais e ações onde nos podemos perder, assim a leitura da narrativa vá-se montando como peças de um puzzle que permitem a compreensão do geral e dos pormenores lançados.
Algumas páginas dão grande prazer de ler pela beleza do texto, outras entram em conflito com a atenção do leitor e tornam-se muito difíceis, embora o tom sardónico por norma presente e o suspense associado às pistas lançadas permitam manter vivo o interesse na continuidade da leitura de quem resista à dificuldade do estilo de escrita. Gostei, até mesmo muito, já tenho comigo os restantes volumes, mas preciso de uma pausa a este esforço de atenção. Desejo retomar os Snopes em breve.

domingo, 8 de março de 2020

"Os da minha rua" de Ondjaki

Acabei de ler o pequeno livro "Os da minha rua" constituído por 22 contos, por norma curtos, do escritor angolano Ondjaki. 
São histórias que decorrem na cidade de Luanda em torno do narrador, deduz-se que o próprio escritor, quando este era adolescente e estudante no ensino básico e talvez secundário, envolvendo o próprio, membros da sua família, vizinhos, colegas de escola e amigos dele, num tempo em que Angola ainda estava sob o regime comunista, mas aberta às novelas brasileiras e com um relacionamento próximo com Portugal.
As histórias por norma estão cheias de ternura e humor, desenvolvem-se numa linguagem simples, com muitos termos locais populares e atravessadas pela sensação de saudade do que foi o tempo feliz da infância e da adolescência.
Os contos ora estão cheios da inocência daquela idade, ora temperados com a curiosidade da descoberta da sexualidade no convívio dos rapazes e raparigas e, frequentemente, revelam as aventuras na época relacionadas com particularidades, vícios e defeitos de cada uma da pessoas da sua rua e do narrador. Uma forma de mostrar como sobreviviam no dia-a-dia e se relacionavam entre si naquele tempo e as aventuras de crescimento que misturam a ingenuidade e a esperteza típicas do crescimento em família na transição de criança para jovem e a experiência de vida dos mais velhos.
Um pequeno livro, lindo, amoroso de escrita fácil, onde se mostra o falar de Luanda e que dá um enorme gosto ler.

sexta-feira, 6 de março de 2020

"Arranha-céus" de J. G. Ballard

Excerto
"o arranha-céus era um exemplo de tudo o que a tecnologia tinha feito para tornar possível a manifestação de uma psicopatologia verdadeiramente «livre»."

Terminei de ler o meu segundo livro do inglês J. G. Ballard: "Arranha-céus". Este escritor, nas suas obras, criou e explorou ambientes de tensão psicológica extrema fruto dos desequilíbrios do modelo de desenvolvimento socioeconómico atual que podem despertar o pior que há no íntimo das pessoas, criando mundos de da realidade demencial. Todavia estas criações distinguem-se das distopias futuristas que procuram denunciar o caminho errado da sociedade contemporânea as situações deste autor ocorrerem no presente, dentro de determinados locais ou nichos, como também acontece neste romance, e servem para polarizar ao máximo essas disfunções, enquanto o mundo envolvente aparentemente continua na sua normalidade absurda.
No presente livro, escrito nos anos de 1970, um arranha-céus de 40 andares e dois mil residentes no leste de Londres é o expoente máximo que integra tecnologia, arquitetura de vanguarda, conforto e prazer pelos serviços de lazer e comerciais: piscinas, supermercados, bancos, escolas, cabeleireiros, parques infantis, restaurantes, etc. tudo está estrategicamente disponível dentro do edifício, mas neste subsiste a estratificação social: uma classe mais baixa na parte inferior, uma classe média na sua zona central e uma elite pequena e dominadora no topo, tal como o luxo e a qualidade dos serviços se arrumam de acordo com esta hierarquia social. No que parecia um mundo em equilíbrio inicial e com relações interclasses entre as mais variadas profissões liberais, eis que alguns abusos e preconceitos vindos de cima geram revoltas nos andares inferiores. Estes incidentes irão num crescendo até a um nível de loucura e violência extrema, mas mantém cativos alguns viciados nesta guerra de classes amoral, sem limites e geradora da implosão desta comunidade... enquanto no exterior o dia-a-dia decorre sem nada que se considere fora da norma.
A escrita escorreita, por vezes com metáforas duras, está ao serviço de um mundo onde se perde a dignidade e humanidade, algumas cenas são de grande violência, tanto psicológica, como física e inclusive contra animais domésticos, criando um retrato negro do que a espiral da loucura pode levar. Gostei, lê-se facilmente, mas pode impressionar leitores sensíveis.
Como vários livros de Ballard, este também passou a filme, entre as várias adaptações cinematográficas da sua obra está uma vencedora de melhor filme do ano em Hollywood (Crash), o trailer abaixo é respeitante a arranha-céus.

domingo, 1 de março de 2020

"A Casa Sombria" de Charles Dickens


Excerto
"Nunca o nevoeiro será bastante espesso, nunca o barro e a lama terão suficiente profundidade para estar ao nível da cerração e das dificuldades por que hoje passa este Tribunal Supremo da Chancelaria, o mais nauseante de todos os velhos pecadores, à face da terra."

Acabei de ler um extenso, denso e profundo romance do inglês Charles Dickens "A Casa Sombria". Um casal de jovens primos, órfãos é acolhido sob proteção de um tutor parente na sua Casa Sombria enquanto aqueles aguardam a posse da sua herança retida pelo Supremo Tribunal em Londres há gerações num processo de denúncia do testamento e apaixonam-se entre si. Em paralelo, o dono da casa escolhe outra jovem para dama de companhia que é filha de pais incógnitos, ela sabe ser fruto de uma relação ilegítima e escondida para salvar a honra de uma família que percebemos ser de alta sociedade e é a principal narradora da estória.
Em torno das duas famílias de origem dos três jovens da Casa Sombria, bem como do bairro do tribunal, circulam advogados honestos e interesseiros, tarefeiros, espiões, criados, interessados da justiça, gente detentora de segredos familiares ambiciosa, chantagistas, pessoas que se apaixonam, cidadãos doentes, pobre explorados, honrados ou revoltados ao sentirem-se vítimas de erros do passado ou da situação social, médicos, indivíduos que morrem, criminosos e ainda usurários exploradores da desgraça alheia, detetives policiais, pessoas amigas e adversárias e até beneméritos sociais mais atentos às suas causas solidárias públicas do que às suas obrigações sobre os que lhe são mais próximos e estão a seu cargo, tecendo um malha exaustiva do retrato coletivo da sociedade londrina sobre a qual paira um sistema judicial que é o maior agente de injustiça que se abate em cima desta população.
Efetivamente, no livro há personagens criminosas, assassinas e gente com sede de Justiça, mas torna-se evidente que a mais criminosa, a mais assassina e a mais injusta é a montada pelo sistema judicial, ou seja: a justiça neste Estado de Direito.
Charles Dickens escreve este romance sem pressa. Ao longo das três primeiras centenas de páginas vai introduzindo personagens, isoladas ou em família, que tanto podem ser modelos de virtude ou vilões que vão sendo caracterizadas em pormenor: não só através do seu comportamento individual e indicação de pistas de intenções ocultas, como também através do meio onde vivem e das características urbanas dos locais onde trabalham ou residem e várias delas vemos inclusive o seu regredir fruto do sistema social e de justiça vigente. As exposições cénicas e dos ambientes sociais são de uma grande riqueza estilística descritiva e metafórica pois é um meio para fazer um paralelo entre a realidade paisagística, arquitetónica, meteorológica ou de higiene com os desequilíbrios das personagens e da sociedade. Desta técnica narrativa Dickens mostra genialmente o obscurantismo corrosivo, doentio e até mortal da justiça com recurso clima pestilento resultante da humidade, neblina e frio em que insere logo no início o trabalho proveniente do Supremo Tribunal da Chacelaria.
Nas últimas centenas de páginas, nunca com pressa, os nós soltos da primeira metade começam a unir-se e a montar a teia que constrói o retrato global que até às últimas páginas nos vai surpreendendo, não apenas com revelações e desenlaces agradáveis para um final feliz, mas também com relatos das consequências duras e revoltantes de todos os aspetos negativos que Dickens denunciou publicamente com este romance.
É um magnífico romance e como não houve pressa na narrativa torna-se longo e nem sempre belo, Dickens através da fealdade evidenciou a força e os efeitos do mal que grassava no sistema de justiça da inglês em meados do século XIX e temperou a crueza desta realidade com a beleza do amor romântico e solidário que permite a sobrevivência do humanismo nesta sociedade injusta, cheia de egoísmos e de oportunistas, inclusive é realçada em alguém cuja a doença a desfigura mas sempre bela pela força humana que dela continua a brotar. Um livro marcante.

sábado, 15 de fevereiro de 2020

"Watt" de Samuel Beckett

Acabei de ler o livro "Watt" do irlandês, laureado com o prémio Nobel, Samuel Beckett. Como já conheço outras obras deste autor, tanto de teatro como romance, já sabia que era um escritor com narrativas de situações absurdas a que se junta uma escrita criativa, aspeto que o distingue em muito de Kafka: onde há uma evolução consistente dentro de uma realidade estranha e um texto sem experimentações livres da sintaxe ou da morfologia.
O romance tem 4 partes. A primeira começa a assemelhar-se a um ato de teatro com diálogos como uma encenação que introduz Watt a partir de um banco de jardim de onde as personagens o estariam a ver carregado de bagagem e fora de cena. Os primeiros pormenores absurdos já despontam aqui. Segue-se a viagem de Watt num comboio com outra personagem e um diálogo estranho, depois a descrição do percurso a pé até a casa de Knott e a sua entrada nesta onde ouve o empregado que está de saída que ele vai substituir e o absurdo vai num crescendo.
O segundo e terceiro capítulos descrevem a vida e as observações de Watt como serviçal e em duas posições distintas. Tomamos conhecimento das rotinas em casa de Knott, que nunca intervém, e dos seus absurdos associados e de todas as combinações possíveis, envolvendo personagens estranhas, para assegurar tais tarefas por tempo indeterminado.
A quarta parte corresponde ao fim da estada em casa de Knott e o regresso à estação de comboio e o absurdo intromete-se na sequência dos acontecimentos. Há ainda uma adenda com complementos a parágrafos ou situações respeitantes aos anteriores capítulos que não acrescentam nada de lógico.
Enquanto se avança no livro, a liberdade criativa da escrita aumenta, juntando ao absurdo variações da mesma, ora ao nível de articulações das frases, ora de situações, ora de combinações e repetições (por vezes de grande extensão) e também a organizar o texto em forma de pauta polifónica, em verso e, nalguns casos, com omissões e erros que se percebem ser intencionais.
Existem momentos hilariantes, outros monótonos e até mesmo irritantes. Uma tristeza que atravessa toda a obra, quer pela solidão e pobreza de Watt, quer pelo desencontro de personagens e ainda em virtude destas frequentemente serem portadoras de alguma deficiência: física, psicológica ou carência emocional e financeira que as torna feias, porcas, mas não más.
Um livro bem diferente, por vezes divertido, mas noutros de difícil leitura cujo absurdo o torna incompreensível. Diz-se que Beckett usou a escrita criativa de Watt como uma forma de escapar à loucura quando estava escondido do nazismo em França. Contudo, eu não consegui parar de ler e diverti-me muito em alguns momentos da narrativas, noutros foi mesmo sofrido.


segunda-feira, 10 de fevereiro de 2020

"A verdade sobre o caso Harry Quebert" de Joël Dickers


Terminei a leitura do romance de suspense e policial "A verdade sobre o caso Harry Quebert" do suíço francófono Joël Dickers. Um livro vencedor de numerosos prémios literários: Prix de la Vocation Bleustein-Blanchet, o Grande Prémio do Romance da Academia Francesa, o Prémio Goncourt des Lycéens e o prémio da revista Lire para Melhor Romance em língua francesa. Na generalidade está-se perante uma obra essencialmente de entretimento, mas com uma trama bem elaborada, uma escrita literária cuidada além da investigação criminal. Em paralelo mostra a pressão  que por questões de mercado o mundo editorial atual exerce sobre os escritores, as angústias do autor e as táticas de promoção em que estes se veem embrulhados por quem coloca os livros no mercado. Assim, estamos perante um livro que discute as angústias dos escritores com obras de sucesso.
Em 1975 Nola é vista a ser perseguida e pouco depois dá-se o homicídio da testemunha e o desaparecimento da moça. Mais de trinta anos depois Marcus, um jovem escritor cuja primeira obra foi um sucesso que se atolou no gozo da fama, sente-se sem inspiração e é pressionado pelo editor pela obrigação de fazer um segundo livro. Decide socorrer-se do seu antigo professor, Harry Quebert, que já teve uma obra de sucesso e o ensinou a ser autor, mas de repente algo leva a que o seu mentor se torne suspeito de ser o criminoso de Nola. Parte então para a cidade de Aurora para demonstrar a inocência do seu amigo, mas o caso não é simples: uma antiga relação amorosa com uma menor, o envolvimento de um grandes empresário, provas contraditórias que apontam para Harry, além de muitas feridas de relações de ódios e ciúme antigos e investigações policiais viciadas complicam tudo. Em paralelo a comunicação social propaga estes escândalos a todos os Estados Unidos. Marcus vê-se com a ajuda de um polícia estadual numa sucessão de descobertas chocantes e reviravoltas que nos vão surpreendendo até ao final do romance, enquanto a editora quer o máximo proveito da situação com a exposição pública de Marcus só sanável com o cumprimento contratual de escrita de um livro que deverá explicar toda a verdade e descobertas. A pressão da investigação e da publicação cruzam-se num universo de escritores modelos que também são capazes de atos condenáveis.
A obra deixa-nos quase sempre em suspense e a ser surpreendido até ao fim e apesar do género policial está cuidadosamente escrita e pontuada com numerosas reflexões sobre a escrita literária e as ambições editoriais que desrespeitam a arte e o interesse público. Fácil leitura e recomendo a qualquer tipo de leitor.

domingo, 2 de fevereiro de 2020

"Bilhar às Nove e Meia" de Heinrich Böll


Citação
"nem mesmo os assassinos eram sempre assassinos, não o eram a todas as horas do dia e da noite, havia a hora de descanso do assassino, como havia o período de descanso dos ferroviários;"

Li "Bilhar às nove e meia" do alemão Heinrich Böll, prémio Nobel da literatura de 1972, um romance que mostra o sofrimento de alemães do início do século XX até 1958. Cidadãos pacifistas ou não subservientes ao regime ditatorial e vítimas de duas guerras, bem como as feridas psicológicas que ficaram após o termo da última.
A ação decorre ao longo do dia 6 de setembro de 1958, mas com recordações narradas desde 1907 em torno dos membros de três gerações de Fähmel: Heinrich, Robert e Joseph; pai, filho e neto, todos arquitetos e com papel ativo  na abadia de Santo António perto de Colónia; as mulheres dos dois primeiros, a namorada do último e sua irmã, a que se juntam amigos e inimigos nas questões de regime e das guerras, tendo Heinrich perdido 6 dos seus sete filhos neste meio século.
Tudo começa por uma transgressão da secretária de Robert, instruída para só o interromper entre as 9 e meia e as 11h se os envolvidos fossem o pai, a mãe, o filho, a filha ou o sr. Schrella que ela desconhece. O patrão repreende-a e Heinrich acalma-a e convida-a para o seu aniversário naquele dia. Descobre-se que às 9 e meia Robert se fecha num hotel para jogar bilhar, uma fuga para recuperar dos traumas do passado. Aos poucos entramos nas memórias de cada um e vai-se tomando conhecimento da difícil história dos Fähmel, iniciada na juventude do provinciano Heinrich após a vitória no concurso, perante consagrados arquitetos, para a construção de uma abadia, o que lhe permitiu riqueza e casamento na cidade com a filha de Kilb.
Três gerações de pessoas onde uns adotaram o caminho da paz: os filhos do cordeiro; e outros optaram pelo oposto e comeram: o sacramento do búfalo que perseguiram os primeiros e mataram. A história decorre em 1959 à sombra da torre de São Seferino o passado é marcado pela construção, destruição e reconstrução da abadia sempre com a intervenção dos arquitetos Fähmel e só para a festa de aniversário no fim de 6 de setembro o Sr. Schrella se encontra com Robert.
A escrita por vezes é rica de diálogos e essas páginas são muito fáceis, mas as narrativas do passado são constituídas por parágrafos muito extensos com conteúdo de difícil apreensão e cheios de simbolismos e referências cristãs, onde as memórias que fluem e se intercalam para completar o passado como peças de um puzzle que se vai montando. Cada capítulo centra-se numa personagem e suas memórias face ao presente; já depois da guerra, da ditadura e dos lobos vestirem pele de cordeiros e manterem-se no poder com dolorosos efeitos nas vítimas.
Sem dúvida um romance muito denso, rico de conteúdo e com páginas difíceis que despertam interesse em descobrir o que escondem das feridas e atos loucos. Gostei de ler, recomendo a quem gosta de textos que dão alguma luta enquanto oferecem reflexões sobre as questões da sobrevivência do bem perante o mal que grassa na sociedade.

terça-feira, 28 de janeiro de 2020

"Nós, os micróbios e uma visão alargada da vida" de Ed Yong


"Nós, os micróbios e uma visão alargada da vida", do jornalista inglês Ed Yong, é um livro, li-o em e-book, de divulgação científica das espantosas descobertas nas últimas décadas na área da microbiologia que aponta para o fim do preconceito contra estes seres minúsculos que à partida consideramos como prejudiciais ao Homem quando, na realidade, apenas uma minoria escassa é patogénica enquanto a grande maioria vive em cooperação connosco e até podem ser instrumentos para reforçar as nossas defesas contra doenças.
Curiosamente terminei a obra em plena preocupação com uma possível nova epidemia global provocada por um coronavírus, mas, nesta obra, os micróbios amigos dos animais e das pessoas são bactérias e dos vírus, na generalidade, não tiramos benefícios, antes pelo contrário.
A obra tem uma escrita fácil e deixa claro as razões do nosso preconceito contra os micróbios. Depois, através da exposição de um grande número de casos naturais, mostra a cooperação entre animais e bactérias: simbiose. Demonstra que a maioria das espécies macroscópicas, inclusive o homem, vive em permanente intercâmbio com micróbios corporais que residem no exterior e no interior do corpo, o nosso bioma, e deixa claro que quer o nosso bem-estar quer a saúde, das pessoas e outros animais, resulta desta cooperação, onde cada um de nós é, na realidade, uma comunidade: um ser de maior dimensão carregado de bactérias e o individuo adição de todos estes seres.
Impressiona a descoberta de que o facto de sermos gordos ou magros e certas doenças podem estar dependente das bactérias que transportamos e existem evidência de transplantes de micróbios a curar certas maleitas e até alterar o peso no combate à obesidade e a tolerância de muitos alimentos.
Igualmente esperançoso é a possibilidade de várias viroses muito graves que afetam grande número de pessoas e sua transmissão, como o dengue, o zica, a elefantíase, etc. poderem vir a ser controladas pelo uso de bactérias.
Um livro que mostra que na generalidade as bactérias são nossas amigas que precisamos de saber conviver com elas para tirar o máximo proveito desta realidade.

sábado, 25 de janeiro de 2020

"Stoner" de John Williams


Citação
"Viu homens bons a afundar-se num lento declínio de desespero, destroçados como a sua visão de uma vida decente era destroçada;"

Li o romance "Stoner" escrito pelo norteamericano John Williams, um livro que me despertara interesse pois, apesar de ter sido publicado sem qualquer furor na década de 1960, no início do século XXI foi considerado uma das melhores obras da literatura do país e se tornou num caso de sucesso e de elogios transversais a numerosos países.
William Stoner é o protagonista e o exemplo de como se pode fazer uma magnífica narrativa com uma biografia de alguém de bom carácter que passa pelo mundo sem metas muito elevados e se deixa emaranhar na teia de um casamento oco e de um meio profissional de ódios e concorrência que lhe vai restringindo a vida, destruindo os seus sonhos e paixão de modo a se tornar numa pessoa socialmente mediana, embora cumpridora dos seus deveres de cujo o balanço final é de quem tinha um grande potencial e se deixou atolar na mediania do sistema em que viveu sem arriscar para vencer os obstáculos postos no caminho.
Stoner é um professor universitário, filho de humildes agricultores rurais que de licencia numa cidade de média dimensão no interior dos EUA, não se entusiasma com fogachos na juventude e acomoda-se à sua faculdade onde, mais do que a investigação, decorre uma luta de docentes combativos e cheios de vícios que se pisam os princípios da instituição. Em paralelo vemos como foi evoluindo a sociedade norteamericana no interior do continente ao longo de 50 anos e vividos alguns dos acontecimentos centrais da história do país e do mundo: as duas grandes guerras.
Com uma escrita fácil e em simultâneo bela e atraente que choca pelo prazer e entusiasmo que dá a sua a leitura da progressiva decadência deste professor de molde que é difícil parar de ler o desenrolar da vida de Stoner, talvez seja isto o mais marcante que tornou este romance numa obra-prima cativante com o relato de uma vida falhada. Gostei muito e recomendo a quem admira grande literatura.

sábado, 18 de janeiro de 2020

"A Máscara de Ripley" de Patrícia Highsmith

Porque cá em casa tive de aumentar intensamente o número de livros policiais, género de que minha mãe com 84 anos é fã, e porque há muito tempo lera o primeiro volume da série Ripley e adorara, li agora o segundo romance desta personagem "A máscara de Ripley" (Ripley Under Ground) da americana Patricia Highsmith.
Esta escritora escreve bem, coloca cuidado estético na narrativa como deve haver em qualquer livro de boa literatura, mas os seus romances são de mero entretenimento sem preocupações morais e de mensagens ideológicas ou filosóficas. Uma das características das obras desta autora é de por norma saber-se do início o autor dos crimes e assistimos mais à forma como estes conseguem ludibriar a polícia do que o trabalho destes.
Assim, é normal que Highsmith tenha criado uma personagem como Ripley de gostos elitistas, apreciadora da boa vida, simpática e inteligente, mas amoral e criminosa para assegurar o seu modo de viver que se vê em imbróglios para se escapar à ação da justiça na sequência dos seus atos.
Se no primeiro e magnífico romance que li há muitos anos e nunca esqueci o jovem americano Tom Ripley que saiu da sua vida miserável para se tornar herdeiro do jovem rico de que ele assassinou, após ter sido fortuitamente encarregado de o trazer da Itália para a família nos Estados Unidos. Neste segundo romance o nosso herói malvado está bem estabelecido e casado com uma jovem rica pouco escrupulosa nos arredores de Paris, lucrando com um negócio levado a cabo por uns amigos em Londres que comercializam novos quadros de um pintor desaparecido da sociedade mas que o grupo sabe estar morto, até que um norteamericano desconfia que as pinturas são falsas e tenta desmascarar a rede. Tom sente-se ameaçado e terá de agir e claro por vezes de forma extrema para salvar a sua imagem sem deixar provas suficientes que o incriminem.
Algumas passagens são muito intensas, contudo o suspense e as dificuldades nunca comprometem a forma de viver deste Ripley: o seu bom gosto, estilo de vida burguesa e bom anfitrião das suas vítimas e detetives e, apesar das suspeitas que o cercam, lá vai ultrapassando com escapatórias impressionantes. A obra decorre na década de 1960 e sente-se o facto de os telefonemas frequentes ao longo do livro estarem dependentes de telefonistas sem a rapidez de hoje, o que soa estranho.
Continuo a admirar as histórias deste vilão cheio de classe e em breve pretendo voltar a acompanhá-lo, até porque já possuo todas as suas aventuras. 

segunda-feira, 13 de janeiro de 2020

"O Nervo Ótico" de María Gainza


Acabei de ler um livro muito elogiado pela crítica e numerosos leitores "O Nervo Ótico" da argentina María Gainza. A obra embora seja ficção não corresponde a um romance, são uma série de contos ou crónicas narradas por uma personagem feminina, guia turística, amante de pintura e residente em Buenos Aires.
Cada capítulo corresponde a uma crónica diferente no qual a narradora nos faz recordar um quadro, por norma do Museo Nacional de Belas Artes de Buenos Aires, e cruza a sua situação pessoal com os efeitos dessa pintura sobre ela ou conta um pormenor ou aspeto central da vida do pintor.
Assim, ao longo das diferentes estórias vamos percebendo pormenores da vida da narradora: a sua gravidez, memórias de família, a doença do marido, a juventude e namoros deste, a doença dela, o pânico de voar, relações de amizade que servem de mote para valar de episódios da vida, o estilo de pintura de artistas argentinos como o maneta Cándido Lopez, o espírita Augusto Schiavoni, ou outros e ainda nomes da pintura europeia como o mestre em pintar cavalos de Dreux, o academismo incómodo de Courbet, o deficiente Toulouse-Lautrec, uma partida de mau-gosto de Picasso e uma certa inveja de El Greco face a Michelangelo Buonarroti, etc.
Saliento a excelente escrita da María Gainza, dá prazer a sua estética, muito contemporânea, bela e fácil de ler, nem sempre comum nalguns novos estilos de escrita. 
Por norma sou um grande apaixonado por literatura que junta narrativa e informações artísticas como pintura e me faz descobrir obras ou autores. Hoje em dia com a internet posso complementar esses dados com pesquisas onde aprofundo essas indicações. Curiosamente, este livro conseguiu isso tudo numa técnica narrativa original, mas o livro não me deslumbrou como esperava, talvez porque as expectativas já eram muito altas após tantos elogios. Contudo, suspeito que entre as razões da minha falta de deslumbramento se tenha prendido com o grande número dos artistas da obra não serem os que mais me tocam e quando refere os que mais gosto a personalidade que deixa transparecer não é a mais favorável, assim aconteceu com Picasso e, sobretudo, com El Greco, por quem tenho uma grande admiração e conheço extensivamente a sua obra exposta, inclusive em Toledo.
Há um outro aspeto que me incomodou: a narradora é sempre a mesma mas há pormenores desta que não me soam coerentes e senti isso dentro de um mesmo capítulo. Apesar de tudo é uma obra interessante que dá a conhecer artistas, nem sempre os que mais brilham na constelação da história da pintura, e tem uma escrita que encanta.

terça-feira, 7 de janeiro de 2020

"A Lebre de Olhos de Âmbar" de Edmund de Waal


O arranque das leituras do ano 2020 coincidiu com uma excelente obra, uma das que mais gostei nos últimos anos. "A lebre de olhos de âmbar" do artista plástico inglês de ascendência holandesa e judaica Edmund Waal, mas não é um romance, nem ficção, é sim a história da família judia Ephrussi desde o início do século XIX de que o autor descende, com base na sua investigação e da sua relação com uma coleção de pequenos objetos japoneses que atravessou várias gerações e chegou até ele.
Edmund é um escultor oleiro que ganhou uma bolsa para Tóquio para desenvolver o intercâmbio cultural e linguístico entre a Inglaterra e o Japão. Na sua estada neste País, onde residia um seu tio-avô, entra em contacto com uma coleção de família de pequenos utensílios nipónicos antigos, feitos para prender objetos aos quimonos, artisticamente esculpidos e denominados netsuke, de que depois se torna herdeiro descrevendo vários deste conjunto de 264 peças. O fascínio dos netsuke leva-o a tentar saber como chegaram até aos seus antepassados, atravessarem gerações e sobreviverem a duas guerras mundiais e perseguições.
A história começa como o seu tetravô, um judeu polaco no interior da Ucrânia, criou uma empresa em Odessa, enriqueceu, colocou os seus filhos em Paris e Viena para ampliar os negócios e estes construíram um dos maiores impérios financeiros na Europa, grandes palácios, integraram-se na elite austríaca e francesa, tornaram-se mecenas, colecionaram obras de arte e conviveram com grandes artistas e pensadores deste Continente: Renoir, Monet, Pissaro, Moreau, Rilke, Proust, Mahler, etc. Membros serviram de modelo a grandes personagens da literatura e a quadros impressionistas, enfrentaram o preconceito a judeus, viram o seu esplendor e riqueza devassado pelos progroms, queda do império Austro-húngaro e ocupação de França pelos nazis. Os que sobreviveram até hoje são cidadãos comuns, dispersos por três continentes mas onde a cultura, a arte e o colecionismo está presente, partilham outros credos religiosos e continuam profissionalmente válidos e ativos.
Neste relato compreendemos o estilo de vida, os defeitos e o glamour da alta sociedade europeia por mais de 100 anos. Veremos como  Charles Ephrusi foi o modelo de Proust para Charles Swann e por quem os netsuke entraram na família em Paris e os enviou para Viena. Saberemos como estes escaparam à Gestapo, passaram por Tóquio e agora estão em Inglaterra em casa de Edmund. Veremos como caiu o império centrado em Vienta, como foi a entrada de Hitler na cidade e a ocupação inicial desta e dos americanos em Tóquio.
Os autor escreve muito bem e narra de uma forma que até os momentos difíceis e de horror estão trespassados por ternura, não faltam reflexões pessoais de Edmund, descrições do que o património da família foi e é hoje e de como era a vida nessas cidades das elites sociais. Como a guerra espoliou e como Estados atuais apagaram as suas culpas. Tudo isto sem nunca o texto se render ao amargo dos lesados devido ao amor de família que atravessa toda a narrativa até se virar para as atuais crianças futuras herdeiras dos netsukes.
Fácil de ler, com várias fotos e uma grande obra escrita já no século XXI que mostra o que foi e é a Europa ao longo dos últimos 200 anos. Uma maravilha que recomendo.
Um netsuke em forma de noz (imagem Wikipédia)

terça-feira, 31 de dezembro de 2019

"O Bizarro Incidente do Tempo Roubado" de Rachel Joyce


O fim de 2019 chega com o termo da leitura de mais um romance que por sua vez se encerra na madrugada de um ano novo a brotar flores. Não sei porque a tradutora adotou do original Perfect o título em Portugal de "O Bizarro Incidente do Tempo Roubado" para esta obra escritora inglesa Rachel Joyce. A verdade é que foi este estranho título que me chamou a atenção por me recordar obras da adolescência e depois de verificar que o livro estava com uma grande promoção, a autora já ganhara em 2012 o National Book Award com o seu primeiro romance e as críticas no site eram todas muito favoráveis que me decidi pela compra.
Em 1972 a sociedade astronómica internacional decidiu adicionar dois segundos ao ano para compensar o tempo de atraso da translação da Terra, Byron, um adolescente, teme que nesse momento possam acontecer coisas terríveis, num dia em que a mãe o leva à escola deteta um recuo no ponteiro dos segundos do seu relógio e enquanto chama a atenção para o facto apercebe-se de um acidente, a partir de então foca-se neste facto e com a ajuda do seu amigo inteligentíssimo James elaboram o Plano Perfeito para diagnosticar e corrigir a situação, mas este desencadeará um conjunto de imprevistos na sua família que acabarão em tragédia com reflexos na amizade e na sua vida ao longo de décadas.
Rachel Joyce escreve bem e tem uma excelente capacidade de tecer a narrativa, neste caso entrelaçando capítulos alternados entre o verão de 1972 e uma época de natal já em pleno século XXI e com fins de suspense para manter a tensão. Também não teme em denunciar males da sociedade no relacionamento entre classes sociais e dentro da família de um modo fora do politicamente correta habitual que as linhas da literatura mais recente tendem a seguir ou a impor. É prolixa em pormenores de que fazem estender a estória e retardam o desenlace. Constrói personagens que nos enternecem mesmo nas situações de grande tensão e desespero, enquanto os que nos despertariam um certo ódio estão pouco expostos de modo que será a amizade e o amor os sentimentos fortes no livro. Gostei muito do romance que é de fácil leitura para todos.

Feliz Ano de 2020 e boas leituras.

sábado, 28 de dezembro de 2019

"Conduz o Teu Arado sobre os Ossos dos Mortos" de Olga Tokarczuk


Excerto
"Toda a complexa psique humana foi-se formatando para impedir o Homem  de compreender aquilo que realmente vê,... ...O mundo é uma prisão cheia de sofrimento, construída de modo que, para se sobreviver, seja preciso infligir dor a outros."

Esta leitura resultou precisamente do facto de a autora polaca ter ganho este ano o prémio Nobel da literatura. "Conduz o Teu Arado sobre os Ossos dos Mortos" é uma espécie de romance policial, psicologicamente perturbador, não por ser um manifesto da causa animalista que considera os animais seres com estatuto igual ao dos humanos, uma espécie de religião ateia.
Num planalto isolado pouco povoado na fronteira entre a Polónia e a República Checa, na sequência da morte de um caçador furtivo uma vizinha deste - antiga engenheira de pontes mas forçada a abandonar a profissão por doença, professora de inglês mas reformada compulsivamente, tradutora de poesia, vegan e defensora dos animais - levanta a hipótese de que ele foi assassinado por corças em protesto pelo sofrimento infligido à fauna. Apesar do mau acolhimento da teoria, aos poucos outros caçadores da zona são assassinados com sinais de ação de animais. Ela pressiona a polícia a investigar os desrespeitos na caça e o ataque aos seus cães. A tensão cresce perante o desprezo das autoridades e a cooperação do padre nesta crueldade, até que tudo se descobre sobre estes crimes em série.
Olga Tokarczuk escreve bem, com a particularidade de colocar em maiúsculas substantivos a que dá importância: Animais, sentimentos como a Ira e certos Objetos. Paralelamente a narrativa faz-nos acompanhar da poesia de Blake, fala da literatura de terror e do instalar deste na sociedade caçadora, enquanto a protagonista como ativista vai acusando a sociedade de crimes ambientais, forçando a mudança de mentalidade das autoridades e convivendo com amigos desenraizados destes vícios civilizacionais.
O romance lê-se muito bem, tem suspense e incomoda com questões lançadas. Não concordo com todas as ideias da protagonista, mas estes argumentos têm-se alastrado na sociedade atual através de grupos que tentam impor este pensar a toda a comunidade. Um livro que recomendo.

domingo, 22 de dezembro de 2019

"A Inocência do Padre Brown" G. K, Chesterton


Estreei-me no escritor inglês G. K. Chesterton com o livro de 12 contos policiais "A Inocência do Padre Brown", todos protagonizados por este sacerdote católico de Inglaterra frequentemente com a ajuda do experiente do ex-ladrão Flambeau que se torna num cidadão honesto por ação do clérigo.
O escritor escreve muito bem e os seus textos são mais cheios de figuras de estilo literário e maior cuidado de escrita que muitas obras do género literário policial. Na narrativa, o Pe. Brown usa intensamente aspetos intuitivos e de apreciação do carácter moral e de tensão religiosa das personagens, o que dá uma originalidade na forma que torna bem distinta esta série detetivesca dos mais habituais romances criminais ingleses do início do século XX. O herói, no seu ar algo simplório de cura católico desintegrado da vida-comum das pessoas, esconde uma grande inteligência e perspicácia psicológica, em parte explicada pelo facto de na sua profissão estar habituado a ouvir o mal humano e se basear em parte na experiência do seu amigo e antigo ladrão.
Todos os contos tem aproximadamente a mesma extensão, cerca de 30 páginas, e a maioria está cheia de humor, são fáceis de ler e por vezes há pormenores implícitos de elogio da virtude ou do reconhecimento da superioridade da crença religiosa face ao ateu, nalguns momentos designado de pagão, o que soa estranho. Há um conto que é exceção, pois é pura especulação em torno da morte de um general herói da história cuja dedução e conclusão não é comprovada e com uma narrativa para mim algo fastidiosa.
Os contos da inocência do padre são os primeiros da série desta personagem, mas estes estendem-se por mais quatro volumes com outras qualificações do cura, por isso aqui surgem ainda histórias de Flambeau como ladrão, onde se inclui uma divertidíssima em que Brown o atrai a uma armadilha, noutra em que o leva a abandonar a atividade e outras onde este já é detetive refugiado. Pelo meio temos histórias com vigários vigaristas das novas religiões de raiz americana, sacerdotes criminosos, velhos príncipes reféns das suas maldades de juventude, maçons em luta contra o catolicismo, inocentação de acusados perante suicidas, jóias roubadas e demonstração de homicídio em caso de suicídio.
Gostei do livro, embora os contos imponham um desenvolvimento rápido da situação logo colada à conclusão e com pouca investigação, além de ter estranhado a valorização da intuição e da crença no herói face à dedução, a normal peça central do género policial.

terça-feira, 17 de dezembro de 2019

"Solaris" de Stanislaw Lem

Excertos
"Seria possível a existência de pensamento sem consciência?"

"-E como é que tu sabes quem és?"

Acabei de ler o romance de 1960 "Solaris" do género de ficção-científica e escrito pelo polaco Stanislaw Lem, que é em simultâneo uma obra de análise filosófica sobre a questão da individualidade, da identidade pessoal, da necessidade de comunicação humana, da inteligência e até da questão de Deus. Um livro considerado de culto neste campo literário, pela sua qualidade e profundidade de análise, complementada com um drama romântico que já deu origem a dois filmes, um em 1972 e outro em 2002.
Kelvin, um psiquiatra, é mandado da Terra à estação sobre o planeta Solaris que orbita em torno de dois sóis, devido a preocupações narradas por um cientista ali estabelecido e antigo professor do médico.
Chegado ao destino, Kelvin é recebido com frieza e medo por um tripulante, sabe da morte do professor e que o outro investigador se está a isolar. Algo de estranho ocorre ali e afeta a mente de todos. Kelvin relê os dados e recolhidos ao longo de décadas e respetivas teorias sobre Solaris. Este é um astro coberto por um extenso oceano rico em matéria orgânica que já foi classificado como um ser vivo e com o qual se tenta infrutiferamente comunicar, embora este até controle características do planeta: será dotado de consciência? Após dormir Kelvin vê-se confrontado pela visita da sua mulher que se suicidara 10 anos antes e em conversa com a restante tripulação percebe que o oceano lhes lê as mentes e as controla, recriando as pessoas que os assombram, mas estas não são iguais aos humanos em termos moleculares, nem são destruíveis pelos terrestres, a situação entra em confronto com a memória e consciência destes que são incapazes de comunicar com o torturador. Kelvin tenta corrigir a sua culpa na morte da ex-mulher perante esta réplica e a tensão entre sentimentos, consciência, identidade, memória, vontade e ciência irá num conflito que coloca em questão princípios da humanidade.
A escrita de Lem é cuidada e algumas das passagens são muito filosóficas e difíceis, havendo outras muito descritivas, embora a história seja alimentada com diálogos fáceis brilhantemente elaborados que põe a nu as questões levantadas. Assim, está-se perante uma obra complexa, densa e não numa mera aventura no espaço típica de muita ficção pseudocientífica comercial.
Raramente após a leitura de um romance vou procurar os filmes na internet, mas neste caso a riqueza dos pormenores no texto levaram-me a tal, embora os filmes sejam bons, seguem o mais fácil, sem aprofundar as descrições dos fenómenos oceanográficos e muita filosofia do livro. Este, apesar de partes difíceis, gostei muito.

Solaris pelo realizador Tarkovski em 1972